4 CAMINHOS METODOLÓGICOS
4.3 DISPOSITIVOS DO TRABALHO DE CAMPO
4.3.4 Grupos Reflexivos
A escolha desse dispositivo justificou-se por acreditarmos que, “a constituição de um espaço de discussão pode se tornar uma oportunidade para as participantes serem provocadas a socializar e confrontar experiências (...), revelando o potencial das reflexões pautadas coletivamente” (SOUZA, 2018 p.91). Para Viégas (2007, p.15), no “contexto grupal, vozes geralmente silenciadas podem
ganhar força; articulando fala e escuta, onde os participantes podem complementar ou contrapor pontos de vista, aprofundando a discussão”.
A escolha das participantes foi construída juntamente com o coletivo, envolvendo os propósitos da pesquisa, assim como a disponibilidade de tempo e o desejo delas. Inicialmente, depois de termos apresentado a pesquisa (referencial teórico político, objetivos e caminhos metodológicos propostos), solicitamos que o Coletivo indicasse os nomes das participantes mais antigas para fazermos os convites. Vinte nomes foram indicados. Encaminhamos mensagem (via WhatsApp) para todas elas, apresentando a proposta dos grupos reflexivos e o convite para a participação nos mesmos. Quinze delas confirmaram a participação.
Assim como o desejo, antes do exame de qualificação, era conhecer todos os coletivos que constroem movimentos contra-hegemônicos na Faculdade de Educação - UFBA, também, na imaturidade, teimei em ouvir todas as quinze participantes em grupo, mesmo com a leitura das referências teóricas que produzem compreensões sobre esse dispositivo trazendo a importância de um número mais reduzido, por entenderem que, devido aos limites de tempo, grupos muito grandes podem dificultar a participação de todas, no aprofundamento das discussões (MINAYO, 2010).
Aprendemos isso na prática. Agendamos o primeiro encontro com todas elas e realmente não rolou. Três horas. Cento e oitenta minutos dividido por quinze pessoas. Ou seja, uma média de dez minutos para cada uma. Impossível aprofundar qualquer conversa e garantir a participação de todas com qualidade. Nos limites de tempo, não teríamos condições de mediar encontros em grupos com quinze pessoas sem perder o tempo concreto de fala para cada uma delas. Esse encontro funcionou mais como uma entrevista coletiva, bem embolada, por conta da minha dificuldade de mediação, mas foi gravada e transcrita e as contribuições trazidas foram incorporadas no estudo.
Levando em consideração que os encontros nos grupos reflexivos demandam que todas tenham um tempo razoável de fala, finalmente entendi que seria mais cuidadoso que construíssemos grupos com no máximo oito pessoas (que não precisavam ser sempre as mesmas) para que pudéssemos também garantir tempo de aprofundar as conversas. Depois do primeiro encontro, realizamos mais quatro, agora em grupos menores, assim as reflexões mais profundas puderam acontecer.
Nesse tempo, na busca de garantir um espaço de comunicação mais rápida, criamos um grupo no WhatsApp (temporário), por onde foi possível tirar dúvidas, fazer ajustes nos dias e horários dos encontros. Por meio desse grupo, pudemos conversar sobre a necessidade de cuidarmos do número de participantes, a fim de assegurarmos, sobretudo, que todas tivessem tempo de fala. No desafio de conciliar as agendas, contamos muito com o cuidado e a atenção das participantes. O número de
presentes variou de encontro para encontro, não ultrapassando o máximo proposto. A seguir, apresentamos um quadro com informações gerais dos encontros.
Quadro 3 - Encontros do Grupo Reflexivo
ENCONTRO DIA TOTAL DE
PARTICIPANTES
TEMPO DE DURAÇÃO
RESUMO DO ROTEIRO
1º 24/08 15 2h15’ Apresentação da proposta da pesquisa; conhecendo as participantes e construindo as propostas para os grupos reflexivos.
2º 05/09 2 1h05’ O que é o Coletivo, como se organizam,
desdobramentos na vida e o que mais quiserem acrescentar.
3º 10/09 6 2h35’ Sobre os movimentos formativos e a relação com o
Instituído. O que mais quiserem acrescentar.
4º 17/09 8 2h20’ Relação entre Forma e Conteúdo; Teoria e prática;
O que mais quiserem acrescentar.
5º 23/09 6 2h55’ As relações entre elas; “escola sem partido”; o que
mais quiserem acrescentar.
Total - - 10h30’
Partindo da compreensão de que a pesquisa produz conhecimento e movimento o tempo inteiro, em todas as envolvidas (pesquisador e pesquisadas), e no compromisso de fazer pesquisa com, não tínhamos a intenção de pegá-las de surpresa, nem de ocupar o lugar de uma ciência que se pretende “limpinha”, embora se forje no autoritarismo hierarquizante - nada neutro. Fugindo desse lugar, seguimos o protocolo de encaminhar as propostas de roteiros semiestruturados (APÊNDICE C), antes de cada encontro.
Os encontros aconteceram em espaços da Faculdade de Educação, reservados previamente, em dias e horários combinados com o grupo e tiveram duração, em média, de duas horas cada, (com início na última semana do mês de agosto, e o término no final de setembro). A gente levava um lanche e elas sempre faziam questão de levar algo para compartilhar também. Foram momentos de partilha profunda. No entrelaçamento das conexões, pudemos viver com elas esse contar, reviver e recontar. Produção de sentidos que Clandinin e Conelly (2011) já revelavam. Re-existir.
Nessa direção, Macedo (2011, p.116) nos ajuda a entender que
a narrativa que torna a formação dizível, visível é considerada como constitutiva do próprio sujeito em formação e não uma simplificada maneira de alguém realizar uma prestação de contas a outrem e com isso ter seu destino selado por um ato de autoridade solipsista. Assim, narrar é re-existir. (MACEDO, 2011, p.116).
Ainda segundo Macedo (2011), “da perspectiva etnometodológica, é uma maneira de pôr ‘ordem’ no existir” (p.117). Teoria e prática numa cadência gostosa.
Nos grupos, nosso compromisso ético, em diálogo com os objetivos da pesquisa, foi acolher as narrativas sobre como vêm sendo construídos coletivamente os movimentos formativos contra- hegemônicos, quais são essas experiências; aprofundarmos o entendimento sobre os desafios e possibilidades que o coletivo têm encontrado, buscamos compreender como a formação das participantes contribuiu e tem contribuído na construção da força política que vem sustentando essas construções e os desdobramentos desses movimentos nas vidas das mesmas.
Inspiradas em Souza (2018), seguimos o entendimento de que o Grupo Reflexivo se afirmou exatamente pelo potencial de se constituir também em espaço de formação.
Nossa participação na mediação dos encontros, se inspirou nas compreensões apresentadas por Viégas (2007) e Souza (2018), que entendem que, nos Grupos Reflexivos, o pesquisador
é mais do que um simples observador e membro; cabe a ele a coordenação da atividade, o que significa: mediar falas, apontar visões contraditórias, complementares, divergentes, além de preparar as atividades geralmente em contorno semidirigido. Em outras palavras, o pesquisador é o responsável direto pela organização dos encontros (SOUZA, 2018 p.94) Para as autoras, nesse procedimento, a pessoa pesquisadora exerce “dupla ação como participante ativo e observador crítico” (SOUZA, 2018 p.94), o que segundo Viégas (2007) pode dificultar os registros:
A opção por ser participante ativo traz implicações na construção dos relatos, pois a atenção despendida na tarefa de participar do grupo é incompatível com o cuidado que se pede para a realização das anotações de campo nos moldes da observação participante. Além disso, fazer anotações de campo nesse contexto muitas vezes funciona como barreira entre pesquisador e pesquisado, inibindo a participação de todos (p.117).
Nesse sentido, a colaboração das auxiliares de pesquisa (na participação de alguns dos encontros e grupos reflexivos e contribuindo com algumas das transcrições) foi fundamental para assegurar a qualidade dos registros, além das possibilidades de trocas, sentidos partilhados e produção de conhecimentos que essas experiências propiciaram no percurso formativo de todas as envolvidas (SOUZA, 2018).