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Grupos socioeconômicos e o consumo de drogas

No documento Noções Básicas em Psiquiatria (páginas 125-131)

Atividades de aprendizagem

Aula 20 Grupos socioeconômicos e o consumo de drogas

Estudaremos, nessa aula, conceitos ligados a questões geográ- ficas e econômicas e suas relações com a dependência química. Veremos a influência da distribuição geográfica como elemento facilitador do consumo e a relação econômica como fator impul- sionador do consumo.

Nas duas últimas aulas discutimos a relação dos grupos profissionais com o consumo de drogas e, em seguida, refletimos sobre os grupos identitários e sua relação com o consumo de drogas, que saíram de modelos epidemioló- gicos, e nos utilizamos de um arcabouço teórico que nos permitiu analisar o problema de um ponto de vista mais profundo do que sua simples manifes- tação numérica.

Nessa aula faremos uma leitura teórica similar, abordando questões ligadas a geografia e economia para entendermos a relação dos indivíduos com o consumo de drogas – saindo, portanto, da epidemiologia e construindo con- ceitos mais sólidos para uma análise mais profunda do problema.

A primeira noção que precisamos ter é que a localização geográfica é um marco cultural. Ou seja, o local de residência, trabalho e convívio traz, com o passar dos dias, elementos identitários ou culturais que influenciarão nos marcos individuais de identidade. Portanto, podemos mudar um pouco aquele ditado e, em vez de dizer “me mostre com que andas e te direi quem tua és”, podemos dizer “me diga onde vives e te direi que influência tendes a receber”.

Em geral, a localidade não é determinante de caráter nem de renda finan- ceira, muito menos de cultura ou de identidade pessoal, mas é sim uma prateleira que disponibiliza elementos culturais para o consumo daqueles que estão próximos, facilitando o contato do indivíduo com esses elementos e aproximando-o de tais traços. Então, se não houver resistência individual frente à influência do meio, assim como em outros grupos sociais, a geogra- fia é um definidor de laços de identidade cultural.

Mais do que isso, quando pensamos nos traços culturais de consumo, as condições geográficas acabam servindo como facilitadores e reforçadores da acomodação da identidade. A replicação na comunidade de vizinhança de elementos culturais midiáticos como a vestimenta, os padrões de comunica- ção, as nossas atitudes, música e moradia, acabam servindo como indutores e reforçadores de concordância e compartilhamento desses traços.

Ainda, a distribuição geográfica associada ao planejamento urbano acaba por fazer uma soma importante no desenvolvimento de equipamentos so- ciais definitivos na facilitação ao consumo de drogas. O excesso ou a ausên- cia de urbanização é um fator determinante para o processo de ocupação social do espaço geográfico. Um exemplo bem claro disso é a intervenção urbana com a construção de um novo viaduto em uma rua de pouco movi- mento. Essa intervenção cria uma massa excessiva de urbanismo, removen- do o público anterior do ambiente e colocando sobre ele o espaço urbano impessoal do viaduto, suas ruas, postes, escuridão e calçadas. Um novo pú- blico se adapta a esse espaço, conformando-se ao novo desenho urbano e suas possibilidades de circulação, moradia, segurança e saúde.

Por outro lado, a ausência de urbanização planejada gera a criação de ocu- pações sociais desordenadas, que por suas características de circulação, se- gurança, sanitarismo e serviços públicos, facilitam a circulação da ilegalidade e dificultam o trânsito das forças governamentais e, portanto, da lei e da ordem.

Em ambos os exemplos, o viaduto escuro e a vila que cresceu sem plane- jamento público, ou seja, no excesso de ordenamento e na falta do orde- namento público, o ambiente geográfico sem vigilância pública acaba, por essas características, servindo como facilitador para o ilícito. Basicamente, podemos dizer que onde falta vigilância policial efetiva surge o facilitador geográfico para o consumo.

Claro que nem sempre existe escolha financeira possível entre morar em um bairro pobre ou embaixo do viaduto, então a condição geográfica acaba, muitas vezes, sendo fruto de uma condição econômica, essa sim determi- nante de escolhas geográficas de vida.

Em geral, nessas situações de baixa vigilância pública se instauram as estru- turas criminais, nas quais se inclui o tráfico de drogas. Desde o advento do crack e seu avassalador crescimento, esse tipo de raciocínio não é mais tão

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simples, pois a dificuldade urbana de circulação e vigilância não é mais fator direto no aumento do consumo em determinada região.

Pela forma como o crack altera a massa humana de consumidores, hordas humanas de dependentes químicos migram junto com a disponibilidade de consumo, fazendo com que bairros inteiros nas grandes metrópoles tornem- -se, do dia para a noite, grandes becos de consumo. Mas essa não é exa- tamente a referência para uma influência geográfica, já que muitas vezes o boteco da esquina acaba trazendo muito mais consumidores para o álcool do que a horda de usuários de crack.

A disponibilidade de crack na casa do vizinho traficante acaba, na prática, sendo mais efetiva no impulsionamento inicial ao consumo do que a horda que migra atrás do crack. Em compensação, como reforço e elemento de manutenção do consumo, a horda é um poderosíssimo evento geográfico, social e econômico.

Fatores financeiros também são determinantes, já que a droga tem um custo de consumo, e ter dinheiro, com a facilidade de se comprar drogas em qual- quer bairro de qualquer natureza social, é muito fácil em qualquer cidade brasileira. Esse fator financeiro também traz a possibilidade de uma relação financeira diferente com o consumo, alterando a qualidade e o padrão de consumo dos indivíduos, podendo até influenciar a natureza da droga con- sumida.

O fator financeiro também influencia a possibilidade de recuperação, poden- do incorrer em intervenções precoces, tratamentos mais caros e até melho- res para a dependência química. Esse mesmo fator financeiro que amplia a possibilidade de recuperação evita que a criminalidade se aproxime da con- duta do usuário. Se há disponibilidade financeira para o consumo de drogas, a prática criminal não é necessária, nem com serviços prestados ao tráfico nem com furtos ou assaltos.

A presença de uma melhor condição financeira é uma vantagem quando se pensa no processo de recuperação, mas não é exatamente uma vantagem quando se pensa em processos facilitadores, já que a presença do dinheiro permite maior postergação nos problemas naturais gerados pelo consumo de substâncias, permitindo que o indivíduo conviva com a droga de forma mais intensa e por mais tempo.

Melhores condições financeiras também permitem um convívio social mais amplo, bem como a aproximação de pares identitários que reforcem cada vez mais o consumo.

Nesse aspecto, podemos começar a discutir uma temática importante em dependência química: a questão da marginalização. A identidade social ocu- pada pelo dependente químico varia de forma incondicional como sua po- sição geográfica e financeira. Um exemplo bastante simples: se o indivíduo for ocupante de uma função pública, consumir cocaína em bares chiques e estiver bem vestido, aos olhos da sociedade ele será “muito menos” depen- dente químico do que um participante da horda de usuários de crack. Voltamos, então, para a nossa velha discussão sobre saúde pública e parti- cipatividade. Vimos nos últimos capítulos as questões das variáveis sociais (disponíveis para todos, em igual escala), vimos também as condições de grupos culturais (disponíveis para todos, em igual escala) e vimos ainda as in- fluências geográficas e financeiras (com disparidades, mas com similaridade importantes para todos). Ainda assim, quando olhamos para a comunidade, vemos exatamente as mesmas coisas que enxergamos quando discutimos saúde pública: existem dois públicos com o mesmo problema, mas um dos públicos não se põe em questão e se exime da participação pública comu- nitária.

Enquanto o público marginalizado (que pode já ter sido muito rico antes da droga) é excluído de possibilidades agregadoras da comunidade, o público capitalizado agrega a sua volta um público cativo para reforçar sua conduta e até seu estado de marginalização.

Bom, nesse aspecto, e aproveitando essa discussão, podemos montar um quadro comparativo entre os valores normalmente presentes nos dois ex- tremos das condições econômicas, fazendo assim uma análise de variáveis individuais facilitadoras do consumo.

Quadro 20.1: Diferenças individuais impostas pela questão financeira.

Alta renda Baixa renda

Fuga da frustração. Confronto com frustração Indicações e acobertamentos baseados na camarada-

gem.

Família procura tratamento (amor exigente, al-anon e nar-anon)

Pouca ou nenhuma empatia familiar. Alta empatia familiar

Acobertamento de questões judiciais. Criminalidade e confrontos judiciais favorecem tratamento Facilitação no resgate da vida pós- tratamento Dificuldade na reinserção social

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Resumo

Nessa aula vimos como fatores geográficos e financeiros podem favorecer ou dificultar o surgimento de variáveis ambientais e individuais que aproxi- mem ou afastem o indivíduo do uso de drogas.

Atividade de aprendizagem

• Mapeie localidades de risco geográfico em sua região, e defina pontos geográficos que facilitam o acesso de crianças, jovens e adultos ao con- sumo de drogas lícitas e ilícitas. Tente analisar a urbanização da região e observar a qualidade de vida das pessoas.

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Aula 21 – Transtornos mentais e suas

No documento Noções Básicas em Psiquiatria (páginas 125-131)