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Três acontecimentos recentes recolocaram a guerra fiscal no centro do debate

econômico. O primeiro compreendeu a decisão da multinacional Chrysler de fechar a

fabrica da picape Dakota no Paraná. Isso ocorreu depois de dois anos e meio de

frustradas tentativas da empresa em avançar no mercado brasileiro de utilitários. Ao

mesmo tempo, o grupo Daimler-Chrysler, controlador da unidade de Campo Largo

(Região Metropolitana de Curitiba-RMC), vem contabilizando enormes prejuízos globais desde o final de 1998, ocasião da fusão das duas corporações, atestados pelo declínio

de quase 60% nos preços das ações da companhia, recuando de US$ 108,00 em novembro de 1998 para os US$ 45,00 atuais.

O segundo episódio refere-se à ação do governo do Estado de São Paulo,

integral do ICMS de empresas ofertantes de produtos no mercado paulista. Em poucas palavras, o fisco paulista deixa de reconhecer o crédito na venda de uma

produção que teria sido beneficiada com isenção parcial ou plena do imposto no estado de origem.

Ainda em 2000, o governo do Estado de São Paulo protagonizou outros dois

atos abarcando a tentativa de sobretaxação de produtos paranaenses beneficiados com incentivos fiscais na origem, e o encaminhamento de ações diretas de inconstitucionalidade ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a Bahia e o Paraná pela concessão de incentivos para alguns produtos, uma delas acatada em fevereiro de 2001.

Na mesma linha, a Secretaria da Fazenda de São Paulo apressou os contra

ataques ao decidir pela cobrança do ICMS pleno dos distribuidores paulistas de produtos fabricados por plantas transferidas do território paulista para outros estados por conta do recebimento de benesses fiscais. Assim, parcela expressiva da

comercialização da Multibrás, operante em Santa Catarina, e da Dixie Toga e da Lacta, atuante no Paraná, perderiam os créditos do imposto.

O governo paulista atingiu o ápice do absurdo ao solicitar à empresa Lacta a

planilha dos custos de transferência da planta de São Paulo para o Paraná. De posse destas informações a SEFA/SP pode avaliar se a reordenação locacional da Lacta decorre de vantagens logísticas, de redução de custos ou de incentivos

tributários. Em caso de comprovação da forte interferência dos incentivos na escolha, o fisco paulista efetuaria a cobrança de 18% do ICMS e não de 6% (diferença da alíquota interna e interestadual).

As condutas antifederativas de São Paulo representam falsas soluções para o problema da guerra fiscal, podendo até legitimar novos confrontos, à medida que configura a busca de negociações individualizadas, respaldadas em pressões

exercidas por empresas sediadas no território paulista que, supostamente, estariam perdendo mercado por conta dos créditos fiscais obtidos pelos concorrentes/

As atitudes do governo paulista apenas sintetizam o enorme esforço e poder dos lobbies empresariais operantes naquele Estado e confirmam a falta de

capacidade da classe política do país em formular e negociar, de forma agregadora, critérios transparentes para a promoção do desenvolvimento regional.

Contraditoriamente o Estado de São Paulo promove a guerra fiscal ao isentar do

pagamento do ICMS os segmentos de processamento e as microempresas, sem a aprovação do Confaz.

O terceiro evento, no mesmo rumo do anterior, englobou a suspensão, por

parte do Supremo Tribunal Federal (STF), dos incentivos fiscais oferecidos pelo Paraná, com base no decreto 2736/96 que regulamenta o ICMS no Estado, em atendimento à solicitação feita por São Paulo, há cerca de um ano. A supressão dos

estímulos envolve as vendas interestaduais de artigos de informática, as transações internas e interestaduais (para São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) do complexo carnes e de fios e tecidos de seda e as

compras intra-estado de insumos para a produção de papel de imprensa.

A entrada do ator STF em cena não constitui novidade. O supremo já impingiu grande derrota jurídica ao governo de São Paulo ao determinar a suspensão da redução

do ICMS de automóveis de 12% para 9,5% para a comercialização naquele estado, por solicitação do governo gaúcho. São Paulo também amargou importante revés ao ter liminar negada para anulação de um acordo entre o Distrito Federal e uma empresa

atacadista mineira para diminuição de 11% do ICMS nas transações interestaduais.

A transposição das batalhas para o terreno jurídico já envolveu ações do Rio

Grande do Sul contra Santa Catarina e Paraná e deve ganhar maiores proporções mais

adiante. São Paulo deve ingressar com quatro novas ações contra Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul e o Paraná tenciona contestar a lei de incentivos fiscais do governo paulista editada em 2001.

Além disso, o veto presidencial ao artigo 10 da Lei de Informática, sancionada em janeiro de 2001, representa um passaporte para a solidificação da condição de São Paulo como pólo de tecnologia de informação, mediante a instalação e

ampliação de plantas de equipamentos e de componentes de informática competitivas em escala global. Sem o veto, a lei impossibilitava a aprovação de projetos incentivados em estados cujas empresas receberam, nos últimos dois anos, mais de 50% dos estímulos concedidos com base no IPI.

Nesse particular, delineia-se o começo de outra guerra. Não por acaso, o senador amazonense Bernardo Cabral apresentou ao STF uma ação direta de inconstitucionalidade contra a lei, pois seu artigo 7.º considera monitores de vídeo e aparelhos de telefonia celular como bens de informática, o que pode provocar a transferência de indústrias da Zona Franca de Manaus para o Sudeste e Sul do país. A propósito do potencial de São Paulo nesse segmento, estudo publicado recentemente pela revista Wired selecionou 11 (onze) regiões do mundo com infra- estrutura adequada para a recepção de inversões. Destas, apenas 5 (cinco) estão sediadas nas Américas, sendo 4 (quatro) nos Estados Unidos e uma no Brasil, exatamente na faixa São Paulo-Campinas.

Nessa ordem de idéias, se a vertente de resolução do problema da competição fiscal pela via jurídica não se transformar em instrumento de pressão para a agilização da reforma tributária, os desdobramentos serão bastante previsíveis: perda de capacidade competitiva e de credibilidade da maioria dos estados na atração de novos projetos e insegurança dos investidores potenciais. É lícito admitir a enorme confusão a ser provocada pela proliferação de ataques e defesas judiciais formuladas por vários estados, como São Paulo contra Goiás, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul e o questionamento do Paraná do decreto 45.490, editado pelo governo paulista em janeiro de 2001.

Por esse enfoque, cabe aos planejadores das unidades federativas em processo tardio de industrialização atuar de forma moderna e ativa visando à inserção regional adequada ao novo ambiente de decisões de investimento em uma economia globalizada. A plataforma de ações deve compreender o melhor aproveitamento das vantagens comparativas e da dotação interna de fatores de produção dentro de um enfoque direcionado ao rompimento da eterna defesa da visão estática de valorização das vocações regionais.

É também imperiosa a necessidade de maior coordenação das ações e programas nos diferentes organismos das administrações estaduais e de fortalecimento

de seus vínculos com o aparelho produtivo, na busca de privilegiar a formação de sistemas regionais, com fortes interações interdepartamentais e pronunciada presença

das pequenas e médias empresas.

Para tanto, é crucial a busca de incorporação de novas tecnologias e a negociação política de projetos e programas estratégicos financiados pelo BNDES, além de tentativas de aumentar o grau de participação direta na redefinição das

políticas agrícola, industrial e de comércio exterior do país e das respectivas cargas de incentivos fiscais, diminuindo o conteúdo essencialmente curto-prazista da gestão

macroeconômica.

Paradoxalmente, o novo modus operandi impõe aos estados a adesão a

exercícios de maior agressividade na contenção dos gastos públicos, especialmente na adequação dos dispêndios com pessoal previstos pela Lei Camata (60% da

receita líquida para o total e 12% para os inativos). Ao contrário do que poderia deixar transparecer, a austeridade fiscal, constituída pela racionalização e a maior

qualidade das despesas públicas, deve abrir brechas orçamentárias para a alocação

de recursos em programas sociais, obras infra-estruturais e financiamentos a segmentos prioritários, desprovidos dos artificialismos transitórios proporcionados pelos incentivos tributários.

Tais procedimentos/comprometimentos resguardam os interesses nacionais ao reduzirem as pressões por repasses da União para a provisão de déficits

orçamentários estaduais e/ou retirarem essa carga fiscal dos contribuintes (locais ou

externos às fronteiras da unidade federativa). Em paralelo, devem se traduzir em fatores propulsores de novos projetos privados, pois, em vez de distorcerem as vantagens comparativas regionais, restabelecem a lógica econômica na seleção

locacional dos empreendimentos e multiplicam os componentes exógenos da eficiência do investimento produtivo.

6 COMPONENTES DA MUDANÇA DO PERFIL ECONÔMICO DO PARANÁ NOS ANOS 90