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4.1 O papel do Tribunal Constitucional do Chile no combate ao constitucionalismo abusivo. 83

4.2.1 Guerra institucional após o 7 de setembro de 2021

Após as manifestações pró-governo no 7 de setembro de 2021, com a defesa de pautas antidemocráticas, visando notadamente atacar o Supremo Tribunal Federal e, especialmente, o ministro Alexandre de Moraes, a crise institucional já instalada tomou proporções ainda maiores. O presidente Jair Bolsonaro, em discurso na Av. Paulista na cidade de São Paulo, afirmou o seguinte:

O nosso povo sempre primou pela liberdade, sempre respeitamos as leis e a nossa Constituição. Esse presidente que vos fala sempre esteve ao lado da nossa Constituição. Sempre esteve dentro das quatro linhas da mesma. Mas agora, chegou o momento de dizermos a essas pessoas que abusam da força do poder pra nos subjugar, dizer a esses poucos que agora tudo vai ser diferente. Nós continuamos jogando dentro das quatro linhas, mas não mais admitiremos qualquer uma dessas outras pessoas a jogar fora dessas quatro linhas.

Não podemos admitir uma só pessoa, na Praça dos Três Poderes, querer fazer valer a sua vontade. Querer inventar inquéritos, querer suprimir a liberdade de expressão, querer continuar prendendo pessoas honestas, por um simples ou por uma acusação de crime de opinião. Queremos a paz, o diálogo e a prosperidade. Mas não podemos mais admitir que pessoas que agem dessa maneira continuem no poder exercendo cargos importantes. Não temos qualquer crítica a instituições. Respeitamos todas as instituições.

Quando alguém do Poder Executivo começa a falhar, eu converso

com ele. Se ele não se enquadra, eu demito. No Legislativo não é diferente. Quando um deputado ou senador começa a fazer algo que incomoda a todos nós, que está fora das quatro linhas, geralmente ele é submetido a um Conselho de Ética e pode perder o seu mandato. Já no nosso Supremo Tribunal Federal, isso infelizmente não acontece.

Temos um ministro dentro do Supremo que ousa continuar fazendo aquilo que nós não admitimos. Logo, um ministro que deveria zelar pela nossa liberdade, pela democracia e pela Constituição, faz exatamente o contrário. Ou esse ministro se enquadra ou ele pede pra sair. Não se pode admitir que uma pessoa apenas, um homem apenas, turve a nossa democracia e ameace a nossa liberdade.

Dizer a esse ministro que ele tem tempo ainda pra se redimir, tem tempo ainda, de arquivar seus inquéritos. Ou melhor, acabou o tempo dele. Sai Alexandre de Moraes! Deixa de ser canalha!

Deixe de oprimir o povo brasileiro! Deixe de censurar o seu povo! (grifo nosso).

Mais do que isso. Nós devemos, sim, porque eu falo em nome de vocês: determinar que todos os presos políticos sejam postos em liberdade! Dizer a vocês, que qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá! A paciência do nosso povo já se esgotou. Ele tem tempo ainda pra pedir o seu boné e cuidar da tua vida. Ele para nós não existe mais! Liberdade para os presos políticos! Fim da censura! Fim da perseguição a aqueles conservadores, aqueles que pensam no Brasil.

As reações a esse discurso foram expressas rapidamente. Uma forte pressão política tomou conta do cenário brasiliense. A crise institucional mais do que nunca se mostrou presente. O presidente Jair Bolsonaro não teve alternativa a não ser recuar e se desdizer, mais uma vez. Na chamada Carta à Nação, Bolsonaro afirmou o seguinte:

Declaração à Nação

No instante em que o país se encontra dividido entre instituições é meu dever, como Presidente da República, vir a público para dizer:

1. Nunca tive nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes. A harmonia entre eles não é vontade minha, mas determinação constitucional que todos, sem exceção, devem respeitar.

2. Sei que boa parte dessas divergências decorrem de conflitos de entendimento acerca das decisões adotadas pelo Ministro Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito das fake news.

3. Mas na vida pública as pessoas que exercem o poder, não têm o direito de “esticar a corda”, a ponto de prejudicar a vida dos brasileiros e sua economia.

4. Por isso quero declarar que minhas palavras, por vezes contundentes, decorreram do calor do momento e dos embates que sempre visaram o bem comum.

5. Em que pesem suas qualidades como jurista e professor, existem naturais divergências em algumas decisões do Ministro Alexandre de Moraes.

6. Sendo assim, essas questões devem ser resolvidas por medidas judiciais que serão tomadas de forma a assegurar a observância dos direitos e garantias fundamentais previstos no Art. 5º da Constituição Federal.

7. Reitero meu respeito pelas instituições da República, forças motoras que ajudam a governar o país.

8. Democracia é isso: Executivo, Legislativo e Judiciário trabalhando juntos em favor do povo e todos respeitando a Constituição.

9. Sempre estive disposto a manter diálogo permanente com os demais Poderes pela manutenção da harmonia e independência entre eles.

10. Finalmente, quero registrar e agradecer o extraordinário apoio do povo brasileiro, com quem alinho meus princípios e valores, e conduzo os destinos do nosso Brasil.

DEUS, PÁTRIA, FAMÍLIA Jair Bolsonaro

Presidente da República federativa do Brasil

Para entender como a situação se agravou a tal nível entre Jair Bolsonaro e o STF, se faz necessário rememorar alguns fatos importantes. Durante a campanha eleitoral, o então candidato Jair Bolsonaro propôs o aumento na quantidade de ministros do Supremo Tribunal Federal, de 11 para 21. Segundo ele, “é uma maneira de você botar 10 isentos lá dentro. Porque da forma como eles têm decidido as questões nacionais, nós realmente não podemos sequer sonhar em mudar o destino do Brasil”98.

98 RODAS, Sérgio. Bolsonaro quer 21 ministros no STF e excludente de ilicitude para policial.

ConJur, Rio de Janeiro, 25 de set. de 2018. Disponível em:

<https://www.conjur.com.br/2018-set-25/bolsonaro-21-ministros-stf-aval-policial-matar>. Acesso em:

23 set. 2021.

4.3 Lawfare no contexto brasileiro

A expressão lawfare tem se tornado cada vez mais frequente em textos jurídicos que analisam, na maior parte dos casos, operações conduzidas pelo Ministério Público e polícias, sustentadas por decisões judiciais frequentemente contraditórias e frágeis. Em recente obra sobre o assunto, pesquisadores de todo o Brasil se debruçaram sobre o assunto a fim de ofertar ao público um material seguro de pesquisa e referência.

Trata-se do livro “Lawfare: o calvário da democracia brasileira”, publicado pela Editora Meraki, em 2020. A obra dispõe de contributos de acadêmicos conceituados que trouxeram luzes ao assunto.

Os advogados Cristiano Zanin e Valeska Teixeira Zanin Martins99 publicaram texto em que afirmam serem os primeiros a utilizarem a expressão lawfare no continente Sul Americano:

Fomos nós que, em 2016, usamos pela primeira vez no continente Sul Americano a expressão lawfare, embora ela não fosse inédita.

No recém-lançado livro Lawfare: uma introdução, defendemos, numa releitura do fenômeno, que lawfare significa o uso estratégico do Direito para fins políticos, geopolíticos, militares e comerciais.

Para Arantxa Tirado Sánchez100, discorrendo sobre as origens e definições de lawfare (ou guerra institucional) afirma que “a lei pela lei pode ser o melhor instrumento de dominação do poder”, quando distorcida a sua verdadeira função no sistema jurídico.

99 MARTINS, Cristiano Zanin; MARTINS, Valeska Teixeira Zanin. Lawfare é uma realidade mundial e sem ideologias. ConJur, 1 de jan. de 2020. Disponível em:

<https://www.conjur.com.br/2020-jan-01/zanin-valeska-martins-lawfare-realidade-mundial>. Acesso em: 04. out. 2021.

100 SÁNCHEZ, Arantxa Tirado. El lawfare: golpes de estado en nombre de la ley. Tres Cantos Madrid: Ediciones Akal, s.p., 2021.

4.4 Necessidade de fortalecimento dos dispositivos constitucionais de defesa