“É isso, mulheres, vamos construir a política pública que a gente quer, não é? O triste é pensar que existem mulheres, do outro lado, que estão fazendo o sentido oposto da nossa luta, não é? Mas faz parte, a gente luta por elas também!”
(ENTREVISTA 1).
A metáfora da guerra aqui utilizada tem como inspiração o artigo de Vianna e Farias (2011) “Guerra das mães”, no qual as autoras refletem sobre relações entre violência e gênero a partir de situações envolvendo formas de “luta por justiça” e expressão da dor de familiares que tiveram seus parentes assassinados pela polícia militar no Rio de Janeiro. Se, no campo de pesquisa das autoras, o protagonismo simbólico das “mães” perpassa situações diversas em que familiares, agrupados em redes de apoio e de organização política, buscam a condenação judicial dos policiais que assassinaram seus filhos, irmãos ou sobrinhos. Por contraste, aqui trata-se de arenas movidas, principalmente, por mulheres, engajadas com a gestão posta em operação a partir do corpo de outras mulheres. A guerra, portanto, é movida e produzida por várias agentes dos aparatos estatais – profissionais da saúde, assistência social ou do judiciário - e por ativistas da “rede Mães Órfãs”.
Tal guerra tem colocado papéis e gramáticas para circular num embate sobre quem tem direito à maternidade, quem pode e/ou é capaz de ser/ter mãe. Trata-se, então, de uma guerra vinculada à produção de certos tipos de atributos de maternidade que podem ter direitos. Portanto, uma disputa de sentidos em torno da ideia de maternidade boa/ruim, viável/inaceitável.
Como apresentei na introdução, a “rede” adquiriu força jurídica e institucional e agregou entidades com atuação em direitos humanos, formando grupos de trabalho específicos para aprofundamento nas questões jurídicas e na mobilização social da causa. Nessa ocasião, expandiram-se as ações com atuação para sensibilização da sociedade para o “problema” a partir de diversas deliberações, moções e pareceres de proteção aos direitos das mulheres e bebês junto à Defensoria Pública, em Audiências Públicas na Câmara Municipal de BH e na Assembleia Legislativa de MG. Segundo relatos das participantes das entrevistas, as mobilizações surtiram efeitos ampliando a articulação da “rede” para atuação mais efetiva nas maternidades e no cuidado no pós-parto, diminuindo os “abrigamentos” no ano de 2016. Entretanto, em decorrência da Portaria nº 03/2016, o cenário recrudesceu e as comunicações à Vara da Infância e, consequentemente, as “separações” dentro das maternidades públicas aumentaram, muitas das vezes antes mesmo de acionadas as ações de apoio psicossocial e
intersetorial às mulheres e suas famílias, conforme sustentado pelos fluxogramas apresentados pela SMSA e pelo MS e MDS.
Ainda segundo os relatos das participantes da pesquisa, muitas mães e seus bebês foram “separados arbitrariamente” sem haver a comprovação de maus tratos. Consequentemente, elas alertam que as filas de espera nas instituições de acolhimento em abrigos se tornaram ainda maiores e, segundo relatos das próprias mães, estas eram impedidas de sair da maternidade com seus filhos, mesmo com a alta médica. Ademais, as entrevistadas também afirmam que, após a expedição da Portaria nº 03/2016, ampliaram-se os relatos de mulheres que “fugiram” das maternidades com seus filhos e diversas mulheres que não buscaram atendimento do pré- natal nos Centros de Saúde ou deixaram a cidade para ter seus filhos, por receio de “perderem” seus bebês. Nesse entremeio, a “rede” foi se articulando com diversos atores, instituições e parceiros políticos na convocação de Audiências Públicas e atos públicos, por meio de denúncias e acusações a diversos aparatos estatais.
É importante sublinhar que a configuração da “rede” extrapola os espaços coletivos das reuniões e mobilizações públicas. Dito de outro modo, as ativistas se inserem em distintas áreas de atuação, seja na área da saúde, assistência social, direito, política e universidade – e se organizam pelas e nas “redes(s)”. Afinal, conforme intentarei mostrar, o movimento surgiu através da atuação de diversos profissionais e gestores de políticas públicas, além de ativistas e apoiadoras/es de movimentos sociais, voltados à defesa, proteção e garantia dos direitos de mulheres, crianças e adolescentes. Nas palavras de uma entrevistada
“ […] Então, a partir do momento que a gente se articula enquanto rede, e aí se a
gente tece uma rede que é capaz de sustentar um corpo esses corpos que antes era uma rede que rompia e que esses corpos caiam, caiam lá dentro do judiciário e se perdiam nessa trama […] mas atualmente a gente tem conseguido caminhar para
que a gente não tenha um retrocesso a partir da articulação enquanto poder público. Que nós não estamos fazendo nada mais que nossa responsabilidade, acho que antes a gente tinha um furo, agora a gente minimamente está conseguindo” (Entrevista 2,
grifos meus).
Para tornar mais evidente ais lutas que “sustentam” corpos “antes” que “caiam lá dentro do judiciário e se perdiam nessa trama”, nas próximas seções dou atenção às articulações em/da “rede Mães órfãs” e às contradições que conformam esse processo.
Do que se faz uma luta: disputando políticas e papéis no tempo presente
Em meio a todas essas tensões e disputas materializadas pelas mais variadas normativas, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) inaugura no dia 12 de dezembro de 2016, a Casa de Bebês. Uma nova unidade de acolhimento infantil, equipado para receber até 12 crianças de 0 a 1 ano, em especial aquelas em situação de “vulnerabilidade e potencial risco,
devido ao uso abusivo de drogas e álcool por parte da mãe”. Segundo notícias de jornais, a
Casa trouxe uma nova perspectiva de vínculo entre os bebês e as mães, pois, paralelamente à acolhida do bebê, estava prevista a oferta de acompanhamento para a genitora por profissionais saúde e assistência social do município (BHAZ, 17/12/2016). Segundo matéria do jornal Estado de Minas, a abertura do abrigo visava atender a uma determinação da Justiça e era resultado de uma Ação Civil Pública69, de 2005, cuja à autoria era do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) (Estado de Minas, 08/12/2016).
Segundo reportagem da Agência Pública, apesar de ter por objetivo garantir o vínculo entre mães e bebês, as “genitoras”, no entanto, não moram com as crianças. Além disso, a relação estabelecida na instituição entre mães e bebês é mediada por profissionais da saúde e da assistência social, responsáveis também pelo oferecimento de tratamentos de “dependência
química” e por um cuidado em rede as mulheres ali acolhidas. Como sugere a reportagem, de
acordo com a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS), tal espaço “possibilita
opinar tecnicamente para encurtar o período de acolhimento, dando um parecer para o retorno à família de origem ou para o encaminhamento para processo de adoção” (Agência
Pública, 20/07/2017).
A inauguração da Casa de Bebês é praticamente concomitante a ocorrência, em 19 de dezembro de 2016, do evento “De quem é esse bebê? a situação das gestantes/mães usuárias
de drogas - O Estado que cuida ou o Estado que sequestra?”70, no Centro de Referência da
Juventude (CRJ-BH). Organizada por ativistas e movimentos sociais, sobretudo a frente Mineira sobre Drogas e Direitos Humanos, a proposta do evento era discutir mais uma vez as Recomendações e Portaria instituídas, além de denunciar os impactos das normativas na vida das mulheres em seus/as filhos/as.
69 Trata-se de um instrumento processual, previsto na Constituição Federal brasileira, de que podem se valer o Ministério Público (MP), Defensorias Públicas (DP), governos municipais/estaduais e outros órgãos legitimados para a defesa de interesses difusos, coletivos e individuais homogêneos.
70 Participaram das discussões representantes da Frente Mineira de Drogas e Direitos Humanos, o Fórum Mineiro de Saúde Mental, o Conselho Regional de Psicologia, a Procuradoria Regional de Direitos do Cidadão/Ministério Público Federal e o Conselho Regional de Serviço Social (CRSS/BH), além das convidadas Luciana Boiteux, Sônia Lansky e Wellerson Eduardo da Silva Corrêa (DPMG).
Figura 2 - Convite do Evento "De quem é esse bebê?"
As inúmeras movimentações, por sua vez, levariam a então vereadora Áurea Carolina (Psol) e o Vereador Pedro Patrus (PT) a elaborarem, em 8 de fevereiro de 2017, um Requerimento 20/201771 à Comissão de Direitos Humanos e Direito do Consumidor (CDHDC) da Câmara Municipal de BH solicitando à realização de uma nova Audiência Pública, com a finalidade de discutir “a situação das mães que têm seus filhos recém nascidos sequestrados
pelo Poder Público e demais implicações das Recomendações nº 5 e 6 da 23ª Promotoria de Justiça da Infância e Juventude Cível de BH”. O pedido se justificava, segundo o
Requerimento (nº 20/2017) expedido pelos vereadores, pela existência de
“uma série de denúncias e problemas graves decorrentes das referidas recomendações ministeriais e de posturas arbitrárias tanto das autoridades médicas quanto do Judiciário nos procedimentos de destituição do poder familiar de mulheres pobres, usuárias de drogas” (Requerimento 20/2017, n.p., grifos meus).
Ainda, segundo o mesmo Requerimento, apesar de terem sido realizadas outras Audiências Públicas sobre o tema, é evidente que as “mães continuam tendo seus filhos arrancados de seus braços ou sequestrados pelo poder público das maternidades de forma
cotidiana, muitas vezes em notório desrespeito ao devido processo legal (…)” (Ibid, n.p). Para
a nova rodada de Audiências, foram convidadas/os representantes da DPMG, da Vara da Infância e Juventude, da Comissão Perinatal, da Frente Mineira sobre Drogas e Direitos Humanos, da Coordenação de Saúde Mental, da Secretaria de Saúde de MG, da Secretaria Municipal de Políticas Sociais e de Saúde, do Conselho Estadual de Saúde e da Promotoria da Infância e da Juventude, bem como uma usuária da rede de Saúde Mental.
71 Trata-se de pedidos verbais ou escritos por parlamentares ou por comissões, que são protocolados durante a Sessão Legislativa e sujeitos à aprovação em Plenário da casa legislativa.
No convite ficou determinado que deveriam ser abordados pelos convidados os aspectos legais das Recomendações, as consequências no âmbito da saúde mental e das políticas de saúde para gestantes, parturientes, nascituros e recém-nascidos, bem como os conflito profissional éticos colocados a psicólogas/os e assistentes sociais ao atuarem como o prescrito. O convite ainda previa a discussão da complexidade das situações vividas pelas “mulheres em situação de vulnerabilidade social”, uma oitiva72 de denúncias de arbitrariedades em processos de perda de poder familiar e a apuração de dados quantitativos e qualitativos referentes aos casos de acolhimento e de mães destituídas do poder familiar, no período entre 2013 e 2017.
Na ocasião a Promotora Matilde Patente compareceu à audiência e defendeu a importância das Recomendações do Ministério Público para a segurança e bem-estar das crianças:
“Nós não tiramos bebês de mães e famílias extensas quando essas pessoas querem e podem ficar com as crianças. Essa realidade que vocês estão traçando não é a da comarca de Belo Horizonte”, (…) Quando as mães querem tratamento para se reabilitar e ficar com seus filhos, nós lutamos por isso (…) Uma pessoa que faz uso de drogas provoca várias sequelas no bebê. Nós defendemos que a criança fique com a mãe. Mas a prioridade é a criança” (CMBH, 17/03/2017)
Aline Paula, artista plástica e estudante de direito, que teve seu filho “retirado” pela Justiça há seis anos, naquela época, esteve presente na audiência e afirmou que o seu processo, como muitas outras, foi feito de forma “arbitrária”, uma vez que ela fazia uso moderado da droga e que a criança estava bem e saudável, ela garantiu que fez o tratamento completo de reabilitação e recebeu liberação médica. Ainda assim, não conseguiu autorização para estar com seu o filho:
“Assim que nós (mães) recebemos alta da maternidade (após o parto), fomos orientadas por uma funcionária da Santa Casa e fomos de ambulância até a sede do Ministério Público. Fui informada de que o juiz me faria apenas algumas perguntas. Porém, quando cheguei lá, um homem me falou ‘moça, se você não entregar seu filho, nós vamos machucá-lo, porque a gente vai tirá-lo de você de qualquer jeito’ (…) “Desde o momento da retirada eu tenho lutado por ele. A luta é para conviver.
Não vou tirá-lo da sua nova família, mas quero que seja garantido o direito dele saber que não foi abandonado pela mãe, que não foi rejeitado. Que ele saiba que
ele tem uma irmã linda, que ele possa conhecê-la” (CMBH, 17/03/2017)
Dentre os encaminhamentos deliberados durante a reunião, estava a nova solicitação a ser entregue à Vara da Infância e Juventude, ao Ministério Público e à Prefeitura de Belo Horizonte. O Requerimento 240/2017 da Comissão pedia informações à VCIJBH sobre os dados quantitativos e qualitativos referentes às famílias que tiveram suas crianças acolhidas institucionalmente e/ou que, posteriormente, foram destituídas do poder familiar, entre os anos
72 Termo comumente utilizado no meio jurídico, com o intuito de referenciar o ato de ouvir as testemunhas ou as partes de um processo judicial.
de 2010 e 2017. Solicitou-se também o perfil socioeconômico e étnico-racial das referidas famílias submetidas ao procedimento estabelecido pelas já mencionadas Recomendações e Portaria.
O MPMG, na figura das/os promotoras/res Matilde Fazendeiro Patente, Celso Penna Fernandes Junior e Maria de Lurdes R. Santa Gema e, em resposta ao Requerimento 240/2017 redigido pela Comissão de Direitos Humanos e Direitos do Consumidor, afirmou que a aplicação de “medida protetiva de acolhimento” (familiar e institucional) é realizada pelo juízo da Vara Cível da Infância e Juventude e pelo Conselho Tutelar (CT) e, portanto, o MPMG não possui tais dados quantitativos e qualitativos referentes às famílias que tiveram suas crianças acolhidas e/ou, posteriormente, destituídas do poder familiar. Esclareceram ainda que essas informações poderão ser solicitadas junto à Central de Regulação de Vagas, do município de BH. Este último, responsável por indicar a vaga para acolhimento e registrar os casos de desligamento das unidades de acolhimento (família acolhedora) ou acolhimento institucional (abrigos). Quanto às informações relativas ao perfil socioeconômico e étnico-racial das famílias abarcadas pela atuação da Portaria, argumentaram que tais características não constam nas guias de acolhimento, mas que podem ser extraídas do cadastro de crianças e adolescentes inscritos para adoção do Conselho Nacional de Justiça (CNJ)73.
Diante de minhas andanças durante a pesquisa, pude acessar informalmente o Ofício da Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social (SMAAS/PBH) em resposta ao requerimento acima mencionado. No documento a Secretaria apresentou o “fluxo” que mantinha junto ao sistema de justiça com base nos dados fornecidos pelas equipes técnicas de referência das Unidades de Acolhimento Institucional, para crianças e adolescentes vinculadas às organizações da sociedade civil parceiras da SMAAS/PBH74 e pelo Sistema de Informação e Gestão das Políticas Sociais (SIGPS). Ao levantar as informações a Secretaria enfatizou que as equipes apresentam insuficiência na alimentação dos dados e, portanto, não poderiam atender na “íntegra” as solicitações75. Todavia, o documento conseguiu levantar informações sobre o acolhimento76 de crianças e adolescentes no período de 2010 a 2017. Em um anexo no formato de tabela a Secretaria apresentou dados quantitativos referentes ao “sexo”,
73 O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) é uma instituição pública que visa aperfeiçoar o trabalho do sistema judiciário brasileiro, principalmente no que diz respeito ao controle e à transparência administrativa e processual. O CNJ coordena o Cadastro Nacional de Adoção (CNA), o qual desde a Resolução Nº 289/2019, possui um novo sistema chamado Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), resultado da união do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) e do Cadastro Nacional de Crianças Acolhidas (CNCA).
74 Em Belo Horizonte, o Serviço de Acolhimento Institucional de crianças e adolescentes é executado em parceria com entidades da rede socioassistencial, que são selecionadas por meio de processo de Chamamento Público. As Unidades de Acolhimento Institucional (UAIs) recebem as demandas através da aplicação de medida protetiva pelos órgãos de defesa de direitos da criança e do adolescente.
75 A superficialidade e falta de detalhes e informações mais precisas quanto aos dados recolhidos pelo SMAAS, acabou por dificultar a tradução e o entendimento do que tais dados poderiam vir a indicar sobre o tema. 76 Diz respeito ao processo de entrada das crianças e adolescentes nas unidades de acolhimento institucional.
“raça/etnia” e a “faixa etária” e destacou que a média de acolhimentos por ano foi de 454 (quatrocentos e cinquenta e quatro), com maior incidência de acolhimento de crianças do “sexo
masculino”. Outro dado relevante, é de que a cor/etnia77 de crianças “pardas” prevalece maior, seguida de crianças “pretas” e “brancas”. Por fim, foi perceptível a tendência do crescimento do número de acolhimentos de crianças de 0 a 12 meses, no ano de 2014 (ano da publicação das Recomendações).
Neste contexto de disputas, o prefeito Alexandre Kalil (PSD)78 determinou o afastamento, em abril de 2017, das médicas Sônia Lansky e Márcia Parizzi de suas funções de coordenação da Política Pública de Saúde de Proteção às Mulheres e Crianças em Vulnerabilidade Social do município de BH. Consideradas referências nacionais, tais profissionais vinham construindo e desenvolvendo há anos uma rede de proteção e de cuidado à saúde de mulheres e crianças, negando-se a cumprir as normativas do judiciário e elaborando um fluxograma de atendimento paralelo, capaz de atender às necessidades de atenção e saúde de mulheres e crianças, de acordo com o ECA. Segundo relatos de entrevistas realizadas, o afastamento se deu em boa parte pela influência do poder judiciário, sobretudo, da Promotoria da Infância e Juventude de BH, na gestão municipal:
“A gente sabe da Márcia Parizzi, da Sônia Lansky que são trabalhadoras que se
colocaram no front desta luta na saúde e que foram exoneradas do seu cargo de forma bem questionável. Elas eram concursadas e foram para outros setores e tal. Mas a gente entende, há uma leitura de que o judiciário solicita a PBH que essas pessoas saiam de cena” (ENTREVISTA 1).
“A Sônia e a Márcia foram exoneradas de suas funções porque se oporam ao
judiciário, a Promotoria. Que é uma coisa que se você for pensar eles pregam uma democracia que se você se opõe ao judiciário olha o que ele faz, ele vem com sua mão, com seu poder e fala: "não meu camarada, aqui não". Olha o Lula, preso, não é? Que é um movimento também do país, o judiciário vai tentando ditar as regras, e
acho que adormecendo os corpos. (…) Acho que os gestores sofreram, na ponta
acabamos sofrendo porque perdemos grandes gestores, pessoas que nos representaram muito e nos bancavam” (ENTREVISTA 4, grifos meus).
“(…) A retaliação com a Márcia não foi só por conta da gestão. Ela já vinha fazendo um enfrentamento em BH em torno da pauta dos adolescentes privados de liberdade, na época eu trabalhava na coordenação dela e a gente fez um enfrentamento que teve uma percepção política importante que foi de um fechamento de um serviço aqui em BH que é o CAPUT (Centro de Atendimento e Proteção dos Jovens Usuários de Tóxicos) que era um serviço vinculado de alguma forma ao judiciário, a Vara Infracional da Infância e Juventude, recebendo recurso do Governo Estadual, para atuar completamente na contramão do que a gente vinha construindo enquanto Política de Redução de Danos para as crianças e adolescentes. Então como as duas
começam a ter uma visibilidade política importante e contestadora, de mulheres contestadoras, a gestão optou por tirá-las do lugar da gestão, ao invés de sustentar e de dizer que o poder judiciário não tem como intervir na gestão pública, eles mantiveram essa posição” (ENTREVISTA 2., grifos meus)
77 Entre as categorias de raça/cor da tabela havia a opção “sem informação” e “não informado”, além disso me chamou à atenção a presença do acolhimento de 5 crianças indígenas no período de 2010 a 2017.
78 Alexandre Kalil concorreu à prefeitura de BH em 2016, sendo eleito no segundo turno das eleições. Sua posse como prefeito ocorreu no dia 1 de janeiro de 2017.
Em vista disso, no dia 12 de maio de 2017 aconteceu, em frente à Prefeitura de Belo Horizonte, o “Ato contra o abrigamento compulsório de bebês filhos de usuárias de álcool e
outras drogas”, cuja finalidade foi denunciar o “abrigamento compulsório” sob o argumento
de que tais ações estariam violando os direitos das mulheres e das crianças. As integrantes do movimento “De quem é esse bebê” reivindicavam a individualização do atendimento e instituição de um fluxo capaz de promover à saúde, criando, assim, uma rede de apoio e tratamento para as mulheres gestantes. Esta ação visava ainda pressionar o prefeito Alexandre Kalil a revogar o afastamento das trabalhadoras Sônia Lansky e Márcia Parizzi.
Figura 3 - Convite para o ato contra o abrigamento compulsório de bebês filhos de usuárias de álcool e outras drogas
Figura 4 - Ativistas em vigília durante o ato (Jornal Hoje em Dia,13/05/2017).
Igualmente, como estratégia de mobilização e sensibilização, as ativistas e integrantes