CAPÍTULO V – OCORRÊNCIAS DO QUOTIDIANO
V. 7 – Guerras
Há uma grande quantidade de retratos literários e artísticos que ilustram o medo que se sentia em situações de guerra. Como bem observa José das Candeias Sales, os Egípcios não possuíam a feição vincadamente militarista que caracterizou diversas civilizações do Próximo Oriente Antigo386. O seu posicionamento geográfico (que lhes conferia um acentuado isolamento face ao perigo de tribos vizinhas instáveis e às potências estrangeiras, sobretudo as asiáticas), e uma auto-suficiência considerável, permitiu o desenvolvimento de um carácter socioeconómico menos belígero, e de uma agressividade para com o «outro» colocada a um nível mais arquetípico e retórico, do que em belicosidade activa e efectiva.
Porém, a guerra era uma dimensão presente na sociedade egípcia. Ainda que com maior incidência em certos momentos de periclitante estabilidade política, os horrores das chacinas são amiúde gravados pela arte e pela literatura. É o caso do cabo de faca de Guebel el-Arak da Época Pré-dinástica [figura 36]. Produzida numa fase anterior à formação de um governo central, a parte da frente descreve uma luta: os indivíduos sem cabelo surgem armados com maças piriformes e bastões, enquanto os do outro grupo, de cabelo comprido, aparentam estar desarmados. Tratou-se de uma luta desigual entre dois grupos que pode ter relação com os dois tipos de embarcações também representadas.
Já referenciada, a Paleta da Batalha apresenta expressões bem mais eloquentes dos efeitos de conflitos, com vários corpos caídos, à mercê do poder (animalizado) de um futuro monarca, e com destaque para a sevícia felina387. Para os outros cadáveres que, aparentemente, jazem inânimes em volta, a batalha não termina aí: abutres atacam à bicada os olhos e os membros dos derrotados, enfatizando o suplício e a tortura.
Efectivamente, nas lutas e nas batalhas não era só a vitória que interessava, mas também a destruição total e a humilhação do inimigo. Os feitos, reais ou não, eram posteriormente cantados para exultar o enorme poder do rei, irresistível, avassalador, invencível. Tamanho poder não tinha limites concretos quanto ao número de inimigos derrotados ou localidades destruídas. De resto, era um poder que se sentia não só pela
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É disso sintoma o facto de não existir, na escrita egípcia, um termo próprio para «guerra» (o termo
kheruit, traduzido normalmente por «guerra», é uma palavra que originalmente se referia a «inimigo».)
Outro exemplo foi a inexistência de um exército profissional, permanente e organizado, até ao Império Novo.
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força (de proporções divinas), mas também pelo medo que atacava o coração dos adversários. Na «Estela Poética de Tutmés III» é dito:
«I put your authority and fear of you in all lands, and dread of you as far as the four supports of heaven. I increased awe of you in every body.
I tied up the Nubian nomads by tens of thousands and thousands, and the northerners by hundreds of thousands of captives.
I made your enemies fall under your feet
so that you could crush the contentious and deceitful, (…)
They heard your battle-cry and hid in holes. (…)
There will be no rebel against you in what heaven surrounds.»388
O poema consiste numa «narração» de Amon-Ré, que se dirige a Tutmés III como seu aliado: «there is no tone who can draw his bow among his army, (…) because his strenght is so much greater than (that of) any king who ever existed» e «there is no tone that saves himself from him; he makes a slaughter among his enemies, the Nine Bows likewise»389. Como refere Anthony Spalinger, «mystification is the necessary cement that is employed by great generals in order to bond the twin-opposed factors of love and fear in his warriors. Fear through harsh sanctions, including death»390.
Uma impressionante representação de guerra pode ser vista no túmulo do funcionário Anti (Império Antigo), em Dechacha: as figuras com cabelo comprido sucubem frente a um grupo armado. Uma está prestes a tombar com sete setas cravadas no corpo, às quais se junta um golpe no pescoço do que parece ser uma maça piriforme composta. Diversas figuras caem impotentes ao longo das linhas, excepto na última, onde numa fila de cativos se encontram diversos elementos imobilizados (incluindo uma criança) e guardados por uma figura armada391.
A violência (e a sua representação) tinha uma preseça relevante na Antiguidade pré-clássica. Segundo Margaret Ann Judd, que efectuou um estudo sobre violência traumática em sociedades núbias, a grande maioria dos vestígios de humanos adultos estudados (sobretudo masculinos, mas não só), apresentavam indícios de múltiplos
388 Em NEDERHOF, «The Poetical Stele of Tuthmosis III», pp. 1-3. 389 Em BREASTED, ARE, vol. II, §792, pp. 310-311.
390 Em SPALINGER, War in Ancient Egypt, p. 102. 391
traumas provocados por violência letal e não letal392, ilustrando a forte presença que esta deveria ter na vida das pessoas.
Algumas das mais espantosas cenas de batalhas podem ser vistas nos relevos dos templos de Karnak, Lucsor, Abu Simbel ou Medinet Habu. A batalha de Kadech, por exemplo, foi registada nas suas diversas fases, numa escala épica, com um grande ênfase dada a representações de mortos e feridos, relevando dessa forma o aspecto cruel dos confrontos.
As figurações de massacre ritual do inimigo, como a que vemos na parede sul do vestíbulo do templo funerário de Pepi II (Império Antigo), fazem parte do corpus de representações mais comuns em toda a história do antigo Egipto [figura 37].
Os inimigos podiam também ser desmembrados, inclusivamente depois da morte, com o corte de mãos e de falos a integrar, para fins contabilísticos, e juntamente com os restantes prisioneiros, o espólio da batalha393 (tipo de representações que surgem logo na Paleta de Narmer). Numa representação em Medinet Habu vemos um grupo de líbios capturados que aguarda, enquanto um funcionário vai contando as mãos e os falos cortados, colocados em pilhas, perante Ramsés III [figura 39].
Por vezes os cadáveres eram publicamente expostos: «he (pharaoh) slew with his own weapon the seven princes, who had been in the district of Tikhsi, and had been placed head downward at the prow of his majesty’s barge (…). One hanged the six men of those fallen ones, before the wall of Thebes; those hands likewise.»394
Uma das batalhas contra os Núbios ficou gravada numa das paredes do templo funerário de Medinet Habu. Estes são exortados a cederem o seu país ao faraó: «thou givest to me the land of Kush»395. Mas a incitação é na realidade uma inexorável exigência perante o castigo faraónico. E este podia ser pesado:
«Woe to Libyans, they have ceased to live (…) In a single year were the Tjehenu burned! (…) By his word their villages were ruined»396
A derrota do inimigo, por vezes, não podia ser apenas no campo militar. Para recuperar o domínio sobre a Núbia, e torná-lo duradouro, Senuseret III levou a cabo
392 Em JUDD, Trauma and Interpersonal Violence, p. 266.
393 Cf. Medinet Habu, vol. I, fig. 19: Ramsés III, na pose de ataque habitual, depara-se com um conjunto
atabalhoado de figuras. Alguns aparentam estar ainda vivos e feridos, enquanto outros já não têm as mãos.
394 Em BREASTED, ARE, vol. IV, §797, pp. 407-408. 395 Em BREASTED, ARE, vol. IV, §137, pp. 80-81. 396
pelo menos quatro campanhas militares ao local, construindo fortalezas em Buhen e em Semna (ficou reconhecido, na posteridade, como o grande «pacificador» do local). Numa dessas incursões, ficou registado: «I captured their women, I carried off their subjects, went forth to their wells, smote their bulls; I reaped their grain, and set fire thereto»397. Não era suficiente vencer, era necessário destruir laços familiares, estruturas de habitação, alimentos e reservatórios de água, enfraquecendo as sociedades e dando terríveis e temíveis exemplos a outras comunidades recalcitrantes.
Os «afortunados» sobreviventes tornavam-se sqr.w-anx, expres- são traduzível por «cativos», que eram encaminhados para o Egipto para se tornarem mão-de-obra servil398 em obras públicas ou outros serviços.
Como se pode constatar no registo de Senuseret III, as mulheres eram igualmente capturadas ou mortas. Kamés, séculos mais tarde, refere isso mesmo: «I overthrow him, I destroyed his wall, I slew his folk, I caused his wife to go down to the river-bank»399. Numa inscrição do reinado de Ptolomeu IV, em Tod, ficou gravado, como uma das consequências da acção do deus bélico Montu:
«Vos princes seront ses serfs,
vos humbles sont destines à son ergastule. Vos femmes seront ses domestiques [et]
vos enfants seront ses sujets qui vos dévoreront.»400
Numa representação de um assalto a uma fortificação, datada da XIX dinastia e oriunda da parede sul da primeira sala hipostila do templo de Karnak, observamos uma série de figuras ainda no interior das muralhas. Aparentemente, os soldados defensores abdicaram já de uma acção mais aguerrida estando alguns a pedir clemência aos atacantes ou às divindades. No interior do perímetro defensivo estão algumas mulheres, enquantro outras são ainda erguidas numa desesperada tentativa de as salvar dos atacantes401.
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Em BREASTED, ARE, vol. I, §658, p. 296.
398 A guerra, sobretudo no Império Novo, era uma das principais vias pela qual chegavam escravos ao
Egipto. A prática da escravatura só foi realmente difundida neste período, muito por consequência das sucessivas vitórias militares no estrangeiro. Ver CAMACHO, «O escravo egípcio», Revista de la
Sociedad Uruguaya, pp. 6-16. Contudo, como vimos em Desheshah, fig. 4, essas situações já se
verificavam no Império Antigo.
399 Em GARDINER, «The Carnarvon Tablet», JEA 3, p. 107. 400 Em ROQUE, «Notes sur le dieu Montu», em BIFAO 40, p. 41. 401