2 A VERDADEIRA DEMOCRACIA É A DEMOCRACIA SOCIAL? A BUSCA POR
2.2 Gustavo Capanema e o autorretrato do regime
No arquivo pessoal de Gustavo Capanema encontra-se importante fonte de pesquisa para o recorte ora realizado. Capanema teve em Francisco Campos seu mentor político, participando da administração de Vargas desde o Governo Provisório, primeiramente como secretário do Interior e Justiça, depois interventor do Estado de Minas Gerais – apenas interinamente –, assumindo o Ministério da Educação e Saúde em 26 de julho de 1934, função que ocupou até 30 de outubro de 1945, momento da queda de Vargas, portanto, por cerca de 10 anos. (HORTA, 2010)
101 pessoal de Gustavo Capanema, intitulada como “Estado-Novo, um Auto-retrato”. Para melhor explicitar a fundamentabilidade dessa obra, cabe transcrever parte de sua apresentação redigida pelo próprio Schwartzman (1982, p. 3):
Nos primeiros anos da década de quarenta, o Ministro Gustavo Capanema, da Educação e Saúde, assumiu a responsabilidade de produzir uma obra que desse uma visão aprofundada e de conjunto das realizações do governo Vargas a partir de 1930. Relatos parciais foram solicitados a todos os setores do governo, e os textos que chegavam iam sendo revistos, reescritos e organizados em capítulos. [...] Esse material forma o mais completo auto-retrato do governo Vargas, que é aqui apresentado pela primeira vez.
Portanto, trata-se indubitavelmente de obra representativa do discurso oficial do regime, com grande envergadura, possuindo 620 páginas, razão pela qual apenas alguns tópicos relacionados à presente investigação serão abordados. Dito isso, remeta-se logo à primeira frase da introdução da obra: “As fases de transformação política sempre definem e se caracterizam pela figura de um homem, de um chefe. Esse figura é por assim dizer a expressão condensada dos acontecimentos, o índice do seu destino e da sua força.” (SCHWARTZMAN, 1982, p. 15)
A deferência à pessoa do grande líder e exaltação dos seus feitos marca diversos momentos da obra, expondo uma das concepções que permeava o regime, qual seja a do grande líder nacional, o Cæsar que, dotado de grandes qualidades, atuaria como salvador da pátria, o chefe do Estado forte que tutela a sociedade realizando reformas sociais, o “pai dos pobres”.
Outro aspecto abordado foi a denominada crise republicana, que remetia à ausência na República “implantada quase de improviso” de “uma longa decantação histórica em que se filtrassem, no curso normal dos acontecimentos e das idéias, as suas virtudes institucionais”. Por essa razão, a Constituição de 1891 teria sido elaborada “ao sabor das teorizações do liberalismo europeu e das sugestões do federalismo norte-americano, sem se consultar a necessidades específicas e orgânicas da existência brasileira”, e a primeira Carta republicana: “Em vez de se ajustar ao molde político da nação, impôs-lhe a contingência de moldar-se ao seu feitio.” (SCHWARTZMAN, 1982, p. 20)
Foram elencadas diversas situações que representavam essa crise republicana, das quais destaca-se a crítica ao regionalismo exacerbado que impossibilitava a construção da integridade nacional, a identificação de que as eleições eram subordinadas a manobras partidárias que excluíam o interesse geral, e que o trato da questão trabalhista – na verdade, a ausência de proteção e estímulo ao trabalho – gerava insatisfações que culminavam em greves, “recurso explosivo e desorganizador”. (SCHWARTZMAN, 1982, p. 21)
102 Essa crise era uma das razões da Revolução de 30, sendo ainda afirmado na obra que o povo reivindicava por “uma ordem nova, uma nova República, ajustada às suas condições de existência, apta a resolver seus problemas fundamentais, não só no plano político, mas também no plano econômico e social”, portanto, parâmetros distintos dos da democracia liberal. Mas não só, pois, uma vez que o último presidente da Primeira República, Washington Luis, teria afirmado ainda no fim do seu mandato que a questão social seria caso de polícia, um novo trato a essa temática era reclamado. (SCHWARTZMAN, 1982, p. 22)
Era concepção recorrente entre os ideólogos do Estado Novo, contudo, que a Revolução iniciada em 1930 somente pôde ter seus ideais implementados com a ditadura varguista iniciada em 1937. Os anos que seguiram durante o Governo Provisório haveriam sido marcados pelo restabelecimento das forças que se tentaram derrubar em 30, as forças contrarrevolucionárias:
[...] À margem dos interesses superiores da nação e perturbando os grandes trabalhos do governo, desenvolvia-se a trama das combinações partidárias que visavam deter a marcha da revolução e, com o seu sacrifício, locupletar-se nas posições de mando. Disso procuraram se aproveitar os grupos decaídos e os grupos reacionários, que se valiam da clemência com que foram tratados para lançar a dissídia nos quadros vitoriosos.
No transcorrer do Governo Constitucional, – conforme a tese defendida na obra que ora se analisa – a despeito dos esforços de Vargas visando à “pacificação do país, o entrosamento de todas as suas forças, para que a obra reconstrutora continuasse, com a inspiração de 1930”, a “atmosfera de paixões partidárias” estava carregada “pelo surto ameaçador das organizações extremistas”. A Intentona Comunista de 27 de novembro de 1935 foi referenciada como a ocasião na qual a figura de Vargas cresceu ainda mais como o grande líder da nação (SCHWARTZMAN, 1982, p. 39-40):
Nesse dia, o vulto do sr. Getúlio Vargas se projetou como o salvador da pátria. Foi sua bravura, recortada em inesquecíveis lances pessoais, o centro da resistência nacional, galhardamente vitoriosa pela fidelidade exemplar, pelo devotamento sem vacilações e pela intrepidez tradicional de nossas forças armadas.
Esse foi o fato político que seria utilizado como fundamento real para o golpe de 37, como já visto, pois demonstraria que o País estava “colocado entre ameaças caudilhescas e o perigo das formações partidárias de extrema, sistematicamente agressivas e em franca preparação para subverter a ordem”, pelo que, uma “sensação de insegurança e de mal-estar atingia todas as camadas sociais”. (SCHWARTZMAN, 1982, p. 41)
Por essa razão, “como um imperativo de salvação nacional, que se instituiu o novo Estado brasileiro, em 10 de novembro de 1937”, afinal, “Não poderia o sr. Getúlio Vargas faltar à nação no momento em que ela mais necessitava de seu grande chefe e lhe
103 dirigia o mais solene dos apelos”. (SCHWARTZMAN, 1982, p. 42)
O regime instaurado pelo Estado Novo seria o necessário para o País, posto que, na realidade, “Reatou-se em novembro de 1937 o caminho histórico de outubro de 1930. A revolução transformou-se em ordem criadora”, ordem essa criada para os moldes nacionais (SCHWARTZMAN, 1982, p. 43-44):
Essa ordem é, sobretudo, brasileira. Não foi instituída segundo modelos ou influência de fora. É uma solução nacional para os problemas fundamentais da nacionalidade. Não lhe alterou a fisionomia política, antes a livrou das máscaras que a desfiguravam. Instituiu-se uma democracia que não é uma simples fórmula, como a antiga, mas uma realidade. Uma democracia positiva e não negativa, em que se garantem os direitos dos indivíduos, sem se sacrificar a coletividade. Os traços essenciais e verdadeiramente significativos da República foram conservados: a forma democrática, o processo representativo e a autonomia dos Estados dentro das linhas tradicionais da federação orgânica.
No discurso oficial estado novista existia a preocupação de reivindicar o caráter democrático para o regime, ainda que se utilizasse de métodos centrados na autoridade forte. Para tanto, enumeravam-se e exaltavam-se as políticas sociais, que visariam uma democracia social. Por conseguinte, em consonância com o discurso oficial do governo, o regime seria uma democracia, apenas diversa dos parâmetros do modelo liberal.
A obra ora analisada fez relação das medidas tomadas pela administração estado novista, com longos relatos dedicados à ação social do governo. Para a hodierna investigação, interessa apontar alguns trechos relativos ao tópico destinado à “Política do Trabalho” (escrito em 1943), especialmente pelo reconhecimento da centralidade da questão trabalhista pelo próprio governo.
Percebe-se isso na passagem dedicada à relação entre a questão social e o Estado, mais precisamente quando a crise de 1929 foi abordada, pois de todos os problemas sociais advindos, ou ainda, “De todas as questões a mais importante era, indubitavelmente, a trabalhista, agravada pelo desemprego forçado”, que gerou a incapacidade das grandes massas operárias em “adquirir os bens que se acumulavam em imensos estoques de ilusória superprodução”, sem que perdessem, no entanto, a própria “necessidade de consumir os bens produzidos”. (SCHWARTZMAN, 1982, p. 327)
Residiria nesse paradoxo “a existência de um dramático desequilíbrio na distribuição de riquezas”, e a luta de classes seria intensificada, acirrando-se o conflito entre burguesia e proletariado, razão pela qual “Para dirimir as divergências entre o capital e o trabalho e corrigir o desajustamento que punha em perigo as instituições políticas já não se duvidava da legitimidade da intervenção do Estado.” (SCHWARTZMAN, 1982, p. 327)
104 trabalhador com “legislação trabalhista de elevado sentido humano, comparável às mais adiantadas de nossa época”, enumerando diversas providências tomadas nesse sentido. Ao relacionar a atuação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio com a produção da referida legislação, foram tecidas significativas considerações que remetem ao escopo governamental de promover o desenvolvimento social sem a luta de classes, mas por meio da comunhão entre capital e trabalho (SCHWARTZMAN, 1982, p. 325-329):
O reconhecimento legal das menores reivindicações proletárias tem sido conquistado, em outros países, à custa de lutas sangrentas. No Brasil, muitas vezes, os princípios do atual direito operário encontram sua expressão positiva na lei, antes de que os fatos sociais a que eles correspondem tivessem se manifestado perante a percepção das massas. Um raro descortino levou o Governo, quando estabelecia soluções para os problemas imediatos e urgentes, a tomar, simultaneamente, precauções destinadas a evitar dissidências prováveis no futuro. Assim, a legislação trabalhista brasileira se caracteriza pela sua feição eminentemente preventiva, o que lhe dá a vantagem de ser flexível e ajustar-se ao maior ou menor vigor com que se revelam os fenômenos sociais.
O que se percebe é o intento em creditar ao governo um papel paternalista de concessão de direitos, além de visionário, por antever conflitos, evitando-os e promovendo a paz social. Dessa maneira, Vargas promovia proteção ao trabalhador – concedendo direitos básicos, como salário-mínimo, jornada de trabalho, estabilidade, dentre outros –, além da organização do trabalho – por meio da instalação da Justiça do Trabalho, instituição dos sindicatos, medidas relativas à Previdência social, dentre outras –, efetivando larga atuação junto à questão trabalhista.
Era muito caro para o regime expor por meio do seu discurso oficial que sua atuação “harmoniza perfeitamente os interesses capitalistas e proletários”, pois, “por um lado, ampara as legítimas reinvindicações operárias, transformando-as em preceitos legais e mantém órgãos administrativos para efetivá-las”, mas, “por outro lado, concede aos detentores do capital as maiores facilidades para que o empreguem e desenvolvam em quaisquer atividades lucrativas lícitas”. (SCHWARTZMAN, 1982, p. 353)
Dessa maneira, graças à administração varguista, proletariado e empresariado, “embora constituam classes distintas na organização econômica do país, não alimentam, porém, ódios nem se defrontam em lutas nocivas à integridade nacional”, ou seja, no Brasil, a luta de classes não existia, pois em seu lugar, em virtude da sapiência de Vargas e sua maneira de conduzir o país, havia sido construída harmonia e cooperação entre os estratos sociais. (SCHWARTZMAN, 1982, p. 353)
Impende destacar que, ainda que os avanços na legislação trabalhista tenham sido inegáveis, o diagnóstico de que dentre todas as questões sociais e econômicas que debilitavam o país, a trabalhista era a central, estava também relacionado à política de eliminação do
105 conflito de classes e dos distúrbios sociais, afinal, o desenvolvimento social não viria pela revolução de classes, estando a greve relegada à ilegalidade, residindo nos sindicatos oficiais um instrumento estatal de controle do proletariado
Boa parte do quadro que serve de subsídio ideológico para a implantação da ditadura estado novista está bem definido até aqui: a crítica ao partidarismo e às oligarquias regionais que dominavam a política da República Velha, não contemplando os interesses nacionais; e a análise de que a democracia liberal-eleitoral apenas proporcionava que o sufrágio universal fosse utilizado para que certos grupos pertencentes à elite ocupassem posições de poder em benefício próprio, impossibilitando que os reais anseios populares fossem atendidos.
Portanto, nas passagens analisadas da obra organizada por Schwartzman, extrai-se a concepção de que a administração varguista tinha atuação preventiva quanto aos conflitos sociais por meio da produção da legislação social, residindo nesse aspecto um dos pontos fundamentais de defesa do topos argumentativo de que o Estado Novo era um regime democrático, não no modelo liberal, mas uma democracia social.