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A heterogeneidade do sujeito é indiscutível, a composição de nosso ser por meio da construção de outro ser determina o que somos, como vive-mos e até os limites de nossos pensamentos. O problema está, logicamente, em não experimentar sozinho o que nos foi confi gurado como real, legítimo e íntegro. Espinosa (1989) defende o conhecimento pela experimentação, não é possível vivermos em meio a um mundo apenas contado, não realmente ex-perimentado. Sabemos que muitos vivem de forma não experimental, pois é a reprodução que dá sentindo a tudo o que fazem. E com o declínio da mimese?

O que será das pessoas?

Se houver a experimentação faremos uso da razão, para Espinosa (1989) isso que institui coletivamente a nossa felicidade e a nossa liberda-de, que é a busca constante durante o tempo físico que vivemos, instituindo, assim, o bem e o mal, as fi nalidades e utilidades das ideias perfeitas que nos cercam, tudo num determinado tempo, que às vezes não volta mais e se liqui-difi ca na memória e é retomada apenas como sentimento de angústia de um período melhor e não experimentado. O que provoca, segundo o pensamento de Espinosa (1989), um impacto entre a razão, a ética e a confi guração de um ser desenvolvido pelo processo de não vivência.

Há, assim, a construção de espaços de representação social, consi-derados por Harvey (2005) como planos utópicos, ou paisagens imaginárias de vivências simbólicas em que o ser humano usurpa a sua própria vida, em função da vida do outro, o que Bourdieu (1997) defi ne como poder da ima-ginação sobre o vivido, gerando, consecutivamente o habitus, como simples condicionamento social.

Há um ser mesmo? Não, são seres em um eu, que projetam o que sou, mesmo que haja um pedaço de cada um, a manifestação será sempre de um eu, o qual responde por um ser apenas. Esse é o confl ito a ser resolvido, pois as máscaras acabam substituindo o conhecimento, gerando o desconforto da dúvida.

Desconfortavelmente o sujeito pode viver, mas sem uma referência é impossível, já que para ele o Outro, como processo de alteridade (BAKHTIN, 2002), faz com que haja objetivos legítimos no agir. O problema se centraliza, justamente, na não percepção de seu eu, o qual se manifesta esporadicamente, quando o princípio da individualidade se faz necessário. Para Lacan (1998), o eu é produzido a partir da imagem do Outro, no que ele nomeia “estágio do espelho”. Isso funciona como um processo de construção mimética que se es-tabiliza com o passar do tempo, construindo uma experiência de fragmentação do corpo pelas pulsões e cristalizada por imagens unifi cadoras de referências coletivas. Há aí um recobrimento imaginário do real, causando a falsa sensa-ção de “meu” tempo, “minha” vida.

A existência da possibilidade da felicidade por meio do belo em uma confi guração temporal determina a descentralização do sujeito em meio à cri-se da pós-modernidade, o que causa um efeito de que cri-se está vivendo em meio que se projeta como belo, plena utopia confi gurada em meio a não razão de ser, mas de estar na construção de um enredo disseminado pela não experi-mentação do ser.

A permanência do sujeito em um tempo de mentira, construído ape-nas para saciar do desejo e a complementar a necessidade de pertencer defi ne um tratado sobre o nada, já que a sensação de vazio irá ocupar uma boa parte da vida do sujeito, pois estar é determinado pela ilusão do pertencer, mas não do compartilhar, experimentar e reconstruir novas confi gurações de viver, descristalizando o modus operandi convencional de viver e embriagando-se naquilo que realmente quer fazer para que o tempo da realidade não seja re-pleto de implicações e mistifi cações cartesianas do viver, mas que o projeto do ser resplandeça como um fortalecimento do eu antes que a alteridade se estabeleça. Assim, os profícuos problemas de soterramento do eu, em meio às ilusões do pertencimento, fi carão alojados em um constructo não social, mas divagatório do eu no outro/outro no eu.

A emancipação do eu deveria ser a real busca do ser, mas isso difi -cilmente acontece, embora seja natural ao sujeito a proposição de questio-namentos, mas não lhe é natural respostas e soluções às prolixas dúvidas, temos muito mais um juízo estético sobre as coisas, baseado na apropriação do “meu” belo, do “meu” certo em meio a tempo que se constata fi sicamente ao correr dos ponteiros nas vinte e quatro horas do estar em meio a luta para que se encontre um ser em mim. Assim vivemos, recrutando segundos tempo-ralmente esparsos, enquanto o mundo não para na projeção de possibilidades de renovação do nosso ser.

A pós-modernidade reproduz todos os medos e alucinações da verda-deira esquizofrenia social, permitindo ao ser chances de confi ssão em meio a leves e brandas torturas em lapsos de tempo, o que espalha, em meio à solidão

do pensar, pedaços de memórias nunca projetadas, seguras em um espaço não acessível pelo outro, eis o que ainda abranda a verdadeira esperança de que não é apenas um princípio de alteridade, mas de confi guração do eu, antes da emancipação por meio do outro já projetando a derrocada da mimese, mesmo que ainda tenhamos séculos de cópia, cada vez mais se busca a realidade mais de perto, como um projeto realista, mas sem o enredo romanceado ao qual nos acostumamos.

Nesse sentindo, podemos retomar o pensamento aristotélico em re-lação ao tempo-movimento na prospecção do antes e do depois, os quais não pertencem ao movimento físico das horas que se repetem, mas às sensações que cada ser humano projeta em sua própria experiência temporal. Portanto, o antes e depois, como formadores de um ser (em vários) pertencem ao pen-samento de forma arbitrária ao que estamos acostumados, porque nosso ser globaliza o antes e o depois como formas de transposição do tempo e não como composição do ser em sua própria concepção de mundo.

Para Heidegger (2005) a concepção mundana do ser está no trace-jar de paradigmas que transpassam o limite da temporalidade, marcando a existência de um continuum movimento de mundanidade, necessária a cada sujeito, mas não presente no ser, principalmente quando o outro já ocupa todos os espaços de memória deturpando os sentidos, os quais, muitas vezes, fi cam anestesiados em meio ao passar do tempo que invade a insatisfação do ser em meio ao pertencer a algo real. Portanto, a embriaguez de Baudelaire novamen-te se faz necessária, juntamennovamen-te com a serpennovamen-te zaratustriana, para que o ser se construa sóbrio em meio ao alucinar do próprio tempo em que vive, sentin-do-se solitário mesmo composicionado pela mais forte e sorrateira presença do outro, cristalizando, assim, os cacos de memórias passadas que formatam o futuro inesperado, e o presente? Inexiste, já que nele nada há de satisfação ao ser. Construção ilusória do tempo em meio à mente deturpada do querer pertencer e não ser, confl uem-se, então, na diáspora do ser-tempo-estar que tetanicamente dilacera as possibilidades de uma vida sem febre e alucinações.

Mas afi nal, do que nos adianta uma vida sóbria e não febril?

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste trabalho foram traçadas algumas reconsiderações sobre o ser enquanto projeção e equilíbrio do sujeito. A busca por paradigmas que possi-bilitem a verdade que buscamos em um tempo não transcendental ainda nos é caro demais, já que muitas de nossas respostas não soam, ainda, como uma determinação do saber sobre algo, da determinação dos investimentos em co-nhecimento, o que também soa de forma cara ao tempo que cada ser humano dispõe. Tentativas, nem sempre claras, de muitos fi lósofos em determinar o

caminho ideal para o desenvolvimento do ser no tempo são enormes, mas, infelizmente, deturpadas pelo próprio ser ao reconstruí-las, interpretando o que não é interpretável, mas aplicável, causando, dessa forma o princípio da desesperança no ser humano enquanto fruto do tempo.

Tratar de um assunto complexo como esse nunca é fácil, já que o tem-po, o ser e os meios pelos quais levam cada sujeito a viver da forma que lhe é possível, mas não que lhe compete, transforma cada linha fi losófi ca já escrita em apenas um balanço da vida pensada com base no passado, em meio à pro-jeção para o futuro, nada, absolutamente nada do presente a não ser a dor de não ter, não pertencer. Isso condena cada um de nós a divagar e nos afogarmos em nossa própria falta de perspectiva intelectual. A serpente do conhecimento foi banida do paraíso dando lugar a uma invenção plurissignifi cativa, desme-dida pelo tempo do não saber, da não resposta aos problemas corriqueiros de nossa mente doentia, que busca, segundo a segundo, formas de emacular o seu próprio pertencer em meio a tirania do tempo.

Claramente fi camos sem possibilidades de vida se assim vivermos, buscando, sempre no outro as respostas que estão em nós. Não há uma dadiva da beleza de ser, mas uma construção do ser e sua manutenção em meio às buscas constantes dos sonhos, dos desejos da perpetuação do ser, como me-mória aplicada, em que problemas, mistérios e desejos tenham soluções, de-terminações e emancipação do senso de pertencer ao processo de construção de um novo mundo, de uma nova população que não vê o belo como forma mecânica da vivência no tempo, mas tem o tempo como construtor de muitas belezas, que não são físicas, mas sentidas, vividas e projetadas para saciar a sede de conhecer do homem.

Ainda não chegamos a um parâmetro ideal, mas já tracejamos linhas que mostram caminhos possíveis para a resolução de confl itos dentro de nossa própria existência, mesmo que haja transgressão de normas por nós cultiva-das, eis o embriagar de Baudelaire, sem ele nada somos, o que é uma mudan-ça sem a sensação da dor, do desespero? Nada, somos seres de carne que se movem em meio às sensações do mundo. Seres transtornados pelo que fomos, pelo que seremos, eis a importância da compressão do ser, não do ter, para que as verdades projetadas em nosso tempo sejam ainda verdades projetadas no futuro, que nos sigam, que nos leiam, que nos sintam.

O imperialismo condensador de mentes, produzido pelo processo de estar estagna o ser, deixa-o moribundo na perplexidade da humanidade, a qual espera respostas às indagações por ela lançada. Devemos serpentear zaratus-tramente como forma de desapego dos valores morais que muitas vezes nos condenam a ser nada, deixando o que há de melhor para o verdadeiro nada.

Falta-nos refl exões mais centrais, porém neste trabalho há o princípio da discussão, o levantamento de questões a serem repensadas e

reargumenta-das, para tanto deixamos espaço para continuações, concluindo que o primeiro processo que nos torna humanos capazes de mudanças dentro do tempo é a re-fl exão, cremos que ela se estabeleceu neste trabalho, o qual prosseguirá como forma de debate em outros textos a serem produzidos.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich. Estética da Criação Verbal. Trad. BE-ZERRA, Paulo. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

BAUDELAIRE, Charles. Select writing on art and artists. Londres, 1981.

BORNHEIM, Gerd Albert. Páginas de Filosofi a da Arte. Rio de Janeiro:

UAPÊ, 1998.

BOURDIEU, Pierre. Outline of a theory of practice. Cambridge, 1997.

ESPINOSA, Baruch de. Tratamentos metafísicos; tratado da correção do intelecto; tratado Político; Correspondência. Trad. CHAUÍ, Marilena;

MATTOS, Carlos Lopes; CASTRO, Manuel de. São Paulo: Nova Cultural, 1989.

HARVEY, David. Condição Pós-Moderna. Trad. SOBRAL, Adail Ubirajara;

GONÇALVES, Maria Salete. 14ª Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005.

HEIDEGGER, Martin. O ser e o tempo. Trad. SHUBACK, Marcia Sá Caval-cante. 15ª Ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2005.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

________. Le séminaire, Livre XX, Encore. Paris: Seuil, 1975.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra. Trad. SOUZA, José Men-des de. Ed. Especial. Rio de Janeiro: LPM Pocket, 2012.

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O USO DO CANABIDIOL EM CRIANÇAS COM