8 RESULTADOS: ANÁLISE E DISCUSSÃO
8.6 Os sentidos da trajetória escolar para os educandos adultos maduros da EJA
8.6.2 Afetamentos pelo processo educativo na EJA
8.6.2.4 Hábitos de vida
O afetamento pelas vivências na EJA reverberou até mesmo na incorporação de hábitos mais saudáveis na vida dos pesquisados. A preocupação com os comportamentos de risco para a saúde (como por exemplo, o consumo de hortaliças e frutas com agrotóxicos, o fumo e o álcool), bem como o desenvolvimento do próprio hábito de estudar foram promovidos pelo contexto da EJA.
Processos de aprendizagem remetem às histórias de vida, à integração corpo e mente, às experiências educativas vividas, ao pensamento e à reflexão, à emoção e à ação. De modo simplificado, esse seria o ciclo da transformação da pessoa mediante a aprendizagem, segundo Jarvis (2013). Todavia, para que a mudança ocorra, é necessário que haja a modificação da pessoa, na sua totalidade, a partir das vivências dotadas de significado e memorizadas pela pessoa que aprende. Memorizadas, no sentido de serem incorporadas à mente e ao corpo do aprendente, mediada pelos sentidos. Quando a mudança se concretiza
temos uma pessoa transformada na sua inteireza. Constatou-se, pelas entrevistas e pelas observações, que algumas mudanças de hábito foram incorporadas na vida dos pesquisados. Dentre elas, o abandono dos vícios de fumar e beber, o cultivo e o consumo de alimentos sem agrotóxicos e o hábito de estudar.
Entretanto, se faz importante mencionar que a mudança de hábito, no que diz respeito ao ato de parar de fumar e beber, não foi provocada, unicamente, pela vivência escolar, mas, também, por outros acontecimentos que influenciaram na tomada de decisão de um dos entrevistados. Todavia, o contexto educativo e as pessoas incluídas nesse microssistema exerceram interferências no processo de mudança.
A professora Maria8 não parava de me incomodar: “Não vai parar de fumar? ”. Só que nas dependências do colégio a maioria do pessoal fumava por ali, e eu, lá fora. E ela me enxergava e dizia: “Olha, eu quero parabenizar o seu Alexandre. Ainda bem que tu estás respeitando o espaço da escola, não fumando aqui dentro”. Sabe que o fumante é cobrado demais, né. Então, para não me incomodar, eu acabei largando. E quando a professora Maria soube disso, ela falou: “Eu fiquei sabendo, por uma pombinha rola que me largou um bilhetinho, que o seu Alexandre parou de fumar”. [...]. Por vontade própria, minha amiga, eu parei. Eu achei que tinha que parar! Porque se tu tens um vício e quer largar, tu tens que ter autoridade e brigar contigo mesmo! Além disso, ainda me acidentei de carro [...]. Daí, quer saber de uma coisa: eu resolvi parar! (Alexandre)
Novamente, percebeu-se que a dinâmica de relações entre a pessoa e o ambiente acarretou efeitos sobre o percurso de desenvolvimento. A ideia de tomar uma nova atitude diante da vida, ao lembrar que durante um tempo importante, a bebida e o fumo fizeram parte da sua biografia, demonstrou afetamentos provocados pela interferência de um ambiente cuidadoso vivenciado na escola, mediante o zelo do professor, nesse caso. Depreendeu-se que a mudança perante o modo de enxergar a si e aos outros foi impulsionada por novos encontros e relações pautadas pelo respeito e afeto.
Além disso, a incorporação do hábito de estudar na rotina dos sujeitos resultou numa nova relação familiar. O tempo dedicado à família precisou ser dividido com a dedicação aos estudos, seja em casa ou na própria escola. Da mesma forma, a incorporação da atividade educativa no Microssistema familiar pareceu instigar o desejo de outras pessoas integrantes desse contexto para retomar os estudos. Nesse sentido, poderíamos citar as influências da ação de estudar, a partir dos casos relatados, do pai sobre o(s) filho(s) ou do marido sobre a esposa. Exemplos como o interesse da esposa de João em voltar a estudar para concluir o Ensino Médio ou do interesse do filho de Pedro em retomar os estudos na mesma escola em que o pai
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estuda atualmente para concluir o Ensino Médio corroboram a prerrogativa de Bronfenbrenner (2011). Segundo o autor, todos os integrantes de um microssistema se influenciam mutuamente, assim como a relação entre cada membro da família exerce igualmente influência sobre outras relações. Nessa perspectiva, a influência do retorno à Educação formal da pessoa em desenvolvimento pode exercer influência sobre os processos de desenvolvimento de outros integrantes da família, sendo o contrário também verdadeiro.
Frequentar uma instituição de ensino formal significou, para alguns deles, a oportunidade de manter-se atualizado, de “usar o cérebro”.
Porque se eu não estudar, eu não leio nada, eu não pego nada para ler. Eu não tenho o hábito de ler, mas se eu estiver estudando, eu vou sempre tentar ler alguma coisa e para mim isso é muito bom! (Pedro)
[...] quando eu chego em casa eu quero fazer os meus trabalhos e a minha esposa não gosta muito. Ela diz: “Agora só quer viver em cima dos livros! ”. É, mas eu estudo! (João)
Os trechos demonstraram, mais uma vez, o resultado do processo de desenvolvimento no contexto. Todas as situações revelaram que a interação dos sujeitos sobre os ambientes, bem como a influência destes sobre eles, exerceram reflexos no seu crescimento. As interconexões sugeriram que diversos afetamentos pelas relações educativas aconteceram, e se propagaram sobre os contextos mais imediatos daqueles que estiveram em desenvolvimento.
Há tempos excluídos dos processos de construção do conhecimento e de vivências educativas significativas, os educandos adultos maduros vivenciaram situações tocantes à vida, reverberadas na busca de hábitos mais saudáveis. A esse respeito, Freire (2011) afirma
que ser um “agente da aprendizagem” (p. 99) corresponde a “[...] uma autoformação da qual
pode resultar uma postura atuante do homem sobre o seu contexto” (p.100). Portanto, o ato
educativo diz respeito a transformações que ocorrem no âmbito psicossocial e cognitivo, mas, também, a um ato que empodera o sujeito na luta individual e coletiva para ações melhores.
8.7 O Modelo Bioecológico e a tecitura de uma Rede de Sentidos da vivência