2. INTRODUÇÃO
2.3 H ABILIDADES S OCIAIS : A SPECTOS C ONCEITUAIS
2.3.2 H ABILIDADES S OCIAIS : E MPATIA E A SSERTIVIDADE
De acordo com Falcone (1995, 1998, 2000, 2001), as interações sociais bem sucedidas incluem a manifestação da habilidade empática e da habilidade assertiva. A empatia é entendida como a capacidade de compreender e de expressar compreensão acurada sobre a perspectiva e sentimentos de outra pessoa, além de experimentar compaixão e interesse pelo bem-estar desta (Barrett-Lennard, 1993; Falcone, 1999). Do ponto de vista de Falcone (1998), agir de forma empática implica em estar disponível para ver as coisas de acordo com o ponto de referência da outra pessoa e demonstrar um interesse genuíno pelo bem-estar desta. O componente cognitivo necessário para a manifestação da empatia corresponde à consciência do outro (ver Bedell & Lennox, 1997). Para que se possa estar consciente dos pensamentos e sentimentos de outra pessoa, é necessário primeiramente prestar atenção e ouvir sensivelmente. Isso envolve: deixar de lado as próprias expectativas, sentimentos e desejos por alguns instantes e focalizar-se nas
perspectivas, sentimentos e desejos da outra pessoa; buscando colocar-se no lugar da outra pessoa (para uma revisão mais detalhada desse assunto, ver Falcone, 1998, 1999, 2000). Somente após atingir uma compreensão acurada do outro é que se pode declarar entendimento acerca dos sentimentos e pensamentos deste (Falcone, 2001).
Após uma revisão de estudos, Burleson (1985) encontrou que as pessoas empáticas despertam afeto e simpatia, são mais populares e ajudam a desenvolver habilidades de enfrentamento, bem como reduzem problemas emocionais e psicossomáticos nos amigos e familiares. Tais declarações sugerem que os indivíduos empáticos tornam as relações mais agradáveis, reduzindo o conflito e o rompimento (Davis, 1983a, 1983b como citado em Falcone 1999). Por outro lado, indivíduos não empáticos parecem carecer de inteligência social e podem se tornar prejudicados no trabalho, na escola, na vida conjugal, nas amizades e nas relações familiares, além de correrem o risco de viver à margem da sociedade (Goleman, 1995). Diante de todas essas considerações, é importante chamar atenção para o fato de que a habilidade empática pode ser ensinada e aprendida e deve ser praticada como qualquer outra habilidade clínica (Goleman, 2006).
Já a assertividade é definida como a “capacidade de defender os próprios direitos e de expressar pensamentos, sentimentos e crenças de forma honesta, direta e apropriada, sem violar os direitos da outra pessoa” (Lange & Jakubowski, 1976, p. 7), possibilitando bem-estar emocional e aumentando a probabilidade da manutenção de relacionamentos interpessoais saudáveis e duradouros (Vila, Gongora & Silveira, 2003). A autoconsciência, compreendida como o reconhecimento, rotulação e organização dos próprios pensamentos, sentimentos e comportamentos (Bedell & Lennox, 1997) parece ser o componente cognitivo necessário para a manifestação do comportamento assertivo (Falcone, 2001). Para atingir a autoconsciência, o indivíduo necessita procurar saber: o que deseja; quais as suas expectativas e que sentimentos está experimentando (Falcone, 2001).
Seguindo os estudos apresentados acima, Falcone (1999) declara que expressar-se de maneira empática antes de usar a assertividade direta pode minimizar qualquer avaliação negativa potencial da assertividade. Com base nesta proposição, a autora cita alguns estudos que mostram que, em determinados contextos sociais, especialmente quando há conflito, torna-se necessário controlar as próprias emoções e fazer um esforço para compreender e validar os sentimentos e a perspectiva da outra pessoa, antes da manifestação dos próprios sentimentos e perspectiva. Tais
argumentos sugerem que o sucesso nas relações interpessoais depende da integração das habilidades: empática e assertiva.
A falta e/ou deficiência em manifestar empatia e assertividade pode ocasionar padrões de comportamento socialmente inadequados, tais como a esquiva (e.g., ficar calado, sair da situação para evitar um confronto interpessoal, entre outros) ou a agressividade (e.g., adotar comportamentos que não consideram os sentimentos e as necessidades do outro, reagir de maneira hostil, depreciar etc.). Tais padrões de comportamentos sociais geralmente envolvem dificuldades de iniciar e manter relacionamentos interpessoais satisfatórios, trazendo conseqüências negativas (Vila, 2005). Conforme propõem García-Vera, Sanz e Gil (1998), os comportamentos sociais inadequados provocam tanto conseqüências negativas da não obtenção dos objetivos desejados, como um mal-estar na relação social.
De uma maneira geral, pode-se dizer que os déficits e comprometimentos de habilidades sociais podem caracterizar relações sociais restritas e conflitivas que interferem, de maneira negativa, sobre a qualidade de vida e a saúde psicológica do indivíduo (Del Prette & Del Prette, 1999, 2001a, 2005; Pinheiro, Haase, Del Prette, Amarante & Del Prette, 2006; Magalhães & Murta, 2003). Dado o impacto negativo dos déficits em habilidades sociais sobre a saúde das pessoas, intervenções têm sido desenvolvidas nesta área com a denominação geral de Treinamento de Habilidades Sociais (THS) (Magalhães & Murta, 2003), como será visto posteriormente.
É importante apontar que com relação às variáveis que determinam a ocorrência de um desempenho inadequado socialmente, Vila (2005) afirma que podem ser levantadas várias hipóteses. Uma delas considera que as pessoas apresentam déficits em habilidades sociais porque os contextos familiar e social não propiciaram condições para a aprendizagem e aprimoramento de tais comportamentos. Uma outra hipótese é que, ainda que algumas pessoas possuam as habilidades sociais no repertório comportamental, não as apresentam por vários fatores, como: grande nível de ansiedade, falhas no repertório discriminativo, não discriminando a ocasião apropriada para responder às demandas do contexto social (Del Prette & Del Prette, 2002). Deste modo, ao se tentar entender as variáveis mantenedoras dos comportamentos considerados inadequados socialmente, infere-se, primeiramente, que a pessoa não passou por um processo de aprendizagem para o responder apropriado ou apresenta uma história de aprendizagem bastante frágil (Vila, 2005).
As considerações apontadas acima propõem fortemente que as habilidades sociais são comportamentos aprendidos (Del Prette & Del Prette, 2002; García-Vera & cols., 1998) e que podem melhorar através de experiências de aprendizagens adequadas (García-Vera & cols., 1998). Sobre esse aspecto, é importante chamar atenção para o fato de que não existe nenhuma diferença marcante entre pessoas idosas ou jovens em aprender habilidades sociais (Isquick, 1981; Berger & Rose, 1977). Segundo Isquick (1981), muitos profissionais de saúde mental se recusaram a trabalhar com pessoas idosas porque acreditavam que estas não poderiam fazer mudanças significativas no seu comportamento ou na sua personalidade. Entretanto, o autor afirma que se métodos apropriados são usados, tal crença é infundada. Um importante estudo que abordou este aspecto foi desenvolvido por Isquick (1981). O autor constatou que as pessoas da terceira idade podem mudar padrões de comportamentos usados ao longo da vida e podem aprender novas formas de se relacionarem.
Vale ressaltar que a neurociência já não trabalha mais com a hipótese de que a perda cognitiva com o envelhecimento é inevitável (Herculano-Houzel, 2007). Como propõe Herculano-Houzel (2007), o número de pessoas na terceira idade cujas habilidades mentais são semelhantes às dos moços é grande o suficiente para que elas não possam mais ser consideradas uma exceção. Ainda dentro desta discussão, Goleman (2006) sustenta:
A neurogênese, produção diária de novos neurônios pelo cérebro, continua na velhice, embora num ritmo mais lento do que nas décadas anteriores. E essa diminuição do ritmo não precisa ser inevitável, sugerem alguns neurocientistas, mas apenas um efeito colateral da monotonia. Acrescentar complexidade ao ambiente social da pessoa estimula o aprendizado de coisas novas, acelerando o ritmo de produção de novas células pelo cérebro. Por esse motivo, alguns neurocientistas estão trabalhando com arquitetos para projetar lares para os idosos nos quais os habitantes tenham de interagir com os outros durante a execução de sua rotina diária (p. 276-277).