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Os problemas colocados pela técnica moderna foram abordados por Heidegger no texto A Questão da Técnica. A sua análise – uma perspectiva genealógica também

50, e não estritamente essencialista, como poderia parecer – procura ultrapassar as

mesmas aporias que Simondon no que concerne à relação do Homem com a tecnologia. Aliás, os principais objectivos de Martin Heidegger são, por um lado, definir uma relação em liberdade do ser humano com a técnica e, por outro, mostrar um caminho de resposta às nossas perplexidades que não passe sempre por um avanço da tecnologia

tout court. É já nesta intenção latente que os projectos deste autor e Simondon diferem;

na realidade, o filósofo da técnica que abordámos anteriormente tem uma concepção marcadamente mais optimista do que a do alemão quanto à possibilidade de uma harmonização das esferas da liberdade e da existência tecnologizada (ou artificializada).

Para este, a relação livre do Homem com a técnica não decorre do facto desta ter origem naquele, ser obra dele, mas sim da orientação do ser humano para a técnica. Assim, torna-se claro que a resposta aos problemas colocados pela técnica não reside apenas numa qualquer melhoria da tecnologia – muito embora a noção de "melhor tecnologia" dependa bastante das opções sociais (o que foi já verificado com Simondon) e axiomáticas adoptadas –, nem somente na simples recusa da adopção da tecnologia: «Por todo o lado, permanecemos sem liberdade e acorrentados à tecnologia, quer o afirmemos ou neguemos com veemência»51. Até mesmo as comunidades aparentemente

mais distanciadas, que devotam muita reflexão às questões impostas pela tecnologia vão, pouco a pouco, construindo uma estrutura tecnológica que lhe permite sobreviver.

É o caso dos Amish norte-americanos, seita anabaptista que, depois de ser perseguida e expulsa da Europa central no tempos conturbados das guerras religiosas, se estabeleceu em diversos estados dos EUA, e sobretudo na Pennsylvania. Os Amish são conhecidos pelo seu modo de vida rural, simples até pelos padrões mais anacrónicos,

50 Heidegger põe em questão a forma que a tecnologia adopta na Modernidade, e não lhe atribui uma essência imutável ao longo da História.

51 HEIDEGGER 1977:4. A tradução é nossa.

regulado por um conjunto de normas restritas; vivem com estreitos laços familiares e de comunidade. Cada comunidade tem um bispo, que faz parte de um conselho periodicamente reunido para tomar decisões acerca das vidas do conjunto dos fiéis. Ora, as grandes questões colocadas neste conselho relacionam-se com o grau de penetração que deve ser permitido às tecnologias dos "ingleses" (termo com que designam todos os não-Amish). Durante todo o século XX, a comunidade viveu em controvérsia quase permanente porque, tal como Heidegger aponta, a tecnologia não pode ser ignorada, entrando nos poros da vida humana como forma de revelação e desvendamento do mundo e «O desejo de domínio torna-se mais urgente à medida que a tecnologia ameaça fugir ao controlo humano»52. O sucesso da tentativa de dominar a tecnologia através de uma estrutura política e religiosa centralizada depende – é preciso dizê-lo claramente – da obediência ao dogma regulador, em que nem os Amish são perfeitos. A comunidade sofre, periodicamente, grandes divisões, de modo que – apesar da visão comum dos

Amish se cristalizar em torno das carroças e das barbas típicas –, hoje em dia, é normal

encontrar Amish a falar ao telemóvel, isolados, no meio do campo, muito embora quase nenhuma das suas casas tenha electricidade ou telefone fixo da rede pública.

Mas esta recusa tem raízes mais profundas do que o dogma religioso, encontrando-se solidamente ancorada num modo de vida comunitário. Howard Rheingold, que entrevistou diversos Amish para o seu artigo «Look who's Talking»53, perguntou a razão porque não instalavam telefone em casa, preferindo ter telefones comunitários, colocados em cabinas que, muitas vezes, estão equipadas com atendedor de chamadas. A resposta foi: «"What would that lead to? (...) We don't want to be the

kind of people who will interrupt a conversation at home to answer a telephone. It's not just how you use the technology that concerns us. We're also concerned about what kind of person you become when you use it."» De facto, isto vai de encontro ao que

Heidegger defende relativamente aos efeitos da tecnologia no mundo humano, concedendo uma importante chave para compreender como é possível uma relação mais livre com ela.

A tecnologia tem, de certo modo, uma vida própria, entre a sociedade e o indivíduo. Ganha um certo grau de autonomia (normativa) no preciso momento em que começa a ser aplicada e desenvolvida na relação tríplice com o Homem e a Natureza.

52 Idem, 1977:5. A tradução é nossa.

53In Wired 07.01. Disponível em http://www.wired.com/wired/archive/7.01/amish_pr.html.

Para McLuhan, aliás, os seres humanos não passam de órgãos sexuais das máquinas54. Mais especificamente, o que os Amish pretendem evitar ao manter a tecnologia "à porta", apesar da utilidade para a sobrevivência material da comunidade, é serem apropriados pela tecnologia, separados de uma visão e comunhão com o Ser que, até agora, os caracterizou. Os Amish são seres humanos que não querem ser absorvidos pela capacidade que a tecnologia tem de transformar tudo quanto existe no mundo em "reserva disponível", porque vêem, um pouco em sintonia com Martin Heidegger, que a essência desta é a procura incessante da mensurabilidade e possibilidade de planificação do Mundo (da própria existência), desaguando numa funcionalização da vida humana, e sobretudo da sua vertente comunitária.

A diferença radical entre a filosofia heideggeriana e o estilo de vida Amish é que, para além do ser humano, o autor alemão apresenta uma preocupação constante com a mobilização dos recursos naturais. Deste modo, quando o grau de concretização técnica assim o permite, a tecnologia (e o Homem, bem entendido) passa a olhar para o mundo natural de uma outra perspectiva. À medida que a exploração e mobilização dos recursos humanos e naturais avança, novas descobertas e necessidades revelam novas potencialidades e novos caminhos para explorar. A atmosfera, envolvente inacessível e vazia para as pessoas do século XVII, torna-se um canal para comunicação com Marconi, mas também um canal de transporte, entrevisto com a invenção do balão pelos irmãos Montgolfier e explorado mais intensivamente depois da invenção do avião.

Mas, para Heidegger, esta forma instrumental é apenas um dos modos da techné. Como tal, é apenas um dos caminhos para o Ser, ou modos de revelação do Ser no mundo que poderíamos tomar. As outras sendas também passam por conceitos de criação e desvelamento – abordados apenas ao de leve em A Questão da Técnica, mas aprofundadamente estudados em Ser e Tempo –, embora Heidegger advogasse claramente que o modo de revelação e manifestação do Ser nos entes – pelo Dasein humano – deveria passar por um tipo de cuidado responsável (em ambos os sentidos etimológicos do termo: responsabilidade como custódia de algo e responsabilidade como obrigação de responder perante o Outro) que se assemelha mais à criação artesanal grega do que à tecnologia moderna. Segundo Heidegger, este modo de relação

54 Esta é uma expressão célebre que o autor usa na sua obra Understanding Media.

com a actividade criativa e com a techné é simultaneamente uma aletheia, ou desvelamento, e uma modalidade de poiesis, ou criação.

Assim sendo, parece óbvio que há uma diferença de grau relativamente à apropriação "selvagem " do mundo que o transforma em reserva disponível de matérias- primas, recursos energéticos, recursos humanos. É que, enquanto na tradição grega, haveria uma "colaboração" entre physis e Homem − em que este, por assim dizer, se comprometia a retirar daquela apenas o estritamente necessário para as suas necessidades, e nunca por métodos destrutivos −, na modernidade a transformação em

standing reserve é uma disponibilização de diferente tipo, na qual os recursos são

transformados em matéria constantemente disponível, uma reserva à espera de ser usada – em que se poderá, a partir de certo ponto, o próprio ser humano55. A distinção pode ser exemplificada com o exemplo das utilizações possíveis da energia hidráulica de um rio ou da energia eólica. Numa azenha ou num moinho de vento, as energias são colocadas imediatamente ao serviço do Homem, para mover uma mó que tritura cereais. Contudo, ao construir geradores eólicos ou hidráulicos, a energia do vento ou da água sofre uma transformação qualitativa ao ser disponibilizada como electricidade. Como se sabe, não há qualquer distinção possível entre electricidade produzida de modos diferentes, pelo que a sua origem é totalmente indiferente. E é esta dessacralização intrínseca (uniformizante) que Heidegger condena na técnica moderna, integrada num dispositivo (Gestell) ou enframing que limita as possibilidades de encontro do Homem com o Ser nas suas multiformes manifestações.

No entanto, Heidegger dispõe os seus argumentos de tal forma que não afasta a hipótese de um retorno como a melhor solução, embora claramente não seja possível no enquadramento da metafísica ocidental. Se o Homem é transformado tão profundamente pela técnica, a ponto de se tornar, ele próprio, um elemento da "reserva disponível", um recurso à espera de ser usado, não deixa de ser a Natureza a principal "vítima" deste dispositivo tecnológico. A própria Natureza é forçada a ceder ao Homem e à técnica os instrumentos para a "destruição" do Dasein – enquanto forma existencial de ser humano e estado relacional com o mundo – e de qualquer possibilidade de encontro entre o ente e o Ser protagonizado e mediado pelo Homem.

55 Cf. Parte III infra.

Hoje em dia, o ser humano tem acesso a energia em reserva em quantidade e qualidade suficiente para se aniquilar a si mesmo. A condição humana, doravante, tem de conviver com as consequências da sua acção no mundo. Mas é isto que Heidegger deixa de lado na sua análise: embora condenável de um determinado ponto de vista moral, a capacidade de libertar energia destruidora é uma forma de criação, porquanto constitui um passo na concretização do objecto técnico e da humanidade do Homem. Prever os efeitos a prazo de tal modo de acção é extremamente difícil, como o filósofo alemão não deixa de notar, no final do ensaio, sugerindo que a continuação deste regime – a única opção verdadeiramente em aberto para a Humanidade – pode ainda encerrar uma forma de salvação por entre o grande risco já patente.56

56 Cf. HEIDEGGER, 1977:30-5.