I I P OR UMA G EOGRAFIA DAS R EDES
I 2. H ORIZONTALIDADES E V ERTICALIDADES
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HORIZONTALIDADES EVERTICALIDADES
ITRODUÇÃO
s palavras horizontal e vertical têm uma antiga presença na geografia e outras disciplinas. Mas com sentido diverso da quele que lhes desejamos, aqui, atribuir107.
Tomemos três autores como exemplo: o geógrafo holandês G. de Jong, o sociólogo russo P. A. Sorokin e o filósofo francês H. Lefebvre. Para de Jong (1962, p. 27) há dois tipos de diferenciação coroló-gica: 1) "a integração das coisas e dos respectivos fenómenos, em um ponto qualquer da superfície da Terra", à qual ele chama de inter-relação vertical; e 2) "as relações entre coisas e seus fenómenos, em pontos ou lugares diversos no mundo, fundadas em sua localização relativa", às quais chama de integração horizontal108. De Jong escreveu isso antes da generalização do progresso tecnológico à escala planetária, mas já enxergava o efeito das "coisas estr angeiras" ("foreign things") sobre cada localidade, mostrando como a interseção dos dois fenómenos contribui para a diversidade geográfica (p. 75).
P. Sorokin (1964) se refere a formas horizontais e verticais de comunicação entre os homens, ao estudar a circulação dos objetos, fenómenos e valores culturais. Para ele "os caminhos seguidos pelo homem, e utilizados como meios de comunicação, são também os caminhos dos valores e dos objetos culturais". Ele dá como exemplos "uma pista na montanha, uma pista de c aravanas no deserto, uma grande escada para as carroças, animais ou automóveis, os rios... as rotas marítimas... as vias férreas e aéreas... o telégrafo, o telefone, o rádio... [são os] caminhos principais pêlos quais os valores se deslo - cam, circulam e se propagam horizontalmente".
107
. Nosso ponto de vista é, também, diferente daquele do geógrafo italiano G. Dematteis (1995, pp. 51-56), quando ele trabalha as noções de vertical e de horizontal.
108
. "Um exame mais detido dos complexos de coisas corologicamente diferenciadas permite dois tipos de integração corológica: 1. as relações entre coisas e seus fenómenos em um dado ponto da superfície da terra, a que ch amamos de
integração vertical; 2. as relações entre coisas e seus fenómenos em diferentes pontos ou lugares no mundo, em função de
sua localização, a que chamamos de integração horizontal.
"Essas duas espécies de integração são decisivas, mas é claro que a diferenciação coro-lógica está diretamente relacionada com a inter-relação vertical e apenas indiretamente com a interconexão horizontal. A diferenciação corológica significa que as coisas de um lugar são diferentes daquelas em outras localidades. Em cada ponto da terra coisas diferenciadas se influenciam mutuamente e se integram numa relação vertical. As relações horizontais exercem, nesse particular, uma grande influência, mas não se manifestam de modo imediato em nossa experiência, ao observarmos a dive rsidade corológica" (De Jong, 1962, pp. 27- 28).
Para P. Sorokin, a circulação horizontal se verificaria "[...] de lugar a lugar, de homem a homem, de grupo a grupo, no espaço social", utilizando os mesmos condutos que a circulação vertical. Mas esta se daria pela transferência de elementos culturais de uma camada da sociedade a uma outra, sendo o "meio pelo qual as pessoas das classes inferioresr e aquelas das classes, superiores diretamente se encontram".
Em um artigo de 1953, nos Cahiers de Sociologie, intitulado "Perspectives de Ia Sociologie Rurale", H. Lefebvre propõe que, na análise do mundo rural, sejam consideradas duas formas de complexidade, formas superpostas e interativas. A complexidade horizontal é dada pela vida atual do grupo humano em suas relações com o luga r, por intermédio das técnicas e da estrutura social. A complexidade vertical também pode ser chamada de complexidade histórica, isto é, a influência dos fatos passados na existência atual. Em seu Search for a Method, Sartre (1968, p. 52) após descrever mi nuciosamente a proposta com que, a seu ver, Lefebvre busca unir sociologia e história, diz que apenas lamenta não ter tido Lefebvre seguidores no resto dos intelectuais marxistas.
Um enfoque próximo do nosso é encontrado num economista re gional, Martin Lu (1984). Esse autor parte das noções de integração funcional e integração territorial. A integração funcional resulta dos processos produtivos, cujos fluxos percorrem o espaço hierarquica mente. "O processo de integração funcional [...] comanda o processo de acumulação e de reprodução do capital no tempo e no espaço" (p. 14). A integração territorial é resultado dos processos de consumo, que também hierarquizam o espaço segundo as potencialidades de demanda e de oferta.
É a partir dessas duas integrações qu e Martin Lu vai propor os con ceitos de entorno funcional e
entorno territorial, lembrando, porém, que não há vinculação obrigatória entre os processos de integração
funcional e territorial (p. 15). Por isso, também, insiste na diferen ciação entre uma hierarquia funcional (ou setorial) e uma hierarquia espacial (ou territorial)109. Segundo esse autor, uma região, dentro de um país, será tanto mais desenvolvida quanto haja mais coincidências entre as duas integrações. O ponto de partida de Martin Lu é o espa ço económico, o espaço das firmas. Quanto à nós, preferimos partir da noção de espaço banal, espaço de todas as pessoas, de todas as empresas e de todas as instituições, capaz de ser descrito como um sistema de objetos animado por um sistema de ações. Noss a busca é a das categorias analíticas simples que dêem conta da inseparabilidade do "funcional" e do "territorial".
109
. Martin Lu (1984) insiste na diferenciação entre uma hierarquia funcional (ou setorial) e uma hierarquia espacial (ou territorial) para indicar que uma análise que as considere "como processos simultâneos e coincidentes, como as faces de Janus" é insuficiente, e critica, por isso, as análises que "se concentram nos padrões da hierarquia territorial (ou espacial), acreditando na validade de se inferir, indiretamente, sobre as características do processo de integração funcional que [...] comanda o processo de acumulação e ele reprodução do capital no tempo e no espaço" (p. 14).
DOISARRANJOS EDUASSEGMENTAÇÕES
Nas atuais condições, os arranjos espaciais não se dão apenas atra vés de figuras formadas de pontos contínuos e contíguos. Hoje, ao lado dessas manchas, ou por sobre essas manchas, há, também, constelações de pontos descontínuos, mas interligados, que definem um espaço de fluxos reguladores. As segmentações e partições presentes no espaço sugerem, pelo menos, que se admitam dois recortes. De um lado, há extensões formadas de pontos que se agregam sem descontinuidade, como na definição tradicional de região. São as horizontalidades. De outro lado, há pontos no espaço que, separados uns dos outros, asseguram o funcionamento global da sociedade e da economia. São as verticalidades. O espaço se compõe de uns e de outros desses recortes, inseparavelmente. É a partir dessas novas subdivisões que devemos pensar novas categorias analíticas.
Enquanto as horizontalidades são, sobretudo, a fábrica da produ ção propriamente dita e o locus de uma cooperação mais limitada, as verticalidades dão, sobretudo, conta dos outros momentos da produção (circulação, distribuição, consumo), sendo o veículo de uma cooperação mais ampla, tanto económica e politicamente, como geograficamente.
Veja-se, como exemplo, a relação cidade/campo, em que a atração entre subespaços com funcionalidades diferentes atende à própria produção, já que a cidade, sobretudo nas áreas mais fortemente tocadas pela modernidade, é o lugar da regulação do trabalho agrícola. No segundo caso, as verticalidades, a solidariedade é obtida através da circulação, do intercâmbio e do controle. Vejam, como exemplo, as relações interurbanas. Trata -se de entender essas novas formas de solidariedade entre os lugares.
Poderíamos parafrasear Baudrillard, em seu Sistema dos Objetos, quando ele disse que "a funcionalidade não é mais o que se adapta a um fim, mas uma ordem de sistema". De uma estruturação dita "natural", existindo pela troca de energia entre os seus elementos (tal como eles são e como estão dispostos), passamos a uma valorização das coisas, por intermédio da organização, que comanda sua vida funcional. Na caracterização atual das regiões, longe estamos daquela solidariedade orgânica que era o próprio cerne da definição do fenómeno regional. O que temos hoje são solidariedades organizacionais. As regiões existem porque sobre elas se impõem arranjos organizacionais, criadores de uma coesão organizacional baseada em racionalidades de origens distantes, mas que se tornam um dos fundamentos da sua existência e definição.
A verticalidade cria interdependências, tanto mais numerosas e atuantes quanto maiores as necessidades de cooperação entre lugares. Assim como nos diz Gilles Paché (1990, p. 91), nessa "nova
geografia dos fluxos dos produtos" cria -se "um sistema de produção reticular" (résillaire), a partir de suportes territoriais largamente redistribuídos, que asseguram a coesão do processo produtivo110.
Essas interdependências tendem a ser hierárquicas e seu papel de ordenamento transporta um comando. A hierarquia se realiza através de ordens técnicas, financeiras, políticas, condição de funcionamento do sistema. A informação, sobretudo ao serviço das forças económi cas hegemónicas e ao serviço do Estado, é o grande regedor das ações que definem as novas realidades espaciais. Um incessante processo de entropia desfaz e refaz contornos e conteúdos dos subespaços, a partir das forças dominantes, impondo novos mapas ao mes mo território. E o crescente processo de homogeneização se dá através um processo de hierarquização crescente. A homogeneização exige uma integração dependente, referida a um ponto do espaço, dentro ou fora do mesmo país. Nos outros lugares, a incorporação desses nexos e normas externas têm um efeito desintegrador das solidariedades locais então vigentes, com a perda correlativa da capacidade de gestão da vida local.
De um modo geral, as cidades são o ponto de intersecção entre verticalidades e horizontalidades. Estudando a diferença entre lugares modernizados e lugares letárgicos no planalto no norte da Patagônia argentina, M. L. Silveira (1994, pp. 75 -77) examina o funcionamento da produção e da circulação, e mostra como "essas lógicas cruzam as cidades e produzem um arranjo territorial" em que se superpõem vinculações horizontais e verticais. As verticalidades são vetores de uma racionalidade superior e do discurso pragmático dos setores he gemónicos, criando um cotidiano obediente e disciplinado. As hor i- zontalidades são tanto o lugar da finalidade imposta de fora, de longe e de cima, quanto o da contrafinalidade, localmente gerada. Elas são o teatro de um cotidiano conforme, mas não obrigatoriamente con-formista e, simultaneamente, o lugar da cegueira e da descoberta, da complacência e da revolta.
Paralelamente, forças centrípetas e forças centrífugas atravessam o território, como tendências ao mesmo tempo contrastantes e confluen tes, agindo em diversos níveis e escalas.
As forças centrípetas resultam d o processo económico e do processo social, e tanto podem estar subordinados às regularidades do processo de produção, quanto às surpresas da intersubjetividade. Essas forças centrípetas, forças de agregação, são fatores de convergência. Elas agem no campo, agem na cidade e agem entre cidade e campo. No campo e na cidade, elas são, respectivamente, fatores de homo - geneização e de aglomeração. E entre o campo e a cidade, elas são fatores de coesão.
Nas condições atuais do meio técnico -científico, os fatores de coesão entre a cidade e o campo se tornaram mais numerosos e fortes. A agricultura moderna, à base de ciência, tecnologia e informação,
110
. "[...] A desintegração da empresa industrial traça, seguramente, uma nova geografia dos fluxos de produtos. As antigas estruturas polares desaparecem para dar origem a um sistema de produção resilar e, correlativamente, a suportes territoriais de atividades largamente redistribuídas" (Gilles Paché, 1990, p. 9).
demanda um consumo produtivo cuja resposta, imediata, deve ser en contrada na cidade próxima. Com a divisão interurbana do trabalho, as tarefas especializadas reduzem os respectivos custos unitários, au - mentando a produtividade e a rentabilidade de cada agente individual e fortalecendo o conjunto de cidades.
As forças centrífugas podem ser consideradas um fator de desagr egação, quando retiram à região os elementos do seu próprio comando, a ser buscado fora e longe dali. Pode -se falar numa desestruturação, se nos colocamos em relação ao passado, isto é, ao equilíbrio anterior. E de uma restruturação, se vemos a coisa do ponto de vista do processo que se está dando. Entre os fatores longínquos, causadores de uma tensão local, contamos o comércio internacional, as demandas da grande indústria, as necessidades do abastecimento metropolitano, o fornecimento dos capitais, as políticas públicas ditadas nas metrópoles nacionais ou estrangeiras.
Forças centrípetas conduzem a um processo de horizontalização, forças centrífugas conduzem a um processo de verticalização. Mas, em todos os casos, sobre as forças centrípetas, vão agir forç as centrífugas. Essas forças centrífugas se dão em diversas escalas, a maior delas sendo o planeta tomado como um todo, e seriam o que G. Uribe Sc S. de López (1993, p. 172) chamam de "fluxos universais". Entre o lugar e o mundo, as outras escalas são regi onais, supra-regionais, nacionais, continentais. Tal superposição faz com que a explicação do que se passa dentro de cada área deva obrigatoriamente incluir as escalas superiores. A solidariedade interna ao subespaço, providenciada pe las forças centrípetas, está permanentemente perturbada pelas forças centrífugas e deve permanentemente ser refeita.
VERTICALIDADES,HORIZONTALIDADES EAÇÃOPOLÍTICA
A tendência atual é no sentido de uma união vertical dos lugares. Créditos internacionais são postos à disposição dos países e das regiões mais pobres, para permitir que as redes se -estabeleçam ao serviço do grande capital.
Nessa união vertical, os vetores de modernização são entrópicos. Eles trazem desordem aos subespaços em que se instalam e a ordem que criam é em seu próprio benefício. E a união vertical - seria melhor falar de unificação - está sempre sendo posta em jogo e não sobrevive senão à custa de normas rígidas.
Mas os lugares também se podem refortalecer horizontalmente, reconstruindo, a partir das açõ es localmente constituídas, uma base de vida que amplie a coesão da sociedade civil, a serviço do interesse coletivo.
Com a especialização funcional dos subespaços, há tendência à geração de um cotidiano homólogo graças à interdependência que se estabelece horizontalmente. A partir de uma atividade
comum, a informação necessária ao trabalho difunde -se mais fácil e rapidamente, levando ao aumento local da produtividade. Isso tanto é válido no campo, quando se formam áreas presididas por um ou por vários produtos agrícolas combinados, como, também, é visível em cidades que se especializam numa dada produção industrial ou de serviços.
Pode-se dizer, também, que esse cotidiano homólogo leva a um aumento da eficácia política. A informação tornada comum não é ape nas a das técnicas de produção direta, mas tende também a ser a das técnicas de mercado. Os mesmos interesses criam uma solidariedade ativa, manifestada em formas de expressão comum, gerando, desse modo, uma ação política. A mídia local (jornais, rádio, t elevisão) é um testemunho desse movimento pelo qual as forças oriundas do local, das -horizontalidades, se antepõem às tendências meramente verticalizan tes. Um estudo da mídia empreendido em São Carlos, Estado de São Paulo, Brasil, revela esse movimento (A. Bernardes, 1995).
Essa ação política pode, em muitos casos, ser orientada, apenas, para um interesse particular e específico, frequentemente o da atividade hegemónica no lugar. Mas este é, apenas, um primeiro momento. As atividades que, complementares ou não, têm uma lógica diversa da atividade dominante, provocam, a partir do seu conflito de preocu pações, um debate que acaba por interessar ao conjunto da sociedade local. E o resultado é a busca de um sistema de reivindicações mais abrangente, adaptado às contingências da existência comum, no espaço da horizontalidade.