• Nenhum resultado encontrado

Habeas corpus nº 443.348/SP – Caso Dr. Herbert Gauss Junior

Após longa tramitação até o trânsito em julgado da sentença de mérito, iniciou-se por decisão de 26/09/2013 a fainiciou-se de cumprimento de iniciou-sentença do processo autuado sob nº 0472361-54.1999.8.26.0011, em curso na 3ª Vara Cível do Foro Central da Comarca de São Paulo.

Não cumprida voluntariamente a obrigação, tiveram início as diligências para a localização de bens do executado. Foram elas as seguintes (destaque nos parênteses das datas das decisões): (a) infrutífera penhora on line, via sistema Bacenjud (em

17/12/2013); (b) intimação do executado para indicar bens à penhora (em 09/04/2014);

(c) requisição à Receita Federal do Brasil, via sistema Infojud, das últimas três declarações de bens e rendimentos do executado (em 04/09/2014); (d) pesquisa da existência de veículos registrados em nome do executado, via sistema Renajud (em 28/10/2014); (e) inclusão do nome do devedor nos cadastros do Serasa (em 14/06/2016)210; (f) nova tentativa de bloqueio de valores via sistema Bacenjud (em 01/12/2016).

Houve, então, o requerimento de restrição de direitos com base no art. 139, IV, do CPC (suspensão do direito de dirigir do executado, apreensão de seu passaporte e cancelamento de seus cartões de crédito e débito), indeferido sob o seguinte fundamento, por decisão datada de 13/03/2017: “Vistos. Indefiro o pedido por falta de amparo legal.

Nada sendo requerido em cinco dias, ficará a execução suspensa por falta de bens e os autos serão arquivados. Intime-se”. Contra essa decisão, interpôs a exequente recurso de agravo de instrumento.

De todo modo, ainda foram efetuadas tentativas de localização de bens na origem mediante as seguintes diligências (os itens serão nomeados em continuação à sequência alfabética acima): (g) nova requisição à Receita Federal do Brasil, via sistema Infojud, das últimas três declarações de bens e rendimentos do executado (em 13/07/2017); (h) expedição de ofício a hospital no qual trabalha o executado, médico, para que informe o modo como lhe efetua os pagamentos (em 28/11/2017); (i) expedição de ofício a clínicas médicas (em 26/03/2018); (j) nova intimação do executado para indicação de bens à penhora, sob pena de cometimento de ato atentatório à dignidade da justiça; intimação da Clínica de Cirurgia Plástica Dr. Herbert Gauss, também chamada Clínica de Cirurgia Plástica de São Paulo, para informar como e onde são feitos os pagamentos ao executado (em 19/04/2018, reiterada a última determinação em 13/07/2018); (k) novo indeferimento de medida executiva atípica (em 19/09/2018).

Retornando à decisão proferida em 13/03/2017, primeira decisão que indeferiu o emprego de medidas executivas atípicas, a exequente interpôs recurso de agravo de instrumento, protocolizado em 07/04/2017 e distribuído para o Desembargador Rui

210 Antes dessa decisão, foi deferido algum requerimento formulado pela exequente, por decisão datada de 22/01/2016 (“Vistos. Fls. 688. Defiro. Expeça-se o necessário. Intime-se”). No entanto, como se trata de processo em tramitação física e os dados acessados foram apenas aqueles disponibilizados pelo sítio eletrônico do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, não foi possível identificar o pedido formulado pela parte e deferido pelo juízo. As informações de que se valeu esta pesquisa estão disponíveis em https://esaj.tjsp.jus.br/cpopg/show.do?processo.codigo=0BZX2FMQX0000&processo.foro=100&uuidCa ptcha=sajcaptcha_396694672c814739ad3aaf211910e723

Cascaldi, integrante da 1ª Câmara de Direito Privado. Por decisão monocrática de 10/04/2017, foi indeferido o requerimento de antecipação de tutela recursal. O julgamento colegiado ocorreu em 26/06/2017 e foi dado parcial provimento ao agravo para determinar a aplicação das seguintes medidas coercitivas: suspensão do direito de dirigir e do passaporte do executado, além do bloqueio dos seus cartões de crédito211.

Inconformado, impetraram os advogados de Herbert Gauss Junior habeas corpus em seu benefício. O habeas corpus foi distribuído ao Ministro Luiz Felipe Salomão, Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça, no dia 03/04/2018.

Analisando o requerimento liminar, o relator ponderou que os impetrantes deixaram de apontar o valor efetivamente devido pelo paciente, informação com a qual teriam condições de apurar se a medida ofende a razoabilidade. Mencionou que o art. 139, IV, do CPC não especifica quais são as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias cabíveis, “mesmo porque nenhum elenco seria capaz de exauri-las”.

Segundo o relator, “o que verdadeiramente importa é que as providências sejam adequadas para a concretização do comando judicial, proporcionais à finalidade perseguida”. Citou Daniel Baggio Maciel212. No tocante à suspensão do direito de dirigir e ao bloqueio do cartão de crédito, sinalizou que as medidas não ofendem o direito de ir e vir, na linha dos precedentes da Corte. Assim, indeferiu a liminar requerida.

O julgamento em cognição exauriente se deu de forma monocrática.

Essencialmente, os fundamentos da decisão são os mesmos utilizados no voto-condutor do RHC 97.876/SP, também de relatoria do Ministro Luiz Felipe Salomão. Por isso, não serão reproduzidos. Utilizando-se da argumentação já descrita no item 6.1 supra, o relator concedeu parcialmente a ordem, “apenas para o fim de desconstituir a medida executiva consistente na apreensão do passaporte do recorrente, determinando sua devolução,

211 Informações retiradas da consulta processual disponível no site do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo:

https://esaj.tjsp.jus.br/cposg/search.do;jsessionid=5B986988A5C5C154D5EC3E9EA9A89D0D.cposg7?c

onversationId=&paginaConsulta=1&localPesquisa.cdLocal=- 1&cbPesquisa=NUMPROC&tipoNuProcesso=UNIFICADO&numeroDigitoAnoUnificado=2063499-

31.2017&foroNumeroUnificado=0000&dePesquisaNuUnificado=2063499-31.2017.8.26.0000&dePesquisa=&uuidCaptcha=#?cdDocumento=23

212 MACIEL, Daniel Baggio. Comentários ao código de processo civil. (Angélica Arruda Alvim, Araken de Assis, Eduardo Arruda Alvim e George Salomão Leite coords.) São Paulo: Saraiva, 2016, p. 214 (como citado).

mantido o não conhecimento do writ em relação à apreensão da CNH e ao bloqueio dos cartões de crédito”213.

6.2.1 Análise crítica da decisão

Uma vez que as razões que conduziram o julgamento do writ em exame são praticamente as mesmas empregadas para a decisão do precedente em que se baseou (RHC 97.876/SP), também as críticas que lhe podem ser endereçadas coincidem com as encontradas no item 6.1.1 supra.

As especificidades do caso ficam por conta não dos fundamentos que sustentaram a decisão, mas dos dados da execução que se processa na origem. Ao contrário do primeiro caso, aqui as medidas coercitivas atípicas têm como pano de fundo um processo em fase de cumprimento de sentença, ou seja, uma execução de título judicial, ambiente apropriado para o uso dessa ferramenta.

As reflexões feitas ao longo desta pesquisa procuraram demonstrar as razões por que não se compactua com a posição – prevalecente, reconheça-se – à luz da qual o processual civil brasileiro passou a admitir medidas executivas atípicas em execuções fundadas em qualquer documento. Procurou-se demonstrar que a execução de títulos extrajudiciais não se abriu para os meios executivos atípicos, salvo após a depuração do título pelo julgamento de improcedência ou de parcial procedência dos embargos à execução, ou pela negativa de efeito suspensivo aos embargos por falta de plausibilidade do direito alegado.

Além do ambiente apropriado, a execução vinha de uma tramitação de quase quatro anos, ao longo dos quais a busca de bens do devedor, cirurgião plástico conceituado, resultou infrutífera. Estranhamente, as buscas de dinheiro em contas bancárias nunca foram bem-sucedidas; a declaração de bens e rendimentos do executado não descortinaram patrimônio; os dois veículos registrados em seu nome continham restrições; o imóvel que um dia lhe pertenceu foi perdido para outro credor. Não fosse isso bastante, sempre que intimado para colaborar com a execução e indicar bens passíveis de penhora deixou o executado de cooperar.

213

https://ww2.stj.jus.br/processo/pesquisa/?tipoPesquisa=tipoPesquisaNumeroRegistro&termo=201800731 349&totalRegistrosPorPagina=40&aplicacao=processos.ea

No entanto, quando deferida a medida coercitiva de suspensão do seu passaporte (dentre outras), houve impetração de habeas corpus no qual afirmaram os impetrantes que o paciente (executado) dispunha de compromisso inadiável no exterior (Los Angeles) entre os dias 11/05 e 20/05/2018. Para dizer o mínimo, é intuitivo que o executado, desfrutando de capacidade econômica para ir a Los Angeles e ali se manter por nove dias, dispõe de patrimônio para amortizar a sua dívida. Supondo-se, por hipótese, que a viagem fosse profissional e patrocinada, a ilação inevitável é a de que conta com prestígio na comunidade médica. E prestígio profissional usualmente importa repercussão patrimonial positiva.

Em resumo, o caso tem todos os contornos daqueles que caíram no gosto da doutrina quando pretende ilustrar o cabimento dos meios atípicos de execução. É dizer, trata-se de uma execução de título judicial; antes do deferimento das medidas atípicas houve a tentativa sem êxito de várias medidas típicas; o executado dá sinais de uma vida faustosa, mas não tem bens em seu nome. Enfim, não poderia existir cenário mais apropriado para a aplicação e manutenção dos meios coercitivos atípicos.

Atento a esses dados, a 1ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo deferiu a suspensão da CNH, do passaporte e dos cartões de crédito do devedor, visando a compeli-lo a adimplir a prestação. A decisão examinou detidamente as circunstâncias fáticas do caso, ponderando-as da seguinte forma:

No caso em tela, verdade é que até se chegou a identificar um imóvel de propriedade do recorrido, matriculado sob o nº. 3.807 do cartório de registro imobiliário da comarca de Cotia. Contudo, sobre tal bem já incidiam outras penhoras, vindo ele posteriormente a ser judicialmente alienado, mediante arrematação, para terceiro (R. 36 fl. 157).

Também foram identificados veículos, mediante pesquisa pelo sistema Renajud (fl. 103), todos com diversas restrições judiciais (fls. 159-160).

Chama a atenção, ademais, o fato de estarem as contas bancárias do devedor sem saldo, constatação que contrasta com sua condição de cirurgião plástico de renome, com pacientes famosos, dono de clínica especializada e que desfruta, de acordo com elementos trazidos aos autos, de elevado padrão de vida.

Como se não bastasse, mesmo estando com o nome negativado perante os órgãos de proteção ao crédito, por determinação do juízo da execução, desde janeiro de 2016 (fl. 139), não demonstra o agravado qualquer sinal de esforço para pagar o que deve.

Logo, medidas mais drásticas devem ser tomadas, de modo a compelir, com mais vigor, o devedor a proceder ao pagamento, sob pena de se admitir a inocuidade do provimento jurisdicional.

Nessa esteira, inexistindo óbice legal, tal como visto, devem as medidas pleiteadas pela agravante ser deferidas, à exceção do cancelamento do cartão de débito, porque em tese desnecessária, visto que não possui o agravado saldo em quaisquer de suas contas bancárias, tal como verificados em reiteradas tentativas de bloqueio online.

Diante do exposto, DÁ-SE PARCIAL PROVIMENTO ao recurso, para deferir as medidas atípicas de apreensão de carteira nacional de habilitação e do passaporte do executado, bem como o bloqueio de todos seus cartões de crédito, devendo o juízo de primeiro grau providenciar a expedição de ofício às competentes autoridades/empresas operadoras, para efetivação das indigitadas providências, restando indeferidos, apenas, o bloqueio dos cartões de débito.

No entanto, no julgamento do habeas corpus impetrado contra essa decisão, o relator no Superior Tribunal de Justiça, Ministro Luiz Felipe Salomão, em decisão monocrática, considerou ilegal e abusiva a medida atípica de apreensão do passaporte, valendo-se, no particular, do seguinte argumento:

Dessa forma, consubstancia coação ilegal e abusiva à liberdade de locomoção a decisão judicial de apreensão de passaporte como forma de coerção para o adimplemento de dívida civil representada em título executivo judicial, tendo em vista a evidente falta de proporcionalidade e razoabilidade entre o direito submetido (liberdade de locomoção) e aquele que se pretende favorecer (adimplemento de dívida civil), diante das circunstâncias fáticas do caso em julgamento. (original sem destaques)

A verdade, no entanto, é que o relator do habeas corpus, não obstante a menção de que levava em conta as circunstâncias fáticas do caso em julgamento, não fez nenhuma alusão ao seu conteúdo e ponderou abstratamente os direitos fundamentais em colisão.

Ou seja, sentenciou que o inadimplemento de dívida civil não justifica a restrição ao direito fundamental de livre locomoção, deixando de considerar (i) as diligências adotadas no caso para a localização de bens do devedor e (ii) o seu comportamento processualmente desleal e evasivo. Com essa abstratização da análise, absolutizou um direito fundamental em relação a outro.

Além disso, selecionou dentre os direitos fundamentais em colisão o direito de ir e vir, de um lado, e o direito ao “adimplemento de dívida civil”, do outro. Imagina-se que com direito ao adimplemento de dívida civil pretendeu o relator referenciar o direito fundamental de propriedade, do qual o crédito é uma manifestação inequívoca. De toda forma, faltou agrupar no extremo vencido da balança o direito fundamental à tutela jurisdicional adequada, efetiva e tempestiva, com cuja presença, e em vista das circunstâncias fáticas do caso, ver-se-ia que a restrição episódica à liberdade de ir e vir, notadamente porque ceifada apenas em um dos seus flancos (direito de ir e vir para fora do território nacional), era justificável como instrumento de coerção, exatamente como concluiu a decisão acoimada de coatora.

6.3 Recurso em habeas corpus nº 99.606/SP – Caso Celi José da Silva vs. Arnaldo