• Nenhum resultado encontrado

4.2 A DECISÃO JUDICIAL COMO OBJETO DE ESTUDO

4.2.2 Do Objeto Empírico

4.2.2.1 Habeas Corpus

O presente trabalho tem como foco conhecer como decide o STJ ao julgar habeas corpus que envolvam integrantes de organização criminosa, como referido. Desse modo, visando a melhor compreensão dos acórdãos que serão analisados, faremos breves considerações a respeito do HC, de suas hipóteses de cabimento, sem maior aprofundamento, para que se evite fuga do objeto desta investigação.

O habeas corpus é o remédio constitucional, instituído no Título dos direitos e garantias fundamentais da Constituição da República de 1988, que tem por finalidade a garantia da liberdade de locomoção do ser humano. É conhecido como “remédio”, justamente por ser o instrumento constitucional idôneo de que se pode lançar mão para sanar quaisquer restrições ou limitações ilegais e arbitrárias ao direito de liberdade. A expressão remédio adequa-se “à sua grandeza, à sua dignidade e à sua importância” (BUZAID, 1961, p. 193).

Samuel Sales Fonteles (2017, p. 11) destaca que,

De nada adiantaria a um documento constitucional proclamar direitos sem afiançá-los por meio de garantias, disso dependendo a própria força normativa da Constituição. (…) Atento a isso, o constituinte muniu os direitos de uma correlata proteção instrumental, embora nem sempre pareça nítida essa correlação (FONTELES, 2017, p. 11).

Assim, os direitos fundamentais são apresentados em normas declaratórias ou enunciativas, ao passo que as garantias são veiculadas em normas de caráter assecuratório ou instrumental. De acordo com Fonteles (2017, p. 13), os remédios constitucionais, como instrumentos assecuratórios, possuem três características básicas: natureza de ação judicial,

previsão no texto constitucional e finalidade de salvaguarda de direitos individuais ou coletivos. Convém frisar que, ao ser caracterizado como ação judicial, significa dizer que o remédio constitucional não se confunde com recurso, tampouco com incidente processual ou direito de petição. Trata-se, portanto, de ação judicial autônoma, em seu sentido estrito. Conclui-se que, “à luz das considerações tecidas linhas acima, é possível conceituar os remédios constitucionais como ações judiciais, previstas na Constituição, que tutelam direitos individuais ou coletivos” (FONTELES, 2017, p. 13).

O habeas corpus é, portanto, um remédio constitucional, ao lado do mandado de segurança, do mandado de injunção, do habeas data e da ação popular.

Consoante comando estampado no inciso LXVIII do art. 5º da CF/88, “conceder-se-á

habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação

em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder”. Entretanto, apesar de a Constituição de 1988 trazer características específicas e distinguir o HC do mandado de segurança, não inovou totalmente o constituinte, uma vez que a primeira Constituição a prever o habeas corpus foi aquela editada em 1981.

Porém, no seu nascedouro, o objeto do habeas corpus era sobremodo mais amplo, pois, nessa época, não se restringia à tutela do direito de locomoção, cumprindo também o papel do mandado de segurança. Nascia a chamada doutrina brasileira do habeas corpus, cujo expoente foi Ruy Barbosa. No STF, essa doutrina contou com a adesão do Ministro Enéas Galvão. Diferentemente dos dias de hoje, o habeas corpus surgiu entre nós como um instrumento de combate das ilegalidades em sentido amplo (FONTELES, 2017, p. 22).

Nesse sentido, pode-se afirmar que o habeas corpus é uma ação constitucional, distinta do mandado de segurança, para a proteção do direito de locomoção. Segundo José Cretella Júnior (1989, p. 144), habeas corpus é uma ação, mas acrescenta ainda que:

É o instrumento do direito processual penal, mediante o qual alguém, preso, detido ou ameaçado em seu direito de ir e vir, por ilegalidade ou abuso de poder, tem o direito subjetivo público de exigir, em juízo, do Estado, cumprimento de prestação jurisdicional, consistente na devolução imediata de seu “status quo ante” – a liberdade física de locomoção, ameaçada ou violada por ato arbitrário de autoridade (CRETELLA JÚNIOR, 1989, p. 144).

Para garantir o acesso ao HC a todos que se achem em situação de violação de direito ambulatorial, a CF/88 estabelece a sua gratuidade (art. 5º, LXXVII), ou seja, independe de recolhimento de custas processuais. É entendimento pacificado que a natureza jurídica do HC é de ação autônoma de impugnação. Vale dizer, não se trata de espécie de recurso, embora seja reiteradamente impetrado com a finalidade recursal, visando impugnar decisões judiciais.

Porém, podem-se destacar algumas razões pelas quais se afirma não se tratar de recurso: a) recurso pressupõe existência de processo, ao contrário do HC que pode ser impetrado independentemente da existência de ação penal; b) recurso destina-se à impugnação de decisões judiciais, ao passo que o HC é cabível também contra atos de particulares ou administrativos; c) os pressupostos para cabimento de recurso não são os mesmos pressupostos exigidos para que seja impetrado habeas corpus.

O Código de Processo Penal traz previsão semelhante ao texto constitucional, ao disciplinar o HC em seu art. 647 (“dar-se-á habeas corpus sempre que alguém sofrer ou se achar na iminência de sofrer violência ou coação ilegal na sua liberdade de ir e vir, salvo nos casos de punição disciplinar”), detalhando o seu processamento ao longo de 20 artigos.

Este remédio constitucional pode ser utilizado sempre que alguém sofrer ou esteja na iminência de sofrer violência ou coação ilegal. A contrário sensu, não havendo risco à liberdade, não é cabível o habeas corpus. É o que se verifica na Súmula da Jurisprudência 693 do STF: “Não cabe habeas corpus contra decisão condenatória a pena de multa, ou relativo a processo em curso por infração penal a que a pena pecuniária seja a única cominada”.

O Código de Processo Penal enumera, em seu art. 648, sete hipóteses meramente exemplificativas nas quais se considera presente a coação ilegal: I - quando não houver justa causa; II - quando alguém estiver preso por mais tempo do que determina a lei; III - quando quem ordenar a coação não tiver competência para fazê-lo; IV - quando houver cessado o motivo que autorizou a coação; V – quando não for alguém admitido a prestar fiança, nos casos em que a lei a autoriza; VI - quando o processo for manifestamente nulo; VII - quando extinta a punibilidade.

Os HC´s podem ser classificados como liberatórios, preventivos, profiláticos e trancativos. Para Constantino (2001, p. 40; 2015, p. 150) o HC liberatório ou repressivo destina- se ao ataque ao constrangimento ilegal, visando a liberação do indivíduo vítima de coação concreta já praticada, que restringe a sua liberdade de locomoção. Os habeas corpus preventivos, por sua vez, têm como missão o afastamento de ameaça concreta de constrangimento ilegal, ainda não efetivado, ou seja, busca-se afastar um mal prometido. Por fim, o HC denominado profilático, que se fundamenta no risco de constrangimento ilegal, servindo para atacar situações em que não há violência ou ameaça, mas nas quais exista a possibilidade de que elas venham se concretizar. Embora Constantino opte por classificar o HC profilático como sinônimo de trancativo, é possível também os cindir para compreende que o HC profilático destina-se a suspender atos processuais e o HC trancativo teria a finalidade de trancar ação penal ou inquérito policial em curso.

Existe ainda o habeas corpus denominado substitutivo de recurso. Esta nomenclatura refere-se ao fato de o HC ser interposto para impugnar decisão contra a qual há recurso próprio e específico. Ocorre, basicamente, na hipótese de o impetrante, após ter negado o habeas

corpus anteriormente impetrado, optar por lançar mão de novo habeas corpus, na instância

superior, em vez de interpor o recurso previsto em lei. A opção pelo remédio constitucional era justificada pela celeridade de tramitação, dada a sua simplicidade. A jurisprudência dos Tribunais mudou o entendimento e passou a não aceitar o HC, quando cabível a interposição de recurso ordinário, apontando a inadequação da via eleita. Entretanto, o STJ tem se posicionado pelo não conhecimento do HC, mas, verificada flagrante ilegalidade, concedido a ordem de habeas corpus de ofício. Em resumo, o Tribunal afirma que não deve julgar o HC por ser inadequado para o caso, mas, em se tratando de flagrante violação de direito, concede ao réu ou investigado a ordem para que seja cessada a ilegalidade. De todo modo, atinge-se o objetivo almejado.

De acordo com Fonteles (2017, p. 33), “se, por um lado, impetrar o habeas corpus substitutivo afigura-se benéfico ao paciente, sua admissão implica certa banalização do habeas

corpus, além de uma adulteração das competências enumeradas pela Constituição”.

Adotando essa linha de entendimento, ao analisar os dados obtidos, podemos verificar que, a 5ª Turma do STJ não conheceu 10 dos 32 habeas corpus que julgou. Verificaremos também que a 6ª Turma conheceu todos os HC´s impetrados, mas, por outro lado, negou a ordem em aproximadamente 2/3 dos casos que lhe foram submetidos.

Uma outra razão para o não conhecimento do HC reside no fato de não se admitir dilação probatória nessa ação constitucional. Isso porque, o HC tem o condão de tutelar o direito líquido e certo que sofra lesão ou ameaça de lesão. O direito líquido e certo é definido como “aquele que não desperta dúvidas, que está isento de obscuridades, que não precisa ser aclarado com o exame de provas em dilações; que é, de si mesmo, concludente e inconcusso” (CRETELLA JÚNIOR, 1989, p. 30). Resumidamente, seria o direito comprovado de plano, sem a necessidade de produção de prova, a qual deve ser pré-constituída e produzida pelo impetrante.

Nesse sentido tem decidido tanto do STJ quanto o STF, que entendem que a jurisprudência “é firme no sentido de não admitir o conhecimento de habeas corpus quando os autos não foram instruídos com as peças necessárias à confirmação da efetiva ocorrência do constrangimento ilegal” (STF, HC 97.368, rel. Min. Ricardo Lewandowski; e RHC 92.608, rel. Min. Eros Grau).

No quesito competência, nos aterremos aquela atribuída ao STJ, por ser o órgão que proferiu as decisões que constituem o objeto desta pesquisa. Em matéria de HC, compete ao

STJ julgá-los quando a autoridade coatora ou o paciente (pessoa que sofre a coação) for governador de Estado e do Distrito Federal, desembargador dos Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal, membro dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal, dos Tribunais Regionais Federais, dos Tribunais Regionais Eleitorais e do Trabalho, membros dos Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios e os do Ministério Público da União que oficiem perante tribunais.

São de sua competência julgar também os habeas corpus quando o coator for tribunal sujeito à sua jurisdição, Ministro de Estado ou Comandante da Marinha, do Exército ou da Aeronáutica, ressalvada a competência da Justiça Eleitoral. Compete ainda a este Tribunal o julgamento de recurso ordinário em habeas corpus decididos em única ou última instância pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos Tribunais de Justiça dos Estados, do Distrito Federal e Territórios, quando denegatória a decisão, nos termos do art. 105, II, “a”, da CF/88.

As matérias criminais são julgadas, no STJ, pela 5ª e 6ª Turmas, compostas por cinco Ministros cada uma. Desse modo, os habeas corpus sempre serão julgados por estes órgãos no STJ, salvo em hipóteses especialmente previstas em lei, nas quais poderão ser objeto de análise da Corte Especial.

4.2.2.2 Do Caminho Percorrido: a escolha das decisões

O objeto empírico desta pesquisa é constituído por 61 acórdãos do STJ, prolatados em sede de habeas corpus e recursos em habeas corpus. Este Tribunal disponibiliza os julgados38

em seu sítio e possui uma variedade de opções de pesquisa. A base “pesquisa de jurisprudência” foi escolhida, uma vez que possibilita uma busca mais completa. Para localizar o acórdão em sua integralidade (inteiro teor), há duas opções de busca: “revista eletrônica de jurisprudência” e “inteiro teor”.

Inicialmente, foi realizada a busca na ferramenta “pesquisa livre”, constante das opções de pesquisa de jurisprudência da corte, com o filtro ‘“organização criminosa’ e habeas”, onde selecionamos os julgamentos de habeas corpus relacionados a fatos praticados após a edição da Lei 12.850/2013, delimitando o período compreendido entre setembro de 2013 e dezembro

38 De acordo com Veçoso, Pereira, Perruso, Marinho, Babinski, Wang, Guerrini, Palma e Salinas (2014, p. 127),

um dos problemas que se pode encontrar na análise de jurisprudência é o fato de os Tribunais não disponibilizam a totalidade de suas decisões nos seus sistemas de pesquisa de jurisprudências.

de 2018 com o uso de operadores booleanos (códigos e símbolos disponibilizados pelos bancos de dados eletrônicos para auxiliar os usuários em suas pesquisas). Com este procedimento, identificamos julgamentos de habeas corpus e recursos em habeas corpus realizados pelo referido Tribunal, acessando, em seguida, o inteiro teor do julgamento na ferramenta correspondente (“inteiro teor”). A etapa posterior consistiu na identificação e classificação dos fundamentos e o sentido da decisão da Corte.

De posse das decisões selecionadas, passamos a analisar as informações dos habeas

corpus e recursos em habeas corpus manejados junto ao STJ, em especial identificando: 1)

crime praticado; 2) nome da organização criminosa; 3) estado da federação; 4) ano do julgamento; 5) tipo decisão (concedida a ordem, denegada, não conhecimento do HC ou do recurso); 6) razão para denegar ou conceder.

Aliado a estes procedimentos de coleta de dados, também foram quantificados os processos em que figuram determinadas organizações criminosas conhecidas por atuarem em todo o território nacional e por praticarem grandes rebeliões em presídios. Trata-se do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV).

Com efeito, realizamos uma análise quantitativa dos dados, com a finalidade de apresentar um contexto atual da judicialização das questões envolvendo o crime organizado perante o STJ, identificando o comportamento do tribunal, verificando possível alteração de comportamento durante o período analisado. Essa etapa da pesquisa mostra-se de fundamental importância para a adequada compreensão da conjuntura em que são proferidas as decisões, uma vez que, segundo Mills (2016, p. 10) precisamos mapear as terminologias de motivos, identificando os vocabulários e localizando-os historicamentee em situações específicas.

Ao utilizar estas ferramentas e procedimentos, encontramos 4829 decisões do STJ que trouxeram em seu texto a expressão habeas corpus, enquanto apenas 731 acórdãos não veicularam este termo. Considerando que além da competência para julgamento dos HC, o STJ também tem competência para julgar, em recurso ordinário, os habeas corpus decididos nas hipóteses do art. 105, II, “a” da CF, optamos por incluir as decisões proferidas em RHC no objeto empírico desta pesquisa. Para delimitar melhor o objeto de análise, inserimos mais um filtro no critério de busca, o número da Lei de Organização Criminosa (BRASIL, 2013a).

Com efeito, foram encontrados 61 acórdãos sobre o tema, entre HC e RHC, que constituem o material empírico sobre o qual nos debruçamos nesta pesquisa.

4.3 VOCABULÁRIOS DE MOTIVOS E ANÁLISE DO DISCURSO COMO