2.3 C ORPOS , REPERTÓRIOS , INTELIGÊNCIAS CRIATIVAS : DESESTABILIZAR DE SABERES E O PRINCÍPIO DA
2.4.1 Habitar um território: conhecimentos de base
Nas práticas esse aspecto esteve relacionado ao momento inicial de instrumentalização, momento dedicado ao desenvolvimento de competências de base relacionadas à composição espacial, ao reconhecimento do território cênico – das práticas que serão desenvolvidas – e ao reconhecimento de si mesmo, bem como práticas de integração no grupo no sentido da construção de confiança. Trata-se do estabelecimento de um território em comum, posto que a criação em teatro (ou dança) envolve o habitar um território – conhecer as regras desse território. Aqui destaco a importância do trabalho com as abordagens somáticas do movimento, promovendo o reconhecimento de cada um e dos demais, em conexão direta com as perspectivas da acessibilidade atitudinal.
O exercício que abria as Oficinas era sempre o mesmo, estabelecendo um ritual de início das práticas. Nos colocávamos no centro da sala, formando um círculo, separadas por uma distância que permitisse movimentos amplos dos braços. Iniciávamos então uma mobilização
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de articulações, começando pelos pés. Em contato com o chão ou com o apoio para os pés e na cadeira de rodas, fazíamos movimentos circulares, dentro das possibilidades de cada uma, com o objetivo de mobilizar a articulação da região dos tornozelos. A posição do grupo em círculo permitia que fizéssemos a prática juntas, mas, mais do que isso, que pudéssemos nos observar mutuamente. Sabendo da liberdade para que cada participante desenvolvesse o movimento de acordo com o que era mais confortável para si, não havia a ideia de copiar o movimento, mas o círculo permitia que acompanhássemos a diversidade de modos de realização do movimento. Para que não dirigíssemos a atenção apenas ao exterior, eu intercalava momentos indicando para que as participantes percebessem como a determinada parte do corpo movia – pois aos poucos passávamos pelas articulações de joelhos, quadril, tronco, braços e pescoço – e para que percebessem as sensações envolvidas, as modificações de sensações de acordo com o modo de mover, reconhecendo, a partir de diferenças sutis, qual o modo mais confortável de realizar o movimento. Esse exercício nos informou que a participante que utilizava cadeira de rodas poderia ficar na posição vertical eventualmente, por exemplo, sem que fosse necessário que ela verbalizasse e explicasse através da palavra sobre suas possibilidades. Além do entendimento sobre o funcionamento e as possibilidades do próprio corpo, na autopercepção, as abordagens somáticas estimulavam a liberdade para encontrar seu próprio modo de mover, ou seja, o modo confortável, sabendo que seguir a proposta não significava repetir um movimento realizado por um líder.
No desenvolvimento das práticas na Oficina, pude perceber questões metodológicas, comunicacionais e atitudinais. De modo geral, no primeiro semestre de 2017, início das oficinas, as principais percepções foram as relativas às alterações nas propostas de exercícios e jogos. As alterações diziam respeito aos modos de indicação, para que todas as participantes fossem incluídas, e aos ajustes em relação aos focos dos exercícios e jogos, de modo que, respeitando as diferentes estruturas corporais, nas possibilidades e limitações das participantes, fosse possível atingir o objetivo de cada proposta. Por exemplo, no exercício de mobilização das articulações, apresentado no parágrafo acima, havia duas indicações iniciais: para as participantes na posição vertical e para a participante na cadeira de rodas o peso do corpo estava suportado por bases diversas, o que precisava ser levado em conta em minha indicação. Assim, eu indicava que quem estivesse com os pés no chão percebesse os dois pés tocando o chão, com as pernas em uma abertura aproximada à largura do quadril, enraizando os pés e espalhando o peso do corpo sobre eles, compartilhando o peso com chão, percebendo tendências a deixar o peso concentrando na ponta ou nos calcanhares; já quem estivesse sentado deveria perceber os
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pés tocando o suporte para os pés na cadeira de rodas, caso os pés estivessem apoiados, e a região do quadril, com especial atenção aos ísquios, levando a uma leve mobilização da coluna percebendo a sutil oscilação do peso entre a base da coluna/sacro, os ísquios e a base das coxas compartilhando o peso com a cadeira. Essas modificações não dizem respeito apenas às indicações, mas à busca de um entendimento mais amplo sobre como cada participante estaria mobilizando as determinadas regiões de seu corpo.
Os exercícios e jogos servem para instrumentalizar as participantes, desenvolvendo competências específicas e possibilitando a existência de um chão em comum, mas também envolvem aspectos criativos relativos às composições cênicas, posto que muitas vezes o exercício ou jogo pode ser o mote para alguma criação (o start de uma criação) ou algo de seus elementos pode ser retomado no momento da criação.
Um exemplo é o exercício Bando, no qual as participantes se movem pelo espaço, sendo que em algum momento uma pessoa assume a liderança do bando, propondo um movimento que será seguido instantaneamente pelas demais. Nesse exercício, modifiquei o foco, que passou a ser seguir a base do movimento, e não copiar fielmente o movimento realizado como em sua versão tradicional. Quando propus o exercício pela primeira vez com o coletivo, não estava certa sobre como seria a resposta das participantes, tendo em vista as possibilidades e limitações diversas em relação aos movimentos. Poderia acontecer de as participantes realizarem propostas de movimentos que não poderiam ser realizados pela pessoa com deficiência, e desta se sentir desconfortável, ou de o grupo não estar atento aos seus movimentos, que seriam menos amplos. Para evitar essas respostas, as indicações que ofereci ao grupo foram para que as participantes estivessem atentas ao coletivo, e que evitassem iniciar o exercício respondendo com movimentos rápidos (o que poderia ser nosso padrão de movimento), permitindo que o coletivo efetivamente se reconhecesse como um bando que responde junto às proposições da liderança.
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Imagem 31: Participantes desenvolvem o exercício Bando pela segunda vez no sexto encontro.
Optei por não fornecer indicações que destacassem as limitações das participantes, mas ao frisar a resposta coletiva e a atenção aos padrões de movimento, o coletivo pôde responder de modo adequado para que a participação fosse equalizada. Ainda assim, não havia pausas, e as participantes estavam constantemente trocando a posição de liderança. Quando inseri músicas, os ritmos passaram a contagiar as respostas de movimentos, sem que se perdesse a resposta coletiva e a participação equalizada. Aos poucos, surgiram danças, composições que ora reuniam todas em um pequeno espaço da sala, ora explodiam pela sala toda. Logo o exercício se tornou um dos preferidos do coletivo, sendo muitas vezes utilizado como start para o início de composições (quando eu então inseria novas indicações, como a formação de dois bandos, o uso de repetição, pausas, sons, palavras, ritmos específicos ou a inclusão de algum dos recursos sensíveis). Porém, em outro semestre, com um maior número de pessoas sem deficiência, precisei modificar as indicações, pois o grupo não estava conseguindo se perceber de modo total, levando a pouca participação propositiva da participante com deficiência e a constância de duas ou três participantes assumindo a liderança. Esse grupo apresentava maior dificuldade de concentração, o que exigia indicações constantes no início dos encontros de modo a levar as participantes a ampliarem seus focos para a prática.
178 Imagem 32: Participantes desenvolvendo exercício Bando. Eu observo realizando anotações no diário de bordo.
Outro exercício muito utilizado foi o Sim e Não. Em duplas, as pessoas estão uma de frente para a outra. Uma participante inicia falando para a colega o movimento que vai realizar no corpo desta. Após, realiza o movimento na colega. Esta pode aceitar, e ser manipulada, ou negar resistindo à movimentação proposta pela colega. Em seguida quem foi manipulada propõe, e assim segue-se intercalando quem propõe, sempre com as participantes retornando ao ponto zero – inicial – antes da nova proposta. Na continuação, há algumas variações que podem ser utilizadas, como, por exemplo, não retornar ao ponto zero ou manter sempre um ponto de contato físico na continuação das proposições. Na variação com a indicação de não retornar ao ponto zero, em determinado momento indico um sistema de pergunta e reposta, no qual a participante que realiza o movimento fica na posição final em que posiciona sua parceira, e esta também se mantém nesta posição do movimento para propor nova movimentação à colega, propondo movimentos a partir do final da proposta anterior. A dupla vai encontrando uma fluidez nas movimentações, até o momento em que indico que não é mais necessário indicar verbalmente o movimento que será realizado, mas propô-lo diretamente.
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Não é necessário realizar o movimento tal qual foi verbalizado, o mais importante é a agência de quem está sendo manipulada (na escolha em responder sim ou não), a confiança para que a colega conduza o movimento e o estímulo à exploração de movimentos na relação do duo, ainda que o movimento seja realizado de forma diferente da proposta por conta das possibilidades de cada corpo. Em relação a esse exercício, as modificações principais tiveram relação com a velocidade do movimento – indiquei que, após verbalizar, a participante propositora realizasse o movimento no corpo da colega lentamente, de modo a ambas reconhecerem possibilidades e limites, sendo que qualquer comunicação entre a dupla, reportando desconforto ou qualquer outra informação, poderia ocorrer a qualquer momento – e com o modo de proposição por parte da participante com deficiência. Como ela estava sentada na cadeira de rodas, havia limites para tocar em algumas partes do corpo da colega e conduzir assim o movimento. Dessa forma, ela solicitava que a parceira ficasse próxima da cadeira. Em momentos de atritos, quando nos deparávamos com alguma dificuldade na realização das propostas (como será detalhado no subcapítulo 2.6 a respeito do Sim e não), a criatividade e inventividade nos auxiliavam na proposição de ajustes.
O Sim e não foi uma proposta bastante utilizada, pois ela auxilia no reconhecimento das possibilidades corporais, mas, respeita o tempo de cada participante na descoberta da relação com a colega. Ou seja, algumas participantes já exploravam movimentos mais amplos desde o início da proposta, sem ficarem restritas a imagens mentais do que a colega poderia ou não realizar. Outras, precisavam de mais tempo, explorando inicialmente movimentos de pequena amplitude. O exercício desenvolve a empatia, o cuidado com o corpo do outro, o senso de agência, e, uma das características mais importantes, a ultrapassagem do medo em relação ao corpo da colega. Aos poucos, as participantes foram desenvolvendo a sensação de se sentirem confortáveis ao tocar no corpo das parceiras de forma propositiva – propondo efetivamente movimentos, conduzindo movimentos, o que é bastante diferente de outros exercícios de CI nos quais ambas respondem ou das propostas do método Feldenkrais, em que cada uma conduz seu próprio movimento . Ou seja, as participantes puderam exercitar na prática a ideia de que não era preciso ter medo de machucar a colega, pois, com atenção e responsabilidade compartilhada, elas eram capazes de mobilizar seus corpos sensivelmente. Nossa relação com os corpos é, de modo geral, permeada de receios e tabus. Basta recordar como nos sentimos quando alguém esbarra em nosso corpo na rua ou o susto inicial quando alguém nos toca. Quando em contato com uma estrutura corporal muito diversa da minha, especialmente quando isso está ocorrendo pelas primeiras vezes, é comum que nos sintamos um pouco perdidos, que tenhamos receio de
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machucar o outro. Assim, o tempo para conhecer o outro, desenvolvendo a confiança e reconhecendo um território em comum – relativo às práticas e aos corpos que o habitam – é fundamental.
No décimo encontro da Oficina, no período 2017.01, em uma avaliação, a participante C, que têm deficiência física, compartilhou com o coletivo que já se sentia mais confiante para realizar as propostas, seja dos exercícios, seja nas composições que envolviam improvisação, e que, aos poucos, percebia que já julgava menos suas respostas, tanto nas práticas da Oficina quanto em seu cotidiano. A participante E, por sua vez, destacou como havia sido importante reconhecer as possibilidades corporais e os encaixes entre os corpos, que ampliavam as possibilidades para as composições e desenvolviam uma conexão entre as participantes. Ainda, ela indicou como estava ampliando seu olhar na relação com o outro, na questão dos padrões de movimento a que estava acostumada. As participantes C, E e F destacaram, também, o ambiente de segurança oferecido pela Oficina, de como, coletivamente, havíamos conseguido estabelecer um espaço no qual elas se sentiam confortáveis para se experimentarem criativamente, mesmo com as dificuldades sobre não saber o que fazer em alguns momentos de improvisação, ou seja, mesmo sem ter um “controle total”.
Já no segundo semestre de 2017, com as participantes familiarizadas com os modos de operar do processo criativo, começou a ficar em evidência o aspecto do jogo, permeado pelos interesses de cada participante, além disso, investimos cada vez mais na proposição de relação e atrito entre as materialidades da cena, com maior uso de projeções, músicas, objetos, usos diferenciados do espaço. Uma das composições elaboradas neste período, com o grupo em maior número, se desenvolveu a partir do exercício Bando, incorporando comentários das participantes e, na sequência, tendo como pano de fundo a projeção de um vídeo de abertura do Programa de televisão Fantástico. Com a projeção, junto ao som da vinheta de abertura do Programa, o bando formado pelas participantes acolheu na composição os corpos que dançavam a coreografia no vídeo projetado. Aos poucos, ficou estabelecido que a liderança do bando estava com as bailarinas do vídeo, sendo que os princípios dos movimentos realizados por elas passaram a ser assimilados pelas participantes que se deslocavam por todo o espaço da sala, sempre mantendo relação entre elas e delas com a projeção. Neste dia, o clima festivo permeou todo o encontro, e a composição foi retomada na etapa de partituras sintéticas no estágio 02 – exploração - dos Cycles Repère, avaliada no estágio 03 e passou a compor a composição estruturada do quarto estágio, como parte do acontecimento. Tal composição, nomeada Dança
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com vinheta do Fantástico, foi recuperada também no semestre 2018.01, seguindo como uma das preferidas das participantes.
182 Imagem 34: participantes retomando a composição Dança com vinheta do Fantástico.
Os procedimentos de base - abordagens somáticas e Cycles Repère - apresentados no início deste capítulo, foram determinantes para o estabelecimento do coletivo, revelando elementos importantes que pautaram as relações entre as participantes e que indicam aos objetivos e valores dessa pequena comunidade que se estruturou tendo como ponto primeiro o teatro. A visibilidade nas escolhas e decisões, a valorização dos diferentes repertórios, a liberdade aliada à segurança, o respeito às necessidades individuais são elementos que contribuíram para a efetivação da diversidade e da coletividade como valores do grupo.
Para a participante C, as conversas e avaliações promoveram a visibilidade do processo e valorização das participantes enquanto propositoras:
Todo mundo sabe o que está fazendo, e, não só fazer, mas sabe que pode propor, que pode discutir. A gente tem uma flexibilidade pra decidir o que a gente vai fazer. E eu acho isso extremamente importante, e acho que isso deu certo, e isso também fez com que a gente se sentisse autorizada, não seria a palavra autorizada, mas se sentisse com vontade pra participar e discutir, e isso faz com que a gente tenha mais responsabilidade, que aí é outro ponto que... eu acho que isso também torna a gente responsável, que a gente sabe que a gente tem responsabilidade sobre isso. (Participante C, depoimento)
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As práticas, assim, auxiliaram no estabelecimento de um terreno comum por meio do desenvolvimento de competências necessárias à manutenção das oficinas, mas, também, colaboraram para o desenvolvimento da confiança e o reconhecimento das participantes em um espaço de cuidado e preservação coletivos. Isso não foi estabelecido apenas por meio do diálogo, mas efetivou-se a partir das práticas de base. Vale ressaltar que um dos princípios básicos do Contato Improvisação é que todas as pessoas envolvidas sejam responsáveis pela prática, assim, tenho atenção constante ao meu corpo e sou responsável por mim e pela outra, mas essa responsabilidade existe atrelada à confiança: sou responsável pela colega pois sei que ela tem a mesma atenção sobre seu próprio corpo.
A responsabilidade é compartilhada, e é componente de base da postura das participantes, aliada à disponibilidade, comprometimento e respeito. Os exercícios de conscientização e encaixes corporais, o foco da atenção nas sensações físicas por meio das abordagens somáticas no método Feldenkrais e no CI, assim como a atmosfera estabelecida nos encontros, promoveram o exercício contínuo da confiança e da responsabilidade compartilhada, visto que essas não estão imunes a desestabilizações e devem ser constantemente alimentadas pelo coletivo, também como um ato de atenção às mudanças individuais e coletivas. Assim, considero que a postura das participantes está permeada do que Dubatti nomeia “amigabilidade” no campo do teatro.
Jorge Dubatti, ao tratar das relações do espectador com o acontecimento teatral, indica a necessidade da “amigabilidade”, uma “disponibilidade espiritual com os acontecimentos” (ROMAGNOLLI; MUNIZ, 2014, p. 259). Ainda que Dubatti estabeleça um olhar mais voltado para a relação artista-espectador, amplio aqui o foco para as relações entre todos os envolvidos em um processo criativo. A noção de amigabilidade reflete a ideia de diálogo, de convívio, de partilha. “Uma ideia de companheiro – que vem do latim, compartilhar o pão. O convívio é justamente a mesa, uma reunião para beber e comer” (DUABTTI apud ROMAGNOLLI; MUNIZ, 2014, p. 259).
Dubatti (2008), indica, assim, a ampliação das dramaturgias teatrais, com a presença de dramaturgias conviviais. A noção sustenta a ideia da cena enquanto acontecimento convivial. O acontecimento se coloca na relação de pessoas em determinado espaço compartilhado, excedendo as perspectivas de teatro como linguagem (perspectiva semiótica), como teatralidade na organização do olhar do outro (perspectiva antropológica) e como feito social (perspectiva
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sociológica) (DUBATTI, 2010)176. Coloca-se como central, desse modo, a reunião de pessoas, o convívio. Ainda segundo Dubatti, “chamamos convívio ou acontecimento convivial à reunião, de corpo presente, de artistas, técnicos e espectadores em uma encruzilhada territorial cronotópica (unidade de tempo e espaço) cotidiana (uma sala, a rua, um bar, uma casa, etc. no tempo presente)” (DUBATTI, 2008, p. 28, trad. nossa). O que se vislumbra, assim, é um processo baseado no convívio, no qual a atitude de amigabilidade se coloca como central. A amigabilidade só parece possível de ser gerada na partilha, na relação, no contato.
Ao conversarmos sobre o engajamento das participantes para refletir sobre as práticas, a participante F compartilha:
Eu acho que tem algo que a dinâmica do grupo nos ensinou. Que é o amor pelo que fazemos - parece forçado, mas não é - e a valorização do outro, eu não sei como chamar, mas tipo aquilo da gente pegar o objetivo dos outros pra nós, não no sentido de fazer por ele ou fazer a mesma coisa, mas de se engajar pra ser agente no que é do outro. Uma forma de trabalhar a empatia ou o não egoísmo ou egocentrismo, ou seja, querer ajudar, como qualquer uma ajudaria a outra. (Participante F, depoimento)
Ann Cooper Albright, em um ensaio em que busca revisar as noções ocidentais de empatia, com auxílio do Contato Improvisação, me auxilia a compreender mais sobre amigabilidade. Albright questiona a possibilidade de uma abordagem da empatia com ênfase no aspecto físico mais do que no estado psicológico, ou seja, como uma prática cinestésica.
Mantendo nossa atenção para o físico, não estou tentando sugerir que esse domínio seja mais autêntico, natural, “real” ou menos culturalmente fundamentado que o psicológico. Pelo contrário, estou bastante interessada em colocar em primeiro plano as amarras sociopolíticas do treinamento corpóreo. Mas é crucial para nós reconhecermos a rapidez e a facilidade com que tendemos a ocultar o sentimento com as emoções, estabelecendo uma posição de sujeito baseada na posse (tenho emoções) em vez de uma baseada na sensação (estou sentindo). 177 (ALBRIGHT, 2013, p. 239) O foco nas sensações pode nos dar a chance de perceber a transitoriedade e mutabilidade do que sentimos na relação com o outro, compreendendo que não precisamos tomar posicionamentos conclusivos ou dar uma resposta sobre qual a relação que estabelecemos com