3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
3.1. Ligas de alta entropia
3.1.8. HEAs com efeito TRIP
Seguindo uma tendência observada no desenvolvimento de aços de alto desempenho, a redução da estabilidade da microestrutura monofásica de ligas de alta entropia pode ser motivada com o objetivo de elevar a resistência mecânica do material. Dois principais mecanismos são promovidos: endurecimento devido à interface entre as fases presentes na microestrutura e endurecimento induzido por transformação de fase. A combinação entre o aumento de resistência mecânica promovido pela solução sólida supersaturada típica de ligas de alta entropia e o promovido pela redução da estabilidade de fase pode resultar em valores de limite de escoamento muito elevados [47].
Ligas metálicas que sofrem transformação de fase induzidas por deformação plástica são denominadas TRIP. O desenvolvimento de uma liga de alta entropia bifásica TRIP é fortemente promissor devido à possibilidade de se aliar maior resistência mecânica, promovida pela dificuldade de deslizamento de discordâncias tanto na solução sólida supersaturada quanto nas interfaces entre as fases presentes, e elevada ductilidade, ocasionada pela ativação da transformação de fase como micromecanismo adicional de deformação [47].
A estratégia de viabilizar a metaestabilidade da microestrutura monofásica, tanto em altas temperaturas quanto à temperatura ambiente, através de ajustes composicionais foi avaliada no sistema Fe80-xMnxCo10Cr10, com x igual a 45, 40, 35 e 30. As ligas foram fabricadas segundo a seguinte rota: fusão em forno de indução à partir dos metais constituintes puros, laminação a quente até uma redução de 50 % a 900°C, tratamento térmico de homogeneização a 1200°C por 2 horas e resfriamento em água. Em seguida, um refino de grão adicional foi promovido através de laminação a frio até uma redução de 60 % e recozimento por 3 minutos a 900°C [47].
A caracterização microestrutural das ligas revela uma estrutura monofásica cfc semelhante à da liga de Cantor nos corpos de prova referentes às composições
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Fe35Mn45Co10Cr10 e Fe40Mn40Co10Cr10. A redução no teor de Mn para 35 % conduz à ocorrência de pequenos traços de uma segunda fase com empacotamento hc. Através de uma maior diminuição do teor de Mn, resultando na composição Fe80Mn30Co10Cr10, a microestrutura bifásica γ (cfc) + ε (hc) desejada, com 28 % da fase ε, é obtida [47]. A evolução descrita pode ser visualizada na Figura 24.
Figura 24 - Padrões de difração de raios-X e micrografias referentes ao sistema de ligas Fe80-xMnxCo10Cr10, com x igual a 45, 40, 35 e 30. Adaptado de [47]
Comparando as duas primeiras ligas descritas, as quais são monofásicas, é evidenciada uma transição nos micromecanismos de deformação de movimentação de discordâncias na liga com 45 % de Mn para maclagem induzida mecanicamente na liga com 40 % de Mn, conforme exposto anteriormente. Essa observação permite estabelecer uma relação entre a redução do teor de Mn e a redução da energia de falha de empilhamento do material [47].
A conversão parcial da fase cfc em uma fase hc na liga Fe80Mn30Co10Cr10 trata- se de uma transformação martensítica, ocasionada pelo resfriamento rápido à partir da microestrutura monofásica estável em altas temperaturas. Por ser uma transformação adifusional, ambas as fases, γ e ε, apresentam composição química idêntica. Análises de composição revelam que as mesmas consistem em soluções sólidas, com os elementos constituintes homogeneamente distribuídos em um empacotamento cfc e hc, respectivamente, o que faz com que sejam denominadas ‗fases de alta entropia‘. Dessa forma, o efeito de endurecimento por solução sólida é maximizado em ambas as fases.
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Além disso, como já mencionado, o efeito de endurecimento ocasionado pelo interface γ / ε também é importante. A fase ε se dispõe na matriz γ, rica em maclas de recozimento, na forma de camadas laminadas que variam de espessuras nanométricas até em torno de 10 µm [47].
Assim como em todas as variações de composição aqui apresentadas, o emprego de tratamentos termomecânicos que resultem em refino de grão é muito efetivo na melhoria da resistência mecânica da liga de alta entropia TRIP bifásica. Mesmo antes do refino de grão, sua performance em deformação plástica por tração à temperatura ambiente é comparável à da liga de Cantor com pequeno tamanho de grão[47]. Essas duas informações podem ser confirmadas através da observação da Figura 25.
Figura 25 - Comparação entre as curvas de tensão x deformação referentes a diferentes tamanhos de grão da liga de alta entropia TRIP bifásica e a liga de
Cantor [47].
A evolução microestrutural da liga TRIP bifásica Fe80Mn30Co10Cr10 quando submetida a deformação plástica por tração foi estudada [48]. Nos primeiros estágios de deformação, a fase γ é responsável pela maior acomodação da deformação plástica. O primeiro mecanismo ativado na mesma é a transformação martensítica induzida mecanicamente. As abundantes falhas de empilhamento, características de ligas cfc que possuem baixa energia de falha de empilhamento, atuam como núcleos para a formação da nova fase. A fase ε formada consiste na sobreposição de monocamadas atômicas de falhas de empilhamento. Desse modo, uma densidade mínima de falhas de
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empilhamento é requerida para que o TRIP seja ativado. Além do mecanismo de deformação descrito, a formação de falhas de empilhamento e o deslizamento de discordâncias também é observado no interior da matriz γ [47, 48].
Em estágios mais avançados de deformação, a transformação martensítica induzida mecanicamente na matriz prevalece como mecanismo de deformação plástica dominante. No entanto, concomitantemente, a ocorrência de nanomaclagem induzida por deformação, formação de falhas de empilhamento e deslizamento de discordâncias passa a ser observada na fase ε. Vale ressaltar que a porção da fase ε que é formada em decorrência da têmpera não contribui para a deformação da liga [47, 48].
Em resumo, a redução da estabilidade da fase cfc, tanto em altas quanto em baixas temperaturas, acarreta na formação da fase ε, a qual é a principal responsável pela melhoria de performance da liga à temperatura ambiente. Primeiramente, a estrutura bifásica resultante da têmpera apresenta um grande número de contornos de fase, os quais atuam como obstáculos à movimentação de discordâncias. Além disso, a fase martensítica formada mecanicamente é capaz de acomodar uma grande quantidade de deformação plástica por conta de seus múltiplos micromecanismos de deformação. Tais fatores acarretam na elevação da capacidade de encruamento do material, o que se traduz em uma melhor combinação de resistência e ductilidade [48].
Além da liga quaternária acima demonstrada, uma liga de alta entropia TRIP bifásica, composta por cinco elementos principais, foi desenvolvida com sucesso. A mesma apresenta composição Fe34Mn20Ni6Co20Cr20. A principal motivação para a expansão do fenômeno TRIP observado em ligas quaternárias para quinárias é o maior aproveitamento do efeito de endurecimento por solução sólida [48].
A escolha de composição leva em consideração o efeito do Ni sobre a estabilização fase γ. O teor de níquel no material deve ser suficientemente baixo, de modo a não suprimir a transformação de fase através da extensiva estabilização da fase cfc. No entanto, pequenos teores de Ni podem ser desejáveis para conferir certa estabilidade à matriz, o que resulta em um controle da taxa de transformação martensítica induzida mecanicamente, de modo a estendê-la até estágios mais avançados de deformação. Tal ajuste composicional pode conferir maior ductilidade ao material, devido ao retardo do empescoçamento ocasionado pela extensão da transformação γ → ε até maiores deformações [48].
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