1.3. Formação Ideológica
1.3.1. Hegemonia, Bloco Histórico e Intelectuais Orgânicos
Desenvolver uma abordagem sobre de bloco histórico, hegemonia e intelectuais
orgânicos – cunhadas por Gramsci na perspectiva do materialismo histórico – articulada à discussão da ideologia e suas implicações nas práticas sociais e políticas encontra sua justificativa na importância que tal abordagem representa nos estudos acerca do movimento proletário.
Devemos enfatizar que, para Gramsci (1981), a ideologia é o cimento, a base, o
alicerce do bloco histórico. De acordo com o teórico, todo bloco histórico – que é o grupo
dominante ideologicamente que representa o bloco sócio-econômico no poder ou o bloco hegemônico – é constituído pela sociedade civil (base e conteúdo ético da sociedade; lugar onde
se elaboram e difundem as ideologias) e política42. Em outras palavras, o bloco histórico, em
Gramsci, é uma nova camada intelectual, constituída por intelectuais orgânicos que não se consideram nem independentes, nem atuam de forma apartada das relações de produção de sua época. Em palavras gerais, podemos pensar que ele reúne o conjunto da estrutura e da superestrutura, representando as classes subalternas e o sistema hegemônico – numa relação de dominação desta sobre aquela.
Relativamente ao quadro conceitual das noções cunhadas por Gramsci, brevemente
apresentamos a hegemonia como a unidade ideológica que está em posição de direção intelectual
e moral numa dada formação social. Quanto ao intelectual orgânico, trata-se do sujeito agente intelectual que tem o papel de organizar a infra-estrutura (povo) com vistas a articular a
42 Esta concepção de bloco histórico foi fundamental para as formulações de teóricos posteriores a ele, como Althusser, por exemplo.
emancipação do povo da submissão e exploração capitalista. Observamos que estas noções serão aprofundadas ao longo das reflexões na presente secção.
A análise gramscista da hegemonia, conforme Portelli (1977: 80), leva a seguinte subdivisão – sobre a qual ponderamos que não é rígida e cujos fins são metodológicos – de grupos sociais no interior do bloco histórico: (1) a classe fundamental que dirige o sistema hegemônico (a classe hegemônica); (2) os grupos auxiliares que servem de base social à hegemonia; e (3) as classes subalternas que são aquelas excluídas do sistema hegemônico. Entre a classe dirigente e as classes subalternas, há um regime de dominação com uso predominante ou exclusivo da sociedade política. Dependendo da predominância de um ou outro momento superestrutural, a hegemonia traduz-se na prática por um regime ditatorial ou regime de transformação. Como exemplo de prática ditatorial, podemos pensar nos governos fascistas, nacional-socialistas, etc., cujos líderes, na verdade, não são exemplos de intelectuais orgânicos, mas intelectuais que se tornaram inorgânicos. Eis porque as ideologias fascistas têm legitimidade. Percorrendo a história brasileira, no último século, encontramos o Governo Vargas que se caracterizou por práticas ditatoriais de implementação de políticas interessantes aos segmentos patronais, de atrelamento das organizações sindicais operárias, de perseguições e extradições de lideranças políticas, e, simultaneamente, de práticas políticas sedutoras da classe proletária com a concessão de vários direitos à classe. Tudo isso em nome de um nacionalismo, do fortalecimento do Estado Nacional em relação às oligarquias internacionais. Assim, ganhou a simpatia das classes burguesas – as quais representava – e das classes proletárias. O atrelamento dos sindicatos ao Governo Vargas foi tão fortemente orquestrado, através da legislação e controle sindical rígido, que o mesmo se manteve nas décadas posteriores. Decorrente da relação de submissão e dependência dos sindicatos ao Estado, o governo brasileiro detinha o poder de permitir ou não o seu funcionamento; ao permiti-lo, o Estado comportava-se como uma instância reguladora (e “castradora”) dos sindicatos, sempre no sentido de desconstruir concepções anarquistas, socialistas, comunistas, chegando a patrocinar a formação de vários quadros sindicais, nos Estados Unidos, sob os preceitos nacionalistas burgueses. A herança desta história de inversão de princípios sindicais proletários se desdobra em uma organização sindical relativamente frágil após a abertura políticas nos anos de 1980, visto que muitos dos sindicatos proletários, sejam dos camponeses, sejam dos operários urbanos, continuam ainda hoje sem uma identidade realmente proletária, cumprindo apenas uma função assistencialista.
Ainda para fins de ilustração de sistema hegemônico e de sistema ditatorial, aproveitamos para trazer um pouco da história soviética. Na primeira metade do século XX, mais especificamente nas duas primeiras décadas, os proletários russos sob a liderança de Lênin protagonizaram um processo de organização proletária, com a integração de operários e camponeses, que culminou na implantação do Estado Bolchevique ou Proletário, cuja característica principal era o centralismo democrático. Portanto, o bloco proletário consagrou-se
no poder num sistema hegemônico. No entanto, após a morte de Lênin e com Stalin à frente do
poder, iniciou-se um processo de burocratização que transformou este sistema hegemônico dos
proletários num sistema ditatorial, em que as instâncias de participação proletária nas decisões do
Estado Bolchevique, os sovietes, bem como as instâncias partidárias, foram perdendo espaço e substituídas progressivamente por mecanismos de controle anti-democráticos, rígidos e sangrentos do governo stalinista.
Diante destes exemplos e pensando nas experiências de empreendimentos de autogestão, cujas características que estão na centralidade são as relações solidárias, democráticas, transparentes e autônomas, precisamos pensar qual deve ser o papel dos intelectuais orgânicos em uma sociedade que visa às condições de transformação das relações de produção. Acrescentemos a esta questão, a preocupação com a manutenção desses intelectuais como verdadeiros orgânicos, evitando que se tornem inorgânicos e façam prevalecer/repercutir princípios que não mais correspondam aos proletários. Nesta perspectiva, nossa reflexão encontra alicerce nas formulações de Gramsci acerca da hegemonia, dos intelectuais orgânicos, dos fins éticos para que são utilizados e servem os conhecimentos.
Ao tratar sobre o Estado, Gramsci (1980) afirma ser este a soma da sociedade política e sociedade civil, cuja hegemonia é revestida de coerção. Afinal, (o leitor pode estar
perguntando) o que é hegemonia? De acordo com Gramsci (1981: 16), hegemonia é “a unidade
ideológica de todo o bloco social, que é cimentado e unificado precisamente por aquela determinada ideologia”. Podemos pensá-la como um fato filosófico, cultural e moral, antes de ser político; como direção intelectual e moral de uma classe economicamente ativa. Assim, a grosso modo, uma classe é hegemônica quando consegue manter articuladas “consensualmente” os grupos sociais heterogêneos. Pensemos ainda a noção da hegemonia como o aprofundamento do pensamento marxista-leninista.
Para Portelli (1977), a característica essencial mais pensada, nos últimos anos, de hegemonia consiste no conceito “histórico-político”. A origem desta noção está na obra e ação
política de Lênin que a concebe como a ditadura do proletariado43. Considerando o vínculo entre
hegemonia e ditadura do proletariado, Gramsci (1923-1924) pondera que a hegemonia do proletariado depende de alianças de classes subalternas que lhe permitirá mobilizar-se contra o capitalismo e o Estado burguês – assim, a noção de hegemonia remete à idéia de alargamento da base social que dirige a sociedade civil. Ele afirma que “se a hegemonia é ético-política, não pode deixar de ser também econômica, de ter seu fundamento na função decisiva que o grupo dirigente
exerce no núcleo essencial da atividade econômica” (Apud Portelli, 1977: 63, 64).
Nesse sentido é que tomamos as ponderações de Gruppi (1978) para pensar sobre o conceito de hegemonia segundo Gramsci, que é da ordem do político, do econômico, do moral e do ideológico. Nas palavras de Gruppi, temos o seguinte raciocínio:
É a conexão de teoria e prática que permite a Gramsci afirmar que a teoria e a realização da hegemonia do proletariado (e com esse termo, referindo-se a Lênin, indica a ditadura do proletariado) têm um grande valor filosófico, já que a hegemonia do proletariado representa a transformação, a construção de uma nova sociedade, de uma nova estrutura econômica, de uma nova organização política e também de uma nova orientação ideológica e cultural. Como tal, ela não tem conseqüências apenas no nível material da economia ou no nível da política, mas no nível da moral, do conhecimento, da “filosofia”. Portanto, a revolução é entendida por Gramsci – e ele continuamente o repete – como reforma intelectual e moral. (1978: 02)
Neste fragmento, o conceito de hegemonia é posto como algo que extrapola o funcionamento da estrutura econômica e a organização política da sociedade, uma vez que opera também sobre o modo de pensar, sobre as orientações ideológicas. Ao afirmar que a relação entre teoria e
realização da hegemonia do proletariado tem grande valor filosófico, Gruppi (idem) refere-se ao
princípio teórico-prático da hegemonia – segundo o qual a hegemonia do proletariado promove a transformação da sociedade e também do modo de pensar – associando as contribuições teóricas
de Lênin à filosofia da práxis. É por isso que, segundo Gruppi (idem: 04, 05), “Gramsci diz que a
43 A ditadura do proletariado, conforme Portelli (1977: 62, 63), é a “direção” e a “dominação” da sociedade, isto é, o controle das sociedades civil e política, cujo resultado só pode ser obtido se a classe operária alargar sua base social de direção a partir de um sistema de alianças. O autor observa que, embora aparentemente Gramsci – assim como Stalin – considere o conceito leninista de hegemonia próximo do de ditadura do proletariado, Gramsci distingue as duas noções.
máxima contribuição de Lênin à filosofia está na ditadura do proletariado, está na obra de transformação revolucionária. (...) É o caso de Lênin, dirigente da ditadura do proletariado, como teórico e como prático”. Em linhas gerais, a partir das ponderações de Gruppi (1978), podemos inferir que Gramsci quando fala de hegemonia em Lênin entende-a como a ditadura do proletariado, que é “a forma política na qual se expressa o processo de conquista e de realização
da hegemonia” (idem, p. 05).
Ancorados ainda nas discussões de Gruppi (idem) acerca da concepção gramsciana de hegemonia e da sua proximidade conceitual da leninista, destacamos a seguinte passagem em que o autor afirma que:
A hegemonia é capacidade de direção, de conquistar alianças, capacidade de fornecer uma base social ao Estado proletário. Nesse sentido, pode-se dizer que a hegemonia do proletariado realiza-se na sociedade civil, enquanto a ditadura do proletariado é a forma estatal assumida pela hegemonia. (1978: 05)
Aqui é pertinente chamar a atenção para o fato de que Lênin evitou, em suas formulações teóricas, o uso do termo “hegemonia”, preferindo a utilização da noção de “ditadura do proletariado”, exceto durante a revolução russa de 1905 em que a usou repetidas vezes.
Gramsci desenvolve consideravelmente a análise de Lênin – na verdade, Gramsci vai além de Lênin ao refletir pontos em que este estagnou – e mostra que o Estado é a combinação da sociedade política e sociedade civil. Conforme já referimos anteriormente, neste trabalho, a prática política de Lênin na dianteira do processo proletário que culminou na instauração do Estado Bolchevique foi muito importante para o trabalho de elaboração teórica de Gramsci sobre Estado, hegemonia e intelectuais orgânicos.
Quanto ao processo de luta pela hegemonia, precisamos ter presente que ela tem perfil e exigências diferentes nas fases pré-revolucionária, revolucionária e pós-revolucionária. Para Lênin, na fase pré-revolucionária, a conquista da hegemonia passa pela conquista do aparelho do Estado, ou seja, pelo controle da sociedade política. Fica evidente que Lênin é profundamente influenciado pelas condições de luta dos bolcheviques contra o czarismo russo, caracterizadas essencialmente pela violência. Pondera Gramsci (1979) de que isto não é regra, mas se trata de uma tese válida na situação concreta da sociedade russa, visto que o Estado russo tem grande poder em detrimento da sociedade civil que é frágil e primitiva. Considerando o
Ocidente, a conquista da hegemonia significa dar a direção intelectual e moral, conduzindo a sociedade civil, já que as instituições civis estão bastante desenvolvidas e têm uma relação diferente com o Estado. Eis um ponto em que os estudos gramscianos vão para além do pensamento de Lênin: mostra que a conquista da hegemonia se alicerça na combinação da sociedade civil e da sociedade política. Portanto, inversamente à análise leninista, a concepção de hegemonia em Gramsci é a primazia da sociedade civil sobre a sociedade política. De acordo com Gruppi (1978: 11), uma diferença de significado entre Gramsci e Lênin relativamente à hegemonia, está no fato de que, segundo o entendimento leninista, ela se constitui sobretudo na função dirigente, ao passo que, na concepção gramsciana, hegemonia está relacionada, por vezes,
à capacidade dirigente e, por outras, à direção e à dominação. Em Lênin (Apud Gruppi, 1978),
encontramos a afirmação de que “Segundo o ponto de vista proletário, a hegemonia pertence a quem se bate com energia, a quem se aproveita de toda ocasião para golpear o inimigo; pertence àquele a cujas palavras correspondem os fatos e que, portanto, é o líder ideológico da democracia, criticando-lhe qualquer inconseqüência”, que revela, em linhas gerais, o elemento da decisão na ação revolucionária como condição fundamental à hegemonia.
Em função desta divergência, Portelli (1977) chama a atenção para o fato de que a diferença não se limita apenas à conquista do poder, mas à concepção de Estado. Se em Lênin, a luta pela conquista da hegemonia se projeta contra a classe dirigente que detém o aparelho de Estado, a direção ético-política; em Gramsci, o terreno essencial da luta se situa contra a classe dirigente na sociedade civil, visto que “o grupo que controla é hegemônico e a conquista da sociedade política coroa essa hegemonia, estendendo-a ao conjunto do Estado (sociedade civil mais sociedade política)” (Portelli, 1977: 65). Em suma, para Gramsci, a hegemonia representa a primazia da sociedade civil sobre a sociedade política, o que é inverso na concepção leninista. Conforme Portelli (1977: 65), “a concepção gramsciana da ‘sociedade regulada’, a condenação de qualquer ‘estadolatria’ mostra o caráter hegemonista da concepção gramsciana da ditadura do proletariado: esta é concebida como a direção ideológica (hegemonia, sociedade civil) e a dominação político-militar (ditadura, sociedade política) da classe operária”. Em outras palavras, trata-se da crítica que Gramsci faz em relação à ditadura do proletariado – questão que Lênin não conseguiu resolver. A base hegemônica significa, portanto, a dimensão ético-política acrescida da dimensão econômica.
Nesse sentido, a relação das forças na sociedade civil e política, em cada país e conjunto/grupo de países, deve ser avaliada cuidadosamente, exigindo um plano de estratégia revolucionária teorizada e aplicada com o devido respeito às peculiaridades sócio-culturais de cada realidade. Salientamos que, simultaneamente à avaliação e consideração da especificidade de cada realidade, a forte articulação proletária internacional não pode ser deixada de lado. Em outras palavras, podemos dizer que, apesar de a luta proletária pela hegemonia ser semelhante em âmbito internacional, não se pode esquecer ou desprezar as peculiaridades histórico-culturais de cada povo/nação. Deste modo, importa, sobretudo, explicar as condições de formação do proletariado em cada realidade sócio-histórica, e não tratá-la, simplesmente, como um bloco homogêneo.
Na perspectiva de análise da questão da hegemonia, nas fases revolucionária e pós-revolucionária, Staccone (1987: 45) lembra dois princípios de Marx: (1) “nenhuma sociedade assume para si encargos para cuja solução não existam as condições necessárias e suficientes”; (2) “nenhuma sociedade se dissolve ou pode ser substituída por outra, antes dela desenvolver e completar todas as formas de vida implícita nas suas relações”. As classes subalternas devem
conseguir distinguir uma crise conjuntural – fenômeno interno do bloco histórico – de uma crise
orgânica – conflito entre burguesia e proletariado. Enquanto que naquela, na crise conjuntural, a origem está no conflito entre os vários grupos sociais dominantes e o modo como devem conduzir as práticas políticas; na orgânica, a situação é altamente desgastante e coloca em jogo a hegemonia dominante.
Cabe aqui articular a noção de bloco ideológico ou intelectual que vincula os intelectuais à classe dirigente como um dos sustentáculos hegemônicos. Embora a primazia econômica da classe fundamental seja uma condição necessária para a hegemonia, ela não é suficiente. Faz-se necessária a formação de um bloco ideológico e, para tal, a articulação e
contribuição dos intelectuais. De acordo com Gramsci (Apud Portelli, 1977),
A hegemonia de um centro diretor sobre os intelectuais afirma-se através de duas linhas principais: 1) uma concepção geral da vida e uma filosofia que ofereçam aos aderentes uma “dignidade” intelectual, que crie um princípio de distinção e um elemento de luta contra as velhas ideologias que dominam pela coerção; 2) um programa escolar, um princípio educativo e pedagógico original que interessem e proporcionem atividade própria, no domínio técnico, a essa fração dos intelectuais, que é a mais homogênea e numerosa (os educadores, do mestre-escola aos professores universitários). (1997: 66)
Observamos que este pensamento revela, na sua essência, um verdadeiro processo de formação e desenvolvimento da própria sociedade civil. Considerando que a hegemonia, de modo geral, tem sido historicamente da classe burguesa, salientamos o quão importante é para o proletariado, ao conquistar sua hegemonia, contar com um bloco de intelectuais para fazer frente às tentativas de sobrevivência da antiga classe dirigente.
Em relação à segunda linha apontada acima, registramos nossa avaliação e preocupação quanto a sua implementação, tendo presente a situação escolar brasileira contemporânea que se caracteriza em um quadro geral de progressiva e intensa desvalorização social dos educadores: por um lado, a baixa remuneração econômica e as precárias condições de trabalho; e, por outro, a desqualificação técnica e formativa. Em conseqüência, observamos a crescente baixa auto-estima dos educadores que, por sua vez, vai repicando em estudantes e seus familiares. Nesse sentido, podemos dizer que a classe dirigente contribui com o atendimento de demandas de mercado, como a necessidade de indivíduos que tenham o mínimo de formação técnica, que sejam individualistas, competitivos e não críticos a tais demandas e nem à classe dirigente – o que representa uma ameaça à hegemônica burguesa. Razão pela qual as escolas operárias, criadas pela COB, foram tão reprimidas na Primeira República e as escolas do MST, surgidas após o período da Ditadura Militar, tão questionadas pela burguesia, cuja crítica tem eco na sociedade civil. Cabe registrar que estas escolas são reconhecidas institucionalmente apenas por partidos de esquerda, em governos locais – por exemplo, no RS, pela Frente Popular, constituída em uma aliança de partidos de esquerda, ou seja, partidos da classe proletária, na virada do século XX para XXI (1999-2002).
Portelli (1977) postula que o bloco ideológico (intelectual) exerce um duplo papel num sistema realmente hegemônico: por um lado, os intelectuais da classe dirigente orientam os intelectuais de outros grupos sociais, articulando uma certa solidariedade entre todos os intelectuais; e, por outro, os representantes da classe dirigente orientam, por intermédio do bloco ideológico dirigente, outras camadas sociais. Cabe observar que há uma prática bastante comum da classe dirigente no sentido da agregação dos intelectuais das classes subalternas à classe dirigente, com a finalidade de enfraquecer e até eliminar a direção destes grupos sociais (classes
subalternas). Tal prática é, na verdade, a cooptação, que objetiva o transformismo ou o
revisionismo. Trata-se, segundo Portelli (1977), de um processo ativo que traduz uma prática política da classe dominante que reflete a recusa de qualquer compromisso com as classes
subalternas; e, ao mesmo tempo, que atrai lideranças políticas destas classes subalternas, atrelando-as aos interesses da classe dirigente – enfim, o movimento que os dirigentes burgueses fazem para cooptar lideranças intelectuais das classes populares. Podemos dizer que é um processo de cooptação de intelectuais orgânicos das classes subalternas, que passam a ser inorgânicos para estas, na medida em que tais intelectuais se associam, se aliam ao bloco ideológico da classe dirigente. Esse processo permite observar a complexidade das relações entre a hegemonia (em que a sociedade civil predomina sobre a sociedade política) e a ditadura (primazia da sociedade política sobre a sociedade civil). Por um lado, a hegemonia utiliza o bloco dos intelectuais para orientar e controlar grupos auxiliares, levando em conta os interesses da classe dirigente burguesa; por outro lado, a dominação usa o bloco dos intelectuais para neutralizar as outras classes, ignorando totalmente seus interesses (destas outras camadas sociais). Quanto à questão da “cooptação”, podemos retomar nossas reflexões sobre as
políticas ditatoriais de Getúlio Vargas44, para pensá-las como parte essencial do processo de
degeneração do movimento operário brasileiro e, mais do que isto, como processo de rebaixamento econômico e de precarização das condições de trabalho em nome do “desenvolvimento industrial”.