4.2 Eficiência do tratamento da ETE Samambaia/Campinas – SP
4.2.4 Helmintos
Ovos de helmintos foram detectados em 76,9% e 46,1% das amostras de afluente e efluente, respectivamente. Já as larvas de helmintos foram detectadas
quantificados (Tabela 06) e identificados como sendo do gênero Ascaris sp., e do grupo dos cestódeos e, nematódeos de vida livre.
Tabela 06: Quantificação média de ovos de helmintos L-1 e valores mínimos e máximos.
Amostras Mín. Máx. Média Desvio-padrão
Afluente ND 1,5 x 103 5,3 x 102 5,0 x 102
Efluente ND 6,0 x 102 8,6 x 101 1,7 x 102
ND= não detectado
Nas amostras de afluente, ovos de helmintos foram detectados em 10 das 13 amostras (76,9%) analisadas com estimativa média de 526,8 ovos L-1. A média de ovos de helmintos encontrados nas amostras de afluente neste estudo superou o estimado para o Brasil, entre 166 a 202 ovos de helmintos por litro. Porém, ainda está dentro dos valores usuais estimados para países em desenvolvimento, de 70 a 3.000 ovos por litro (JIMENES-CISNEROS, 2007).
Já nas amostras de efluente, ovos estavam presentes em 6 das 13 amostras (46,1%) com média 86,3 ovos L-1. Apesar de Jimenez-Cisneros (2007) relatar que, normalmente, ovos de helmintos encontrados em amostras de esgoto não estejam viáveis, a inviabilidade dos ovos observados neste trabalho não foi verificada, utilizando o método de coloração com o corante Trypan blue (VICTORICA e GALVÁN, 2003). Todos os ovos de helmintos observados, tanto nas amostras de afluente quanto nas de efluente, estavam aparentemente viáveis. Ressalte-se que em estudo realizado por Hachich et al (2013) ovos de Ascaris sp. viáveis foram encontrados no efluente de 2/4 ETE na região metropolitana de São Paulo avaliadas.
Neste estudo, além do teste de coloração, a microscopia óptica mostrou vários ovos de Ascaris sp. e de outros nematódeos larvados, sendo possível a observação de larvas vivas (movimentação das larvas dentro do ovo).
Analisando os valores da média, desvio-padrão e valores máximos e mínimos, verifica-se que ambas as amostras apresentaram grande variação no número de ovos de helmintos detectados ao longo do ano (confirmado pelo desvio padrão). Isso é inerente à detecção de organismos em amostra ambiental (natural), uma vez que existem muitas variáveis que influenciam diretamente tais valores, como a sazonalidade, quantidade de sólidos (suspensos e sedimentáveis), vazão entre outros, que oscilam numa ETE (SHARAFI et al, 2012).
A variação na quantificação de helmintos de acordo com as estações do ano será mais discutida posteriormente.
Os métodos utilizados para amostras ambientais também podem influenciar os resultados. Em um dos poucos trabalhos que contemplam a detecção e avaliação de inativação de ovos de helmintos (Gomila et al, 2008), não foi observado este organismo em nenhuma das amostras avaliadas, porém, a metodologia utilizada teve um tempo para a sedimentação dos ovos de 2 horas, inferior ao preconizado pela metodologia do NOM (1996), utilizada neste trabalho que é de três etapas de sedimentação por 24 horas cada. Assim, diferenças e/ou erros de aplicação das técnicas de detecção dos ovos podem gerar resultados falso-negativos.
Foi observada uma média de 82% (0,8 log) na redução dos ovos de helmintos pelo processo de lodos ativados da ETE Samambaia. Este resultado é inferior ao relatado por Wen et al (2009) que obteve redução de quase 3 log (99,9%) de ovos de Ascaris sp. em processos de lodos ativados em sistema de bancada. Entretanto, os autores atribuem esta redução às condições hidráulicas bastante estáveis do sistema em escala de laboratório, não sofrendo as interferências que ocorrem em sistemas reais. O resultado também é inferior ao encontrado por Sharafi et al (2012) que relataram uma remoção de até 2 log (99%) dos ovos de helmintos no sistema de lodos ativados em escala real.
a aplicação dos processos estudados. Porém, verificou-se que o efluente continha uma maior quantidade de larvas do que de ovos. Como o efluente é a suspensão sobrenadante, resultante do processo de lodos ativados, grande parte dos organismos presentes no esgoto bruto é sedimentada após associação à matéria orgânica e aos flocos formados pelo processo, o que possivelmente, ocorre com os ovos presentes no afluente.
Quando comparado com os resultados encontrados na literatura, verifica-se que, nas condições de escala real da ETE Samambaia, foi recuperado um número menor de ovos. No entanto, vale ressaltar que muitos dos trabalhos disponíveis na literatura (KONÉ et al, 2007; PECSON et al, 2007; MUN et al, 2009) avaliam, para detecção e quantificação dos ovos, o lodo proveniente do processo de tratamento e não o efluente, tornando a comparação de remoção, entre matrizes tão diferentes,inadequada.
Por outro lado, um grande número de larvas de nematódeos foi observado, e elas foram detectadas em todas as amostras, tanto de afluente quanto de efluente, com média de 1.985 e 1.578 larvas L-1, respectivamente. De forma semelhante ao observado na quantificação dos ovos, a detecção de larvas também apresentou grande variação (Tabela 07). A redução do número de larvas pelo processo de tratamento da ETE foi em média de 20% (0,2 log).
Tabela 07: Quantificação média de larvas de helmintos L-1 e valores mínimos e máximos.
Amostras Mín. Máx. Média Desvio-padrão
Afluente 1,4 x 102 4,6 x 103 2,3 x 103 1,5 x 103
Efluente 6,7 x 101 5,6 x 103 1,8 x 103 1,8 x 103
Não existem ou não foram encontrados trabalhos científicos relatando a quantificação de larvas após o processo de lodos ativados, assim não é possível a comparação do resultado obtido.
Ao se avaliar os valores encontrados para a ETE com relação à todos os parâmetros avaliados, verifica-se que mesmo tendo sua eficiência dentro do intervalo relatado por outros pesquisadores, o processo de lodos ativados da ETE Samambaia ainda permite que uma grande quantidade de patógenos seja dispersa no ambiente.
Este tipo de avaliação (do esgoto bruto e/ou tratado) tem sido cada vez mais indicado por pesquisadores da área de parasitologia, saneamento e de saúde pública, como uma importante forma de conhecimento da epidemiologia dos patógenos e do grau de contaminação dos mananciais usados como fontes de captação de água para tratamento e distribuição (ROBERTSON et al, 2006).