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1. INTRODUÇÃO

1.2. A Toxicidade das Catecolaminas

1.2.4 Hepatotoxicidade

O consumo de MDMA como droga recreacional tem sido responsável pelo aparecimento de vários casos de falência hepática aguda em jovens. A lesão hepática induzida pela MDMA abrange desde formas benignas, análogas a hepatites víricas (171-173), até formas severas, como falência hepática subsequente a necrose hepática maciça (174-177). Os mecanismos envolvidos na lesão hepática induzida pela MDMA e anfetaminas em geral não estão ainda completamente esclarecidos. Alguns investigadores consideram que este efeito tóxico possa resultar de uma reacção idiossincrática, dada a existência de vários casos em que o seu consumo não provoca lesão hepática (172, 174). No estudo efectuado por Andreu et al. (1998) verificou-se a presença de elevado número de eosinófilos no tracto portal, o que poderá estar relacionado com algum mecanismo de hipersensibilidade (178). Contudo, diversos factores poderão influenciar a hepatotoxicidade da MDMA, nomeadamente o teor de catecolaminas, a oxidação das aminas biogénicas, as variações do fluxo sanguíneo hepático, a hipertermia, além do possível efeito directo da MDMA e/ou dos seus metabolitos.

Um mecanismo proposto para explicar a hepatotoxicidade da MDMA é a activação, pelas aminas biogénicas libertadas por acção deste composto, dos receptores adrenérgicos localizados na artéria hepática. Como resultado ocorre a vasoconstrição desta artéria, podendo surgir hipóxia e consequente lesão hepática (179). Adicionalmente, a activação desses receptores parece estar associada à diminuição dos níveis de GSH (180, 181), ao aumento da respiração mitocondrial e da concentração de cálcio livre intracelular (182), fenómenos potencialmente tóxicos para a célula.

Um outro mecanismo proposto para explicar a hepatotoxicidade desta droga de abuso é a oxidação das aminas biogénicas libertadas por acção da MDMA. Leonardo e Azmitia (1994) demonstraram a inibição competitiva da MAO-A (preferencialmente) e MAO-B pela MDMA (183). Nestas circunstâncias, as catecolaminas podem sofrer auto-oxidação (Figura 1.7Figura 1.7) com as consequências já anteriormente abordadas.

Outro factor importante na indução da lesão hepática parece resultar do metabolismo oxidativo destes compostos. Foi já descrito que a MDMA é metabolizada em microssomas de fígado de rato pelo sistema citocromo P450 a aductos com a GSH (84). O mecanismo de formação do aducto é em tudo semelhante ao descrito para a neurotoxicidade da MDMA (Figura 1.12Figura 1.12). Em conformidade, foi observado que a MDMA induz a depleção de GSH em estudos in vivo em ratos (184) e ratinhos (185) e em estudos in vitro em hepatócitos isolados de ratinhos (186) e de rato (187). Deste modo, a depleção dos níveis hepáticos de GSH poderá constituir um passo inicial para a acção hepatotóxica da MDMA. Contudo, permanece por demonstrar se a depleção de GSH é suficiente para causar a morte celular ou se expõe as células a outros efeitos tóxicos, também induzidos pela MDMA, como por exemplo a hipertermia.

O mecanismo de depleção da GSH foi abordado em estudos realizados em suspensões de hepatócitos isolados de rato incubados com MDMA e os seus metabolitos, nomeadamente a MDA (188), a N-Me-α-MeDA (187) e a α-MeDA (188). Para todos os compostos testados, a diminuição dos níveis de GSH foi dependente da concentração e do tempo de incubação. Adicionalmente, verificou- se que a depleção de GSH induzida pelos catecóis N-Me-α-MeDA (nas

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concentrações de 0,8 mM e 1,6 mM) e α-MeDA (na concentração de 1,6 mM) era mais acentuada do que a induzida pela MDMA e o seu metabolito MDA (este dois demonstraram causar um grau idêntico de depleção), sendo acompanhada por uma maior perda de viabilidade celular e diminuição mais acentuada da actividade das enzimas antioxidantes GPX, GR e GST. Por outro lado, ao contrário do que sucedeu com as concentrações mais elevadas, para as concentrações mais baixas não se observaram diferenças significativas entre a depleção da GSH induzida pela MDMA ou MDA e a dos seus metabolitos. Estes factos sugerem a saturação do metabolismo hepático (etapa da desmetilenação) na presença de concentrações mais elevadas destes compostos.

Ainda no âmbito dos estudos acima referidos, verificou-se que a depleção de GSH induzida pela MDMA e pelos seus metabolitos não foi acompanhada por um aumento proporcional de formação de GSSG (186-189), o que indicia a formação de conjugados com a GSH. Em concordância, foram identificados e caracterizados, pelo mesmo grupo de investigação, os aductos da GSH com a α - MeDA, nomeadamente a 2-(glutation-S-il)-α-MeDA e a 5-(glutation-S-il)-α-MeDA, em hepatócitos isolados incubados com a MDA ou a α-MeDA (188). A formação de conjugados da α-MeDA (190) e da N-Me-α-MeDA (162) com a GSH foi também observada em preparações de microssomas de fígado humano e de rato, respectivamente. Contudo, ao contrário dos resultados discutidos anteriormente, nos estudos em hepatócitos isolados, os mesmos autores verificaram que a MDMA e a MDA não exercem toxicidade em células tubulares proximais (CTPs) renais de rato e humanas (189) ou em cardiomiócitos isolados de rato (191) nas condições adoptadas nos ensaios. No entanto, os metabolitos desmetilenados da MDMA induziram toxicidade significativa em todos os modelos in vitro usados (187-189, 191). Deste modo, os resultados obtidos sugerem que o metabolismo da MDMA com formação da N-Me-α-MeDA e α-MeDA é essencial para a expressão da hepatotoxicidade, nefrotoxicidade e cardiotoxicidade induzida pela MDMA, pelo menos, in vitro.

Um outro facto bem conhecido acerca da toxicidade da MDMA relaciona-se com a indução de hipertermia, uma condição pró-oxidante que pode levar a danos hepatocelulares irreversíveis in vitro (192). De facto, foram observados in vivo

danos hepatocelulares na hipertermia semelhantes aos observados em consumidores de “ecstasy” (193). Estudos realizados por Carvalho et al. (1997) com hepatócitos isolados de rato revelaram que a elevação da temperatura de incubação de 37 ºC para 41 ºC causava a diminuição dos níveis de GSH, aumento de GSSG, peroxidação lipídica e morte celular (194). Deste modo, tendo em consideração a diminuição dos níveis de GSH e a hipertermia como consequência da ingestão de MDMA, parece plausível que estas condições podem ter efeitos deletérios sinérgicos. Com o objectivo de avaliar a existência desta sinergia Carvalho et al. (2001) avaliaram e compararam a extensão da diminuição dos níveis de GSH mediada pela MDMA, a peroxidação lipídica e a perda de viabilidade celular em hepatócitos isolados de ratinho sob condições normotérmicas (37 ºC) e hipertérmicas (41º C) (186). Nesse estudo constatou-se a potenciação da depleção de GSH mediada pela MDMA pelas condições de hipertermia, facto que poderá dever-se a um aumento do metabolismo desta droga de abuso e contribuir para a hepatotoxicidade já verificada em humanos (186).

Apesar dos efeitos concomitantes da MDMA (aumento da temperatura corporal e efeito directo da droga nos níveis de GSH através da formação dos correspondentes aductos) não terem sido, até ao momento, reportados em humanos, é provável que estes efeitos possam ocorrer uma vez que estes também expressam as enzimas envolvidas no referido metabolismo (160).

O metabolismo hepático da MDMA parece ser, também, essencial para o efeito apoptótico desta droga de abuso. Estudos recentes de Montiel-Duarte et al. (2002 e 2004) demonstraram que a MDMA tem uma acção pró-apoptótica em hepatócitos isolados de rato e em culturas de células Ito (195, 196). Verificou-se, igualmente, que a apoptose induzida pela MDMA em culturas de células Ito foi acompanhada por uma diminuição dos níveis intracelulares de GSH e formação de ROS (196). O pré-tratamento com o antioxidante ditiocarbamato de pirrolidina anulou a produção de ROS mas não preveniu a apoptose induzida pela MDMA, sugerindo que o mecanismo apoptótico da MDMA é independente do stress oxidativo. Adicionalmente, verificou-se a potenciação da acção apoptótica da MDMA, pela adição de GSH ou N-acetilcisteína, e a redução da extensão da

apoptose induzida pela MDMA, pelo pré-tratamento das células com quinina (inibidor do citocromo P450 2D6). Desta forma, estes resultados sugerem que um metabolito da MDMA, possivelmente após conjugação com a GSH, possa contribuir para a apoptose induzida por esta droga.