CAPÍTULO 4: APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS DA
4.1 Sarah – Origem familiar e espaço social
4.1.4 Herança familiar e trajetória educacional: singularidades e regularidades
Outro ponto que chama atenção no relato de Évelin é a dificuldade que ela tem em reconhecer que o seu pai já esteve em situação de rua.
Quando a mãe dele morreu, eles dividiram a herança. Eles eram em doze, só que um dos irmãos do meu pai já tinha morrido antes da mãe dele morrer. Daí a esposa dele foi lá dividir a herança, que é a casa da minha avó. Daí ele foi pra lá porque ele morava numa barraca na Cidade Tiradentes (Évelin).
Uma barraca? Ele estava em situação de rua?
É... não. É mais ou menos situação de rua. Uma barraca de fruta, que ele dormia [..] Ele tomava conta lá porque era outra pessoa que vendia. Só que ele dormia lá pra tomar conta, pra ninguém roubar durante...
Mas ele tinha residência convencional?
Não, era tipo essas barracas de rua, assim bem pequenininha [...]. Mais ou menos parecido situação de rua. Mas era uma barraca que ele tomava conta lá, ele dormia. Porque ele foi pra Cidade Tiradentes pra incomodar minha mãe, né? Porque minha mãe foi pra lá, daí ele foi pra lá também.
Mas minha mãe não voltou com ele, daí ele ficou numa barraca lá, na Cidade Tiradentes [...] Ele aposentou, mas ele gastava tudo de álcool, de bebida alcoólica. Até hoje. Ele foi lá pra Brasília com uma irmã dele de Guarulhos, ela levou ele pra lá, daí ele tá lá até hoje. Dividiram a herança, com a parte dele, ele comprou uma chácara pequenininha lá em Santo Antônio, em Goiás, lá na divisa com o Distrito Federal.
No relato de Évelin não fica evidente, mas sutilmente é possível perceber que ela atribui ao pai, especialmente ao uso de álcool, o motivo das mudanças ocorridas na sua vida e na vida da sua família, a saber: a mudança de um bairro de classe média que tem como característica a valorização da cultura escolar por um bairro que ela considera que as condições socioeconômicas levam as pessoas a uma não valorização dessa cultura.
“Porque ele foi pra Cidade Tiradentes pra incomodar minha mãe, né?”, “Ele aposentou, mas ele gastava tudo de álcool, de bebida alcoólica. Até hoje”.
Semelhante a Sarah, é possível afirmar o peso da origem familiar sobre a trajetória social de Évelin. No entanto, embora haja tais semelhanças na origem familiar de ambas, a trajetória educacional de Évelin é totalmente distinta da trajetória educacional não só de Sarah, mas também da sua família, fato este que aponta para a necessidade de maior foco na investigação e análise de outros fatores, como herança familiar e trajetória educacional, para compreensão dessas trajetórias distintas, foco que será dado a seguir.
É natural que haja, no primeiro momento, a ilusão de reinvindicação de singularidade da trajetória particular do sujeito. No entanto, para compreender a trajetória social e educacional de um agente social é necessário analisar a dimensão relacional das posições sociais que a família ocupa articulada com outros elementos da trajetória social e abandonar verdades universais, como advertem alguns autores já referenciados neste trabalho, é o caso de Bourdieu, 2007, Dubar, 1998, Rodrigues, 2016 e Zago, 1998.
Nesse sentido, é possível considerar que mesmo que Évelin seja herdeira de certas disposições semelhantes à classe social em que a sua família estava inserida, as relações estabelecidas por Évelin fora do seio familiar, sobretudo na escola em que estudou no bairro do Ipiranga durante o ensino fundamental, podem ter incidido sobre a formação de esquemas de percepção, apreciação e ação distintos da sua família.
Aplicado à educação, a ideia de disposição se traduz, concretamente, na forma como os sujeitos de cada grupo social tendem a investir maior ou menor dedicação e recursos financeiros na trajetória educacional dos herdeiros/filhos, de acordo como percebem maiores ou menores as probabilidades de sucesso (BOURDIEU, 2008).
Ainda assim, como apontado por Zago (1998), embora a mobilização familiar tenha papel significativo na trajetória educacional do sujeito, para compreensão dessa trajetória é necessário considerar as relações complexas entre vários outros elementos, por exemplo, sua trajetória social e o capital social.
Em seu relato fica nítido o investimento que Évelin faz no capital escolar, mesmo não tendo investimento nem incentivo da sua família. Ela atribui a falta de incentivo dos seus pais por eles não saberem o que cobrar dela e que eles também não tinham nenhuma expectativa ou projeto com relação à sua escolaridade.
Não, meus pais nunca cobraram nada de...saía pra escola, nunca cobraram nada. Porque também eles não estudaram, menos do que eu e os meus irmãos, né? Então não tinha como eles cobrar, que eles nem sabia como cobrar, né? (Évelin).
Você acha que eles tinham alguma expectativa?
Não, era só, não obrigava, tipo ia pra escola naturalmente, né? Quando não tinha aula, não ia.
Mesmo seu irmão tendo concluído o ensino médio e sua irmã concluído o ensino médio e ter feito um curso de auxiliar de enfermagem, Évelin é a primeira da família a ingressar no Ensino Superior.
Com exceção do pai, Évelin é a única a ter ficado em situação de rua. Sua mãe trabalha como auxiliar de limpeza, seu irmão é metalúrgico e pizzaiolo e a sua irmã trabalha como auxiliar de enfermagem e organização de festas e eventos infantis.
Évelin refere que sente discriminação na universidade, e que o maior fator dessa discriminação é devido ela ser de “baixa renda”, pois as pessoas ainda não aceitam o acesso das “pessoas mais pobres” nas universidades. Em seu relato ela também refere que sente discriminação na universidade por ser uma mulher transexual e que o principal motivo que a levou à situação de rua foi a falta de trabalho em função da discriminação contra a população transexual.
Em seu relato é possível perceber que Évelin tem vocabulário mais amplo em relação à Sarah que tem um vocabulário mais restrito. Ela também apresenta leitura crítica acerca dos impactos de políticas públicas sobre a sociedade mostrando que ela adquiriu capital cultural ao longo da sua trajetória social. Segundo Évelin, projetos públicos voltados para a população transexual seria o principal fator para ajudá-la a sair da rua.
Projetos públicos pra ajudar a gente. Porque na iniciativa privada a gente não consegue, é muito pouca aceitação. Eles podem até aceitar uma trans que ninguém perceba que seja trans pra falar “ah, aqui aceita trans”. Você vai lá, só vai te aceitar se ninguém perceber que você é trans. Aí não tá aceitando nada, né? Porque tá fingindo que aceita. E memo assim, aquela trans que ninguém percebe que é trans, que é muito, características muito femininas, vai ficar lá escondida. É difícil, é muito difícil aceitar, aceitamento de trans. Por isso que tem que ter serviços públicos, ter uma cota, ter uma porcentagem pra trans, que é uma forma da gente conseguir entrar no mercado de trabalho (Évelin).
Embora Évelin atribua a discriminação em relação à população transexual por ser algo novo na sociedade, como vimos, a literatura revela que a transexualidade já era um fenômeno reconhecido desde o final do século XIX (ARAN, MURTA e LIONÇO, 2009).
Ao longo do tempo o termo transexualidade sofreu alterações e diferentes entendimentos acerca da identidade de gênero, acarretando uma patologização e estigma social desse grupo de pessoas. A condição transexual não era “compreendida como uma entre muitas possibilidades humanas de determinação do próprio gênero”, mas relacionada por médicos e psiquiatras a uma inadequação às normas de gênero, formalizada nos manuais diagnósticos de psiquiatria como patologia (ARAN, MURTA e LIONÇO, 2009, p. 1148).
Cabe pensar que a compreensão patologizante e definição como categoria psiquiátrica da pessoa transexual seja um dos principais fatores que causam a discriminação acerca dessa população. Compreender a transexualidade como
anormalidade pode afetar diversos âmbitos da vida desses sujeitos, as relações familiares, relações na escola, relações sociais e a dificuldade de conseguir um trabalho devido estigma sofrido por essas pessoas, como no caso de Évelin. Dessa forma, esses indivíduos ficam sem possibilidades de escolhas e restritos a nichos específicos não só de trabalho, mas de grupos sociais.
Diante disso, a herança familiar de Évelin, sua trajetória educacional, inclusive identidade de gênero podem auxiliar a compreender os significados atribuídos à educação e se isso se relaciona com as suas práticas e escolhas.
A seguir, será levado em conta esses aspetos já analisados para compreender a partir do relato de Évelin os significados atribuídos à educação.