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6.1 HETEROGENEIDADE NO RAP CURITIBANO

6.1.2 Heterogeneidade constitutiva - Interdiscurso

Diferente da heterogeneidade mostrada, a heterogeneidade constitutiva não deixa marcas na superfície do discurso, configurando-se, assim, o interdiscurso.

Como já apresentado na seção 5.1, o interdiscurso, neste trabalho, está

relacionado ao universo discursivo de FDs do Movimento Hip-Hop, em que o campo discursivo é de FDs políticas e sociais e os espaços discursivos de FDs de sujeitos excluídos em oposição a incluídos. Nesta seção, buscaremos mostrar quais os pré-construídos possíveis que o interdiscurso delimita, bem como, dentro da FD do Movimento Hip-Hop, o que pertence ao discurso do Outro, não pertencente ao movimento.

Verifica-se que os raps curitibanos, assim como os raps nacionais em geral, utilizam pré-construídos relacionados à realidade da periferia. Assim, o interdiscurso presente e recorrente nas letras de raps é sobre os problemas sociais e a violência na periferia; discursos de autoestima, motivação e evangelização; e de crítica ao sistema, à mídia, aos políticos, à ação da polícia e à população de estatuto social superior. Vale lembrar que a questão do preconceito racial, que faz parte do interdiscurso do Movimento Hip-Hop nacional e internacional, não aparece explicitamente no rap curitibano. Uma explicação possível talvez seja por essa questão não ser vista como um problema pelos integrantes curitibanos desse movimento, haja vista a invisibilidade do negro na identidade dessa capital. Nesse sentido, “ser negro” não está inserido em “ser curitibano”. O que pode estar incluído, e concomitantemente excluído, é apenas “ser pobre”. Por outro lado, o apagamento dessa marca ou mesmo da falta dessa assunção étnica pode revelar uma recusa da realidade, ou seja, por a questão racial ser tão mascarada nem os grupos e os rappers curitibanos a reconhecem. Um dos indícios para esta interpretação é o pseudônimo de um dos rappers, Branco favela, que reitera o branqueamento da cidade, enquanto assume explicitamente o seu caráter de periferia pobre.

Assim, a partir desses pré-construídos possíveis, verificam-se discursos com posicionamentos diferentes. Ou seja, existe uma relação entre o interior discursivo (intradiscurso) e seu exterior (interdiscurso ou o discurso do Outro). Por meio dessa análise podemos encontrar as formações discursivas tanto dos integrantes do Movimento Hip-Hop (rapper, morador da periferia) como do Outro (o sistema, a polícia, etc.). Desse modo, a partir das construções da oposição entre as marcações explícitas de enunciador e coenunciador (pronomes “eu/nós/a gente” e “você”) é possível analisar como ocorre o processo de identificação entre os envolvidos no discurso.

Verifica-se que o enunciador da maioria dos raps é morador da periferia, consciente dos problemas dessa região. Como exemplo temos o rap De frente para

o inimigo, em que as marcações do enunciador ajudam a constatar essa identidade:

O mundo que nós vive, pro sistema é ameaça Os moleque envolvido no crime, ódio que mata Atravessa com as cápsulas, coração de boy E joga nas privadas a cabeça do herói

Nesse rap verifica-se que o enunciador se inclui entre o grupo excluído e discriminado, a periferia, e mostra onde é o seu lugar e de seu povo:

Viagens pra Indonésia Ondas e surf

E a gente nos bangs Superlotando cela

O coenunciador, nesse rap e em vários outros, como em Cic, Maloqueiro, Chave mestra, Perigo, é o igual, também morador de periferia:

Tá tudo errado, armadilha eficiente

Te jogam no meio do crime, te põe na frente De peito sem colete, pra tomar de A.R.

Assim, a partir dessas marcas explícitas do enunciador e do coenunciador, temos o discurso do Outro: quem vive na periferia é ameaça para o resto da população, e o lugar daqueles moradores é na prisão.

Além disso, esse Outro, de estatuto social diferente do enunciador, muitas vezes também está presente nos raps como coenunciador:

Sem sorte o mano sofre

Morre sem saber o rosto da morte Maquiado sou eu, quem é você?

Esse Outro, que aparece como coenunciador na maioria dos raps analisados, muitas vezes é questionado pelas injustiças e problemas que a periferia sofre.

Assim, no trecho anterior temos o questionamento: se a população da periferia é vista como dissimulada, perigosa, então como chamar o Outro, a sociedade em geral, que acoberta a discriminação e exclusão contra a população periférica?

Outro exemplo dessa relação discursiva pode ser visto no rap Reflexão.

Nesse rap, a partir da análise das marcações de enunciação, verifica-se a presença

de três enunciadores diferentes. A maior parte da letra desse rap é de um enunciador morador da periferia, que já sofreu com os problemas sociais desse local:

É foda, eu sei, estar do lado de uma criança Que passa fome por um momento.

É embaçado eu sei, por esse tormento eu já passei [...]

Periferia, favela, tipo rap gangsta Usam de protesto pra conscientizar

E provar que na nossa quebrada não é só miséria Atitude aqui não falta, irmandade prevalece

Assim, verifica-se, nesse rap, que o discurso do Outro seria: a população da periferia passa fome, é miserável; a população da periferia só pensa em fazer mal ao restante da população - discurso subentendido ao que a voz do rapper se contrapõe: o protesto não é só agressão, é para chamar a atenção, para

„conscientizar‟.

A segunda voz identificada é a do rapper:

Sou mais um rapper, que de quebrada caiu numa emboscada Mas não sou otário, não, para entrar em parada errada

Nesse trecho percebe-se que o discurso do Outro seria: os rappers também são fáceis de serem manipulados e podem estar envolvidos no crime - orientação discursiva a que novamente o rapper se contrapõe: mas não sou otário, não...

Há, ainda, um terceiro enunciador, a saber, um segundo rapper, que é amigo de um rapaz já morto, apelidado de Re:

[...]

Lembrança dos manos de Colombo

Fizeram parte, hoje na mente dos manos da Zona Norte

Aí Re, você vai ficar na memória, se vai!

Até a minha hora chegar

A vida é injusta, mas Deus sabe o que faz Eu desejo pra você completamente a paz divina

E to ligado que você nos olha aí de cima. Do céu. Do céu.

Assim, também são três os coenunciadores:

 o primeiro e mais presente no rap é de um coenunciador morador da periferia, denominado muitas vezes de irmão, truta, mano, forma de tratamento que busca igualar ao enunciador:

Aí irmão, periferia então Tem que ter reflexão

 o segundo é o coenunciador criminoso, que é sempre alertado sobre o perigo da vida que leva:

E aí ladrão! Já era provável que isso ia acontecer

Aquele mano não tinha experiência nesse campo, aê fazer o quê!

A vida é loca e tem várias cartadas

Sobreviver é embaçado, o crime não vale de nada

 há, ainda, o coenunciador policial, antagonista odiado pelo enunciador:

Polícia desce o morro pra buscar a cota da semana RONE, aí, vai se Fu... (som de sirene)

Não tenho medo de você

Além desses, encontramos a evocação de Re, o rapaz morto e amigo de um dos enunciadores:

Aí Re, você vai ficar na memória, se vai!

Até a minha hora chegar

A vida é injusta, mas Deus sabe o que faz

Portanto, através da análise dessas marcações enunciativas e coenunciativas pode-se verificar quais são as formações discursivas presentes no rap curitibano, bem como identificar a identidade dos inscritos na maioria das letras de rap:

enunciadores – morador da periferia, rapper, criminoso; coenunciadores – morador da periferia, população de estatuto social diferente do enunciador, polícia, criminoso.

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