CAPÍTULO V. A CONSTITUIÇÃO DO ETHOS DISCURSIVO NO
5.3. Heterogeneidade marcada pelo emprego das aspas
5.3.1. Citação marcada por aspas
A citação marcada por aspas é uma manifestação da heterogeneidade enunciativa, na qual o enunciador explicita o que não provém de seu próprio discurso. Segundo Charaudeau & Maingueneau (2008), o discurso citado é um procedimento que o enunciador utiliza com base nas finalidades de seu propósito. Para analisá-lo, é preciso considerar, além da intencionalidade de quem enuncia, a sua posição e a posição do co-enunciador: quem cita o quê para quem; a maneira de citar e a maneira pela qual quem cita avalia o enunciado citado.
Na tabela 10, apresentamos o número de texto em que o discurso citado entre aspas ocorre no discurso das intervenções dos alunos e do professor, bem como apresentamos uma análise desse emprego nas intervenções dos alunos e do professor nos fóruns de discussão, corpus desta pesquisa.
Tabela 10: citação direta no discurso dos alunos e do professor Intervenções Intervenções analisadas Intervenções com citação
direta
%
Alunos 254 46 18%
Professor 39 7 17%
Observamos que, de 254 textos das intervenções dos alunos apenas no discurso de 46 há citação direta, totalizando 18%. Já nos textos das intervenções do professor, de 39 observados, somente no discurso de 7 há essa ocorrência, totalizando 17%, evidenciando, portanto, um equilíbrio entre os dois discursos.
Discurso dos enunciadores-alunos
As citações presentes no discurso dos alunos são estruturas típicas do gênero acadêmico-científico que, empregadas nas intervenções feitas no fórum, deixam transparecer a heterogeneidade desse discurso. Esses sujeitos expressam suas opiniões dialogando com a instituição discursiva da ciência e, por isso, o ethos projetado é de formalidade e conhecimento, o que coaduna com o papel social que desempenham: operadores do Direito na função de membros e servidores do Ministério Público.
Discurso do enunciador-professor
Já as citações no discurso do professor, de modo geral, estão presentes nas intervenções de fechamento de uma sequência discursiva. O professor traz para o seu discurso trechos do discurso dos alunos com a intenção de organizar os conteúdos apresentados por eles. Nesse caso, o discurso citado não gera um efeito de autoridade, mas de comprometimento com o processo de ensino e aprendizagem por parte do enunciador: ao retomar os enunciados das intervenções dos alunos, organiza a discussão e tem condições de suprir eventuais lacunas, apontando para possíveis caminhos não explorados.
Como vimos com Moore & Kearsley (2007), um sujeito no papel de professor deve ter a preocupação de resumir os conteúdos de um fórum educacional de todos os participantes e incluir, se for o caso, aspectos similares e diferentes na compreensão do grupo. No discurso do professor, nos fóruns analisados, essa é a principal preocupação quando organiza o fechamento, o que reforça seu ethos de comprometimento ao desempenhar a função social de professor de um curso a distância.
Intervenções analisadas
Apresentamos a seguir alguns textos em que há no discurso citante um discurso citado, marcado pelo emprego de aspas.
(16) Intervenção do aluno
Por – Aluno - segunda, 27 outubro 2008, 22:06
Não há como afastar do controle judicial a delação premiada. Ainda que o Ministério Público e a Defesa possam firmar um termo de acordo para aplicação da benesse, a decisão final quanto à aplicação ou não da delação premiada cabe ao Magistrado, quando da prolação da sentença, até porque somente neste momento poderá analisar a presença ou não dos requisitos para sua aplicação. O Magistrado, aqui, não atua como mero chancelador da vontade das partes, mas como fiscal da vontade da lei. Inclusive, Eduardo Araújo da Silva, com a propriedade que lhe é peculiar, dá mostra da necessidade do efetivo controle judicial: “Em verdade, o que se apresenta reprovável moralmente, é o abuso por parte dos agentes estatais para a obtenção da delação premiada, impondo-se especial atenção dos magistrados nesse particular, de modo a assegurar as garantias do Estado Democrático de Direito”.
(17) Intervenção do aluno
Por - Aluno- quinta, 30 outubro 2008, 20:14
Na delação premiada, o promotor firma um termo de acordo com o indiciado/réu e seu defensor, que deve, necessariamente, ser homologado pelo juiz. É o juiz que analisará se o acordo firmado preencheu os requisitos previstos em lei. De acordo com o HC 90.688-5 – PR do STF,
“o Ministério Público não tem, de início, o domínio da delação quanto às consequências, quanto aos benefícios dessa mesma delação.
Quem tem é o Estado-Juiz”. Entendo que o juiz deva analisar a concessão da delação premiada no momento da prolação da sentença.
Somente nesta fase, o juiz terá noção do grau de contribuição do delator (número de agentes identificados, de produtos localizados, etc). Por outro lado, a necessidade de homologação judicial e o fato dela ser concedida somente no momento da sentença podem desestimular o instituto, uma vez que, quando delata, o indiciado/réu não terá certeza do recebimento do benefício.
Em (16) e (17), o discurso citado corrobora o entendimento de que os enunciadores têm do tema debatido. Para tanto, valem-se do discurso de uma autoridade: em (16), nota-se a avaliação do enunciador do discurso citante ao enunciador do discurso citado “com a propriedade que lhe é peculiar”. Em (17), o enunciador valeu-se do discurso do texto do Supremo Tribunal Eleitoral para aumentar o poder de persuasão de seu discurso.
Nas intervenções do professor, o discurso citado aparece, principalmente, no fechamento dos tópicos discursivos, conforme demonstrado abaixo.
(18) Intervenção do professor
Por Professor – fechamento do fórum 6
A delação premiada é inegavelmente um instrumento muito útil no combate à criminalidade organizada, pois por meio do interrogatório de alguém que, de alguma forma integrou a associação criminosa, o Ministério Público toma conhecimento dos detalhes de seu funcionamento.
Normalmente o Promotor de Justiça, nas dependências policiais, ou em seu Gabinete expõe para o acusado as vantagens processuais decorrentes da delação premiada e espera que ele contribua para a obtenção de uma prova, que dificilmente seria obtida de outra forma. O indiciado, por sua vez, espera ter confiança na autoridade que o entrevista e, sobretudo, lealdade no cumprimento daquilo que é prometido. Às vezes, conta ainda com a esperança de ser protegido pelo Estado.
Os alunos tiveram entendimentos diferentes sobre essa questão e discutiram num nível elevado aspectos jurídicos, doutrinários, práticos e filosóficos acerca desse tema. A primeira tese defendida foi no sentido de ser possível a celebração de acordo entre o MP e o acusado, mas com homologação judicial ao final do processo crime, na oportunidade da sentença condenatória. Isso porque, como escreveu AZ, é preciso
“verificar se a colaboração do agente foi significativa, verdadeira e eficaz, é necessário que haja dilação probatória, o que pode dificultar o trâmite da ação penal, que normalmente envolve fatos complexos e elevado número de réus. Parece temerário realizar tais acordos no início do processo, comprometendo a verdade real e correndo risco de estimular uma farsa por parte dos réus, que não têm ética alguma”. RN completou, “não cabe ao Estado-Juiz, enquanto detentor do poder de punir, estabelecer uma espécie de absolvição prévia”. SP também se preocupou com a
“espontaneidade da revelação, as dimensões do revelado e a contribuição ao deslinde da instrução”. Nesse mesmo sentido, LG discordou da possibilidade de haver uma “decisão interlocutória homologatória proferida pelo Poder Judiciário, antes do término da instrução processual”.
De outra forma, com autoridade, WS advertiu que “a homologação imediata (...) pode significar um passaporte para a impunidade caso os efeitos da delação não se verifiquem. Entendo não ser possível subtrair do Estado-Juiz (...) já que a disposição (ou a amenização) do jus puniendi, in casu, não foi delegada às partes”.
MA fez sua análise a partir do ânimo do réu-delator: “o arrependido faz de tudo para apagar seu mal, enquanto o agente com remorso tenta iludir seu julgador e acusador, colaborando, mas nem tanto, mas de má-fé, objetivando algum benefício porventura possível”. De forma mais objetiva e pontual, CG: “seria ilógico o julgador aplicar um redutor de pena a acusado que maliciosamente induziu o julgador a erro”, mesmo porque “enquanto não houver maior descrição legislativa, (...) é mais prudente que o juiz analise a concessão da delação premiada no momento da concessão da sentença”. Esse acordo – escreveu BR – “homologado pelo juízo acaba fazendo lei entre as partes. Parece que acusado terá garantido o perdão judicial
e o MP terá a indicação dos demais agentes. Caso uma das partes não cumpra com o acordo parece que resta a não aplicação dele para ambos”. Para defender a homologação ao final do processo, AM invocou uma decisão do STF: “o MP não tem, de início, o domínio da delação quanto às consequências, quanto aos benefícios dessa mesma delação. Quem tem é o Estado-Juiz” (HC 90.688-5 – PR).
Para RB a insegurança do réu no instante do interrogatório e da delação não justifica a homologação do acordo pelo Juiz antes da sentença. “Isto porque, ao infringir o ordenamento jurídico, tem ele (réu) consciência do risco que corre em sofrer a punição. Assim, vantajosa se revela a delação premiada, ainda que só ao final seja ela efetivamente concretizada”.
Os alunos OW, JP, RN, JC, SJ, LP, CM, CP, LG, DG, EB, MM, FS, CHM e MZ defenderam o mesmo entendimento e reiteraram, em linhas gerais, as análises acima transcritas.
O segundo entendimento foi no sentido de ser celebrado, em prol da delação premiada, um “acordo apenas entre o MP e o acusado, devendo o juiz acatá-lo, diante da própria inércia que afeta o Poder Judiciário. Este não é guardião das leis ou seu fiscal, mas, sim, seu aplicador” (JC). LB foi favoravelmente à delação premiada acordada em termo firmado pelo MP e o acusado, mas, em tom crítico, foi ainda além: “O direito brasileiro confere extrema importância às decisões judiciais e ainda dá pouco espaço à atuação do Ministério Público”. E prosseguiu, “se o indiciado não tiver „garantias‟ de que será beneficiado ao final do processo, ele não encontrará estímulo para a „delação premiada‟, valendo lembrar que, a partir do momento em que ele delata co-autores e partícipes, ele é "traidor" do grupo e corre riscos”. Por esse motivo, SJ ponderou que “a lei deveria conter expressamente a previsão do termo de acordo entre MP e indiciado, exatamente para que a sistemática natural - aquela anunciada pelo José Carlos Pagliuca – funcionasse”.
Ainda no que concerne ao acordo firmado apenas entre o Promotor de Justiça e o acusado/Defensor, escreveu GC, que “tanto a Defesa como o Ministério Público poderão se insurgir cont ra a decisão do magistrado que não acolher o pedido de concessão dos benefícios da delação premiada quando esta foi concretamente efetivada”.
De outra parte, tanto SJ como AZ defenderam a não utilização da expressão „perdão judicial‟ no âmbito da concessão da delação premiada, porque, como escreveu a colega, “não [é] adequada a denominação “perdão judicial”, que ordinariamente se liga a sofrimento do réu em função do crime. Melhor seria criar mais uma causa de extinção da punibilidade ou de diminuição da pena, em função da delação premiada”.
Um terceiro entendimento foi no sentido de ser prescindível o acordo. Como a delação premiada “é um direito de todo réu, desde
que esse cumpra todas as condições legais previstas em lei, não há necessidade de acordo com o Ministério Público, poderia ser feito diretamente pelo Juiz, que pode conceder ou não na hora de julgar”
(CF). Igual colocação fez CRC: “Dar ou não o benefício deve ser discricionariedade judicial, ao final da sentença, respeitada a proporcionalidade entre a colaboração e o benefício, com o acompanhamento do Ministério Público”. KM não se posicionou diferente, ao escrever que: “diante do atual quadro legislativo, descabe a homologação inicial. É certo que tal posicionamento reduz o atrativo da delação, mas foi uma opção legislativa que não pode ser contornada. E não será muito abonador para o MP acenar com uma garantia que não pode dar ao réu, pondo em descrédito o instituto (já tão enfraquecido pela formatação legal) pois, mesmo havendo homologação judicial, esta será inexigível ou condicionada a fato incerto”. Com experiência, JC lembrou que essa sistemática é a adotada pela legislação brasileira e, por isso, “o que a polícia e o MP podem fazer é convencer o acusado de eventual benefício a ser recebido, e (...) não se pode prometer sem prévia consciência”.
A sua vez, o quarto entendimento sustentou ser possível um acordo entre MP e acusado/Defensor homologado pelo Juiz de Direito, antes mesmo da prolação da sentença, nos termos da antiga Lei n.
10.409/2002. Para tanto, com AA, a decisão “homologatória da transação penal „fica‟ sujeita a condição resolutiva (...). Ao final, demonstrada a veracidade das informações e a colaboração efetiva, o perdão judicial se aperfeiçoaria extinguindo a punibilidade do agente”. Porém, esse entendimento teve forte oposição na reflexão de KM: “nos parece insustentável esperar do magistrado sua vinculação aos termos do „acordo‟ liminarmente. Ainda que sob condição resolutiva, não há nenhum respaldo legal e nenhuma exigibilidade para que o Juiz assim proceda”. Muitos, entretanto, concordaram com Alexandre, como foi o caso de MS, para quem “a análise da concessão apenas no momento da prolação da sentença traz incerteza e instabilidade ao réu, que poderia deixar de colaborar com medo de que ao final ele não recebesse sua contrapartida por parte do Estado”. AB sugeriu uma solução em caso de divergência judicial: “Caso o Juiz não concordasse com o acordo ou com seus termos, simplesmente deixaria de confirmá-lo, remetendo os autos para o Procurador Geral de Justiça por analogia ao artigo 28 do Código de Processo Penal”.
Com uma visão voltada à eficiência do instituto no combate a criminalidade, AL advogou que a “homologação traria ao réu uma certeza de que se, e somente se, contribuísse efetivamente com a justiça, a aplicação de um abrandamento em sua pena lhe seria possível, quiçá de uma isenção”. Com o mesmo raciocínio, LC preocupou-se com os detalhes do acordo a ser homologado pelo Magistrado antes mesmo da sentença: “Este acordo vai ao encontro dos anseios do investigado e da investigação - aqui, contanto que seja minucioso, estabelecendo as benesses (de acordo com a lei) e os principais interesses a serem obtidos no tocante ao crime perseguido”. MF também concordou com a homologação do acordo, mas com ressalvas quanto à natureza e alcance da decisão judicial: “A homologação judicial, como não pode deixar de ser, apenas se limitará aos termos do acordo, não implicando a concessão, de
imediato, ou mesmo o compromisso no sentido de seu deferimento, dos benefícios decorrentes da delação premiada, o que, a meu ver, só poderá ocorrer no momento da prolação da sentença, quando então será analisado se a cooperação foi mesmo eficaz ou não no tocante à investigação e ao processo criminal e se estão preenchidos todos os demais requisitos exigidos para o reconhecimento daquele instituto”.
Dentro da mesma, LP escreveu que “nada impede que seja tal pleito apresentado em caráter preparatório ou preventivo, como pode ocorrer em qualquer pedido de tutela jurisdicional. Tal sistemática é interessante tanto para os órgãos de persecução penal quanto para a defesa, desde que se trate de ato voluntário de ambas as partes, homologado judicialmente. Homologada a
„transação‟ o juízo não poderá deixar de observá-lo posteriormente, se efetivamente cumpridas as condições do ajustado”. Sempre com muita lucidez, EA colocou o estado da questão dentro de seu aspecto material e formal: “visando a assegurar o atendimento ao binômico „segurança para o delator‟ (de revelar o que sabe e que seja útil para a apuração da verdade e ter vantagens na sua situação jurídica) e „êxito para a acusação na apuração completa dos fatos‟
com as respectivas conseqüências disso (recuperação do produto do crime, identificação dos demais participantes, descoberta de novos crimes, etc.), nada impede que haja o referido acordo, inclusive para que haja a possibilidade de as diligências investigativas serem realizadas antes do término do processo”. A importância do acordo homologado pelo Juiz, para CI, está na transmissão de confiança para que ele traga “informações relevantes, posto que no futuro poderia ter indeferida, pelo juízo, sua pretensão ao benefício. Ademais, a homologação judicial, conferiria a obrigação de cumprimento do acordo a ambos, resguardando, igualmente, os interesses do Ministério Público, bem como os direitos do acusado/delator”
Em última análise surgiu a discussão sobre o aspecto anti-ético em que está envolta a premiação de uma delação por parte do Estado.
DG a considerou, sob o ponto de vista sócio-psicológico, “imoral ou, no mínimo, aética, pois estimula a traição, comportamento insuportável para os padrões morais modernos, seja dos homens de bem, seja dos mais vis criminosos”. LF também repudiou o uso do mesmo instituto: a “delação é sim expediente altamente questionável. (...) a partir do momento em que o Estado oficialmente adota procedimento no qual „os fins justificam os meios‟ (efetividade da jurisdição x delação), tem diminuída sua legitimidade para exigir do cidadão comportamento ilibado”.
A concepção – com o devido respeito, equivocada – acima citada logo foi rechaçada por JC, que analisou com lucidez o problema numa visão mais abrangente: “No que diz respeito aos fins justificarem os meios, que é um instrumento totalitarista, também não se trata de tal assertiva. A delação é voluntária e sabidamente conhecida pelos criminosos que por si, se autocolocam em perigo e, portanto, assumem todas as
conseqüências boas ou ruins para si. Ainda para quem não sabe, há casos de delações montadas pelos próprios criminosos, que, de antemão, já planejam quem vai arcar com o quê. E, ademais, é uma luta justa contra uma atividade injusta”.
Como podemos observar, na intervenção selecionada, o enunciador traz para o seu discurso diversos trechos do discurso das intervenções dos alunos, no intuito de retomar as ideias apresentadas ao longo da sequência, organizando para eles os conteúdos de acordo com os seus posicionamentos.