Aula 5 – Reações químicas de importância alimentar
5.2 Hidrólise
Como vimos no item anterior, existem alterações desejáveis e indesejáveis nos alimentos. O açúcar invertido e a hidrólise do amido são palicações desejáveis da hidrólise dos açúcares e de grande aplicação na indústria alimentícia, que posteriormente, será comentada. A hidrólise dos açúcares nos alimentos está influenciada por diversos fatores, tais como: pH, temperatura, tempo, configuração anomérica e tamanho do anel glicosídico. A hidrólise dos car- boidratos pode ser muito importante em certas técnicas de processamento e conservação dos alimentos, podendo levar em certas ocasiões à formação de cores indesejáveis e à incapacidade de formação de géis. A ligação glicosídica é mais facilmente destruída em meio ácido do que em meio alcalino e segue o seguinte mecanismo:
Figura 5.2: Mecanismo de hidrólise ácida
Fonte: Fennema (1993). OR O OR O H+ H + OH O O O ROH H 2+ H + -
A inversão da sacarose, vista na Aula 3, é uma reação que pode ser feita via enzimática ou via ácida. Na via enzimática, a invertase rompe a ligação glicosí- dica entre carbono -1 da frutose e o oxigênio, sendo que seu fator limitante é o elevado custo da enzima; porém um alto grau de hidrólise pode ser obtido, originando um produto de alta qualidade, com baixos teores de cinzas, cor e hidroxi-metil-furfural chamado de HMF (RODRIGUES et al, 2000). Já a via ácida segue o mecanismo da Figura 5.2, porém resulta num xarope com cor acentuada, podendo haver formação de HMF.
Mas você sabe qual a importância do HMF em ciência e tecnologia de alimen- tos? O HMF é usado como indicador de processamento térmico inadequado, porque o calor potencializa a sua formação. Além disso, esse composto químico vem sendo amplamente estudado devido à sua possível toxidade. A toxicidade desses compostos furânicos em seres humanos ainda não é bem conhecida, com exceção do próprio furfural, para o qual já está estabelecido o valor IDLH (“Imediately Dangerous to Life or Health Air Concentration”) que é de 100,00 ppm. A literatura sugere que o contato prolongado ou repetitivo com o furfural pode causar dermatites, irritação da mucosa e trato respiratório, além de afetar o sistema nervoso central. Todos esses dados são baseados em testes realizados com animais de laboratório, não havendo estudos conclusivos sobre os efeitos desses aldeídos em humanos(AZEVÊDO et al, 2007; FENNEMA 1993).
A hidrólise da sacarose normalmente é acompanhada por polarimetria, porque a sacarose é destrógira, apresentando uma rotação específi ca igual a 66,5o.
Quando hidrolisada, obtém-se uma mistura equimolar de glicose e de frutose, com uma rotação específi ca de -20o (GABRIEL, 2009).
A utilização do açúcar invertido na indústria alimentícia constitui em vantagem nas aplicações em que o açúcar é adicionado em solução. Esse produto reúne a elevada solubilidade da frutose à difícil cristalização da glicose, aumentando seu próprio poder edulcorante e diminuindo os riscos de cristalização. Essas propriedades contribuem para aumentar o valor desses xaropes para uso em vários produtos alimentícios (RODRIGUES et al., 2000).
Não só os carboidratos, mas os lipídeos e as proteínas também podem sofrer hidrólise. Por exemplo, óleos e gorduras são compostos principalmente por triglicerídeos, que em presença de água e catalisador sofrem hidrólise rever- sível, liberando glicerol e ácidos graxos. A reação hidrólise dos triglicerídeos pode ser representada globalmente pela equação apresentada na Figura 5.3.
Figura 5.3: Mecanismo de hidrólise ácida dos triglicerídeos
Fonte: Toralles e Ruiz (2001).
Os catalisadores podem ser ácidos, bases ou enzimas lipolíticas e a esterificação é a reação inversa à hidrólise. A hidrólise enzimática por lipase também é denominada de lipólise, enquanto que, quando utiliza catalisador químico e temperatura elevada, é denominada hidrólise química, cisão ou desdobramen- to (TORALLES e RUIZ, 1999).
Os ácidos graxos e a glicerina, que são os produtos dessa reação, encon- tram inúmeras aplicações na indústria cosmética, alimentícia e farmacêutica. Por exemplo, na indústria de alimentos, o glicerol é utilizado como aditivo alimentar em função de suas propriedades estabilizantes, antioxidantes, se- questrantes, emulsificantes e umectantes (ARRUDA et al, 2007). Os ácidos graxos ricinoleico e linoleico são de grande interesse da indústria cosmética e da farmacêutica, devido a suas propriedades emoliente e cicatrizante (BERG et al, 2008; MANDELBAUM et al, 2003).
A acidez livre, expressa em percentagem de ácido oleico, é o principal parâ- metro para acompanhar a reação de hidrólise de óleos e gorduras e, também, para avaliar a qualidade de óleos e gorduras neutras. Por exemplo, o azeite de oliva, dentre os óleos vegetais comercilaizados no Brasil, é o que apresenta maior incidência de adulteração, em função de seu preço elevado e de sua oferta restrita. A sua acidez é um dos parâmetros de qualidade para avaliar a adulteração nesse óleo que muda em função de sua classificação. O azeite
3H2O R1 O OH C R2 O OH C
Ácido graxo Glicerina Triglicerídeo R3 O OH C R1 CH2 O O C R2 CH O O C R3 CH2 O O C + + HO CH2 HO CH HO CH2
A hidrólise das proteínas é um método utilizado para obter L-cisteína, L- cistina, L- leucina, L- asparagina e L- tirosina. Esse método concorre com a produção de aminoácidos via síntese química e via fermentação microbiológica. A grande aplicabilidade dos aminoácidos está na alimentação humana e no enriquecimento de ração animal, pois um grande número de aminoácidos essenciais não é sintetizado no organismo de animais superiores e do homem; portanto devem ser introduzidos na dieta pela alimentação.
Das moléculas abaixo, a única que não pode ser obtida por hidrólise é:
a) o glicerol b) o ácido palmítico c) a L-cisteína d) a trioleína e) a glicose
5.3 Escurecimento enzimático
A manutenção da cor natural é um dos fatores de qualidade mais importantes no processamento de purês, polpas, néctares e sucos. A cor natural está as- sociada a um produto processado de alta qualidade, porém modificações na coloração durante colheita, pós-colheita, processamento e armazenamento causam declínio drástico na qualidade, quando não controlados. Esse tam- bém é um grande desafio em frutas e hortaliças minimamente processadas e refrigeradas.
O escurecimento enzimático é um fenômeno amplamente observado nessas questões, sendo que induz a severa mudança de cor, sabores indesejáveis e perdas nutricionais, manifestando-se com mais intensidade em frutas como maçãs, pêras, pêssegos, damascos, abacaxi, bananas e uvas; e em vegetais
Figura 5.4: Escurecimento enzimático em maçã
A polifenoloxidase (E.C. 1.10.3.1; PPO) e a peroxidase (E.C. 1.11.1.7.; POD) constituem um importante grupo de enzimas associadas a esse fenômeno e encontram-se amplamente distribuídas em tecidos vegetais. A nomenclatura entre parentêses indica que ambas as enzimas são oxidorredutases (reveja Aula 2, item 2.4.5).
Os compostos fenólicos mostrados na Aula 4, Figura 4.1, são substratos natu- rais dessas enzimas. Em pêssegos, ambas estão presentes e, além de estarem envolvidas com o desenvolvimento do escurecimento enzimático, também participam por indução do sistema de defesa da fruta injuriada e/ou infectada.
O escurecimento enzimático não ocorre em células intactas, uma vez que os compostos fenólicos estão localizados nos vacúolos das células e as poli- fenoloxidases no citoplasma. As polifenoloxidases são enzimas cúpricas que catalisam a oxidação de substratos fenólicos na presença de oxigênio em dois diferentes tipos de reações. Essas reações envolvem a remoção dos hidrogênios de o-difenóis, resultando em o-quinona (Figura 5.5a), e a hidroxilação de mo- nofenóis para dar o-difenóis (Figura 5.5b). As quinonas formadas condensam e reagem não enzimaticamente com outros compostos fenólicos, aminoácidos, etc., produzindo compostos coloridos. Todas PPOs descobertas desenvolvem atividade em presença de o-difenóis, mas nem todas têm habilidade para hidroxilação de monofenóis. Em polifenol de pêssego de caroço-aderido, To- ralles et al. (2005) observaram somente a atividade em presença de difenóis e nenhuma atividade para hidroxilação de monofenóis, como mostrado na Figura 5.5 (b).
Figura 5.5: Escurecimento enzimático mediado pela PPO: (a) usando um o-difenol como substrato e (b) por hidroxilação de um monofenol
Fonte: Whitaker (1996).
A catálise da peroxidase está associada a quatro tipos de atividade: peroxida- ção, oxidação, catalática e hidroxilação. Para substratos fenólicos, somente as reações de peroxidação são importantes (Figura 5.6). A ação da enzima obje- tiva é, principalmente, controlar o nível de peróxidos gerados em quase todas as reações celulares e, na ausência de um doador de hidrogênio, a peroxidase converte peróxido de hidrogênio em H2O e O2. Essa reação é, pelo menos, 1000 vezes mais lenta que a de peroxidação. A molécula do tetraguaiacol tem uma coloração avermelhada e é o que caracteriza o escurecimento.
OH
OH
OH
OH
CH
3OH
CH
3O
O
PPO - 2Cu
2++
PPO - 2Cu
+O
22H
++
+
+
PPO - 2Cu
2+H
2O
+
+
2H
+PPO 2Cu
++
+
-
Catecolp- Cresol 4- Metil - Catecol
o- Benzoquinona OCH3 O O OCH3 OCH3 OCH3 OCH3 4H2O2 4 OH + + 8H2O2 O O a a a b