2. Enquadramento geológico e geomorfológico
2.3. Geomorfologia e hidrografia
2.3.2. Hidrografia
Dos três factores mais relevantes que controlam o desenvolvimento da rede de drenagem de uma região, isto é, tipos de rochas presentes, estruturas geológicas e clima, dois são de carácter exclusivamente geológico (Rocha & Kullberg, 2012). Deste modo, a distribuição e arranjo das linhas de água poderá ser, quase sempre, associada a condicionantes geológicos.
Os principais cursos de água que atravessam a área em estudo são o rio Zêzere, o rio Ceira e o rio Unhais. Na área de prospecção e pesquisa de Escádia Grande destacam-se apenas o rio Ceira, com os respectivos afluentes ribeiras de Celavisa, de Mestras e o rio Sótão (Fig. 2.12) e o rio Unhais, que apenas surge no canto NE da área, e é alimentado por uma série de ribeiras, das quais se destacam, de W para E, a ribeira de Mega, do Sinhel, da Foz e da Loisa.
Importa referir que, na área de Escádia Grande, os principais cursos de água estão associados a bacias hidrográficas distintas, praticamente segmentando a área em partes iguais. Enquanto na metade N os cursos de água desaguam no Ceira, pertencendo à bacia do rio Mondego, na metade S os cursos de água desaguam no rio Unhais, afluente do Zêzere, pertencendo, assim, a uma das mais importantes sub-bacias do rio Tejo.
Apesar de apresentar inúmeros meandros, o rio Ceira encontra-se muito encaixado, especialmente a montante de Góis e, de acordo com Andrade (1985), «algumas das suas
secções apresentam rumo próximo ou coincidente com a direcção da estratificação das rochas que lhe servem de leito». No percurso deste rio é frequente a existência de terraços
fluviais bastante acima da cota do actual leito, sendo que, alguns destes terão sido alvo de exploração de ouro no passado. Na zona de Cabreira os depósitos aluvionares foram também alvo de exploração de volframite e cassiterite.
Fig. 2.12. Principais cursos de água na área de prospecção e pesquisa de
2.Enquadramento geológico e geomorfológico
A ribeira de Celavisa, que se encontra com o rio Ceira a norte da vila de Góis, está associada a importante zona aluvionar que, para além de ser actualmente aproveitada do ponto de vista agrícola, poderá estar associada a depósitos de placer de minerais com interesse económico.
Redes de drenagem
No que se refere aos padrões de drenagem a área de prospecção e pesquisa de Escádia Grande é caracterizada por padrões dendríticos, em latada e paralelos, identificando-se pontualmente padrões rectangulares (Fig. 2.13). As descrições apresentadas a seguir têm por base as definições de Drury (1993), Gupta (2003), Lillesand et al. (2008) e Rocha & Kullberg (2012).
O modelo dendrítico é dominante em relação aos restantes. Este caracteriza-se pela sua irregularidade, com afluentes de diferentes ordens hierárquicas e sem aparente direcção de escoamento preferencial. Está normalmente associado a litologias mais ou menos homogéneas, impermeáveis e de baixa porosidade, tais como rochas cristalinas ou rochas sedimentares de natureza argilosa, o que estará de acordo com a geologia da região.
As linhas de água com padrão em latada (treliça segundo os autores brasileiros e trellis, em inglês) caracterizam-se geometricamente pela direcção preferencial e rectilínea do curso principal e por afluentes também rectilíneos, paralelos entre si e praticamente perpendiculares ao curso principal. Entre outros, este padrão está associado a rochas deformadas (dobradas) e a níveis interestratificados de diferentes resistências
mecânicas, facto, mais uma vez comprovado pela geologia regional.
O padrão paralelo caracteriza-se pelo escoamento unidireccional das linhas de água, ocorrendo paralelas entre si, não se intersectando até distâncias relativamente extensas e fazendo-o segundo ângulos agudos. Este padrão pode estar relacionado com superfícies de resistência estrutural extensas e com a existência de fracturas com uma direcção mais importante.
Por fim, o padrão rectangular indica o controlo estrutural do curso de água através de diaclases ou falhas, estando associado a rochas mais rígidas. Tendo em conta a geologia da área, este padrão poderá indicar fracturação e/ou sequências mais grauvacóides. Pode verificar-se que os padrões rectangulares identificados surgem normalmente alinhados, tais como são os casos das ribeiras do Sinhel e da Foz ou dos afluentes do Ceira imediatamente a E do rio Sótão.
Fig. 2.13. Padrões de drenagem na região de Góis
2.Enquadramento geológico e geomorfológico
Segundo Lillesand et al. (2008) e Rocha & Kullberg (2012), a textura ou densidade das redes de drenagem também pode ser fonte de informação sobre a geologia. A textura das redes de drenagem pode ser avaliada entre mais grosseira (linhas de água mais espaçadas) ou mais fina (grande densidade de linhas de água). Se o primeiro tipo está ligado a materiais mais permeáveis ou mais resistentes (quartzitos, grés, conglomerados), com rara formação de linhas de água e com pequenos afluentes, o segundo tipo está associado a materiais impermeáveis ou brandos (essencialmente rochas argilosas), que, por não se deixarem atravessar pela água, obrigam à sua circulação superficial e à formação de números cursos de água.
Tendo em conta a densidade crescente de linhas de água, na área de estudo podem distinguir-se três áreas principais (Fig. 2.14): o limite ocidental, que inclui as ribeiras de Sótão e de Mega (1); a metade N, que inclui praticamente a bacia do rio Ceira (2); a metade S, que corresponde à bacia do rio Unhais (3). A textura grosseira no limite ocidental pode estar relacionada com a presença das cristas quartzíticas e também com a massa granítica do Coentral. Já a distinção entre as bacias dos rios Ceira e Unhais não pode ser justificada tão linearmente uma vez
que, segundo as informações disponíveis, não há contrastes litológicos significativos entre as duas zonas. Assim, a distinção entre estas duas zonas poderá ser justificada por aspectos tectono-estruturais e/ou climáticos.
Assim, apesar da geologia mais ou menos monótona da região, os padrões de drenagem permitem inferir um importante controlo estrutural nos cursos de água e, deste modo, a identificação de linhas de fraqueza do substrato rochoso. De facto, Andrade (1985) afirma ser frequente a instalação de linhas de água ao longo de fracturas, ganhando especial evidência no caso da direcção aproximada N-S. Por outro lado, a textura das redes de drenagem também possibilita a distinção das litologias mais contrastantes que afloram na área.
Fig. 2.14. Densidade de linhas de água: (1) Ribeiras de Sótão e Mega; (2) bacia do rio Ceira; (3)