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Capítulo II – Génese da dislexia de desenvolvimento

1. Evidências neurobiológicas e genéticas da dislexia de desenvolvimento43

2.2. Hipótese do défice no processamento auditivo

Para os defensores desta hipótese a dislexia encontra-se associada à

incapaci-dade de processamento de sons (da fala e sem ser da fala), que ocorrem rapidamente

no tempo, o que também estaria na origem do défice específico da linguagem (SLI). A

autora mais notória desta hipótese é Paula Tallal (1980a) e, em geral, para os

diferen-tes investigadores que a defendem, o processamento auditivo da informação sensorial

que entra no sistema nervoso numa sucessão rápida (em milésimos de segundos) é

essencial para a perceção da fala e está comprometido em algumas pessoas com

dis-fasia (tanto adultos como crianças) e também com dislexia (Tallal, Miller, & Fitch,

1996).

A perceção da fala pode ser considerada o produto de três estádios sucessivos:

extração de pistas acústicas, transformação dessas pistas acústicas em categorias

foné-ticas e por fim o agrupamento destas categorias fonéfoné-ticas em categorias fonológicas

(Serniclaes, 2000). Os dois primeiros estádios são em larga medida inatos, mas o

últi-mo depende da exposição à linguagem falada. As explicações para a dislexia têm sido

procuradas em cada um destes estádios de perceção da fala dando origem,

respetiva-mente, a hipóteses auditivas, fonéticas e fonológicas. As hipóteses auditivas da dislexia

situam as suas causas em processos sensoriais, os quais produzem efeitos nas

repre-sentações fonológicas. Há ainda quem tente explicar a dislexia apenas com base na

perceção fonológica sem implicar défices nos processos auditivos anteriores, dando

origem a uma hipótese fonológica simples. Iremos aqui apresentar apenas a hipótese

relativa ao processamento auditivo, tratando da hipótese fonológica de forma

inde-pendente.

De acordo com a hipótese auditiva a dislexia é consequência de um défice na

perceção de sons curtos ou variando rapidamente, ou seja, de problemas no

proces-samento auditivo (Tallal, 1980a, 1984; Tallal, et al., 1996). No âmbito desta perspetiva,

é exatamente esta perturbação no processamento auditivo da linguagem falada que

está na origem do défice fonológico dos disléxicos, sendo então a hipótese fonológica

subsidiária da auditiva.

A equipa de Paula Tallal reforçou o que já tinha sido mostrado em diversos

es-tudos longitudinais: uma grande maioria de crianças identificadas no Jardim de

Infân-cia como tendo problemas no desenvolvimento da linguagem apresentava mais tarde

muitas dificuldades em aprender a ler, i. e., uma relação aparentemente clara entre

atrasos na linguagem e dislexia (Tallal, et al., 1996). À data dos primeiros estudos era

dominante uma perspetiva visual da dislexia, pondo em evidência défices na

integra-ção da informaintegra-ção visual básica. No entanto, a investigaintegra-ção acerca dos problemas de

linguagem mostrava, de forma cada vez mais sustentada, que na sua origem estariam

défices no tratamento da informação sensorial auditiva. Na tentativa de perceber de

forma clara a relação entre o processamento da informação auditiva e a dislexia, Tallal

e colaboradores desenvolveram variadas investigações (Tallal, 1980a, 1980b; Tallal,

Curtis, & Kaplan, 1988; Tallal, et al., 1996), tendo demonstrado uma correlação

signifi-cativa entre o ritmo de processamento de sons rápidos, breves e sucessivos e a taxa de

erros de leitura de pseudopalavras em crianças disléxicas. Verificaram que os leitores

fracos (selecionados de uma amostra de crianças com problemas de linguagem oral)

tinham desempenhos inferiores aos normoleitores em tarefas de juízo sobre a ordem

temporal, sobretudo quando os intervalos entre os estímulos eram pequenos. Estes

mesmos sujeitos disléxicos tinham igualmente desempenhos inferiores em tarefas de

leitura de pseudopalavras. Tais resultados permitiram a Tallal inferir a presença de

uma associação entre a dislexia e o processamento auditivo temporal, ou seja, as

cri-anças com dislexia sofreriam de um défice básico, não linguístico, na análise temporal

de estímulos auditivos rápidos. Esta condição limitaria a perceção da fala e, em

conse-quência, a aquisição de aptidões como a consciência fonológica.

Os problemas na resposta a estímulos rápidos e sucessivos foram também

en-contrados através de técnicas de magnetoencefalografia. Num estudo realizado pela

equipa de Nagarajan em adultos (Nagarajan, et al., 1999), verificou-se que os sujeitos

com dislexia necessitavam de um intervalo maior entre os estímulos, antes que uma

segunda resposta neuronal pudesse ocorrer. Estes resultados mostraram que, quando

estímulos acústicos breves, rápidos e sucessivos convergem para o sistema nervoso de

sujeitos disléxicos com diferenças de milésimos de segundos, estes sinais não são

pro-cessados normalmente, havendo tendência para não serem distinguidos ou

percecio-nados como dois sons.

No entanto, numa tentativa de reproduzir a investigação de Tallal, um estudo

posterior realizado com crianças ao longo de alguns anos, mas controlando variáveis

como o sexo, o nível de leitura, o nível socioeconómico e o QI (Share, Jorm, Maclean, &

Matthews, 2002), não permitiu chegar às mesmas conclusões. Os resultados obtidos

apontavam para desempenhos das crianças com dislexia nas provas de juízo sobre

ta-refas de ordem temporal idênticos aos de crianças do mesmo nível de leitura,

empare-lhadas em função do QI e do sexo, havendo até resultados ligeiramente superiores das

crianças disléxicas nas provas de julgamento em situação de intervalos curtos, ao

con-trário do encontrado pela equipa de Tallal. Um outro estudo realizado por Chiappe e

colegas (Chiappe, Stringer, Siegel, & Stanovich, 2002), com um controlo mais acurado

dos intervalos de tempo entre os estímulos, recorrendo a sujeitos adultos, tanto

dislé-xicos como normoleitores, equiparados em termos de idade e de nível de leitura, não

encontrou diferenças significativas entre os grupos, tanto na condição de intervalos

breves como longos. Nos dois estudos supra referenciados os sujeitos com dislexia

apresentavam diferenças significativas em relação aos não-disléxicos nas provas

clássi-cas de avaliação das suas capacidades de leitura e de análise fonémica e silábica.

É importante referir ainda uma série de situações experimentais conduzidas

por Mody, Studdert-Kennedy e Brady (1997) nas quais se verificou a existência de

dife-renças na realização de juízos sobre tarefas de natureza temporal entre crianças

dislé-xicas e sem problemas de leitura apenas quando os estímulos eram semelhantes.

As-sim, quando em presença de sílabas semelhantes do ponto de vista fonológico (por

exemplo /ba/-/da/) as crianças disléxicas demonstravam mais dificuldades do que as

normoleitoras, mas esta diferença já não ocorria quando as sílabas eram mais distintas

(ex: /ba/-/sa/). A ausência de diferenças entre os grupos foi ainda observada numa

situação experimental em que as crianças tinham de discriminar estímulos não verbais

acusticamente emparelhados com os pares de sílabas usados nas experiências

anterio-res.

A existência de dados contraditórios não permite, então, corroborar a hipótese

auditiva devida a défices no processamento temporal rápido. Parece ser claro que as

crianças com dislexia têm problemas na perceção da fala que se traduzem em

desem-penhos inferiores nas tarefas de processamento temporal, mas não há suporte

empíri-co suficiente para a hipótese de que exista um défice no processamento auditivo

tem-poral como causa dos seus problemas na leitura (Vellutino & Fletcher, 2007).