4.2. O PROCESSO DE ADAPTAÇÃO ESTRATÉGICA DA B & C
5.1.2 A HIPÓTESE FUNDAMENTAL DA TEORIA
A existência das formas de administrar o risco, identificadas no diagrama RT-RI, somente é válida se a seguinte asserção for verdade: que as empresas utilizam, ao máximo, o potencial de risco transferido, permitido pela configuração ambiental vigente. Essa asserção - consiste no que denominei de hipótese fundamental da teoria.
H j: Em um ambiente turbulento e com forte influência governamental, as pequenas empresas aproveitam, ao máximo, o potencial de transferência de risco para o ambiente.
Decidi denominá-la de hipótese, pois, caso seja satisfeita, pode-se deduzir um conjunto de proposições específicas a partir dela. É fundamental, pois é um pressuposto para a validação da teoria, visto que atribui sentido a todas as proposições específicas que compõem o esquema teórico8.
A hipótese fundamental Hi emergiu dos dados. Várias citações e os exercícios de sensibilização e comparação descritos nas notas de análise forneceram suporte empírico e capacidade para validá-la. O esquema “Roteiro de análise: Categoria central” contém várias notas de análise que mostram minha linhá de raciocínio e análise até chegar à formulação da hipótese fundamental. Dentre as notas de análise destacam-se o caminho entre as notas “MA: nível de risco percebido” e “SC: Grande teoria integrada: versão definitiva”.
A validação da hipótese Hj me permite tecer explicações sobre a existência de formas distintas de administrar o risco na indústria, a partir de duas dimensões temporais:
a) a existência concomitante de várias formas, em um período, em que predomina uma determinada configuração ambiental e distribuição do risco (transversal); e
8 Por ser substantiva, a teoria deve ser formada por um conjunto de proposições que explicam a variação das formas de administrar o risco na indústria (como, por que, sob que condições, etc.). As proposições serão apresentadas no decorrer do capítulo. Porém, as mesmas somente serão válidas de serem aplicadas e testadas se a hipótese H] for verdade.
b) a modificação das formas ao longo do tempo, como resultante da mudança ambiental e da alteração na distribuição do risco entre os envolvidos (longitudinal).
Em uma análise transversal, a existência concomitante de formas de administrar o risco pode ser explicada a partir do seguinte corolário de H i:
Ci'. A form a de administração do risco, cujo coalinhamento ambiental é o mais eficiente, é aquela que aproveita, ao máximo, o potencial de transferência do risco, permitido pela configuração ambiental vigente.
Por exemplo, como visto no diagrama RT-RI, para configurações ambientais que permitem valores altos de RT, as formas de administrar o risco mais adequadas ao ambiente são aquelas que atuam próximas do risco mínimo permitido (RM), aproveitando, assim, o máximo potencial de risco transferido (RT). Tais formas seriam a entrincheirada ou a repassadora. No outro extremo, em contextos ambientais que permitem somente pequenos valores de RT, a forma mais adequada, segundo Hi e Ci, é a absorvedora.
A teoria admite a existência de variações da forma básica sem haver perda de eficiência no coalinhamento ambiental. Ou seja, a decisão de empresas em aumentar o incremento de risco causa um deslocamento horizontal no diagrama RT-RI, gerando variações da forma básica adequada ao ambiente. Incremento de risco são pequenos acréscimos e não representam um aumento quântico no nível de risco incorrido pelas empresas. Dessa forma, Hi permanece válida e as variações das formas básicas também são eficientes do ponto de vista de ajuste ambiental. Em suma, a decisão sobre o IR é o processo que explica a coexistência de formas eficientes de administração, resultantes das variações das formas básicas.
Porém, devo ressaltar que as empresas atuantes que não correspondem à forma básica eficiente, ou às suas variações, são consideradas não-eficientes no processo de ajustamento ambiental. Nesse caso, são formas que não terão longevidade em um ambiente hostil, sendo altamente instáveis e de duração efêmera. A instabilidade refere-se ao curto espaço de tempo de operação da empresa, ou uma empresa atípica que não representa a média do setor, que
pode surgir por um contrato específico de construção ou até mesmo por firmas ilegais9. Essa afirmação resulta no segundo corolário de Hj.
Ç2: As form as não-eficientes de administração do risco são aquelas que não aproveitam o máximo potencial de risco permitido pela configuração ambiental vigente e são consideradas formas instáveis.
A figura abaixo ilustra a predominância das formas adaptadas ao ambiente utilizando os conceitos de risco transferido (RT), risco mínimo (RM) e risco incorrido (RI). Supõe-se - verdadeira Hi e assume-se uma distribuição normal das formas de administração do risco (para a variável risco incorrido). Em um determinado período, dado um nível de RT permitido, a média da distribuição é 0 risco incorrido (RI) médio pelas empresas da indústria, e os limites inferiores e superiores são, respectivamente, o risco mínimo (RM) permitido e o incremento de risco máximo (IR) praticado pelas empresas.
Figura V.6 - Predominância das Empresas Adaptadas Supondo H-i Verdadeira
Pode-se considerar que a probabilidade de existirem empresas não-adaptadas e instáveis é menor do que 0 da existência de empresas que atuam com o risco incorrido próximo da média, ou seja, situado entre o risco mínimo permitido pelo ambiente e o incremento de risco máximo praticado pelas empresas. As empresas que atuam através de
9 Por outro lado, o surgimento e a existência predominante de formas não-instáveis, em um determinado período, significam que a hipótese H l não é satisfeita. Nesse caso, esta teoria não é capaz de explicar tal fenômeno, devendo existir outro processo que 0 explique, mas, esse não foi 0 caso dos dados analisados.
formas cujo risco incorrido está em um nível inferior, ou muito superior, ao risco mínimo permitido são consideradas instáveis e possuem pouca probabilidade de sobreviver no longo prazo. Por exemplo, para uma determinada configuração ambiental que proporcione RT alto, a atuação como absorvedora ou repassadora incorreria em níveis muito altos de RI, caindo na área da instabilidade10.
Em suma, a hipótese Hi e seus corolários indicam um a tendência de homogeneidade na indústria, quanto à forma de administrar o risco predominante em um determinado período. A figura anterior e o diagrama RT-RI fornecem uma visão estática da teoria. Porém, em uma - perspectiva longitudinal, quando considerei o processo de adaptação ao ambiente das empresas na indústria, verifiquei a possibilidade da existência de deslocamentos diagonais no diagrama RT-RI, causados pela alteração dos níveis de RT, ao longo do tempo. Os deslocamentos diagonais ressaltam o caráter processual da teoria. Nesse sentido, a figura a seguir descreve duas passagens da história da B&C, e da indústria, relembrados pelos seus dirigentes.
10 Vale a pena lembrar novamente que a explicação da coexistência de diferentes formas de administrar o risco considera somente as posições no diagrama RT-RI que estão situadas entre as linhas tracejadas na Figura V.3. As demais posições, como comentei anteriormente, não formam o corpo teórico por não existirem evidências ou por consistirem impossibilidades para a teoria. Dessa forma, não podem ser consideradas instáveis, pois não são passíveis de análise, segundo o raciocínio desenvolvido.
CASO 1: Repassadores para Entrincheirados Períodos 1 — 2
Após o Plano Cruzado, devido ao ágio cobrado dos fornecedores, à deflação das receitas pela tablita e à dificuldade de prever os custos do empreendimento, a atuação da B&C como repassadora tornou-se inviável. Como conseqüência, a B&C adotou o regime de construção a preço de custo, aproveitando a legitimidade do regime em um mercado ainda confiável, que permitia altos níveis de RT. Atuando de forma avessa ao risco, como entrincheirada cautelosa, a B&C diminuiu o nível de risco incorrido, e, conseqüentemente, o retorno esperado. Alguns concorrentes da B&C passaram a atuar como entrincheirados oportunistas, o que causou mudanças na configuração ambiental, principalmente em relação à desmoralização dos regimes de construção a preço de custo.
CASO 2: Entrincheirados para Absorvedores Períodos 2 — 3
A perda de poder aquisitivo dos segmentos classe média e média-alta, causada, entre outros fatores, pelo arrocho salarial e pelo fim da ciranda financeira pós-Real, aliada à desconfiança do mercado, fruto do descrédito nos regimes a preço de custo e dos efeitos da falência da Encol, aumentou o poder de barganha dos clientes. Os credores também se tornaram mais exigentes, devido ao arrocho econômico e a problemas de capitalização do SFH. Esses eventos
contribuíram para a redução do nível de RT, forçando a B&C a sair das trincheiras e a arriscar-se como absorvedora do tipo construtora, adotando regimes de incorporação a preço fechado em um contexto de financiamentos escassos para a produção. Os concorrentes da B&C mais relevantes para seus dirigentes passaram a atuar como absorvedores do tipo banco, financiando diretamente os clientes.________________________________________________________________ Figura V.7 - Deslocamentos Diagonais da B&C
Os deslocamentos diagonais podem ser representados graficamente. A figura abaixo ilustra a movimentação da B&C nos últimos 20 anos no diagrama RT-RI. Os deslocamentos diagonais ilustram o caminho seguido pela empresa e determinado pelo ambiente. Inicialmente, a B&C atuou como repassadora. No segundo período, entrincheirou-se para proteger-se das incertezas e, finalmente, forçada a sair das trincheiras, continuou a buscar proteção como absorvedora do tipo construtora, por meio de estratégias dependentes do credor.
Figura V.8 - Deslocamentos Diagonais da B&C no Diagrama RT-RI
A próxima seção aborda a questão do retomo, que, juntamente com o risco transferido e o risco incorrido, são propriedades da administração do risco, categoria central desta teoria.