4 METODOLOGIA
4.3 HIPÓTESE
Dado que as diretrizes da Reforma Psiquiátrica Brasileira estabelecem a desvinculação do hospital psiquiátrico e a construção de locais de tratamento que trabalhem com a lógica da heterogeneidade, da circulação social e da subjetividade no tratamento mental, a hipótese é que as Moradias Assistidas de Barbacena (MG) respondem à reabilitação psicossocial dos seus usuários. Isso porque elas propõem e viabilizam a construção de uma nova territorialidade para os indivíduos ali assistidos, trazendo-os para uma realidade social pós- moderna, na qual o cenário de acontecimentos da vida é difuso.
4.4 METODOLOGIA
O problema da pesquisa é, fundamentalmente, o papel da relação e das interações entre sujeito-ambiente e, mais especificamente, a relação que se dá entre os indivíduos que residiram em instituições totais e do serviço de saúde mental, mas que passaram pelo processo, ainda em curso, de desospitalização. Essa população investigada reside, atualmente, sob a tutela do Estado, em Moradias Assistidas (MAst) pelo Serviço Residencial Terapêutico (SRT), fazendo uso das práticas psiquiátricas e terapêuticas em um contexto de cidade contemporânea.
A investigação atua a partir de uma cronologia da pessoa, do seu antes e depois, ou seja, a territorialização que faz parte da história dela em instituições fechadas e o processo em curso da reterritorialização que vivencia no agora. Neste sentido, têm-se como objetos físicos os espaços arquitetônica, urbanística e geograficamente quantificados e qualificados, que são os equipamentos que o sujeito utiliza, e a relação e a estrutura desses com lógicas das cidades (por exemplo, o aberto e o fechado, e o dentro e fora).
Na natureza social da pesquisa, estão os lugares e as construções sociais e práticas deles, como os ditames, protocolares ou não, das terapias que interferem ou atuam na moralidade dos sujeitos, as crenças e costumes sociais, entre tantos outros possíveis que atuam no microssistema de formação e relacionamentos e geram espaços significativos e subjetivos para as pessoas. Assim, o fenômeno é a interatividade entre a pessoa e aquilo que a cerca, fazendo-a pensar onde está e em que mundo vive, pelo menos sob duas óticas críticas: (1) o aqui e o agora e (2) o antes e o depois. Contudo, metodologicamente, trabalha-se com um conjunto cronológico e de sistemas para leituras de investigação.
A presente pesquisa é de caráter exploratório, pois pretende, como escreve Gerhardt e Sil eira (2009, p. 35), [...] desencadear um processo de investigação que identifique a natureza do fenômeno e aponte as características essenciais das variáveis que se quer estudar . O planejamento da pesquisa exploratória é flexível e pode assumir diferentes metodologias, técnicas de coleta e de análise de dados.
A estrutura do referencial teórico da pesquisa tem, em seu contexto, uma abordagem histórico-temporal (linha do tempo) relacionada às terapias psiquiátricas, desde Pinel até a Reforma Psiquiátrica Brasileira. Além disso, este trabalho apresenta uma linha de investigação in loco, realizada por meio da visitação às moradias assistidas. Para a pesquisa de campo, procura-se o aprofundamento de uma realidade específica, na qual o sujeito observado está cotidianamente imerso. Por isso, o presente estudo se caracteriza pelas investigações que, além da análise bibliográfica e/ou documental, incorporaram também a coleta de dados, com o recurso de diferentes tipos de pesquisa (GERHARDT; SILVEIRA, 2009).
Tendo em vista a complexidade do estudo, também são englobados conceitos e técnicas da psicologia ambiental. Este é um campo de conhecimento voltado para o estudo das relações recíprocas entre a pessoa-ambien e. O ambien e , ne e ca o, en ol e ma multidimensionalidade de fatores e conceitos, entre os quais se compreende o meio físico e as condições sociais, econômicas, políticas, culturais e psicológicas daquele contexto de análise específico (CAVALCANTE; ELALI, 2011).
A análise ambiental, dentro deste campo disciplinar, abrange três componentes: os físicos (arquitetura, decoração, acústica, iluminação, temperatura, equipamentos, mobiliário, objetos, características topográficas, climáticas etc.); os não físicos (aspectos psicológicos ou pessoais dos usuários daquele ambiente); e os sociais. Estas dimensões compõem um todo a ser analisado, de modo que, ao estudar qualquer um de seus componentes, devem ser considerados os demais elementos do sistema ambiental (CAVALCANTE; ELALI, 2011).
A Abordagem Ecológica do Desenvolvimento de Bronfenbrenner (1996) é utilizada de forma recorrente no campo da psicologia ambiental e serve de contextualização para compreensão da análise ambiental com meio no qual o sujeito interage com o espaço e o contexto social em que está imerso. Ela concebe- e em termos multidimensionais e molares em que o foco da análise está nas inter-relações entre pessoas e seus meios sócio-físicos (STOLKOS, 1978, 291). Esse tipo de método difere de pesquisas convencionais, ao considerar as múltiplas influências dos contextos em que o sujeito vive e a bidirecionalidade em relação à pessoa e ao ambiente em que ela atua. Desse modo, ele engloba não só a
interação entre sujeitos, mas também com objetos e símbolos (MARTINS; SZYMANSKI, 2004).
Bronfenbrenner (1996) explicita a necessidade de os pesquisadores estarem atentos para a diversidade que caracteriza o homem: seus processos psicológicos, sua participação dinâmica nos espaços, suas características pessoais e sua construção histórico-sociocultural. O indivíduo escolhido neste tipo de observação está dentro do seu próprio sistema, o qual engloba: (1) o microssistema, que é definido como o ambiente onde o indivíduo estabelece relações face a face; (2) o mesossistema, que inclui inter-relações entre dois ou mais ambientes, nos quais a pessoa em desenvolvimento participa ativamente; (3) o exossistema, que integra os ambientes em que a pessoa em desenvolvimento não se encontra presente, mas cujas relações que neles existem afetam seu desenvolvimento; (4) o macrossistema, que abrange os sistemas de valores e crenças que permeiam a existência das diversas culturas e que são vivenciados e assimilados no decorrer do processo de desenvolvimento (BRONFENBRENNER, 1996).
A população alvo da pesquisa é composta pelos usuários da rede de assistência à saúde mental de Barbacena, Minas Gerais. De forma complementar, foram abordados técnicos responsáveis e cuidadores que trabalham nas moradias assistidas do município, além de outras pessoas que vivem e convivem com a população analisada e que, de alguma forma, contribuíram para a investigação e a análise realizadas nessa pesquisa. Dentro do grupo-alvo, a amostra da população foi elencada entre os residentes das Moradias Assistidas (MAst), pertencentes ao Serviço Residencial Terapêutico (SRT) do município e que foram desospitalizados de instituições psiquiátricas. Assim, foi estudado e mapeado o cotidiano dessa população, para que se pudesse entender como ocorre sua AVD nos locais que são comuns no seu dia a dia (como trabalho, visita na casa de familiares, passeios etc.).
A escolha do município de Barbacena deve-se ao histórico da cidade, a qual teve um hospital psiquiátrico de grande porte, conhecido como Hospital Colônia. Este foi referência de internação em Minas Gerais no período de 1900 a 1980. Por isso, Barbacena continua sendo uma cidade referência em saúde mental no estado. De acordo com Relatório das Atividades Desenvolvidas pela Coordenação de Saúde Mental de Barbacena, a cidade, pelos dados de 2016, possui 32 moradias assistidas vinculadas ao SRT e registrou 12 mil atendimentos no CAPS no ano de 2015 (COSAM/SESAPS; 2016).
Após a definição do método de análise geral, da abordagem para a investigação da pesquisa e do universo do diagnóstico, a técnica de coleta de dados foi dividida em três partes. Elas consistem em: (1) Análise descritiva: detalhamento dos aspectos técnicos do ambiente
arquitetônico e urbanístico, na forma física geométrico-geográfica e ambiental, técnica e locacional das moradias assistidas; (2) Análise da AVD: investigação dos usuários e suas relações cotidianas, com o objetivo de entender as diferenças entre o sistema manicomial e a rede assistencial de saúde mental no campo; e caracterização do espaço-lugar-ambiência para o ser que ali vivencia (sentimentos e experimentações); (3) Análise de territorialização: estudo da inclusão e da construção de uma reterritorialização com a desospitalização, a qual ocorreu com a nova política da Reforma Psiquiátrica, buscando entender o contexto social da pessoa neste processo. As etapas supracitadas estão mais bem descritas a seguir:
a) Análise descritiva: a coleta de dados nessa etapa foi dividida em duas partes distintas. A primeira consistiu na análise da documentação (projeto arquitetônico e outros): levantamento, sistematização, avaliação e análise documental dos projetos arquitetônicos, plantas urbanísticas, material fotográfico, entre outros. O levantamento contou com elementos básicos das características do espaço e da organização funcional das moradias assistidas, descritos em plantas baixas, croquis e fotografias. Busca-se nos dados coletados informações como: localização urbana (centralidade e territorialidade), correlação entre equipamentos de interesse da pesquisa (equipamentos complementares, como Unidades Básicas de Saúde UBS e outros serviços assistenciais), relação interior das arquiteturas (configuração espacial, aberturas, layouts, materiais de acabamento e referentes à organização do local), usos e ocupação dos ambientes etc.
Posteriormente, foram realizadas visitas sistemáticas in loco: a técnica de coleta de dados nos ambientes das moradias assistidas foi feita pelo walkthrough. Esta técnica objetiva a possibilidade de o observador se familiarizar com a edificação em uso por meio de um
[...] percurso dialogado abrangendo todos os ambientes, complementado por fotografias, croquis gerais e gravações de áudio e de vídeo, [o que] possibilita que os observadores se familiarizem com a edificação, com a sua construção, com seu estado de conservação e com seus usos (RHEINGANTZ et al., 2009, p. 23).
Assim, esse método é realizado com os moradores da SRT e a ordem dos registros fotográficos dos ambientes e objetos, móveis ou outros itens fotografados seguiu a arbitrariedade e a escolha deles. Os dados coletados foram organizados na Planilha de Avaliação do Ambiente (apêndice 01), que reuniu as informações adquiridas nas Fichas de Análise Ambiental, integrando a matriz de descobertas na análise geral da dissertação. Toda essa etapa foi realizada com o consentimento do entrevistado via assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
b) Análise de AVD: processo de conhecimento do cotidiano dos residentes das moradias assistidas, análise do grau de independência para a realização de tarefas rotineiras e entendimento das relações sociais com colegas da casa, equipe profissional, vizinhança e outros locais na cidade. A coleta de dados nessa etapa foi dividida em três partes distintas. Primeiramente, foram coletados os dados relativos aos usuários: estudo dos projetos terapêuticos individuais para levantar informações básicas, como idade, sexo, naturalidade, endereço, procedência hospitalar e demais informações relativas à sua AVD e comportamento na moradia assistida.
A seguir, foi realizada uma entrevista semiestruturada com múltiplos atores: funcionários, técnicos de apoio, profissionais de nível superior completo e usuários de interesse. Essa entrevista teve como foco a gestão e rotinas da semana das moradias assistidas. As questões foram relativas ao histórico profissional, à rotina de trabalho, sobre como funciona a articulação da rede de assistência à saúde mental no município, sobre o espaço físico da residência, entre outros. O roteiro da entrevista pode ser observado no apêndice 03 deste trabalho. Esta etapa utilizou o gravador para o registro das respostas e foi realizada com o consentimento do entrevistado, via assinatura do TCLE.
Por fim, foi realizado um diário de campo, ferramenta que permite ao pesquisador registrar conversas informais, observar comportamentos durante as falas, manifestações dos interlocutores quanto aos pontos investigados e ainda suas impressões pessoais (ARAÚJO et al., 2013). Na presente pesquisa, o diário de campo foi utilizado para relatar comportamentos e outras ações relevantes para a compreensão da população investigada e do cotidiano do objeto de estudo. O registro desses dados foi feito através de anotações, as quais estão compiladas no Formulário de Registro de Atividades, situado no apêndice 04.
c) Análise de territorialização: a coleta de dados nessa etapa foi dividida em três partes distintas. A primeira delas consistiu na entrevista semiestruturada com os usuários. Essa atividade teve como foco a experiência de viver em uma moradia assistida, as atividades de vida diária (AVD) e a territorialização na cidade após a Reforma Psiquiátrica. O roteiro da entrevista semiestruturada está no apêndice 02 deste trabalho. Essa etapa foi realizada pelo profissional responsável pelo tratamento do paciente, mediante o seu consentimento, via assinatura do TCLE. Novamente, o gravador foi utilizado para o registro das respostas.
Após a entrevista semiestruturada, solicitou-se, com base na metodologia de Kevin Lynch (1997), que os usuários fizessem um mapa mental. Esse método consiste na elaboração de
desenhos de um determinado ambiente a partir da perspectiva de seu ocupante (RHEINGANTZ et al., 2009). Em seus estudos sobre a construção da imagem, Lynch (1997, p. 7, 8) de ermina q e a imagen ambien ai o re l ado de m proce o bilateral entre o observador e seu ambien e . A im, no proce o de con r o da imagem, o ob er ador eleciona, organi a e confere ignificado q ilo q e .
Na elaboração do mapa mental, o pesquisador solicita que o respondente desenhe de memória, em uma folha de papel em branco, um croqui ou um mapa de um determinado local frequentado regularmente por ele. O pesquisado tem a liberdade para desenhar elementos e informações que são relevantes para ele, como ruas, avenidas, praças etc. O respondente deve indicar o trajeto completo e sequencial que realiza ao se deslocar, por exemplo, de sua casa para o trabalho e descrever as emoções que sente com relação às diferentes partes do percurso (RHEINGANTZ et al., 2009).
O objetivo dessa etapa é entender as relações experimentais e de sentimento, sensações e afetividades que os indivíduos possuem ao reocupar e transitar pela cidade (orientação espacial). Além disso, através desse processo, é possível compreender como a reterritorizalização confere significado à sua reabilitação psicossocial por exemplo, o desenvolvimento do sentimento de pertencimento ou de identidade com os lugares. O modelo de formulário do mapa mental se encontra no apêndice 05.