3 PRESSUPOSTOS E HIPÓTESES 75 !
3.3 Hipóteses 105 !
Considerando objeto e objetivo desta pesquisa e situando a análise no discurso humanitário temporalmente delimitado no pós-Guerra Fria, as hipóteses da pesquisa são:
a) Há uma tendência na comunidade internacional em geral de conceber discurso contido nos documentos analisados na pesquisa e na ação humanitária por eles regulamentada como moralmente inquestionáveis, rejeitando a hipótese de questionar ideias, instituições e
107 Fairclough (1995, p. 13) exemplifica esse fenômeno: “Por exemplo, na mídia massificada há correntes
conectando várias ordens públicas do discurso (política, direito, ciência, etc.), ordens de discurso da mídia, e ordens de discurso no domínio público (o domínio da recepção). Textos são transformados de modo sistemático através dessas fronteiras, e mesmo dentro das ordens do discurso da mídia o processo de produção do texto pode envolver complexas correntes de práticas discursivas e transformações”. Tradução livre de: “For instance, in the mass media there are chains connecting various public orders of discourse (politics, law, science, etc.), media orders of discourse, and orders of discourse in the private domain (the domain of reception). Texts are transformed in systematic ways across these boundaries, and even within media orders of discourse the text production process may involve complex chains of discursive practices and transformations”.
condições materiais envolvidas nesses documentos e na prática humanitária, de modo a indagar acerca da possibilidade de haver um projeto hegemônico na estrutura histórica específica que se forma a partir das interações recíprocas desses elementos.
b) Um tal projeto hegemônico se esconde atrás dos princípios da neutralidade, imparcialidade e independência veiculados no discurso humanitário dos documentos analisados nesta pesquisa. A relação de poder que se manifesta na ordem desse discurso está velada no próprio discurso e, por isso mesmo, legitimada pela relação de poder que nele se contém.
c) Do ponto de vista das relações internacionais, a análise crítica do discurso humanitário no pós-Guerra Fria permite desvendar as premissas não declaradas nesse discurso, de modo a identificar a ideologia nele impregnada e o projeto de poder nele amparado.
As hipóteses aqui lançadas são possibilitadas sobretudo pela possibilidade teórica de pesquisar as relações internacionais e o discurso humanitário a partir da confluência das teorias Crítica de Relações Internacionais e Crítica de Análise do Discurso. Esses pontos de confluência se verificam justamente nos principais suportes teóricos e conceituais dessas teorias: o materialismo histórico, a questão do poder e hegemonia.
Primeiramente, o materialismo histórico caracteriza ambos os referenciais teóricos aqui empregados. A Teoria Crítica de Relações Internacionais está sedimentada no materialismo histórico gramsciano, ao conceber a ação sempre inserida em determinada estrutura histórica e o cenário global a partir de sua formação histórica. Cox concebe o materialismo histórico como método para analisar dinamicamente a ordem mundial, preocupando-se não apenas com o passado mas também com um processo contínuo de mudança histórica. Levando em conta a complexidade entre Estado e sociedade e as pluralidades das formas de Estado, para Cox o Estado é formado pela sociedade política (aparelho de Estado) e pela sociedade civil (aparelhos ideológicos de Estado).108 A primeira
desempenha a função política de coerção, e a segunda o papel ideológico de consentimento.
108 Para Cox, a “noção de Estado também teria de incluir as bases da estrutura política da sociedade civil.
Gramsci pensava nessas bases em termos históricos concretos - a Igreja, o sistema educacional, a imprensa, todas as instituições que ajudavam a criar nas pessoas certos tipos de comportamento e expectativas coerentes com a ordem social hegemônica”. (COX, 2007, p. 104).
Já a análise crítica do discurso integra o materialismo histórico ao recomendar uma metodologia que contemple dados históricos, atuando em duas frentes: a ordem do discurso a que pertence o discurso, e a ordem do discurso pretendida formatar pelo discurso. Na primeira, a metodologia da análise crítica do discurso recomenda especificar-se as condições históricas particulares dentro das quais o discurso é gerado, relacionando suas propriedades e formato a essas condições. Na segunda, recomenda-se especificar o modo como o discurso se relaciona no processo histórico mais amplo, de modo a identificar prognósticos discursivos. A este respeito, Fairclough discorre:
Penso que a análise crítica do discurso deveria em circunstâncias contemporâneas concentrar sua atenção no discurso situado dentro da história do presente – práticas discursivas cambiantes como parte de um processo mais amplo de mudança social e cultural – porque a mudança constante e frequentemente dramática afetando muitos domínios da vida
social é uma característica fundamental da experiência social
contemporânea, pois essas mudanças são constituídas significativamente por e através de mudanças nas práticas discursivas, e porque não é possível compreender-se adequadamente as práticas discursivas contemporâneas sem
compreender a matriz da mudança. (FAIRCLOUGH, 1995, p. 20).109
Já o tema do poder é central em ambas as teorias. A Teoria Crítica de Relações Internacionais concentra-se nas relações de poder entre Estados e dentro das sociedades civis dos Estados, perquirindo sobre suas origens e os processos de mudança que podem ocorrer nas relações de poder e como consequência das relações de poder. Ela concebe as relações de poder como elemento constitutivo da estrutura histórica e do processo contínuo de mudança histórica. Em vez de se preocupar com aspectos políticos da história, a Teoria Crítica de Relações Internacionais concentra-se em analisar o poder e as forças no cenário global a fim de discernir possíveis rumos e detectar conflitos e contradições no esquema de poder da ordem global.
A mesma postura em relação ao poder apresenta a Teoria Crítica de Análise do Discurso: ela está preocupada em desvendar o poder no discurso e o poder atrás do discurso.
109
Tradução livre de: “I think that CDA ought in contemporary circumstances to focus its attention upon discourse within the history of the present - changing discursive practices as part of wider processes of social and cultural change – because constant and often dramatic change affecting many domains of social life is a fundamental characteristic of contemporary social experience, because these changes are often constituted to a significant degree by and through changes in discursive practices, and because no proper understanding of contemporary discursive practices is possible that does not attend to that matrix of change.”
Como se viu, o poder frequentemente é um objetivo na própria prática discursiva, no mais das vezes escondido no próprio discurso com viés ideológico. A premissa aqui é de que o poder é exercido e promulgado no discurso e que pode haver relações de poder escondidas no discurso. Em ambos os casos, o poder é obtido, mantido e eventualmente perdido no seio de lutas sociais. Em termos de “poder no discurso”, o discurso é o lugar da luta pelo poder; já em termos de “poder escondido no discurso”, o discurso é o suporte na luta pelo poder, na medida em que o controle da ordem do discurso é um mecanismo essencial na manutenção do poder. Aliás, precisamente nessa digressão a respeito do poder escondido no discurso é que se fundamenta a hipótese b acima.
Por fim, o tema da hegemonia é comum nos aportes teóricos dessa pesquisa: ambos Robert Cox e Norman Fairclough se apoiam na doutrina gramsciana a respeito da hegemonia, o primeiro para desenvolver uma ideia de que os movimentos das estruturas sociais internas dos Estados se espalham globalmente buscando uma hegemonia global, o segundo para considerar que o conceito de hegemonia em Gramsci
[...] harmoniza-se com a concepção de discurso que defendo e fornece um modo de teorização da mudança em relação à evolução das relações de poder que permite um foco particular sobre a mudança discursiva, mas ao mesmo tempo um modo de considera-la em termos de sua contribuição aos processos mais amplos de mudança e de seu amoldamento por tais processos. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 116).
4 ANÁLISE DO DISCURSO HUMANITÁRIO A PARTIR DOS DOCUMENTOS DO