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Hipertexto, Hipermídia, Tim Berners-Lee e a Web

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CAPÍTULO IV – OS MECANISMOS DE BUSCA DA WEB

1. Hipertexto, Hipermídia, Tim Berners-Lee e a Web

O desenvolvimento dos computadores, aliado aos primeiros modelos de rede144, deram

ao ser humano a esperança de conseguir criar dispositivos que armazenassem uma vasta quantidade de informações, onde estas pudessem, de alguma forma, estar conectadas entre si. Em 1934, um autor belga chamado Paul Otlet (WRIGHT, 2014, p. 205) descreveu um sistema hipotético conhecido como Mondothèque, que seria capaz de armazenar, organizar e compartilhar documentos como textos, fotos, músicas, microfilmes e outros, utilizando-se da rede telegráfica, para compartilhar tais documentos com outros dispositivos semelhantes. Desta maneira, Otlet tentava criar, assim como ele mesmo se referia, um “cérebro global”, de modo a partilhar todas as informações do mundo. Como já mencionado nesta pesquisa, anos mais tarde, em 1945, Vannevar Bush viria a criar um modelo semelhante ao Mondothèque, o chamado

memex, que, em sua concepção, teria a capacidade de ligar os documentos entre si, introduzindo

assim um conceito primitivo de links entre os documentos.

O conceito de link foi aprimorando em 1963, quando Theodor Holm Nelson, mais conhecido por Ted Nelson, um filósofo e sociólogo dos Estados Unidos, citou pela primeira

vez os termos hipertexto145 e hipermídia146. Ted Nelson ficou mundialmente conhecido por seu

projeto denominado Xanadu, uma espécie de rede de computadores composta de interfaces simples, que foi iniciada em 1960. Em sua concepção, na rede Xanadu todos os hyperlinks seriam monitorados e correlacionados, como, por exemplo, um hiperlink que levasse o usuário do site A para o site B, deveria obrigatoriamente apresentar uma referência no site B, que voltasse o usuário para o site A. E, caso o site B parasse de funcionar, o site A removeria automaticamente a referência para o site B, de modo que, os usuários nunca enfrentassem o problema dos hyperlinks quebrados (DECHOW; STRUPPA, 2015, p. 84). Mesmo sendo muito parecido com a atual web, o projeto Xanadu, que ainda continua em desenvolvimento, não conseguiu pelos mais diversos motivos o merecido prestigio, sendo considerado um grande fracasso por diversos autores e jornalistas (WOLF, 1995).

Uma das apresentações do sistema de hipertexto que marcou a história ocorreu em 9 de dezembro de 1968, quando o engenheiro Douglas Carl Engelbart apresentou, durante uma convenção da ACM147 em parceria com a IEEE148, o sistema que ficou conhecido como The

Mother of All Demos149. Nesta apresentação, que durou 90 minutos, Douglas Engelbart mostrou

um sistema composto de hardware e software chamado oN-Line System, que continha os principais conceitos da computação atual: sistema de janelas, hipertexto, imagens, videoconferência, um aplicativo processador de textos e, dentre outros, um componente novo no mundo da computação: o mouse. Em seu primeiro protótipo, o mouse de Engelbart era composto por duas roldanas capazes de perceber o caminho feito pelo dispositivo na mesa (direta-esquerda e cima-baixo), movendo sobre a tela um cursor e um botão que, quando pressionado, interagia com os itens da interface gráfica. Esta apresentação foi fonte de inspiração para os projetos criados na Xerox Park em 1970 e, também, para o desenvolvimento das interfaces gráficas criadas pela Apple e Microsoft entre 1980 e 1990 (TURNER, 2008, p. 110).

Entre 1978 e 1987, diversos aplicativos foram desenvolvidos, todos eles utilizando-se dos conceitos de hipertexto e hipermídia, merecendo destaque:

145Um material textual ou pictórico interligado por uma forma complexa que não poderia ser convenientemente

apresentado ou representado no papel. Pode conter sumários ou mapas de seus conteúdos e suas inter-relações; pode conter anotações, adições e notas de rodapé de estudiosos que a examinaram (NELSON, 1965, p. 96, nossa tradução).

146Filmes, gravações sonoras ou gravações em vídeo (NELSON, 1965, p. 96, nossa tradução).

147Association for Computing Machinery – Associação para Maquinaria da Computação, nossa tradução.

148Institute of Electrical and Electronics Engineers – Instituto dos Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos, nossa

tradução.

 O Aspen Movie Map, de 1978;  O Enquire, de 1980;

 O HyperTies, de 1983; e,  O Apple HyperCard, de 1987.

Somente em 1989 uma grande evolução nos sistemas de hipertexto viria acontecer, quando o físico Tim Berners-Lee, graduado pela Universidade de Oxford, viria a desenvolver dentro dos laboratórios do CERN150, a chamada WWW - World Wide Web151, também

conhecida como web. Em sua estrutura essencial, a web é um sistema de navegação em documentos hipermídia - contendo texto, imagem, som e vídeo – navegáveis através de

hyperlinks. A ideia de Berners-Lee era criar um sistema, através da internet, que facilitasse o

compartilhamento de textos entre os pesquisadores do CERN e os demais institutos. Para isso, ele desenvolveu dois softwares distintos, sendo eles o browser152, o software servidor153. E,

para que a comunicação pudesse ocorrer, desenvolveu um novo protocolo de rede, que foi chamado de HTTP154, bem como a linguagem de marcação conhecida como HTML155

(BERNERS-LEE, 2001, p. 32).

O primeiro site desenvolvido por Berners-Lee foi a página institucional do próprio CERN156, que foi publicada em 06 de agosto de 1991, onde era possível obter informações

sobre o funcionamento da web: como trabalhava o browser, como instalar um servidor web e detalhes técnicos do protocolo HTTP e da linguagem HTML. Ainda em 1991, Berners-Lee criou um site chamado WWW Virtual Library157, o primeiro serviço de catálogo da web. Neste

serviço eram cadastrados diversos hyperlinks relacionados às diversas áreas do conhecimento. Como a web era um assunto extremamente recente é possível afirmar que este foi o primeiro serviço de busca disponível na web. Todavia, diferente do Archie e demais buscadores, nele todos os hyperlinks eram cadastrados manualmente. Com o intuito de manter o

150European Organization for Nuclear Research - Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, nossa tradução. 151Rede Mundial de Computadores, nossa tradução.

152Browser é um software cliente para a navegação de páginas HTML. 153Local onde ficariam hospedados os documentos e arquivos.

154Hypertext Transfer Protocol - Protocolo de Transferência de Hipertexto, nossa tradução. 155HyperText Markup Language - Linguagem de Marcação de Hipertexto, nossa tradução. 156<http://info.cern.ch/>. Acesso em: 18 jul.2016.

desenvolvimento e a evolução da web, Berners-Lee fundou ainda em 1991, o W3C158, que

dentre outros objetivos, deveria manter a interoperabilidade da web com os diversos sistemas operacionais, além de manter a linguagem HTML atualizada (BERNERS-LEE, 2001, p. 93).

Em pouco tempo, a web de Berners-Lee tomou enormes proporções, sendo que, em 1992, o número de websites se aproximava a 1.000 e, no ano 2000, este valor já passava dos 17 milhões de sites (KENT; WILLIAMS, 2002, p. 136). Segundo o Internet Live Stats, esse número hoje ultrapassa a marca de 1 bilhão e 101 milhões de sites on-line (INTERNET LIVE STATS, 2016a). Na atualidade, parte deste sucesso que a web apresenta se dá, dentre outros motivos, por conta da evolução que os navegadores tiveram nos últimos anos. Quando a web foi concebida, era impossível se cogitar, por exemplo, a presença de vídeos “sob demanda”, como acontece com o YouTube. Isso acontecia porque o primeiro navegador, que se chamava

Lynx, funcionava somente em modo de texto, o que impossibilitava a exibição de imagens e

outros elementos multimídia. Com o aparecimento dos navegadores com interface gráfica, como o Mosaic e posteriormente o Netscape, a internet se tornou mais acessível e assim indivíduos com computadores pessoais, puderam fazer parte da mesma (KENT; WILLIAMS, 2002, p. 136). A web, por sua estrutura voltada totalmente para a hipermídia, acabou decretando o abandono e a posterior morte do protocolo Gopher e, consequentemente, dos sistemas Veronica e Jughead.

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