2 A “BANDA DE MÚSICA” EM SEU CONTEXTO MAIS AMPLO
2.1. CORPUS CONCEITUAL
2.1.1 História conectada, história comparada
Os historiadores Sanjay Subrahmanyan61 e Serge Gruzinski62 propõem o
conceito “história conectada”, significando que as histórias locais não são isoladas, não são vivências únicas do seu tempo e espaço, mas podem ser comparadas, conectadas entre si em um contexto mais amplo, relacionadas pelos movimentos próprios de uma época. As histórias são múltiplas, estão ligadas, conectam-se, comunicam-se63. Dentro do
conceito de conexão, está implícita a ideia de comparação. Pensar em fazer história de forma “comparada” é buscar ultrapassar resultados particulares, exclusivos, singulares. Essa perspectiva entende que as realidades são conectadas temporal e espacialmente, em contorno e contexto mais amplos64. A conexão entre histórias só tem sentido entre
contextos, “conjunto de ideias e de crenças, práticas, formas de organização religiosas e étnicas, maneiras de se relacionar inter e intra grupos e culturas. [...] Fora dele, ela se confunde com a comparação simplória e fácil”65.
Ao apropriar do conceito “história conectada” proposto em pesquisas ligadas ao período moderno, seu emprego nesta tese de doutorado enfocando os séculos XIX e XX poderia significar anacronismo de nossa parte? Pensamos que não, afinal, estabelecer conexões extrapola períodos históricos específicos, faz parte da competência do historiador fazê-las aparecer, da mesma forma que as continuidades ou as passagens minimizadas ou excluídas66.
61 SUBRAHMANYAM, Sanjay. Connected Histories: Notes towards a reconfigurations of early modern
Eurasia. Modern Asian Studies, Brasil, v. 31, n.3, special issue; The Eurasian context of the early modern history of mainland South East Asia, 1400-1800, p. 735-762, jul. 1997. Disponível em: <http://www.links.jstor.org/sici?sici=0026-749X%281993%C735%3ACHNTAR%3E2.0CO%3B2-S> Acesso em: 06 maio 2013.
62 GRUZINSKY, Serge. Os mundos misturados da monarquia católica e outras connected histories. Topoi,
Brasil, p. 175-195, mar. 2001. Disponível em: <http://www.revistatopoi.org/numeros_anteriores/ Topoi02/topoi2a7.pdf>. Acesso em: 06 maio 2013.
63 Idem, p. 176.
64 PAIVA, Eduardo França; IVO, Isnara Pereira. Apresentação. In: PAIVA, Eduardo França; IVO, Isnara
Pereira. (Orgs.). Escravidão, mestiçagens e histórias comparadas. São Paulo: Annablume, 2008. p. 10. (Coleção Olhares).
65 PAIVA, Eduardo França. Histórias Comparadas, Histórias Conectadas: Escravidão e Mestiçagem no
Mundo Ibérico. In: PAIVA, Eduardo França; IVO, Isnara Pereira. (Orgs.). Escravidão, mestiçagens e
histórias comparadas. São Paulo: Annablume, 2008. p. 14. (Coleção Olhares).
Conectar em uma perspectiva comparativa conforme a proposta do historiador Marcel Detienne é comparar de maneira assincrônica uma matéria pretensamente incomparável, com o objetivo de “colocar em perspectiva, confrontar sob ângulos variados, analisar diferentes sociedades de usos e costumes”67. Sua análise
detém-se no objeto em si, no seu caso, os lugares do político e as diferentes formas de democracia, tendo como ponto de partida a Grécia Antiga.
No caso desta tese, o objeto é a banda de música, partindo de sua implementação na Força Policial Militar do Ceará durante os períodos do Segundo Reinado e da Primeira República. Pensar em uma perspectiva assincrônica ajuda a entender também o processo histórico de criação de uma tradição, como é o caso das bandas militares. Sua presença advinda de um costume aristocrático e civil que se introduz no seio dos regimentos militares por volta das últimas décadas do Setecentos na Inglaterra, na França e na Alemanha, e espalha-se a ponto de se tornar parte integrante das estruturas militares no Brasil68
A viabilidade de comparação de aspectos da história da banda de música da Força Policial Militar do Ceará fundamenta-se primeiramente no fato de que sua criação não foi única no Brasil. As bandas policiais foram sendo criadas nas províncias brasileiras durante o Império, inicialmente em Minas Gerais em 1835, seguindo-se depois oRio de Janeiro, Espírito Santo, Sergipe, Bahia, Pará, Ceará, São Paulo, Paraná, Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e, após a Proclamação da República, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás e Amazonas69. Semelhanças e diferenças
podem ser verificadas nos documentos cearenses em conexão com a bibliografia existente sobre as outras realidades brasileiras, observando aquilo que era particular e o que se dava em âmbito mais geral, comum. Outro aspecto importante dessa conexão é saber que a presença de uma banda na polícia, em ambiente militar, não foi uma característica específica brasileira. Para além de uma “herança” portuguesa, é possível detectar um
67 DETIENNE, Marcel. Comparar o incomparável. Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Idéias e Letras,
2000, p. 22. Título original: Comparer L’incomparable.
68A relação da música de entretenimento aristocrático de mesa chamado de tafelmusik, prática presente nos
países da Áustria e Alemanha, com a criação das bandas de música militares em outros países será mencionado posteriormente.
69 BINDER, Fernando Pereira. Bandas Militares no Brasil: difusão e organização entre 1808-1889. 2006.
3v. Dissertação (Mestrado em Música). Programa de Pós-Graduação em Música, Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2006.p.76; FONTOURA, Marcos Aragão. A Banda da Polícia Militar do Rio Grande
do Norte: música e sociedade. 2011. Dissertação (Programa de Pós-graduação em Música), Centro de
fenômeno global das bandas militares existente desde o fim do século XVIII e presente em todo o século XIX70.
Pensar em banda de música é pensar nos instrumentos musicais que a constituem, particularmente os de sopro e de percussão. Conforme será apresentado mais adiante, os instrumentos circularam por meio dos diversos tipos de contatos estabelecidos. Com o crescimento do número de bandas militares durante o século XIX, cresceu a demanda por instrumentos e instrumentistas. Associado a isso, a descoberta de novas ligas metálicas possibilitou a criação e a evolução de muitos instrumentos, particularmente os de sopro. E esses instrumentos continuaram a circular com outros nomes e novas adaptações. Sendo assim, em seu próprio íntimo, a história da banda de música é comparativa e conectada.