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4 CARACTERIZAÇÃO TEÓRICA A PARTIR DA HISTÓRIA CULTURAL: PROTOCOLOS DE LEITURA, LIVRO, LEITURA E LITERATURA

4.1 HISTÓRIA CULTURAL E PROTOCOLOS DE LEITURA

Seguindo a linha de pensamento anterior, importa pensar os protocolos de leitura como prática social de leitura determinante às apropriações do leitor e de representações em seu universo social, histórico e cultural; de modo dinâmico, compreende-se melhor ao retomarmos os conceitos da história cultural. Haja vista que esta leva em conta

“[...] abordagens que privilegiam mais as representações coletivas que as classificações objetivas, as apropriações coletivas que as classificações objetivas, as apropriações singulares mais que as distribuições estatísticas, as estratégias conscientes mais que as determinações não conhecidas” (CHARTIER, 2011, p. 14).

E no caso dessa pesquisa, para a análise de diferentes edições da mesma obra da Série Vaga-Lume, considera-se a relação de criação e produção literária a partir de uma junção material, do suporte e dos textos produzidos.

Para Roger Chartier (2011), a leitura é impactada pelas transformações nas formas de escrita que ao longo do tempo foi modificando, pelas mudanças simultâneas dos suportes, das técnicas de reprodução e disseminação da obra, e das próprias formas de leitura; das leituras orais, silenciosas e visuais. Essas constatações acompanham os diferentes modos de ler que, por sua vez, são permeados de protocolos - (sejam eles literários, editoriais, formais ou não formais), no meio social e cultural do leitor.

Leva-se em conta, como uma forma elucidativa para a produção de um olhar mais atento a um percurso de análise o que Chartier, na obra A mão do autor e a mente

do editor (2014), considera como um trabalho de escutar os mortos com os olhos, tendo em vista que:

Historiadores nunca foram bons profetas, mas às vezes, recordando que o presente é feito de passados em camadas ou emaranhados, têm sido capazes de contribuir para um diagnóstico mais lúcido das novidades que seduzem ou assustam seus contemporâneos (CHARTIER, 2014, p. 25).

Nessa perspectiva, de um modo microscópico analítico, a História Cultural e, mais particularmente, o pensamento de Roger Chartier como um teórico historiador, auxilia a vislumbrar protocolos de leituras no emaranhado de elementos que compõe o livro; a obra literária escrita por um autor em determinado tempo, modo e publicado por um corpo editorial com características próprias aos objetivos mercadológicos.

Portanto, dizer de protocolos de leitura em um contexto histórico cultural é reconhecer, antes de tudo, o lugar que nos permite pensar a partir dessa categoria, cujo interesse por parte dos estudiosos se alargou mais ao final do século XX, por influência da antropologia e de questões relacionadas à cultura popular.

Assim, uma vez que a Antropologia toma o estudo dos símbolos outrora levado em consideração por especialista em arte e literatura, os historiadores reconsideram essa lógica pensando à vida cotidiana e interessando-se pelos estudos “[...] de “regras” e “protocolos” sociais” (BURKE, 2008, p. 57).

Desse modo, sendo Roger Chartier um dos principais historiadores culturais da atualidade, pode-se considerar daí o olhar mais cuidadoso aos elementos endereçados na materialidade dos textos, e, concomitantemente, aos protocolos de leitura, numa tentativa de demonstrar de que maneira a história cultural poderia ajudar a esclarecer as contradições da teoria literária ou as dificuldades da filosofia fenomenológica.

Para Chartier (1992), tanto a teoria literária quanto a filosofia fenomenológica definiram a leitura como ato concreto, mas não consideraram pertinentes as múltiplas variações que, em épocas e lugares diferentes, organizam suas formas contrastantes. E, nesse sentido, assevera que

A história oferece duas abordagens que são necessariamente ligadas: reconstruir a diversidade de leituras mais antigas a partir de seus vestígios múltiplos e esparsos, e identificar as estratégias através das quais autoridades e editores tentaram impor uma ortodoxia ou uma leitura autorizada do texto (CHARTIER, 1992, p. 215).

Nessa medida, a partir dessas duas abordagens (da teoria literária e da filosofia fenomenológica) vislumbram-se, associados aos modos de “reconstruir a

diversidade de leituras”, protocolos de leitura inscritos em estratégias de leituras, e, apesar dos estudos do teórico não se concentram, unicamente, nessa categoria protocolar, classificatória, indicativa, referencial, coordenativa, impositiva, refere-se a ela quando em diferentes obras (1998; 1990; 2002; 2009; 2011; 2011a) ao explorar a leitura, o livro e a escrita como lugares dialógicos entre textos, impressos, leituras, leitores e literatura, e, de outro modo, procurando encontrar um ponto de cruzamento entre a crítica textual, a história do livro e a sociologia cultural.

Para o autor (1990, p. 123), ao abordar a leitura tendo em vista a liberdade dos leitores o os condicionamentos que pretendem por vezes refreá-los, o historiador/pesquisador deveria: “identificar a diversidade das leituras antigas a partir dos seus esparsos vestígios e reconhecer as estratégias através das quais autores e editores tentavam impor uma ortodoxia no texto, uma leitura forçada” (CHARTIER, 1990, p. 123).

E para efeito de explanação, Roger Chartier deixa claro que essas estratégias protocolares “[...] são explícitas, recorrendo ao discurso (nos prefácios, advertências, glosas e notas), e [...] implícitas, fazendo do texto uma maquinaria que, necessariamente, deve impor uma justa compreensão” (CHARTIER, 1990, p. 123). Nesse caso, adverte que é necessário atentar-se para um estudo dos suportes de leitura, textos e impressos associado às diferentes leituras captadas ou reconstruídas em diferentes comunidades de leitores.

Apontamentos semelhantes na obra Práticas de Leitura (2011) dão a ver o que caracteriza essas estratégias usadas por autores e editores na composição do impresso. Além disso, evidencia práticas e diferentes modos de produção de leitura dos sujeitos individuais e plurais em suas comunidades, incorrendo na categoria protocolos de leituras.