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História da atual Comissão Curricular: a busca de um projeto democrático

No documento José Pereira da Silva (páginas 138-143)

3 A REFORMA CURRICULAR DE PSICOLOGIA DA UEPB: AS

3.3 História da atual Comissão Curricular: a busca de um projeto democrático

No ano de 2002, ainda muito próximo da implantação do Projeto Pedagógico Inicial, um conjunto de eventos no âmbito da universidade favorece a retomada da discussão sobre a

reforma curricular. Primeiro a eleição de um novo projeto político-administrativo para a Psicologia que reconhece a necessidade de uma revisão; segundo a renovação do quadro de professores no departamento, ocasionado por um grande Concurso Público realizado pela UEPB em 200157, quando mais de 300 novos professores ingressam na universidade, em que somente a Psicologia teve um acréscimo de efetivos em torno de 33,33% e por fim, as críticas de alguns professores ao Projeto Pedagógico Inicial de 1999.

As críticas mais fortes se direcionaram para o fato do PPP Inicial ter dado a pesquisa e a extensão um status de componente curricular, ter fragmentado os estágios ao longo dos cinco anos e a modalidade seriado anual adotada para o curso. Com relação à segunda que distribui os estágios supervisionados ao longo do curso, configurando-se como um equívoco pelo fato de oferecer experiência de estágio para o aluno recém ingresso e que não foi preparado para tal atividade e, por fim, a terceira crítica que se refere à modalidade seriado anual em que os componentes curriculares são lecionados durante um ano, e como há um período de recesso escolar relativamente longo, as discussões de um semestre ao outro ficam prejudicadas.

A partir desse contexto, o departamento, nas pessoas das professoras Railda Fernandes e Maria do Carmo Eulálio, passa a conduzir o processo da reforma, convocando a assembleia de professores para a constituição de uma nova Comissão Curricular. O princípio adotado foi de que a Comissão seria composta pelo Coordenador do Curso, o Chefe de Departamento e alguns professores do quadro convidados a contribuírem na construção de uma nova proposta curricular.

Ao longo deste processo foram membros da Comissão os professores (as) Laércia Maria B. de Medeiros, Maria José Cabral de Oliveira, Jorge Dellane da Silva Brito, Wilmar Roberto Gaião, Edil Ferreira da Silva e Francinaldo do Monte Pinto. Esses professores fizeram sua graduação em Psicologia na própria UEPB e os dois últimos são oriundos do curso de Psicologia da Universidade Federal da Paraíba – UFPB. Do ponto de vista político, este grupo de professores comunga das orientações administrativas e políticas defendidas pela chefia do departamento.

Considerando as áreas de formação do curso, temos nesta comissão duas professoras da área escolar, dois professores da área clínica e os dois últimos da área organizacional. A participação política da professora Thelma Veloso, maior representante da área de

57 Neste a Universidade realizou um grande concurso para docente fruto das reivindicações do Movimento Universitário Democracia e Autonomia que sai de uma greve de fome de mais de seis meses.

comunitária, sempre foi discreta e com pouca proposição para a área se envolvendo pouco nos embates políticos do departamento. Em função disso, concluímos que a área social-comunitária não teve uma ampliação significativa no Novo Currículo.

Por exemplo, percebemos que a área social não esteve representada em nenhuma das composições da Comissão Curricular ao longo de quase dez anos de seus trabalhos. Em nossa análise esta é a área/ênfase em que há pouca alteração em termos de carga horária de um projeto para o outro, indicando a pouca influência política de seus professores nas decisões sobre a reforma curricular.

De 2002 até 2003, as discussões sobre a reforma foram feitas dentro da Comissão Curricular e depois deste período a Comissão apresentou ao departamento uma primeira proposta curricular. Neste momento houve um grande questionamento do coletivo dos professores sobre a forma como esta proposta tinha sido construída. Muitos professores, em sua maioria de oposição à atual gestão, afirmavam que ficando somente a cargo da Comissão Curricular a construção do Novo Projeto Pedagógico e cabendo à assembleia departamental apenas a tarefa de aprovar ou desaprovar, esse processo não se configurava como democrático. A partir deste pensamento a proposta apresentada não é apreciada naquele momento.

Em menos de meia hora toda a nossa proposta, todo o nosso trabalho de seis meses foi colocado abaixo a pedido do próprio departamento para que todos participassem nesse processo de construção que acontece até o momento. Estamos em 2011 e nós ainda estamos fechando o nosso processo dessa reforma curricular (Professor, “A”, 10/02/2011, entrevista a José Pereira da Silva).

Assim, o debate sobre a necessidade de que o processo da reforma curricular de Psicologia fosse democrático passa a ser a pauta em várias reuniões até que o coletivo do departamento decide que a construção do Novo Projeto Pedagógico será com a participação de todos e se dará da seguinte forma:

a) A Comissão Curricular analisaria um conjunto de componentes curriculares por vez;

b) Apresentaria as alterações para cada componente e levaria para discussão na reunião;

c) Na assembleia departamental cada professor que deseja-se poderia opinar sobre a alteração sugerida; e

d) Após as sugestões e mudanças sugeridas, vota-se a alteração do componente curricular e em seguida passava-se ao componente curricular seguinte até que se desse conta de todos.

Esta metodologia passa a ser adotada desde então até a conclusão da atual proposta curricular de Psicologia da UEPB. Analisando esta estratégia concluímos que a discussão sobre a reforma curricular teve como foco os componentes curriculares; suas denominações, os seus conteúdos e as horas dedicadas a cada um deles. Isso demonstra que os aspectos teóricos e filosóficos do currículo foram discutidos permanecendo em alguns casos vieses do Projeto Pedagógico Inicial.

Mas, para a Comissão Curricular este procedimento aponta para um processo democrático ainda que ela tenha trazido algumas dificuldades e que a participação de todos não tenha sido efetiva.

Eu lamento muito assim, o atraso que isso produz, mas por outro lado eu acho que tem um ganho porque se sente comprometido com aquilo que está sendo criado, né.

Quer dizer, cada professor que participou da reforma ele não pode se queixar que foi feito algo a sua revelia (...) Foi aberto um espaço, se ele estava ou não presente aí é uma questão pessoal dele, mas foi aberto o espaço e foi discutido conjuntamente com todo mundo, então tem uma pitada de todos naquilo que foi construído (Professor, “I”, 13/05/2011, entrevista a José Pereira da Silva).

Um primeiro problema apontado pela Comissão em função da metodologia adotada foi a demora em concluir a projeto. Ou seja, a demora em fechar uma proposta e a excessiva discussão nas reuniões departamentais sobre as mudanças favorecia ao esquecimento das

“memórias das discussões anteriores” 58. Como o tempo entre uma modificação votada no departamento e outra mais à frente era longo, isso dificultava a relação entre uma e outra impedindo um melhor entendimento por parte de todos sobre as alterações.

Nas reuniões departamentais para discutir a reforma curricular nunca estavam todos os professores, e quando aqueles que não tinham participado de determinadas discussões apareciam, reivindicavam o direito de reavaliar questões já votadas. Em muitos casos, a chefia do departamento abria exceção e permitia alterações em matérias que tinham sido vencidas em debates anteriores.

Em estando o departamento divido entre dois grupos (situação e oposição) entendemos que as ausências e a votação de questões já resolvidas indicam a existência de “manobras”

empreendidas no sentido de que determinados interesses fossem privilegiados demonstrando que este processo foi marcado por conflitos e disputas de poder.

Um segundo aspecto a ser considerado sobre a metodologia refere-se à ideia de uma participação democrática na construção do novo PPP da Psicologia da UEPB. Na visão da

58 Termo utilizado pelo entrevistado “J”.

Comissão Curricular a Nova Proposta só representaria a vontade de todos se professores, alunos e servidores técnico-administrativos participassem do processo efetivamente. Porém, mesmo facultando a participação de todos os professores no processo da reforma foi abaixo do que deveria ser ainda que seja reconhecido o sentido democrático do processo que facultou a todos os integrantes do departamento interferência sobre as propostas sugeridas para o novo currículo.

Se houvesse uma maior participação dos professores, ou seja, uma conscientização de que é necessário participar, eu acho que o processo já teria deslanchado (...) falta adesão, eu acho, de boa parte dos professores (Professor, “C”, 23/02/2011, entrevista a José Pereira da Silva).

Devemos reconhecer que o princípio democrático mencionado se refere à noção da participação de todos. Ou seja, os envolvidos ou seus representantes deveriam ser ouvidos sobre o que acham do processo e como ele deveria ocorrer. No caso da Psicologia da UEPB a reforma curricular foi conduzida por uma parte dos professores e não teve a participação dos outros integrantes da comunidade acadêmica do departamento: servidores técnico-administrativos e os alunos.

Essa discussão ocorreu principalmente com a participação dos docentes, né? (...) Eu acho que uma crítica que a gente pode fazer em relação a como essa reforma foi conduzida é que na verdade o que a gente chama de comunidade universitária, né; eu acho que houve um problema, né? Eu acho que a participação do alunado foi muito aquém do esperado (Professor, “F”, 03/05/2011, entrevista a José Pereira da Silva).

Assim, esses espaços são disputados para que determinados interesses sejam impostos em detrimentos de outros. A unidade do Departamento de Psicologia, assim como tantos outros espaços da universidade, se configura como um espaço de luta em que aqueles com condições de influência o farão. No caso da UEPB foram os professores em seus espaços de luta que apresentaram propostas e alterações para o Novo Currículo, a partir de seus lugares teóricos, acadêmicos e políticos.

Nosso departamento é um departamento que tem diversas dificuldades em dialogar, muitas vezes, por exemplo, em relação à reforma curricular o departamento definiu que deve construir um projeto pedagógico com todos os elementos do departamento.

Eu acho uma coisa inviável, impossível, acho que é uma tentativa de fazer tudo democraticamente, mas eu acho que é uma falta de compreensão do que seja um processo democrático (Professor, “J”, 15/05/2011, entrevista a José Pereira da Silva).

Inserido neste contexto, podemos inferir que a participação democrática se deu de forma limitada. Ou seja, a voz dos alunos do curso de Psicologia não se fez presente na proposta nem a dos servidores técnicos administrativos do departamento. A atual proposta curricular reflete o pensamento de determinado número de professores que sempre esteve presente as reuniões e pôde interferir na construção da referida proposta a partir das relações de poder estabelecidas neste processo.

Assim, após um longo processo (2002-2011) uma proposta de reforma curricular é apresentada ao Departamento. Durante o processo de avaliação e aprovação do projeto o coletivo decide que este projeto refere-se à formação do psicólogo e que a formação do licenciado terá um projeto próprio e que, futuramente, será constituída uma nova comissão para a construção do mesmo. Ou seja, o Novo Projeto Pedagógico (2011) refere-se somente a formação do psicólogo. Interessante perceber que após esta deliberação foi percebido pela Comissão Curricular que nas DCN de 2004, já havia a indicação no em seu artigo 13º de que em desejando oferecer a formação de professores cada IES deveria proceder à construção de um Projeto Pedagógico complementar para tal formação.

A formação do professor de Psicologia dar-se-á em um projeto pedagógico complementar e diferenciado, elaborado em conformidade com a legislação que regulamenta a formação de professores no país (CNE/CES Resolução 8, 2004, p. 5).

Com a aprovação do Novo Projeto Pedagógico é encerrado o processo de reforma curricular de Psicologia da UEPB que durou quase dez anos. No momento o departamento aguarda autorização final pelo CONSEPE (Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão) da universidade para que o projeto seja implantado ainda no ano de 2012.

Apresentaremos a seguir, as características deste Novo Projeto relacionando-o ao Projeto Pedagógico Inicial, analisando as recontextualizações de um para outro e os alinhamentos com os debates nacionais para a Psicologia no Brasil.

No documento José Pereira da Silva (páginas 138-143)