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3 CONTEXTO HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA

3.1 A HISTÓRIA DA EAD NO BRASIL

A Educação à Distância no Brasil conta com pouco mais de um século de história. Os primeiros registros desta modalidade de ensino remontam ao início do século XX, quando surge no país, em 1904, a 1ª Geração da EAD ou ensino por correspondência.

Sem exigência de escolarização anterior, os primeiros cursos nesta modalidade foram ofertados por instituições privadas e destinavam-se a iniciação profissional em áreas técnicas. Segundo Vianney:

Este modelo consagra-se na metade do século com a criação do Instituto Monitor (1939) e do Instituto Universal Brasileiro (1941) e outras organizações similares, responsáveis pelo atendimento de mais de 3 milhões de alunos em cursos abertos de iniciação profissionalizante até o ano 2000 pela modalidade de ensino por correspondência (VIANNEY, 2003, p. 31).

Aproximadamente, duas décadas após a chegada da 1ª Geração de EAD ao Brasil, surgem iniciativas com foco no uso de rádio. A partir de 1923, a rádio Sociedade do Rio de Janeiro, cujo fundador foi o engenheiro Edgar Roquete Pinto, dá início a uma série de transmissões educativas marcando o advento da 2ª Geração de EAD no Brasil.

Vivendo seu período de maior relevância no início da década de 60, o rádio passou a ser utilizado como principal meio para promover programas de alfabetização em massa. Nesta época, o modelo rádio educativo alcança seu auge a partir de iniciativas do Movimento Educacional de Base, ligado à Igreja Católica, o qual, assim como vários outros programas educativos, contava com materiais impressos como complemento aos estudos.

Os programas teleducativos têm início no ano de 1969 com o Telecurso Madureza Ginasial, um programa de ensino supletivo, numa iniciativa da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura de São Paulo.

No entanto, a consolidação desta modalidade de ensino ocorre nos primeiros anos da década de 1970 com o êxito de projetos como: a série João da Silva, outra iniciativa da TV Cultura de São Paulo, que seguia o formato de novela educativa dividida em 100 capítulos, contava com o suporte de 25 aulas retrospectivas, 10 aulas complementares e 5 livros de apoio; e do Telecurso 2º Grau, uma iniciativa da Fundação Roberto Marinho, transmitida por emissoras de todo país e que tinha como material de apoio apostilas impressas comercializadas em bancas de jornais.

Entre os agentes que criaram estes movimentos ocorre uma ausência relevante. A universidade brasileira, seja ela pública, confessional ou privada, é a grande ausência. Ao invés de atuar na promoção dos mecanismos de inclusão educacional operados pela EAD, a academia brasileira estabelece um distanciamento crítico da modalidade até a última década do século XX (VIANNEY, 2003, p. 115).

Enquanto alguns países como Índia, Costa Rica, Equador, México, Austrália, Paquistão, Israel, Portugal, França, Estados Unidos, Canadá e Inglaterra já criavam universidades à distância entre as décadas de 1960 e 1980, a maioria das instituições de ensino superior brasileiras estabeleceu relações com a EAD apenas a partir da metade da década de 1990, com o advento da 3ª Geração de EAD, através das novas Tecnologias da Comunicação e da Informação – TICs (entre elas, a expansão da internet).

Visando verificar a adaptabilidade, ou não, dos métodos adotados pela Open University à realidade brasileira, em 1972 o Conselho Federal de Educação, órgão vinculado ao Ministério da Educação, envia uma delegação composta por conselheiros e técnicos à Inglaterra. O relatório produzido por este grupo apontava aspectos metodológicos como o uso de recursos pedagógicos e tecnológicos integrados, bem como fatores socioeconômicos relacionados à redução de custos em comparação ao ensino tradicional e a possibilidade de democratização do ensino superior.

Apesar de o relatório levantar expectativas em relação à criação de uma universidade pública e aberta no Brasil, até o final da década de 1980, o governo nacional não promovera nem iniciativas no sentido de criar uma universidade virtual brasileira, e tampouco flexibilizara a legislação para que instituições públicas e privadas do ensino superior o pudessem fazer por iniciativa própria.

Uma das primeiras iniciativas nacionais envolvendo a modalidade de EAD no ensino superior surgira entre os anos 1979 e 1985, quando a Universidade de Brasília (UnB) em um convênio com a Open University (Inglaterra), lançara, através do Decanato de Extensão, quatro cursos próprios e outros cinco cursos traduzidos da Open University. Utilizando-se de metodologias da EAD com o uso de material impresso, alguns destes cursos foram veiculados como encartes nos jornais: Jornal de Brasília (DF), Jornal da Tarde (SP), O Fluminense (RJ), Zero Hora (RS), A Tarde (BA), Tribuna do Norte (RN) e O Povo (CE).

Neste período, a UnB viu o número de alunos saltar de 1.498 em 1982 para 27.626 em 1983 e, em 1987, apenas o curso Constituição e Constituinte, recém-lançado, alcançou 70 mil alunos em todo o país.

Com a expansão da modalidade, em 1989, o serviço do Decanato de Extensão da UnB é convertido em um centro autônomo, CEAD – Centro de Educação Aberta, Continuada e à Distância, passando a ofertar também cursos de especialização, utilizando tecnologias como videoaulas e CD-ROMs para complementar o material impresso. Em 1998, a UnB cria o programa Universidade Virtual, ampliando sua oferta através do uso de internet e, em 1999, já contava com quatro disciplinas de cursos regulares e 11 cursos on-line ofertados através desta modalidade.

Apesar de existirem outros exemplos de implantação de métodos de EAD no ensino superior, até a última década do século XX, a produção de pesquisas acadêmicas sobre EAD no Brasil seguiam, majoritariamente, duas vertentes: de um lado, as que indicavam a necessidade de estratégias de implantação da modalidade como meio de atender carências de escolarização formal e/ou qualificação profissional, bem como atingir populações afastadas geograficamente; e de outro, estudos sobre experiências com a EAD no ensino superior, entre os quais, sobressaiam-se relatos de fracassos, de iniciativas descontinuadas após poucos anos de implantação.

Assim, ao invés de a literatura específica oferecer suporte para a estruturação de processos para o ensino superior, o que se encontrava era uma profusão de metodologias assistemáticas para o acompanhamento e a revisão de processos já concluídos ou em andamento, para a análise e avaliação de materiais didáticos e mídias utilizadas, para identificar reação de alunos como receptores, professores, técnicos e instituições envolvidos em atividades por EAD, e para aferir resultados em aprendizagem a partir da participação em cursos por EAD. Com certeza toda esta produção resultou numa fértil contribuição para a crítica necessária à EAD. O desenvolvimento científico não pode prescindir da análise crítica e da consideração dos cenários anteriores. Mas, permanecer nestas vertentes de produção acadêmica que não conseguia perceber no pôr do sol o indicativo de que o giro da terra traz na sequência o amanhecer, com certeza levaria à amarga sensação cantada pelos Titãs se de ficar cansado de ver os próprios olhos no espelho. O eixo das abordagens apontava para uma gênese de fracasso (VIANNEY, 2003, p. 117).

Este cenário começa a mudar no Brasil entre os anos de 1994 e 1996, período em que houve a criação de estratégias próprias para o uso da internet como mídia educacional qualificada, através de iniciativas como: a criação do projeto UNIFESP Virtual pela Escola Paulista de Medicina (Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP); a implantação do Laboratório de Ensino à Distância (LED) pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); bem como projetos da Faculdade Carioca, do Rio de Janeiro, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal de Pernambuco e as Pontifícias Universidades de São Paulo, Campinas, Paraná e Rio de Janeiro.

No entanto, o destaque nestes anos iniciais da EAD com o uso da internet ficou por conta da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro pela pesquisa e produção de ambientes virtuais de aprendizagem, criando ferramentas patenteadas pela instituição e formando pesquisadores para o mercado privado de tecnologia e e-learning.

Em decorrência da proposta de pesquisa estar focada nesta última geração da EAD, por ora, limitaremos nossa contextualização do tema ao trajeto percorrido até aqui. No entanto, durante a descrição do corpus e posterior análise, pretendemos desenvolver outros elementos relacionados a esta modalidade de educação, como os ambientes virtuais de aprendizagem, as ferramentas de interação disponíveis nestes ambientes, bem como a relação professor-aluno.