3. RESULTADOS
3.2. Histórias
3.2.2. História das crianças sem experiência(s) de morte(s) recente(s)
Da mesma forma que as crianças do primeiro grupo, eliminamos da análise duas histórias por não apresentarem alguma situação relativa à experiência de morte. Em uma das histórias eliminadas, apesar da prancha de velório ter sido incluída, o cenário descrito é de uma situação vivida dentro de um hospital: “[...] Depois foi ver uma pessoa machucada, no hospital” (24-6,1/F). Em relação ao outro caso de exclusão, a entrevistada (31-8,5/F) não utilizou a referida prancha demonstrando angústia e perguntando, por duas vezes, sobre a possibilidade desta não ser incluída na sua história. Tendo a pesquisadora responsável facultado-lhe a utilização ou não das pranchas que quisesse.
Assim, as informações disponíveis nas 20 histórias analisáveis revelaram que, no tocante à primeira categoria: Circunstâncias da morte – quanto ao tipo de vínculo, as pessoas mortas eram: avós (7 casos, sendo 6 só de avôs e 1 de avó); pai (2 casos); mãe (2 casos); tio (4 casos); tia (1 caso); professora (1 caso) e amigos (3 casos). Nota-se que as pessoas eram, na sua maioria, adultos e parentes de primeiro e segundo graus.
Já os dados referentes à notificação da morte sugerem que, das 8 histórias em que a morte é revelada à criança, em 2, os pais são os porta-vozes; em
2, as mães; e, em cada uma das restantes, tem-se como anunciadores: um colega; a TV; um menino (relação não definida) e uma pessoa não identificada.
Quanto à causa das mortes, apresentadas em todas as histórias, verifica- se um equilíbrio entre as causas internas e externas, sendo atribuídas, respectivamente, dez (50%) e nove (45%) causas a cada um dos tipos citados. Encontra-se entre causas internas: doenças não-especificadas (dor; “câncer [ou] problema do coração” (38-9,10/M)); doenças especificadas (enfarto; câncer; Mal de Parkinson); e uma causa atribuída à velhice. Examinando as causas externas, tem- se uma maioria de casos relacionados a mortes por acidentes (de carro, avião, atropelamento e não-especificado) e dois casos de homicídios. Ademais, em uma das histórias, não foi possível identificar com clareza a causa da morte. Para classificação deste caso, uma nova subcategoria foi criada: causa indefinida (5%). A condição de não identificação da causa resulta da situação em que a entrevistada, por não saber especificar a idade do tio morto na história, diz que este pode ter morrido acidentalmente (em função de uma bala perdida), ou de coração, caso tivesse “uns sessenta anos” (43-10,8/F). Este exemplo, juntamente com as demais informações, sugere que as crianças desse grupo relacionam as causas internas, principalmente, às pessoas mais velhas. Haja vista que, em apenas um caso de morte de avô, a causa foi acidental. Entre as pessoas adultas (pais, tios e professora) observa-se um número aproximado de mortes por causas externas (7) e internas (5). Em relação aos amigos, a proporção é de duas causas externas para uma interna.
Quanto às Estratégias de Enfrentamento, observa-se que as crianças deste grupo utilizaram maior variedade de estratégias. Das 18 histórias em que as estratégias de enfrentamento estão presentes, encontramos seis conjugações de
estratégias diferentes em 15 histórias e, em outras três, apenas uma opção estratégica (não conjugada) para enfrentamento da situação de morte. A seguir, as subcategorias identificadas e exemplificadas ilustram essa assertiva.
a) Expressão emocional: “Eu fico muito triste” (36-9,8/F).
b) Expressão emocional e Distração: “Aí, ela ficou muito triste e começou a chorar. Ela tentou ver televisão para disfarçar um pouco. Aí, ela deu sono e dormiu. No outro dia ela foi na escola pra tentar também disfarçar [...] ” (41- 10,4/F).
c) Expressão emocional e Suporte social: “Depois ele ficou chorando...de quem morreu [...] Depois ele contou pros amigos o que aconteceu naquele dia” (27-7,6/M).
d) Expressão emocional, Suporte social e Distração: “Depois ela começou a chorar muito, se sentia sozinha no mundo. Depois ela conversou com os pais dela...e depois foi dormir” (29-7,11/F).
e) Expressão emocional e Ação direta: “Mas o menino ficou muito triste. Aí, quando...para matar a saudade, foi olhar, foi olhar a foto” (32-9,5/M).
f) Expressão emocional e Inação: “[...] ele ficou triste e ficou...é...parado dentro de casa muitos dias, meses [...] nem pra escola ele ia” (40-10,1/M). g) Ação direta e Distração: “Agora ele tá vendo os mortos, e agora ele tá
dormindo” (25-6,3/M).
Verifica-se, entre os dados levantados, a presença da Expressão emocional como primeira opção estratégica em, praticamente, todas as histórias em que estratégias de enfrentamento são mencionadas.
Neste grupo, o Suporte Social esteve mais presente nas histórias. Assim, em cinco delas, os protagonistas parecem buscar apoio social para se consolarem,
satisfazerem suas curiosidades (principalmente junto aos pais) e desabafarem (com os amigos e pais).
Em três outras histórias, a busca de apoio não é uma estratégia utilizada pelos personagens, mas o suporte é uma iniciativa dos amigos: “E depois, ele tava...ficou muito triste. Esses dois amiguinhos chamaram ele: Gustavo, Gustavo, vamos brincar?” (26-7,6/M); da mãe: “Aí a mãe dela chamou ela e conversou com ela” (39-9,11/F); e da professora, amigos e tia:
A professora e seus amigos tentaram conversar com ela, mas ela [resistente] não quis ouvir. Até que, sua tia ve...vendo como ela estava, falou com ela. [...] Aí ela ficou, aí ela compreendeu que a mãe dela estava num lugar bem melhor do que ela estava (45- 10,10/F).
A partir dessas histórias, em que o suporte é oferecido, percebe-se que este ganha significado diferente para cada caso. Observa-se, no 1º deles, que a iniciativa dos amigos está voltada para distração da criança enlutada, enquanto nos dois exemplos seguintes, os agentes fornecedores de apoio parecem querer consolar as crianças através das conversas, sendo possível perceber, no último exemplo, o suporte espiritual. Desta forma, a criança finalmente parece confortar-se através da compreensão de que a mãe, mesmo morta, estaria num bom lugar.
Apenas uma das histórias foi contada na primeira pessoa do singular por uma das crianças (36-9,8/F), que passou pela experiência de morte há mais de um ano.