A recepção do CLG é cercada por inúmeras controvérsias. Desde os anos 60, quando a obra foi amplamente difundida na França e serviu de apoio à constituição de várias teorias e disciplinas – dentre elas, a Semiologia barthesiana e a Análise do Discurso derivada de Pêcheux e seu grupo –, o livro editado por Bally e Sechehaye foi alvo de várias re-leituras das quais nos interessam, nesta subseção, as críticas atuais feitas por Simon Bouquet.
Sob essa perspectiva traçamos um percurso da constituição da Semiologia saussuriana a partir dos Escritos de linguística geral, do Curso de linguística geral e das críticas de Simon Bouquet. Fazemos isso por meio de uma triagem dos conceitos de
valor e arbitrário do signo, tal como Bouquet os problematiza no pensamento
saussuriano, na medida em que tais noções fundamentam toda a Semiologia pensada por Saussure.
A leitura de Bouquet apresenta-se como a que mais se aproxima, nos dias atuais, da posição de Escobar para quem, já havia em Saussure as bases para a constituição de uma teoria do discurso. No Brasil dos anos 1960/70, essa recepção negativa do CLG – no sentido de que Escobar, assim como Bouquet, pensa essa obra, em muitos aspectos, como uma deformidade do pensamento saussuriano – pode ser considerada a primeira leitura com o propósito de teorização marxista do discurso. Essa teorização era triplamente fundamentada em Marx (materialismo histórico), Saussure (Semiologia), e Freud (Inconsciente histórico)
Embora as leituras de Bouquet e Escobar sejam marcadas por certa radicalidade e, diríamos, por pouca benevolência com Bally e Sechehaye, elas conferem um lugar preeminente à Semiologia na obra “global” de Saussure em relação à Linguística. No caso de Bouquet, a abordagem exegética nos põe a par de vários textos inéditos, dos quais se tem notícia há pouco tempo e isso nos proporciona maior completude em relação ao pensamento saussuriano além do fato de que sua leitura, como já dissemos, vai ao encontro de nosso objeto. Com relação a Escobar, a leitura marxista da Semiologia saussuriana e a constituição de uma teoria do discurso muito próxima da de M. Pêcheux, nos leva a pensar nos anos 1960/70, como o momento em que se manifestam os primeiros passos em direção ao que, nos anos 1980, será disciplinarizado com o rótulo de Análise do Discurso de linha francesa. Isso pode ser pensado tanto a partir da teoria marxista do discurso pensada por Escobar quanto pelas constantes menções34 feitas por ele a Michel Pêcheux e ao grupo dos althusserianos.
A crítica à má formulação da Semiologia por Bally e Sechehaye procura re- construir o projeto semiológico de Saussure. Esse projeto parte da formulação dos conceitos de valor e arbitrário na medida em que são constituintes da significação. Mais que isso, a partir dessa leitura pode-se pensar em Saussure como teórico do discurso, afinal, “A língua só é criada com vistas ao discurso, mas o que separará o discurso da língua ou o que, num dado momento, permitirá dizer que a língua entra em
ação como discurso?” (SAUSSURE, apud STAROBINSKI, 1974, p. 12, grifo do
autor)
Enquanto a Semiologia americana baseou-se na lógica, na psicologia e na filosofia analítica, a européia – principalmente na França – fundamentou-se no Cours resultante do trabalho de edição de Bally e Sechehaye. Nos termos de Foucault – “[...] o ato de fundação de uma cientificidade pode sempre ser reintroduzido no interior da maquinaria das transformações que dele derivam.” (FOUCAULT, 2006, p. 61) –, pensamos em Saussure como um fundador de cientificidade, ou seja, o ato de fundação operado por ele estará sempre presente nos campos que operam com a ciência por ele produzida. De acordo com Puesch (1992, p. 5),
34 Essas menções podem ser percebidas tanto pelas citações feitas por Escobar em seu textos quanto por
Que aceitemos esta “evidência” (mas existem evidências na ordem histórica?), ou que a recusemos, a figura do linguista genebrino permanece um ponto de referência inevitável: ponto de referência de segundo grau se nos interessamos pela maneira como se opera a recorrência a Saussure entre os linguistas/semiólogos que, reclamando sua presença, procuram completá-lo ou ultrapassá-lo; de primeiro grau se interrogamos a partir das Fontes Manuscritas as formulações responsáveis pelo sucesso do Curso35. (Trad. Nossa)
A caracterização feita por Puesch no sentido de atribuir graus de leitura da obra de Saussure importa-nos na medida em que a leitura que Simon Bouquet faz do CLG pode ser vista como de primeiro grau. A partir, principalmente, das Fontes Manuscritas, o autor radicaliza na medida em que toma o Curso como um texto apócrifo. Cruz (2009, p. 108) afirma que “O projeto filológico-crítico de Bouquet parece partir das seguintes premissas: (1) O Curso é um texto inteiramente apócrifo [...]”.
Não acreditamos que Bouquet considere o CLG um texto totalmente apócrifo. Embora ele seja, como já dissemos, pouco benevolente com Bally e Sechehaye, sua questão não é dizer que o CLG é totalmente infiel ao pensamento de Saussure – o autor reconhece, inclusive, o valor do trabalho dos editores –, mas mostrar que o pensamento saussuriano não se encerra na fundação da Linguística.
O trabalho de Bouquet é imprescindível à nossa pesquisa na medida em que a radicalidade quase sempre atribuída a ele representa uma necessidade de se repensar a edição do CLG em relação aos demais escritos de Saussure. No Brasil, tanto a leitura de Bouquet quanto a de Escobar, feita nos anos 1960/70, são importantes para se pensar o campo da Análise do Discurso de linha francesa.
Ao retomarmos a ADF presente nos trabalhos de Courtine (2006) e de Pêcheux (2007), podemos colocar a problemática de uma Semiologia no interior do dispositivo analítico. Por esse viés, ao tomarmos, como avatar da AD no Brasil, um movimento que se deu durante a ditadura, é necessário voltar a Saussure e à Semiologia saussuriana. A esse título, reforçamos, a leitura de Bouquet é aquela que mais se adéqua ao nosso propósito na medida em que ele postula, no pensamento de Saussure, a preeminência da Semiologia em relação à fundação da Linguística.
35 Qu’on accepte cette “évidence” (mais y a-t-il des évidences dans l’ordre historique?), ou qu’on la
refuse, la figure du linguiste genevois demeure un point de référence inévitable: point de référence de second degré si l’on se intéresse à la manière dont opère le recours à Sausssure chez les linguistes/sémiologues qui, se réclamant de lui, cherchent à le compléter ou le dépasser; de premier degré si l’on interroge dans les Sources Manuscrites les formulations qui ont fait le succès du Cours.
A tese de que, no pensamento saussuriano, a Semiologia precede a Linguística é explicada, dentre outros pontos, pela reflexão filosófica que o genebrino faz sobre a linguagem. Dessa reflexão, deriva que a arbitrariedade do signo, bem como o valor a ela relacionada, só pode ter consistência a partir da comparação entre sistemas semiológicos diferentes e não apenas do estudo da língua por ela mesma.
Sob essa perspectiva, a leitura de primeiro grau empreendida por Bouquet toma as Fontes Manuscritas – e outros textos referentes aos estudos desenvolvidos por Saussure, dos quais restam algumas anotações – para mostrar que, em inúmeros aspectos, o CLG negligencia questões teóricas caras a Saussure. Segundo Bouquet, Saussure não era apenas um lógico/gramático, mas também um filósofo da ciência e da linguagem.
Apesar da severidade com que Bouquet critica o trabalho dos redatores do CLG – ainda que reconheça os seus méritos –, essa posição é a mais próxima – e nesse sentido bastante esclarecedora – da leitura que Escobar faz do CLG a partir de Fontes
Manuscritas, principalmente, no que tange à Semiologia. Não que Bouquet e Escobar
tenham tomado conhecimento da obra um do outro – pelo menos os textos de ambos não denotam tal conhecimento –, mas, como leitores do percurso da Semiologia Materialista escobariana dos anos 1960/70, esse paralelo importa na medida em que, os dois autores, cada um em sua época, miram duplamente a questão do projeto Semiológico saussuriano pouco explorado no CLG e a questão da cientificidade da Linguística.
A crítica que Bouquet dirige ao CLG é no sentido de que o texto cria um efeito de acabamento em torno da Linguística e deixa de mostrar o projeto futuro saussuriano de uma gramática geral que envolveria desde a fonologia até a semântica. Tal projeto deriva da epistemologia que Saussure elabora da gramática comparada, outro ponto pouco explorado no CLG.
Bouquet (2000) assevera que as reflexões saussurianas relativas à Linguística Geral desdobram-se em três configurações discursivas distintas. A primeira é a epistemologia (condições de pertinência) da gramática comparada e da fonética histórica – ciências galileanas36. A segunda é a reflexão filosófica sobre a linguagem, no
36
sentido de uma metafísica37 de saber não-positivo, ou seja, um saber que não atende aos critérios de positividade imprescindíveis a uma ciência galileana. Por último, Saussure propõe uma epistemologia programática da Linguística.
Na visão de Bouquet e Engler, esse último Saussure é o que Bally e Sechehaye apresentaram: “[...] é ele que, depois do Cours, passou a ser, muitas vezes, associado exclusivamente ao nome de Saussure.” (BOUQUET e ENGLER, 2004, p. 12)
Ainda segundo Bouquet e Engler (2004, p. 13, grifo dos autores):
[...] a linguística futura deveria recuperar, segundo Saussure, os objetos tradicionais da morfologia, da lexicologia e da sintaxe mas também, descobre-se hoje, os da retórica e da estilística. Essa linguística unificaria essas abordagens numa semiologia, isto é, numa
gramática geral de um novo tipo, que estuda seus objetos com base
no princípio de opositividade intra-sistêmica (chamado também de
negatividade, diferença, kénôme) e que os concebe como
constituintes de uma mathesis linguistica.
O termo mathesis remete à lógica, ao cálculo e à álgebra. A mathesis linguística
caracteriza-se duplamente como o jogo lógico entre os elementos fonológicos (representações dos sons) e as significações. Além disso, ela é vista na relação entre os significantes e a representação que eles fazem da matéria a significar. Nesse aspecto, a língua é o jogo entre os significantes que constituem fórmulas para representar a substância semântica. Sob essa ótica, o jogo de diferenças entre as unidades da língua é o que permite literalizar a matéria psíquica.
Assim, Saussure expõe-nos uma espécie de cálculo da linguagem na medida em que postula a teoria do valor (opositividade/negatividade entre fonemas e sua posterior representação em um sistema fonológico). Ele faz uso de letras para indicar termos e determina as condições de substituibilidade entre os termos. Isso pode ser demonstrado, por exemplo, pela equação do fonema /g/ na expressão algébrica: “sk . j = gr. g = lat. g”. Pensamos nessa representação nos termos de uma metalinguagem inerente à epistemologia da Fonologia.
No que concerne a uma semântica futura, a própria realidade opositiva da língua outra coisa não é que a literalização do fato semântico, ou seja, um conjunto de
37 O termo metafísica no trabalho de Bouquet tem um sentido bem preciso, qual seja, o de um saber não
formalizável que serve de base para a constituição de um saber futuro. Na obra do pensador francês, metafísica opõe-se a epistemologia.
fórmulas convencionais que os falantes empregam para representar a impressão semântica que se manifesta no espírito.
A álgebra representada pela língua em relação ao fato semântico constitui-se, então, em uma teoria do espírito correlativa à teoria linguística. Os fonemas são variáveis arbitrárias – derivadas de convenções próprias a cada língua – que as línguas utilizam para recortar a impressão psíquica dos falantes dessas línguas.
A questão da arbitrariedade está intrinsecamente vinculada à noção de valor. Se os elementos da língua são definidos por sua diferença (negatividade, opositividade), eles são entendidos por uma dupla constituição valorativa complementar constitutiva do que Bouquet (2000) denomina o todo do valor semântico: por um lado o valor in
absentia e, por outro, o valor in praesentia. A primeira ordem do valor apresenta-se na
consciência do falante como fato indivisível; a segunda denota as subdivisões das unidades da língua e as relações que essas unidades contraem com outras.
Essa subdivisão, formalizada por Bouquet (2000) a partir das Fontes
manuscritas e dos Escritos de linguística geral, esclarece as facetas do conceito de
valor e mostra como se constitui o todo do valor semântico. O valor in absentia representa o signo em relação a outro signo, sem a inserção no sintagma e pode ser divido em valor interno e valor sistêmico. O valor interno ressalta três sub-níveis de arbitrariedade: o arbitrário do significante, o arbitrário do significado e o arbitrário da relação entre significante e significado. É importante ressaltar que essas três instâncias só são subdivididas pela construção teórica.
No primeiro caso, em que o significante responde pelo significado e vale por ele, valor é sinônimo de significação e pode ser associado, segundo Bouquet (2000), à ideia lexicológica clássica da palavra valor. No final do século XVII expande-se na França a produção de dicionários monolíngues. O Dictionnaire de l’Académie (1694) é o protótipo de uma nova concepção de dicionário fundamentada no fato de que as entradas lexicais são correlativas. A ideia de que a língua pode definir a si mesma remete a um sistema de valores – tal como Saussure postula mais tarde – e as definições são vistas a partir dos usos das palavras:
Esses dicionários, organizados em conformidade com o axioma de que não há sinônimos absolutos (as palavras quase sinônimas de uma língua se opõem sempre por algum traço semântico secundário), contribuíram de maneira crucial para revelar o caráter opositivo dos sentidos linguísticos. É nesse grande movimento da lexicologia das
luzes que se estabeleceu, a partir do século XVIII, o sentido ‘lexicológico’ do termo valor, utilizado e redeterminado por Saussure. (BOUQUET, 2000, p. 185-186, grifo do autor)
No segundo caso, em que o significado responde pelo seu significante, valor é sinônimo não mais de significação, mas sim de significante. Nesse sentido, a noção se inverte e nos mostra que valor não é apenas significação. Isso tem sua razão de ser na prática comparatista da qual Saussure era um admirador e um praticante. No terceiro e último caso, em que a relação é recíproca, é possível visualizar a díade constitutiva do signo, ou seja, o valor como possibilidade de suspensão do referente no fato linguístico.
A outra face do valor in absentia é o valor sistêmico. Nesse aspecto, depreendem-se mais dois arbitrários: o arbitrário fonológico (o número de unidades sonoras distintivas é singular em cada língua) e o arbitrário semântico (os sons e as marcas que os distinguem também são arbitrários em cada língua). É importante frisar que Saussure postula o arbitrário semântico a partir da homologia com o arbitrário fonológico. Sob esse prisma, a significação não é apenas a contrapartida da imagem auditiva, mas também dos termos que coexistem na língua: “[...] o significado é apenas o resumo do valor linguístico, supondo o jogo de termos entre eles, em cada sistema de língua.” (SAUSSURE, apud BOUQUET, 2000, p. 261).
Como dissemos anteriormente, o todo do valor semântico é o conjunto do valor
in absentia mais o valor in praesentia. Resta agora mostrar o funcionamento deste
último. Importante destacar, a esse respeito, que o pensamento saussuriano é marcado por uma ambiguidade. Bouquet (2000, p. 269) ataca as divisões do Cours:
Essa decupagem por capítulos [...] tende a revelar uma só das duas ordens de valor concebidas por Saussure (a associativa) como o fato de “o valor”, em detrimento da outra ordem (a sintagmática). Essa impressão é reforçada, além disso, pelo fato de Bally e Sechehaye criarem do nada, nos dois capítulos em questão, enunciados que assimilam sem nuança a sintagmação à fala, o que contribui para excluir subrepticiamente da língua o valor in praesentia – e pelo fato de suprimirem conjuntamente outros enunciados que discutem, em relação ao valor, a distinção entre língua e fala.
Nesta crítica, é preciso assimilar alguns pontos e relativizar outros. De fato, Bally e Sechehaye não assimilam sem nuança a sintagmatização à fala:
Poder-se-ia fazer aqui uma objeção. A frase é o tipo por excelência de sintagma. Mas ela pertence à fala e não à língua (ver, p. 21); não se segue que o sintagma pertence à fala? Não pensamos assim. É próprio
da fala a liberdade das combinações; cumpre, pois, perguntar se todos os sintagmas são igualmente livres. (BALLY e SECHEHAYE, 19[??], p. 144)
A citação acima mostra que, em certo sentido, alguns sintagmas pertencem à ordem da língua. O argumento que justifica esse pertencimento é fundamentado nos sintagmas fixos, como o atestam os exemplos dados pelos editores: forcer la main,
rompre une lance38. No entanto, essa explicação dos editores, embora pertinente, não se expande para uma teorização mais aprofundada da sintagmatização de estruturas não fixas. Isto é, não se leva às últimas consequências o conceito de valor in praesentia que levaria à compreensão de que Saussure esboçou o conceito de fala em sua linguística e, consequentemente, um projeto de linguística da fala.
Para Bouquet, o valor in praesentia não deveria ser exemplificado apenas a partir de sintagmas fixos – o que corresponde não ao desenvolvimento do conceito de fala, mas à manutenção da preocupação com a língua –, mas por meio da apreensão da relação espacial e extensa entre unidades linguísticas nas suas mais variadas formas de atualização na prática linguageira. Isso teria sido possível se os editores tivessem podido considerar o conceito de fala – e do projeto de linguística da fala – presente no Saussure re-lido à luz dos Escritos e das Fontes manuscritas. Sob essa ótica, todo objeto que interessa à sintaxe – como teoria do caráter linear sintagmático – faz parte do valor in
praesentia, objeto da linguística da fala já esboçada por Saussure. Para Bouquet (2000,
p. 280):
Podemos dizer, face à sua teoria sintagmática do valor, que, devido à não elaboração da noção de “fala” (ou de “discurso”), Saussure deixou, em seu programa, de colocar conceitos epistemológicos que permitiriam teorias da competência sintática, da pragmática linguística ou da análise do discurso? Ao contrário: seu conceito de “valor in
praesentia” delineia o programa dessas linguísticas.
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São dois exemplos retirados do Curso, a partir dos quais os editores explicam exceções no nível sintático que não atenderiam ao critério da liberdade sintagmática. Nesse sentido, em alguma medida, existem estruturas sintáticas legadas pela tradição que poderiam ser concebidas como da ordem da língua e não da fala. Assim, embora cada palavra da expressão forcer la main permita uma interpretação individual, é na totalidade fixa que a expressão ganha o sentido de fazer alguém agir contra sua própria vontade; da mesma forma, rompre une lance = debater ou lutar contra alguém. O sentido dessa última expressão vem da antiga prática medieval em que dois adversários, cada um com uma lança e um escudo em punho, montados em cavalos, se enfrentavam. Aquele que conseguisse quebrar a lança do outro com seu escudo e ficasse com a sua própria lança intacta teria a maior probabilidade de vitória.
A citação nos leva a pensar39, por exemplo, na crítica que Pêcheux faz a Saussure como um pseudo rompimento40 na medida em que, no próprio projeto epistemológico de Saussure já se encontram as bases para a reflexão sobre o discurso no sentido de que, se a fala também pode ser pensada na língua, então ela tem algo de social e não é puramente individual.
A posição de Escobar na proposição de uma Semiologia Materialista vai ao encontro do que Bouquet defende no sentido de “completar” a leitura dos editores e constituir algo presente no pensamento saussuriano, mas que não se compreendeu posteriormente. Nesse sentido, o autor brasileiro, a partir dos originais, procura pensar uma “linguística” fora da leitura estruturalista e, fundamentado no marxismo, percorre a obra do genebrino para constituir o conceito de discurso:
A parole tem estatuto de ordem discursiva, de língua como discurso em paroles – línguas com função ideológica precisa. Essa liquidação das unidades discretas da linguística reacionária, da sua noção mesma de “língua”, pelo conceito de discurso, em todas as suas formas e subformas, é uma dádiva do marxismo militante e da psicanálise militante na forma de um projeto teórico novo e insubstituível. (ESCOBAR, 1973a, p. 178, grifo do autor)
Substituir as unidades discretas da língua pela noção de discurso. É nesse sentido que Escobar re-lê Saussure. A retomada do conceito de parole no interior da visada marxista que permite pensar a língua como instrumento da luta de classes e não apenas conjunto de fonemas ou morfemas. Mais que isso, a partir da citação acima,