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“É bom você conhecer coisas que você nunca viu. Por mais que o ser humano conhece, ainda tem muito que conhecer

Eu te digo uma coisa, quando a pessoa tem o desejo de adquirir alguma coisa na vida, ele nunca pode menosprezar

aquelas coisas boas que vêm até ele”.

Sr Rubens do Vale

Sr Rubens começa sua narrativa apresentando-nos um fato curioso: “Estou no

Ensino Médio lá, mas o 1º ano do Ensino Fundamental foi lá. Em 2003 eu fui para o Santo Antônio e em 2004 eu fui pro Imaculada. Eu fechei o Ensino Fundamental no IMACO em 2012 e em 2013 fui para a Escola Zacarias de novo”. A itinerância do

nosso educando em escolas de EJA em Belo Horizonte ajuda-nos a confirmar a diversidade de oferta e organização da modalidade, considerando a oscilação entre pontos fortes e fracos de cada uma delas:

“Eu queria diversificar mesmo, de uma escola pra outra, porque eu

sabia que tinha diferença. Nessa escola aqui, naquela época, eu saí daqui porque corria muita droga e a coordenação não tinha pulso, não é que a coordenação não tinha pulso, é uma questão social. Na globalização governamental política, que houve certas mudanças, de procurar reintegrar aquelas pessoas, os jovens que estavam parados, mexendo com tráfico, né? Aí o governo, tanto estadual,

quanto municipal, abriu o EJA para tentar restituir essa gente” (Sr

Solteiro, pardo, possui um filho e mora com um cachorro que entende seus comandos em inglês: “Eu converso com ele em inglês ‘sit’, ‘good night’ (risos)”. Sr Rubens contou sobre sua infância triste, na cidade de Sabará39, no qual a interrupção de seus estudos era tida como natural:

“Eu já tinha diploma né, naquela época era diploma, diploma do 4º

ano, aquelas famílias do bairro que eu nasci, General Carneiro, naquela época não existia continuar, as pessoas arrumavam era filho, paravam na 4ª série, pessoas que trabalhavam na rede ferroviária, na Cemig40. Era falta de uma certa condição de vida, tanto financeira, tanto assim, cultural. Os pais naquela época eram muito pobres, só lembravam que os filhos tinham que estudar, tirar pelo menos o diploma. Eles tinham na mentalidade deles que o filho tinha que servir o exército, era um povo muito traumatizado, Revolução de 196841, né?” (Sr Rubens do Vale, 62 anos).

Trabalhou em outras ocupações antes da Polícia Militar, vendendo salgados para a mãe e na construção civil. Sua entrada na polícia está vinculada a um concurso específico que ele chamou de prova pra polícia de músico:

“Minha mãe era evangélica, eu estudava música com doze anos, na

Igreja Evangélica, eu estudava trombone. Com isso minha mente foi mudando, mudança de juventude para adulto. Eu fui regente de coral na igreja. Depois que eu entrei pra polícia eu tocava na banda da polícia. Aí eu conheci uma menina, casei, fiz prova pra polícia de músico, eu entrei com a mentalidade direto pra banda de música. A minha turma tinha 120 homens, aliás, 240 homens, e foi dividido 120 para o Palácio do Governo e 120 pra cavalaria. Mas eu fui sorteado pra cavalaria, eles não me mandaram pra banda. Eu servi a fileira nove anos, nesse intermediário de tempo, a música

ficou parada” (Sr Rubens do Vale, 62 anos).

Sr Rubens também contou sobre alguns vícios que se intensificaram após a aposentadoria, como o fumo e a bebida. Em busca de mudanças, vendeu o apartamento e morou durante um tempo em São Joaquim de Bicas/MG, que em sua opinião, não

39 Região metropolitana de Belo Horizonte. 40 Companhia Energética de Minas Gerais.

41 A Revolução mencionada é mais conhecida como Maio de 68 – França, 1968. No Brasil, o período

oferecia escola adequada: “As escolas lá, eu pesquiso muito, e vi que eu não ia me

adaptar”.

Seu retorno a Belo Horizonte e a busca pela Escola Zacarias no período da tarde indica uma característica comum entre estudantes da EJA aposentados, como foi observado com outros colegas na pesquisa de campo realizada:

“Aí fui fazer o Ensino Médio, à tarde. Porque à tarde é melhor pra

mim, a questão social, pessoal, eu vi que não ia poder trabalhar em outra função e à tarde vai ser um horário até bom pra mim, porque à noite eu estou em casa, tem o resto da noite pra estudar, fazer alguma coisa. De manhã levanto, tomo meu banho, tomo meu café,

meio dia já vou pra escola, pra mim foi bom o horário” (Sr Rubens

do Vale, 62 anos).

Na escola atual, ele destaca o interesse por várias atividades culturais no qual participou: “Assim, oficina de fotografia em 2013, pesquisas culturais e ambientais, eu

participo do projeto de teatro lá da escola e da oficina de contação de história”.

Destaca também que estas participações permitem-no conectar com algumas lembranças: “Às vezes eu queria tanto que voltasse aquela época, era fanfarra, um

conjunto de percussão, geralmente formado com dois, três, pistolas, o trombone”.

Sr Rubens chama a atenção de que valorizar as experiências culturais dos educandos é de grande importância para o processo educativo. Constituem as identidades, as marcas dos sujeitos que circulam nas escolas de EJA: “A escola

influencia muito, na questão social, na questão financeira, na ampliação dos meus conhecimentos, esses são os meus objetivos. Quanto mais a escola abrir espaço pra questão cultural, ainda é pouco, ainda é pouco, pra te ser sincero”.

Destacando a importância da contação de história, nosso educando narra um dos dias de oficina:

“A professora fez um jogo e dividiu em quatro, contou todos na

sala e dividiu todos em quatro, como se fosse um trabalho em conjunto, certo? Ela passou uma mensagem pra gente e disse

‘vocês vão trabalhar em cima dessa história, vocês podem até falar

das suas vidas, tal, só não pode inventar. Vocês vão falar o que vocês viu e achou importante e que teve algum sucesso nas suas

vidas, ou que não teve’. Aí era assim, cada um tinha que apresentar

a sua história. Eu acho que essa parte de contação de história é muito sensibilizada, porque você restitui aquilo que tá ali parado, aquilo que tá preso dentro da pessoa. Eu, por exemplo, tenho

experiência, já passei várias dificuldades na vida, já atravessei barreiras, já superei várias coisas que é muito difícil de superar, sabe? A partir do momento que me dê oportunidade, eu posso passar minha experiência para os jovens, possa ter alguém que vai

aproveitar” (Sr Rubens do Vale, 62 anos).

Acompanhando um pouquinho da rotina do Sr Rubens, dentro e fora da escola, percebemos uma enorme sede de atividades culturais, evidenciando como as propostas de Educação de Jovens e Adultos precisam ficar atentas às demandas vindas de seus protagonistas:

“Eu estou andando aqui na rua, eu vejo alguma coisa de

importante, eu mesmo crio minha própria cultura. Vou ser sincero pra você, na vida que atravessamos hoje, eu acho que se nós tivéssemos aula de segunda a domingo ainda era pouco. Eu acho que a aula tinha que ser o dia inteiro (risos). Não só a aula dentro da sala de aula. Porque eu sou muito pesquisador, sou muito cauteloso, sou muito técnico” (Sr Rubens do Vale, 62 anos).

E assim, ele encerra suas contribuições com a bagagem de um estudante que já foi regente, trompetista, músico da banda da Polícia Militar e artista que se apresentou no grande palco do Palácio das Artes em 1988:

“Eu prejulgo isso como se fosse uma matemática. A música é

infinita. Você sabe por que a música é infinita? Não? (risos) Porque a música é uma matemática. A harmonia, tudo é uma coisa só. Se a pessoa não tiver divisão, ela não tem ritmo. A divisão bate na exigência do conteúdo da matemática e pra ter o ritmo, tem que ter a divisão. Esse ritmo é importante para duas coisas, ele é responsável pela melodia e a harmonia. Aquela coisa que vem encaixar nas mentes das pessoas, preencher a sensibilidade das

pessoas” (Sr Rubens do Vale, 62 anos).