4.1 Contexto no período de 1914 a 2000
4.1.6 História do ambientalismo
A necessidade de reconstrução das cidades européias durante o pós-guerra foi uma das causas da percepção de que as matérias-primas eram finitas73; tal percepção desencadeou o moderno pensamento ambientalista74. Já em 1968 ocorreram dois marcos históricos: a fundação do Clube de Roma75 e a decisão, em uma das rodadas preliminares da ONU, de incluir o tema ambiental na Conferência de Estocolmo.
73 “Queiramos ou não, a dimensão da crise ambiental planetária só foi percebida no pós Segunda
Guerra, e especialmente no correr da Guerra do Vietnã. Só aí se percebeu que os recursos do planeta não eram inesgotáveis (...) logo, como já suspeitara o pensador inglês Keynes, a economia baseada no lucro imediato e na produção máxima a qualquer preço tinha os dias contados, pelo menos no nível teórico.” FRANCO (1997, p. 31).
74 Com as guerras, os movimentos que pensavam o ambiente haviam sido brecados. Em algumas
partes do mundo, chegou-se mesmo a acreditar que havia morrido. MCCORMICK (1992, p. 193).
75 O Clube de Roma é uma associação internacional formada por intelectuais, cientistas e empresários
O Clube de Roma publicou em 1972 o relatório Meadows. Informados sobre os recentes trabalhos de ecologia global e chamando atenção para o impacto das atividades econômicas da humanidade sobre a biosfera, o Clube de Roma teve como objetivo definir uma “problemática mundial” e dela tirar lições práticas para reconciliar o desenvolvimento com o meio ambiente. Os resultados publicados apontaram para duas possibilidades: ou a mudança dos padrões do crescimento econômico ou o colapso ecológico nos próximos cem anos.
O documento causou estardalhaço; e a mensagem que passava era que um mundo finito como a nossa biosfera impõe limitações físicas e ecológicas ao crescimento bioeconômico da humanidade. Advertindo que “decidir não fazer nada é decidir aumentar os risco da derrocada”, o Relatório Meadows levantou ampla discussão e uma divisão nas opiniões a respeito de suas afirmações; enquanto industriais o acusavam de alarmista, autores como F. Meyer e N. Georgescu-Roegen o consideravam demasiado otimista.
Ainda em 1972 foi tomada a primeira ação de caráter global visando combater os males da depredação mundial: na Convenção das Nações Unidas realizada na Suécia - a primeira a tratar de temas ambientais - foi aprovado o tratado de Estocolmo, que deu diretrizes para o desenvolvimento sustentável de nações, cidadãos e pesquisas científicas. Este tratado de apenas três páginas serviu de base para os que o seguiram, como o de Nairóbi em 82 e o da ECO-92 no Rio de Janeiro.
Durante as décadas de 60 e 70 o debate acerca do meio ambiente esteve muito centrado em questões domésticas dos países desenvolvidos, e despertava perspectivas rivais entre países “mais” e “menos” desenvolvidos (MCCORMICK, 1992, p. 192-193), bem como no seio das comunidades, já que os ambientalistas advertiam sobre os riscos do desenvolvimento econômico, então visto como incompatível com a preservação da natureza, e seus críticos apontavam que o ambientalismo tratava “apenas da manutenção dos privilégios dos mais bem aquinhoados” (OWENS & BAYLISS-SMITH in DEREK, 1996, p. 131). Foi uma época marcada por debates e protestos.
A solução do impasse entre ambientalistas e desenvolvimentistas veio com o conceito de “desenvolvimento sustentável”76 que suplantou em vários pontos a idéia de “crescimento
zero” anterior. O relatório Our Common Future (Nosso Futuro Comum) (1987) conhecido
76 Desenvolvimento que “atende as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das
como relatório Brundtland, tido como o documento que definiu o termo77, afirmava que “O ambiente e o desenvolvimento não são desafios independentes; eles estão inexoravelmente ligados. O desenvolvimento não pode subsistir sobre uma base de recursos ambientais em deterioração; o ambiente não pode ser protegido quando o crescimento deixa de contabilizar os custos da destruição do ambiente.” (CMAD, 1988, p. 37)
O relatório Brundtland era fortemente centrado nos problemas do terceiro mundo e identificou os principais problemas ambientais que ameaçam e entravam o desenvolvimento de muitos destes países: o crescimento demográfico, o esgotamento dos solos provocado pela criação de gado e agricultura excessivas, o desflorestamento, a destruição de espécies, a alteração da composição química da atmosfera, a desestabilização do clima mundial, etc. Segundo o relatório, a proteção do ambiente deve ser uma prioridade internacional que obrigue a uma vasta redistribuição dos recursos financeiros, científicos e tecnológicos. Este relatório apontava ainda prioridades e medidas políticas que deveriam ser adotadas imediatamente, no sentido de gerir os recursos de maneira a assegurar um progresso durável e a sobrevivência da humanidade. Foram ainda analisadas em escala mundial a interligação e a sincronização entre os problemas sociais, econômicos e ecológicos, e preconizadas soluções.
Com o relatório Brundtland e o conceito de desenvolvimento sustentável, o próprio ambientalismo inaugurou uma nova etapa de sua existência: nos países desenvolvidos os defensores do desenvolvimento e os do meio ambiente encontraram uma linguagem comum, o que levou ao fim dos protestos e passeatas públicas e ao inicio do tempo do amplo envolvimento político em questões ambientais78; nos países em desenvolvimento a fase em que se julgava ambientalismo “coisa de rico” deu lugar a uma nova visão de que não poderia haver um desenvolvimento racional sem conservação ambiental e de que degradação ambiental e injustiça social são duas faces da mesma moeda (MCCORMICK, 1992, p. 193).
O relatório Brundtland influenciou ainda a Assembléia Geral das Nações Unidas a realizar em 1992 a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
77 Segundo OWENS & BAYLISS-SMITH in DEREK, (1996, p. 131), o novo termo apareceu pela
primeira vez em 1980, no documento intitulado “Estratégia de Conservação Mundial” das instituições IUCN e WWF, embora tenha se popularizado a partir da sua utilização no relatório Brundtland, de 1987.
78 O primeiro “partido verde” surgiu na República Federal da Alemanha, em 1978, muito antes,
portanto, do relatório Brundtland, que é de 1987. Após o relatório, a causa verde passou a ser aceita por tal quantidade de partidos políticos, que partidos verdes deixaram de ter razão de ser.
(Rio-92) 79. O fato de ter-se realizado uma convenção governamental exclusivamente sobre o meio ambiente em paralelo a outra convenção de entidades particulares (ONGs), sobre o mesmo tema, mostra o quanto a percepção da relevância da questão ambiental evoluiu desde o fim dos anos sessenta. Nesta reunião foram firmados compromissos baseados em constatações sobre diversas situações ecológicas preocupantes encontradas em várias partes do mundo. Os países participantes ainda se obrigaram a estabelecer e cumprir “agendas” (as agendas 21 locais), compostas por diagnósticos, metas e diretrizes, de modo a cumprirem os acordos firmados nesta Conferência.
Importantes documentos foram elaborados na Rio-92, que apontaram comportamentos mais responsáveis de toda sociedade:
• Agenda 21- programa de ação global, em 40 capítulos;
• Declaração do Rio, um conjunto de 27 princípios pelos quais deveria ser conduzida a interação dos humanos com o planeta;
• Declaração de princípios sobre florestas; • Convenção sobre diversidade biológica e • Quadro sobre mudanças climáticas.
A Agenda 21 e a Declaração do Rio definiram políticas essenciais para alcançar um modelo de desenvolvimento sustentável que atenda às necessidades dos pobres e reconheça os limites do desenvolvimento, de forma a atender às necessidades globais. As necessidades foram definidas não só levando em conta os interesses econômicos, mas incorporando as necessidades de um sistema global que inclui tanto a dimensão ambiental quanto a humana. A Agenda 21 é um programa de ação adotado por 182 governos e é o primeiro documento do gênero a alcançar consenso internacional, fornecendo um plano para assegurar o futuro sustentável do planeta, lançando questões sobre o desenvolvimento e o meio ambiente e ressaltando a importância de ações imediatas para garantir práticas de desenvolvimento mais sustentáveis.
79 A conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e desenvolvimento também ficou