Historicamente o termo psicomotricidade apareceu no discurso médico, mais precisamente neurológico, quando, no início do século XIX, foi necessário nomear as zonas do córtex cerebral situadas mais além das regiões motoras. Com o desenvolvimento e as descobertas da neurofisiologia, foram constatadas diferentes disfunções graves sem que o cérebro estivesse lesionado ou sem que a lesão estivesse claramente localizada. Foram descobertos distúrbios da atividade gestual, da atividade práxica. Portanto, o esquema anátomo-clínico que determinava para cada sintoma a sua correspondente lesão focal, já não podia explicar alguns fenômenos patológicos. Foi, justamente, a partir da necessidade médica de se encontrar uma área que explicasse certos fenômenos clínicos que se utilizou, pela primeira vez, a palavra “psicomotricidade”, no ano de 1870.
Em 1909, a figura de Dupré, neuropsiquiatra francês, foi de fundamental importância para o campo da psicomotricidade, pois foi quem afirmou a independência da debilidade motora (antecedente do sintoma psicomotor) de um possível correlato neurológico. Mas foi P. Tissié, um médico francês, que no século XIX tratou pela primeira vez um caso de instabilidade mental com impulsividade mórbida, por meio da chamada ginástica médica. 29 A dita ginástica médica da época consistia na execução de movimentos coordenados elementares, de flexões de membros, de boxe, de equilíbrios, de percursos a pé
29 Um jovem paciente de 17 anos, rejeitado socialmente, portador de idéias obsessivas e fixas, e extremamente colérico, andava longas distâncias, mesmo quilômetros, não para conhecer o meio ambiente ou dar expressão às suas necessidades de exploração da natureza ou aos seus sentimentos de liberdade, mas apenas para andar depressa e ininterruptamente, numa espécie de "marcha em fuga", característica de muitos casos
e de percursos de bicicleta, além de duchas frias administradas em intervalos regulares. Para Tissié, um trabalho muscular medicamente dirigido, compensaria as impulsões enfermas dos seus pacientes.
O movimento começou assim, há cerca de um século, a ser concebido como agente curativo, ordenando as orientações energéticas. Esta perspectiva pioneira sustentava que dominando os movimentos, o paciente disciplinaria a razão, um conceito psicomotor relevante. À ação curativa da ginástica médica juntou-se à ação psicodinâmica da ginástica respiratória, que emergiu essencialmente duma perspectiva higienista, com a finalidade de estimular os centros da sugestão.
Acreditava-se que a ginástica médica e o controle respiratório tinham a capacidade de desenvolver o autodomínio e solicitar os centros cerebrais onde se encontram os pensamentos, os movimentos e também o lugar onde nasce a vontade. “Pela ginástica médica, o exercício físico dirigido pelo próprio indivíduo, intercederá na ordem psicológica, gerando uma qualidade cuja natureza é, por um lado, moral e, por outro, psicológica.”30 Nestas palavras de Tissié, a denominada ginástica médica, pressupõe já a tomada de consciência e a intencionalidade do movimento. Este foi certamente o primeiro autor ocidental a abordar as ligações entre o movimento e o pensamento. Ele construiu um novo espaço de conceitos, situado entre a fisiologia e a psicologia, além de preconizar historicamente os tratamentos pelo movimento. 31
Nesta mesma época a influência de Charcot, neurologista francês, se fazia sentir de forma singular. O hipnotismo e a teoria da sugestão ou da persuasão centravam-se e focavam-se no campo muscular, segundo este autor. A hipnose não é mais do que uma estranha cumplicidade entre a idéia e o movimento ou, pelo menos, evoca uma dialética inseparável entre tais componentes da vida psíquica. Os métodos criados por Charcot, atribuíram ao movimento uma função de restauração das idéias sãs, exatamente porque são desejadas pelo paciente. “Por hipnose, a palavra do médico reeduca um pensamento
desviante ou pervertido”. É por meio de palavras, de gestos e de atitudes que imprimimos no sujeito a idéia que lhe desejamos transmitir. 32
Mais tarde, Freud, marcadamente influenciado por Charcot, procurou desvendar as relações entre o soma e o psíquico a partir de zonas erógenas que induzem processos libidinais vitais, influenciando assim a nascente psicomotricidade. Dos estudos de Freud esquizofrênicos. Tissié P. 1894, Un Cas d`Instabilité Mentale avec Impulsions Morbides Traités par la Gymnastic Médicale, In Archives Cliniques de Bordeaux, n. 5, apud Fonseca, 1975.
30 Tissié, 1901, L´Education Physique. Paris: Ed. Larousse, p.76.
31 Fonseca V. 1975, Contributo para o Estudo da Génese da Psicomotricidade. Lisboa, Ed. Notícias, pp. 43-59.
32 Charcot, 1887, Leçons sur les Localizations dans les Maladies du Cerveau. Paris: Ed. Delahaye, p. 79, apud Fonseca,
emergem as primeiras representações dum "corpo emocional e intrapsíquico", instrumento essencial à construção da personalidade do indivíduo e à sua autoconsciência, o verdadeiro "Eu" que surge exatamente de necessidades e experiências relacionais. Paul Schilder, em 1935, refere-se aos processos libidinais como narcísicos, tendo como objeto a imagem do corpo, o tal estado de auto-reflexão corporal, donde emana o fluxo paralelo da consciência (self), verdadeira síntese psicomotora do indivíduo.
Com o neurologista norte-americano Eccles, definindo a psicomotricidade como algo exclusivo do ser humano, a ciência em questão ganhou a distinção que delimitaria os seus elementos formadores da unidade psicossomática. Para ele a motricidade humana, a única que se pode denominar psicomotora, é distinta da motricidade animal por duas características: é voluntária e possui novos atributos de interação com o mundo exterior33. Desta forma, corpo e cérebro, motricidade e psiquismo co-integram-se, ou seja, um não é possível sem o outro, implicando daí a sua co-estabilidade. É esse sentido de harmonia que ilustra a unidade psicossomática, algo que se pode dissociar nas perturbações psíquicas (histeria, hipocondria, anorexia, catatonia, depressão, distimia, hipomania, etc.), a maioria das quais espelham uma linguagem própria do corpo, nesses casos, alterada. 34
Por sua vez, o estudioso português Fonseca, com relação à abrangência do termo psicomotricidade, garante que tal nomenclatura pode dar cobertura a muitos conceitos diferentes e, até mesmo, em alguns modelos, gerar um verdadeiro caos semântico que se espalha por várias profissões, de fisiatras a psiquiatras, de fisioterapeutas a professores de educação física, de professores de música a professores de expressão artística, entre outros.
35 Essa circunstância prejudicou e tardou o reconhecimento da psicomotricidade como
disciplina autônoma, o qual somente se deu no séc. XX. É o que veremos a seguir:
2.1 Sinopse do reconhecimento da psicomotricidade
A psicomotricidade, embora tenha origens no séc. XIX, começou a ganhar reconhecimento institucional como disciplina somente no início do séc. XX. Primeiramente em 1901, com as pesquisas de Tissié, mais tarde, em 1925, com Dupré, logo depois, em 1928, com Janet e, sobretudo com Wallon, a partir de trabalhos publicados respectivamente em 1925, 1932 e 1934, a psicomotricidade ganhou, definitivamente, o reconhecimento
33 Eccles, 1989, apud Fonseca, 1989. Desenvolvimento Humano: da Filogênese à Ontogênese da Motricidade
Humana. Lisboa: Ed. Notícias, pp. 34-56.
34 No capítulo 5, será mostrado como a unidade psico-somática não é algo dado ou garantido, para Winnicott, além disso, segundo o autor, nas perturbações citadas, esta unidade está de fato dissociada. Ele nos dá outra visão, mais ampliada, para se pensar as noções de doença e saúde. Porém, é preciso aguardar a apresentação dos campos teóricos da psicomotricidade e educação somática, ao lado da descrição dos principais problemas a serem resolvidos, para se avaliar as contribuições da teoria winnicottiana do amadurecimento pessoal.
institucional. Henry Wallon, médico e psicólogo francês, ocupou-se do movimento humano, elevando-o à categoria de instrumento fundamental na construção do psiquismo. Esta conquista permitiu a Wallon relacionar o movimento ao afeto, à emoção, ao meio ambiente e aos hábitos do indivíduo.36 A psicomotricidade passa, então, a ser uma prescrição habitual da medicina psiquiátrica e tem lugar nas terapêuticas das doenças mentais e do comportamento desviante, onde atua e previne, pelo movimento, os efeitos perversos de tensões e energias mal orientadas. Por meio do movimento e pela função simbólica a que ele remete, as condutas agressivas, desviantes e atípicas se organizam progressivamente.
Dessa forma e partir de conteúdos ainda incipientemente definidos, emerge o movimento médico-pedagógico, o qual influenciou massivamente os sacerdócios da renovação e da recuperação do organismo através das reeducações psicofísicas, pressupondo que as regiões do cérebro que presidem ao movimento voluntário poderiam se desenvolver pelo exercício físico. As teorias da "ducha psíquica" e das "ortopedias mentais" são exemplos desse tipo de terapia.
Tal ideologia voluntarista baseava-se numa prática em que o simples exercitar do movimento era tido como elemento de construção da razão, e foi defendida, por exemplo, por Petat (1942), que transportou para a reeducação física as idéias neurológicas de Babinsky (1934).37 Com tais pressupostos, o exercício físico foi ganhando reconhecimento institucional. A recuperação dos portador de deficiências, visando fins retificadores, corretivos e também sociabilizadores, segundo os seus defensores, foi-se impondo à margem dos conceitos psicomotores mais puristas. A era dos Centros de Ginástica Corretiva (Walther, 1948), de Reeducação da Atitude e de Reeducação Física (Lapierre, 1968), teve então, e tem ainda hoje, um desenvolvimento disputado e cerrado entre fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e professores de educação física. 38
A discussão e a rivalidade entre os profissionais de educação física e de cinesiologia, entre os de reeducação física e os de cinesioterapia provocaram a divisão destas disciplinas na França. Conseqüentemente, foram divergindo enfoques e teorias entre profissionais que consideravam o "corpo físico, higienista e em esforço" muito diferente de 35 Fonseca, 1989, pp. 87-94.
36 Tissié P. 1901 L´Education Physique. Paris: Ed. Larousse; Dupré E. 1925 Pathologie de L´Imagination et
de L´Emotivité. Paris: Ed. Payot; Janet P. 1928. Les Médications Psychologiques. Paris: Ed. Alcan; Wallon H. L'enfant turbulent, Alcan, Paris, 1925, reed. PUF, Paris 1984 ; Wallon H. Les origines du caractère chez l'enfant, Boisvin, Paris, 1934, reed. PUF, Paris, 1973.
37 Petat P. 1942 Vues sur l´Organization de la Rééducation Physique. Ed. Soc. Française de Rééducation Physique, n. 9; Babinsky J. 1934, Oeuvre Scientific. Paris: Ed. Masson et Cie.
38 Walther R. 1948 Rééducation Psycho-Motrice, In Annales de Cinésiologie et de rééducation physique n. 3; Lapierre A. 1968 Rééducation Physique. Tomo I e II, Paris: Ed. Bailliéres.
um "corpo afetivo, emocional e relacional", sendo o primeiro hipotecado ao anatômico e ao fisiológico, para o qual as afirmações mens sana in corpore sano ou "um cérebro irrigado por meio do exercício físico funciona melhor" são verdadeiras. Já o segundo, muito mais próximo dos fundamentos psicomotores wallonianos e ajuriaguerrianos, possui o enfoque profissional que auxiliou o desenvolvimento da psicomotricidade como disciplina.
Em 1935, o neurologista francês Edouard Guilmain cria um exame psicomotor para fins de diagnóstico, de indicação da terapêutica e de prognóstico. Discípulo de Wallon, atuando em centros de reeducação de jovens com problemas de comportamento, fora dos contextos institucionais da escola regular e dos centros de reeducação física, Guilmain desenvolve uma sistemática da psicomotricidade essencialmente dirigida aos instáveis, impulsivos, paranóicos leves, emotivos, obsessivos, apáticos e mesmo aos delinqüentes. A sua visão de exame psicomotor e de motricidade alterada nos casos de perturbações do comportamento, retoma a essência do pensamento walloniano, para quem a gênese dos atos irrefletidos, da instabilidade e da impulsividade, das facetas da turbulência, da incontinência motora, das perturbações afetivas e das emoções descontroladas, é concebida como distorções da maturação tônica e da integração do esquema corporal. 39
A simbologia do movimento, apesar dos avanços das formulações efetivadas por Wallon (1925 e 1934) e a despeito da visão inovadora sobre o esquema corporal introduzida pela psicanálise, acabou perdendo sua importância entre os anos 30 e os anos 60. Por outro lado, as teses de Piaget (1947, 1956, 1962 e 1976), e de Wallon (1925, 1932, 1934, 1956 e 1969) sobre a gênese da inteligência e do pensamento da criança, cada um com a sua visão singular da importância da motricidade neste processo, com métodos e teorias distintas, continuam sendo pontos de referência indispensáveis ao conhecimento da psicomotricidade. Ambos os autores reforçam que o psiquismo e os aspectos da motricidade não são duas categorias ou realidades estranhas, fechadas, separadas ou submetidas uma às leis do pensamento puro e a outra aos mecanismos físicos e fisiológicos, muito ao contrário, enfocam a psicomotricidade como a expressão bipolar e circular, dum só e único processo, ou seja, a adaptabilidade humana.40
39 Guilman, 1935, Functions Psycho-motrices et Troubles du Comportement. Paris: Ed. Foyer.
40 Piaget J. 1947. La Psychologie de l´Intelligence. Paris: Ed. A. Collin; Piaget J. 1956. Les Praxies chez
l´Enfant. In Rev. Neurologie, n 102 ; Piaget J. 1962. La Naissance de l´ Intelligence chez l´Enfant. Paris: Ed. Delachaux et Niestlé ; Piaget J. 1976. Le Comportement, Moteur de l´Evolution. Paris: Ed. Gallimard; Wallon H. 1971. As origens do caráter na criança. São Paulo: Difusão Européia; Wallon H. 1979. Do ato ao pensamento. Lisboa: Moraes; Wallon, H. 1984 (1925) L`enfant turbulent. Paris: Presses Universitaires de France ; Wallon H. 1989. As origens do pensamento na criança. São Paulo: Manole; Wallon H. 1995. A evolução psicológica da criança. Lisboa: Edições 70.
É Julian de Ajuriaguerra (1974, 1970 e 1952) 41 , um dos primeiros autores a integrar os saberes de dois pioneiros da psicologia genética, Piaget e Wallon, aos modelos clínicos de Reich, Schilder, Lacan e M. Klein, quem desenvolveu uma aplicação não meramente teórica ou conceitual, mas terapêutica, ressaltando mais a significação relacional, afetiva e mediatizadora dos problemas psicomotores do que a sua infra-estrutura anátomo-fisiológica. Com base nesta concepção neuropsiquiátrica integradora e original, emerge sua definição de reeducação psicomotora:
Técnica que, pelo recurso ao corpo e ao movimento, se dirige ao ser humano na sua totalidade. Ela não visa à readaptação funcional ou a supervalorização do músculo, mas sim, a fluidez do corpo. O seu fim é permitir melhor integração e melhor investimento da corporalidade, maior capacidade de se situar no espaço, no tempo e no mundo dos objetos e facilitar e promover uma melhor harmonização na relação com o outro. 42
Como psiquiatra, Ajuriaguerra redefine o conceito de debilidade motora, considerando-a uma síndrome com suas particularidades próprias. É ele quem delimita com clareza os transtornos psicomotores que oscilam entre o neurológico e o psiquiátrico. Com estas novas contribuições, a psicomotricidade diferencia-se de outras disciplinas, adquirindo especificidade e autonomia próprias.
Esta aplicação original do pensamento walloniano e ajuriaguerriano, mais ou menos negligenciada nos centros de formação de educação e reeducação física, está na origem das formulações da reeducação psicomotora, que enfatiza as relações entre a afetividade, a vigilidade e a motricidade. Tal modo de pensar é defendido por psiquiatras, que criam em 1961, pela primeira vez na Europa, exatamente no Hospital Henri Rousselle, o 1º Centro de Formação Superior em Psicomotricidade com o diploma de reeducador da psicomotricidade, aberto a cinesioterapeutas, educadores, professores de ginástica etc., onde os psiquiatras franceses Soubiran e Jolivet se confirmam como os principais mentores de uma nova profissão. 43
Na década de 70, diferentes autores definem a psicomotricidade como uma motricidade de relação. Começa então a ser delimitada uma diferença entre uma postura
41 Ajuriaguerra J. 1974. Manuel de Psychiatrie chez L´Enfant, Paris: Ed. Masson & Cie ; Ajuriaguerra J. 1970. Le Choix Thérapeutique en Psychiatrie Infantile. Paris: Ed. Masson et Cie ; Ajuriaguerra J. 1952. Méconnaissances et Hallucinations Corporelles. Paris: Ed. Masson et Cie. Ajuriaguerra, J. Manual de Psiquiatria Infantil. Ed. Persona, 1980; Ajuriaguerra, J. A Escrita Infantil. Artes Médicas. Porto Alegre, 1988; Ajuriaguerra, J. Dislexia Em Questão. Ed. Artes Médicas. Porto Alegre, 1984.
42 Ajuriaguerra J. 1974, 31.
43 Soubiran e Jolivet, 1967. La Rééducation Psychomotrice et ses Techiciens, In Revue de Psychologie Social et d´Hygiéne Mentale, vol. I, n. 15. Ajuriaguerra J. & Soubiran, G. 1959 Indications et Techniques de Rééducation Psychomotrice en Psychiatrie Infantile In La Psychiatrie de l´Enfant, 2, II.
reeducativa e uma terapêutica que, ao se desprender da técnica instrumentalista e ao ocupar-se do "corpo de um sujeito", vai dando, progressivamente, maior importância à relação, à afetividade e ao emocional.
Definida assim, a psicomotricidade é uma forma de terapia que pode incluir técnicas psicossomáticas, métodos expressivos, métodos de relaxamento, atividades lúdicas, ou seja, processos de ação inspirados na psicanálise e na psicoterapia (Vayer 1971, 1986) 44. Do “corpo corrigido’ do princípio do século, com um passado obscuro sobre as relações entre o espírito e o corpo (Buytendjk, 1957) 45, caminhamos para um “corpo informacional” característico da última década (Fauché, 1993)46.
A educação física, alheia a este movimento no contexto da saúde e da higiene mental, recupera o pensamento walloniano fundamentalmente com a Educação Física Estruturalista de Parlebas47 (1970), com a Psicocinética de Le Boulch48 (1967 e 1972), e com a Pedagogia Institucional de Mèrand49 (1970). Essas correntes de pensamento se
cruzam numa matriz teórica do movimento humano, assumido-o mais como um instrumento de uso que é preciso educar, aperfeiçoar, dominar e controlar, do que como unidade e totalidade do ser.50
As diferenças entre a educação física e a reeducação psicomotora promovida pela psicomotricidade vão ficando cada vez mais evidentes. As concepções da educação física privilegiam o físico, ou seja, o anatômico, o fisiológico e o morfofuncional; valorizam os segmentos corporais e componentes musculares, visando à destreza, o alto rendimento ou excelente performance, além disso acredita-se no paralelismo psicofísico ou psicocinético. Grosso modo, para a educação física, o corpo é entendido como fiel instrumento de adaptação ao meio ou como instrumento biomecânico que é preciso educar, dominar, comandar, automatizar, treinar ou aperfeiçoar. Já a psicomotricidade, ao contrário, centra- se na importância da qualidade relacional e na mediatização, visando à fluidez eutônica, o equilíbrio gravitacional, a estruturação da coordenação motora e a organização expressiva do indivíduo. Privilegia a totalidade do ser e a sua unidade psicossomática, por isso está
44 Vayer, Pierre. 1971. Le Dialogue Corporel. Paris: Ed. Doin; Vayer, P. 1986. A criança diante do mundo. Porto Alegre: Artes Médicas.
45 Buytendijk, F. J. J. 1957.Attitudes et Mouvements. Burges: Ed. Desclée e Brouwer.
46 Fauché, S. 1993. Du Corps au Psychism: histoire et épistemologie da la psychomotricité. Paris: Ed. PUF. 47 Parlebas, P. Education Physiques et Intelligence Motrice, In E. Physique et Sport, n. 101. 1970.
48 Le Boulch, Jean. L`Education par le Mouvement. Paris: Ed. ESF, 1967; Ver une Science du Mouvement
Humain Paris: Ed. ESF, 1972..Rumo a uma Ciência do Movimento Humano. Artes Médicas. Porto Alegre, 1987; Educação Psicomotora. Artes Médicas. Porto Alegre, 1987; O Desenvolvimento Psicomotor. Artes Médicas Porto Alegre,1982.
49 Mèrand, R. 1970 Pédagogie Institutionelle et Besoins Pédagogiques, In Sport et Plein Air, n. 9. 50 Fonseca, Vitor, 1975. Contributo para o Estudo da Gênese da Psicomotricidade. Lisboa: Ed. Notícias, pp.14-36.
mais próxima da psicologia, da psiquiatria, da psicanálise, da fenomenologia e da antropologia.
Na visão de um dos historiadores da psicomotricidade (Fonseca, 1975), esta nascente disciplina está rodeada por uma profusão de práticas corporais que carecem de conceitos estruturados. Segundo o autor, existe atualmente uma espécie de inflação psicomotora, ao ponto de evocar que toda a atividade corporal é psicomotora, complicando assim o seu quadro de esclarecimento teórico.
“O que vemos acontecer são discursos teóricos nem sempre consistentes, que passeiam por uma neurologia de tipo restritivo, por uma psicologia ora do tipo cognitivo, ora do tipo relacional, e por temáticas que valorizam as emoções e os afetos. Tudo isso em nada ajuda na definição dos problemas essenciais da psicomotricidade e de quais seriam seus objetos de pesquisa.” 51.
Outra crítica é lançada contra a tentativa de abordagem epistemológica da motricidade humana, alicerçada em análises filosóficas e em correntes de pensamento contemporâneo, mas que deixam de lado fundamentos neurológicos, psicológicos, psiquiátricos e patológicos básicos. Tudo isso torna o objeto de estudo da psicomotricidade um desafio mais sério e dificulta uma integração teórica. Tal comentário parece corroborar a necessidade de um maior aprofundamento teórico e de uma delimitação acurada do campo de atuação da psicomotricidade, o que pretende ser a contribuição deste estudo.
Um passo nesta direção, ou seja, em definir qual o objeto e enquadre da psicomotricidade, relaciona-se diretamente com a especificidade da abordagem corporal que o psicomotricista tem com seu paciente, e isso se define pelo modo como é exercida esta profissão. Na França, o diploma é concedido pelo Ministério da Saúde (Direction Régionale des affaires Sanitaires et Sociales, D.R.A.S.S.): é um diploma de estado de uma profissão para-médica, o que significa que a psicomotricidade é exercida exclusivamente sob prescrição médica. Esse diploma, fornecido ao final de quatro anos de estudos teóricos, clínicos e práticos, habilita o profissional psicomotricista a usar técnicas psico-corporais em que o corpo do paciente e o próprio corpo do terapeuta são colocados em interação de forma direta, seja em forma de jogos, seja de formas indiretas, tais como o relaxamento, a sensório-motricidade ou mesmo a mediação pela água ou pelo cavalo, entre outras.
51 Fonseca, 1975, p. 36.
Em suma, a psicomotricidade, com o seu pluralismo histórico, fixa a sua origem e suas práticas iniciais no esquema corporal, conceito chave ainda hoje do seu edifício terapêutico e reeducativo.
2.2 A psicomotricidade na escola
Nos seus primórdios, os temas sobre a psicomotricidade eram abordados excepcionalmente em pesquisas teóricas fixadas no desenvolvimento motor da criança.