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História ilegítima

No documento Identidades em Trânsito (páginas 152-155)

Tu apanhavas dos dois lados. Ou eras olhado por um lado mais conservador e xenófobo, como um português de segunda, fosses preto ou branco, e como pri- mitivo, portanto como pouco dado à vida na metrópole, ou então eras olhado por alguém mais de esquerda como o racista que aceitou viver naquelas condições durante aquele tempo todo como se todos os portugueses fossem fascistas por terem vivido numa ditadura durante tanto tempo.

(Entrevista, Anónimo, Agosto de 2015)

Na fractura identitária que se funda com a descolonização, os ditos “retorna- dos” “apanhavam dos dois lados”, como se lê no testemunho acima citado. Os “dois lados” que correspondem às duas grandes narrativas que projetam a identidade nacional portuguesa, nas quais os migrantes da descolonização são dificilmente integrados. Por um lado, a narrativa do “império” e das “descobertas”, uma narrativa que continua a marcar os discursos políticos, as agendas das instituições culturais, a consciência histórica nacional e as banais acções do senso comum, no seio da qual Portugal continua a ser imaginado como um império de 500 anos e está fortemente enraizada a ideia da bondade inata do projecto imperial português. Por outro, a narra- tiva da “revolução dos cravos” da herança democrática e de viragem para a Europa, que libertou o país do jugo do ditador e salvou os povos colonizados da chibata do colonizador, mas que lida mal com o reconhecimento das fracturas deixadas pela descolonização e tem dificuldade em reconhecer a condição pós-colonial de Portugal democrático. Os assim nomeados “retornados” desestabilizam ambas as narrativas, trazendo colada à pele a mácula de uma herança ilegítima, bastarda, colocada fora do discurso da história e, pelo tanto, fora da ordem social.

Do tempo do “retorno” e dos “retornados” restam apenas lembranças imprecisas dos caixotes de madeira estacionados à beira do rio Tejo espera de uma reclamação de propriedade por parte dos seus depositários. São

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O testemunho do “retorno”: deslocamento, história ilegítima, desidentificação

lembranças que se esvaem com o passar do tempo e das gerações, trazidas à memória do presente pela fotografia-ícone de Alfredo Cunha, com os caixotes de madeira e o Padrão dos Descobrimentos como pano de fundo, em evidência da ruína e do colapso do império. Mas a imagem de Alfredo Cunha parece demasiado fixa e óbvia na sua intencionalidade antiestrutural para funcionar como uma imagem-síntese de um conjunto impossível de antinomias da história e da vida: o paradoxo entre um império que se define através de uma imagem ecuménica e humanista e treze anos de guerras coloniais; a irreconciliabilidade representacional entre um exército que fez essas guerras e que também fez a Revolução de Abril; a ironia dessa condição de se ser colono e de se ser também, em grande parte, um emi- grante de um país que lhe negava o pão; a dissonância entre a orgulhosa face patriarcal e a vergonha da fuga e do desapossamento. Os caixotes de madeira tornam-se provisórios adereços ornamentais, desabitados de vida e de história, assim invalidados na sua impossível rivalização com a escultura nacional representada pelo Padrão dos Descobrimentos, e eventualmente apagados da paisagem como traço.

Um apagamento que se propicia logo no conturbado período pós- -revolução quando, ora por razões de má consciência relativamente ao processo de descolonização, ora devido às tensões manifestas no seio da sociedade civil e das forças armadas sobre a questão colonial, a guerra e o êxodo africano são, usando a terminologia de José Gil, “não-inscritos” no espaço público – memorial e imagético – nacional. Dizemos que são não-inscritos assinalando, precisamente, essa não inscrição como acto de omissão, uma falta, sobre os acontecimentos que marcaram o fim do domínio colonial português. Trata-se, assim, de acontecimentos que não

aconteceram, desaparecendo, citando José Gil (2007), pelo “buraco negro

que suga o espaço público”.

O pai podia não falar da prisão mas pelo menos podia contar o dia em que o libertaram. Mas nem isso. [...]. De vez em quando parecia que o pai ia começar a falar mas nunca disse nada. Não sabemos sequer se o pai veio de avião. Às vezes penso que a mãe sabe, que o pai não pode guardar um segredo tão grande. Não sabemos o que aconteceu ao pai mas é como se isso sugasse todas as conversas. Todas as conversas e todos os silêncios. O Lee andava sempre a ler nas revistas coisas sobre buracos negros, buracos que são como estrelas ao contrário e que em vez de darem luz engolem tudo o que está à sua volta, até a própria luz. A prisão

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Elsa Peralta

do pai faz a mesma coisa. [...]. Na prisão do pai há culpados iguais a nós ou quase iguais a nós e podemos fazê-los sentir o que nós sentimos. Talvez o tio Zé tenha razão e a guerra não vá acabar nunca. Mas de resto não se pode confiar no tio Zé, não se pode confiar no que o tio Zé diz sobre a prisão do pai, nem sobre a morte do carniceiro do Grafanil, nem sobre as cartas que diz que nos escreveu e que nunca cá chegaram, nem sobre os esforços que diz ter feito com o Nhé Nhé para que eles libertassem o pai. Nem sequer se pode confiar que a mulata Mena é uma noiva a sério, apesar de o tio Zé a ter apresentado, esta é a Mena, a minha noiva, e de ter passado o tempo todo de mão dada com ela.

Dulce Maria Cardoso (2011, 252-253)

Como não se tem a certeza de que é a sério, como nota Dulce Maria Cardoso na sua fina perspicácia, não se pode confiar. E a desconfiança está na base da desidentificação. Com efeito, o princípio fundador da vida e da ordem social é a reciprocidade, seja uma reciprocidade positiva (no caso da dádiva), ou uma reciprocidade negativa (no caso da violência). A desconfiança rompe com o princípio da reciprocidade porque instaura uma convivialidade baseada na ocultação. Não se trata de silenciamento, porque nada foi verdadeiramente silenciado, não do ponto de vista dos processos coercivos de silenciamento. Também não se trata de amnésia. As pessoas – na sua condição física, emocional, mental, moral e social de pessoa – lembram-se. Trata-se de ilegitimidade, de uma forma de excep- ção, nem dentro nem fora do sistema, excluída, mas por ele regulada, carregando fantasmas que dramatizam identidades párias e assombram uma subjectividade dividida.

Hannah Arendt observou que a pior coisa na condição de pária não são os maltratos infligidos pelo estado. “A maior injúria que a sociedade pode infligir e inflige”, diz Hannah Arendt, “é fazer [o pária] duvidar da realidade e da validade da sua própria existência, reduzi-lo, aos seus próprios olhos, ao estatuto de uma não-entidade” (1944, 144). Destituído na sua circunstância histórica, o pária habita apenas um lugar regulado pela normativa das instituições do estado, um lugar sem história e sem identidade, reduzido ao estado de vida nua, como designado por Giorgio Agamben (1998). Este é um lugar sem discurso e sem testemunho, sem fala e sem acção, situado fora do campo dos excluídos pelo fenótipo, pela classe, ou pelo género. Um lugar que traz más recordações, como disse Isabela, um lugar de ocultação.

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O testemunho do “retorno”: deslocamento, história ilegítima, desidentificação

Esse português de excepção é alguém que teve de se ocultar em função da força e da necessidade de integração. Talvez essa ocultação tenha sido indispensável à estabilização da transformação em curso. Paul Connerton (2008) designa estes processos de “esquecimento prescritivo”, um tipo de esquecimento necessário para que a vida na polis tenha continuidade após momentos de grande ruptura e conturbação e para que uma nova identidade possa ser constituída. Primo Lévi chamou ao “dever de memó- ria” o dever de não esquecer. Mas existem momentos em que o dever de memória, pelo menos para aqueles que carregam más memórias, encontra o direito de não lembrar. Como nos diz o grande antropólogo existencialista Michael Jackson, “a sujeição deve ser considerada a par com a agência, uma estratégia humana de sobrevivência” (2013, 19).

Mas olha, agradeço a Deus ter saído de lá. Não tenho vontade nunca mais na minha vida de tornar a ir lá. Não, nem que me pagassem um milhão de dólares. Para dizer: – “Queres ir ver a tua casa, queres ir ver as tuas coisas?” Não. Não! P’ra mim acabou. Há pessoas que gostam de ir ver... Não. Fechei a minha memória, como aquilo... foi um sonho. Um mau sonho, talvez, que eu tive... Eu já nem me recordo... chorámos muito, chorámos, uma revolta por muito tempo, mas tudo se esquece, Deus me livre se a gente não esquecesse, a gente tem de esquecer. Tudo acaba... temos de seguir para a frente, não temos outra alternativa.

(Entrevista, Anónimo, Setembro de 2015)

No documento Identidades em Trânsito (páginas 152-155)