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7 ENTRE AS PLACAS, AS ARQUITETURAS E A NAÇÃO: DOS ESTUDOS

7.1 História indígena nos caminhos da cultura

Evidentemente o encontro da cultura indígena com a cultura europeia produziram consequências em diversas esferas: humanas, econômicas e, principalmente, políticas e sociais. Com o estudo dos relatos de viagens, não é incomum a ideia de que a formação da civilização ou da nação brasileira começou a partir do processo colonial no sentido antropológico da cultura. Contudo, ao contrário do discurso que clama ausente a história da organização social nas Américas antes do século XVI, as sociedades não-européias no Brasil possuíam uma organização estruturadamente harmônica constituída por hábitos, práticas culturais e crenças que, sim, antecede os próprios colonizadores. Como ensina Carneiro da Cunha (2012, p. 24): “A percepção de uma política e de uma consciência histórica em que os índios são sujeitos e não apenas vítimas só é nova eventualmente para nós.”.

A conquista indígena do território brasileiro, portanto, é um ângulo a ser estudado e explorado pelos apaixonados pela história do país, talvez revelando um acréscimo à história e ao imaginário que constitui o território e a subjetividade brasileira. Em relação à história social dos nativos, esta era tão delineada, que embora muitas das tribos não tivessem, entre si, uma relação amigável, todas elas exerciam, e por vezes compartilhavam seus próprios hábitos, fossem esses de caça, pesca, arte ou em relação à agricultura local. Isto indica que a configuração geo-espacial é fundamental para o aprofundamento do conhecimento dessas identidades pré-coloniais e motivo para diferenciação das identidades tribais no Brasil.

Por outro lado, a imagem que apresenta o indígena como um homem nú, de arco e flecha e penachos na cabeça que sobrevive e vive da caça e da pesca reflete na visão

homogeneizante das veias humanistas. A entrevista realizada por Torres com o vice-cacique Kuaray deixa claro que as tribos indígenas preservam diferenças culturais entre si.

Os guaranis nunca andaram nus. Mesmo em tempos antigos, usavam uma tanga. Mas não era só isso que os diferenciava dos Tupinambás. Os guaranis não eram guerreiros como eles, e até hoje tudo o que querem é viver em paz – o guarani quer respeitar um ao outro – em terras em que possam tirar o sustentam. (TORRES, 2000, p. 170).

Por um lado, tem-se a presença de uma visão multiétnica e flutuante da história das tribos indígenas na narrativa de Torres, por outro, temos os rastros da história apontando para uma forma de conhecimento monolítico, unívoco e eurocêntrico. A negação das origens e crenças latinas por parte dos europeus engatilhou um conjunto de reações que caracterizam o próprio fracasso do império. A noção do presente como produto desse passado histórico, destaca o Brasil como um vasto território multicultural, ferido pelas sobreposições dos colonizadores. A sobrevivência dos indígenas brasileiros caracteriza-se por lutas de demarcação territorial, pela tradição de suas próprias práticas tribais e por refutar os mitos e os signos utilizados pelas culturas invasoras eurocentricas.

A fala do vice-cacique Kuaray atenta para o perigo das histórias. A palavra “Descobrimento”, por exemplo, por muito tempo disseminou a história de alguns, mas a permanência de um modo de ver e pensar todo seu povo. O silêncio das reminiscências indígenas no Brasil indica, no discurso da história, a ausência da consciência da formação da identidade indígena na identidade nacional. Em relação ao perigo das histórias, o também indígena cherokee Thomas King (2003, p. 10) alerta:

Então você tem que ter cuidado com as histórias que você conta. E você tem que se atentar para as histórias que lhe são contadas. Mas se um dia eu fosse a Plutão, assim que eu gostaria de começar. Com uma história. Talvez eu contasse aos habitantes de Pluão uma das histórias que eu sei. Talvez eles contassem uma história deles. Não importaria quem começasse. Mas qual história? Essa é a verdadeira pergunta. Pessoalmente, eu gostaria de ouvir uma história de criação, uma história que reconta como o mundo foi formado, como as coisas vieram a ser, pois contida nas histórias de criação estão relações que ajudam a definir a natureza do universo e como as culturas compreendem o mundo em que elas existem.11

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Tradução nossa: So you have to be careful with the stories you tell. And you have to watch out for the stories that you are told. But if I ever get to Pluto, that’s how I would like to begin. With a story. Maybe I’d tell the inhabitants of Pluto one of the stories I know. Maybe they’d tell me one of theirs. It wouldn’t matter who went first. But which story? That’s the real question. Personally, I’d want to hear a creation story, a story that recounts how the world was formed, how things came to be, for contained within creation stories are relationships that help to define the nature of the universe and how cultures understand the world in which they exist.”. (KING, 2003, p. 10).

Como, porém, pensar na nação sem pensar nas formações “semi-nacionais” indígenas que se espalharam e estão distribuídas nas margens e nos interiores brasileiros, contribuindo para a configuração atual da identidade brasileira? Parece importante lembrar que, antes, através de registros literários e históricos, os índios apareciam nos litorais e nas costas brasileiras, e que, com a interferência colonial e a criação de reservas indígenas ao longo dos séculos, eles foram desaparecendo das praias: espaços cujas narrativas dão lugar às metrópoles e aos centros urbanos. Uma impressão, até então, indica que essas identidades migrantes vão – independente do motivo – se deslocando para as fronteiras e para os interiores, reformulando suas nações tapadas à folha e geografias de difícil acesso à urbanização.

Esta ausência de vozes dos interiores e das fronteiras, nesse sentido, revela uma necessidade de imaginar a história através de uma contemplação interdisciplinar, repensando os lugares do significado da “cultura”. Reduzir o abismo de sentido é um trabalho linguístico e social, que reinventa a função dos escritores, dos professores, dos alunos e dos espaços comunitários como um todo, assim como reinventa o uso do próprio espaço. Olhar a cultura como caminho da história coletiva é um processo ontológico que sublinha a importância da relação entre indivíduo e espaço social. Além disso, essa configuração da fenomenologia da cultura resulta no processo de conscientização do “eu” como uma extensão geossocial, isto é, a percepção de si como reflexo significativo do sentido da cultura.

Embora não exista um caminho positivista para a desintegração da hegemonia do poder, a crítica de Antônio Torres expõe a vulnerabilidade da identidade brasileira, o engessamento estrutural do programa colonial e a desigualdade social naturalizada entre as classes sociais no Rio de Janeiro. Após sair de casa para sua expedição, é em Angra que as descrições interdisciplinares de Torres se focalizam. A diferença de classes está dispersa pelas favelas, acomodadas das encostas às franjas dos morros cariocas, como ensina o professor Márcio Caniello (2009, p. 12) a respeito da diferença que concerne às classes sociais.

Não é preciso ser um cientista para saber que a desigualdade é o principal problema nacional, pois é notório o fato de que a distribuição de renda no Brasil é uma das mais iníquas do mundo. Com efeito, embora o IPEA tenha constatado que nos últimos anos a desigualdade de renda tenha declinado constante e substancialmente no país, sabe-se que atualmente a renda apropriada pelo 1% mais rico da população é igual à renda apropriada pelos 50% mais pobres e que o Brasil tem uma concentração de renda maior do que a observada em 95% dos países para os quais se tem dados (Barros; Foguel; Ulyssea, 2006: 15 e 22).

Este olhar às classes é parte importante da viagem à estação rodoviária que levaria o narrador à Angra dos Reis. Ainda em Copacabana, a cultura parece paralizada. Os jovens usam drogas no portão da escola, enquanto outros jovens jogam futebol no asfalto em uma rua cheia de carros. O olhar de Torres à cultura parte de uma lógica de fenômenos interdisciplinares: as tensões globais, nacionais e locais na formulação de um novo sistema de representações. A questão indígena, os carros e as drogas são elementos que não podem ser compreendidos ao acaso na narrativa.

Este viés interdisciplinar e intuitivo culmina com a teoria que permeia os Estudos Culturais que se estabelece no Brasil ainda na metade dos anos 90, dando suporte para a seguinte ideia: os artefatos da cultura funcionam para pensar o presente e identificar os problemas sociais. É nesta dimensão da identidade e da cultura nacional que Torres extende sua crítica à paralisia da cultura brasileira.