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Histórias, cidades, ruas e descontinuidades

No documento Download/Open (páginas 39-42)

Recife hoje é uma cidade que se preza, que tem hábitos civilizados, que se rebica e que já sabe dizer asneiras galantes aos que a requestam. De sua antiga modorra de cidade colonial, Recife foi renascendo para o luxo, para a grandeza e para o fastígio da vida moderna, intensa, bataclanizada, com ares de grã-senhora que disfarça sob rebiques e pastas sua velhice precoce. Recife tem cinemas teatros, automóveis, aviões, radiofones, cafés, casas de chá, almofadinhas, melindrosas, coronéis, podres de chic,

nouveaux riches, e até, santo Deus, suntuosos gentlemen.

João Outro40.

As cidades se reinventam todos os dias. Se reinventam não por vaidade, ou por deliberados anseios de renovação, mas simplesmente por serem vivas. Recife é uma cidade de muitas histórias; histórias sobre holandeses, revoltas, invasões, modernizações, tradições, cosmopolitismo, política, carnavais, sobre assombrações, mocambos, escravos, sobre sobrados, engenhos, igrejas, sobre pontes... A cidade vive pela vida que ela abriga. A intenção inicial que propomos seria introduzir aqui, uma narrativa acerca desse Recife, já tão visitado por nossa historiografia, todavia, as leituras nos levaram a tantos “Recifes” surpreendentes, carregados de histórias interessantes, que fomos nos apaixonando aos poucos por esta maravilhosa cidade, tal como descreve Gilberto Freyre, a cidade:

“[..] a nenhum, porém, se entrega imediatamente: seu melhor encanto consiste mesmo em deixar-se conquistar aos poucos. É uma cidade que prefere namorados sentimentais a admiradores imediatos”41

.

Em nosso “namoro com a cidade”, percebemos a grande diversidade cultural desses “Recifes”. Mas que cidade é essa e como foram seus anos 1920? Como pesquisadores do século XXI, somos forasteiros no Recife do inicio do século XX. Ao mesmo tempo em que nos familiarizamos com lugares já tão habituais em nossas caminhadas, estranhamos modos, roupas, modas, e hábitos da cidade de outrora. Personificamos a diferença no olhar como a de um andante desatento, a quem lhe é dada a oportunidade de falar repentinamente de sua própria cidade; a pesquisa se faz fundamental, precisamos percorrer suas ruas para perceber suas histórias. O historiador passa a ser tal como um viajante, que adentra em uma

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Editorial de A Pilhéria, Recife - 1925 nº 181. (Obs: A Revista A Pilhéria não possuía páginas numeradas.)

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FREYRE, Gilberto. Guia prático histórico e sentimental da cidade do Recife. São Paulo: Global, 2007 p, 23.

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cidade que lhe é desconhecida e observa as minúcias que lhes são apresentadas. - exprimindo encantamento ou estranhamento com as coisas que vê - como viajante, procura visitar tudo que lhe estiver ao alcance, deslocando-se a diversos pontos da cidade, buscando compreender a história, as memórias dos que ali viveram, e aprende - ainda que superficialmente - tradições do lugar, e assim, por fim, tentar imitá-las durante sua estadia. Para um viajante, tudo pode ser exótico. Tal como forasteiros, que se demoram conferindo os hábitos dos naturais da localidade, são os historiadores e historiadoras da cidade - curiosos/as - que parecem nunca se cansar de “mais uma caminhada”.

As práticas cotidianas dos moradores e moradoras urbanos garantem que as cidades não cessem de ser reinventadas e ressignificadas claro, seguindo a dinâmica do tempo histórico. Torna-se quase impossível não se comparar imagens ou documentos que descrevem uma cidade em tempos anteriores às cidades atuais, na mente do pesquisador. O estranhamento e a surpresa são sentimentos recorrentes dos que observam as cidades pelo viés histórico; nesta fala, tal como nos diálogos de Marco Polo e Kublai Khan, sugeridos por Ítalo Calvino, em suas viagens às cidades invisíveis, compreendemos como estamos mais receptivos a surpreendermos-nos com detalhes de um lugar que não é o nosso:

[...] ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos42.

Diferentemente do viajante, o andante desatento em sua própria cidade, tende a não conhecer bem alguns sentimentos que sua cidade tem a lhe oferecer. Alguns símbolos passam despercebidos, devido à naturalidade do hábito que o transeunte tem com as coisas ao seu redor: não há dúvidas, não há curiosidade, não existem questionamentos a serem respondidos. A urbe configura-se em um ambiente repleto de significados, de símbolos esperando para serem decifrados e ressignificados, mas o andante desatento, simplesmente não pergunta nada à sua própria cidade.

O Recife do início do século XX quer ser questionado, quer que demos sentido aos seus signos, que traduzamos os seus sentimentos. Devemos manter o

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CALVINO, Ítalo. As Cidades Invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2012 [E-book] Versão Kobo Capítulo 2, Página 9 de 12.

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olhar de um viajante que fincou os olhos na cidade, apaixonou-se e procurou saber mais, ou seja, um pensador para o qual a cidade vai além de construções de alvenaria, para o qual as cidades são desejos, sentimentos e sonhos.

O pesquisador que pensa a cidade como seu locus de pesquisa, tende a seguir o caminho desse viajante. Como profissionais da história, aguçamos nosso olhar a cada indício que possa evidenciar as transformações a que esta cidade - ou “cidades no plural” - foi sujeita, concordando com o historiador Antonio Paulo Rezende, que destaca como, por mais homogêneas que pareçam, as cidades são sempre plurais, não representam apenas um tempo, mas “[...] tem um profundo poder de síntese e de condensação dos tempos” 43

.

As ruas das cidades unem-se em construções de ontem e de hoje, que atravessam as épocas. Em uma mesma localidade, contemplamos construções, distintas - no que concerne ao período em que foram erguidas - contudo, lado a lado, condensam-se reafirmando a pluralidade da morada dos viventes. “Quem entra em uma cidade, sente-se como numa tessitura de sonhos, onde o evento de hoje se junta ao mais remoto. Um prédio se associa a outro, independentemente das camadas de tempo às quais pertencem; assim surge a rua.”44

Cada época projeta novas cidades, onde as rupturas e as permanências brincam com o entendimento dos que pensam o ambiente urbano. Estão presentes novas relações e novas incompletudes, que se estabelecem. Muito além de cimento, pedras e concreto, entendemos que os múltiplos discursos dos viventes são agentes que formam as cidades. Mas vamos além disso: os sentimentos, os cheiros, os sons, os sabores, as cores, as vozes, os ruídos, todos são agentes atuantes na formação dos ambientes urbanos. As cidades são ao mesmo tempo, fruto, palco e parte das práticas humanas.

A cidade é também interpretação. Claro, os grupos sociais que as formam, não são inocentes - de forma alguma - eles apropriam-se e impregnam os lugares com sentidos, por meios de experiências que lhes são interessantes. São as cidades ambientes de construção de sonhos e de desejos45, onde são travadas lutas,

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REZENDE, Antônio Paulo. op. cit., p. 22 .

44

BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas III: Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo. 1ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 209.

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conflitos físicos e ideológicos, onde os seres pensantes se impõem como tais, onde a beleza ganha padrão, e as leis regulam a vida de seus indivíduos, onde a arte encontrou mais uma morada, lugar em que residem lado a lado a riqueza e a pobreza; mas as cidades também podem ser palco de guerras, das construções imponentes, da modernização, da vida e da morte, um lugar de coletividades múltiplas, mas também de individualidades. Seja no lazer ou no trabalho, ela é o ambiente em que as ruas cinzentas tornam-se coloridas aos olhos de seus atores e atrizes sociais, e onde os corpos transformam-se e ressignificam-se incansavelmente com o correr da areia do tempo de Cronos. É pois a cidade, um complexo mundo social, em que os gêneros se inter-relacionam, onde cada signo construído pelas mãos humanas, cada emblema místico que acompanha o sentimento desenvolvido nesses espaços, incubem-se de apresentar-nos histórias que atravessam tempos, gerações, que traduzem emoções e que testemunham as redefinições dos aspectos sociais dos que a rodeiam. Alguém precisa contar essas histórias.

As cidades estão ligadas intimamente à escrita, nelas, se produzem documentos: inventários, ordens, certidões, jornais, revistas, etc, todos ligados às memórias. Pensamos então, que construir cidades é também construir memórias46. A letra denuncia a história, mas as cidades não contam sozinhas o seu passado. Tal como a Zaíra, descrita por Ítalo Calvino, com suas escadas, festas e pescadores, Recife quer ser lida, sua história está ali, “[...] ela o contêm como as linhas da mão”, mas espera que alguém se interesse em contá-la. Aceitamos o desafio.

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