CAPÍTULO IV- AGROEXTRATIVISMO E DESENVOLVIMENTO NO PROJETO DE
4.3 Histórias de Vida e Envolvimento com o Agroextrativismo
Assentamento Vale da Esperança apresentam características e papéis comuns perante a sociedade, o bioma e os seus próprios projetos de vida. Por outro lado, antes de tudo, trata-se de biografias únicas, com distintas trajetórias e histórias de vida, assim como diferentes vivências e experiências acumuladas. Estas particularidades se refletem desde o número de
membros que moram na parcela, suas várias idades e regiões de origem; até nas múltiplas formas de produção, organização espacial e social dos lotes e fontes de renda.
De modo geral, o universo de pesquisa, no período de realização da pesquisa de campo era composto por famílias com número de membros que variava de duas a seis pessoas. Quatro eram constituídas por apenas marido e mulher, entre essas, duas não possuíam filhos, enquanto outras duas possuíam filhos, mas que já não moravam no assentamento. As outras cinco famílias eram formadas por marido, mulher e filhos ou marido, mulher, filhos e netos. A idade dos membros variou bastante, o esposo mais novo tinha trinta e um anos e o mais velho possuía setenta e três; a idade das esposas variou de vinte e quatro a sessenta anos; e dos jovens e crianças de um ano a vinte e seis.
A região de origem das famílias também não apresentou uniformidade. Antes de habitarem o Assentamento Vale da Esperança, cinco homens (esposo) pertencentes às famílias entrevistadas moravam no estado de Goiás (em cinco municípios diferentes); dois têm origem em Minas Gerais, um em Tocantins e um no Rio Grande do Sul. Com exceção do Rio Grande do Sul, todos os demais estados citados possuem parte de seu território dentro do domínio do Cerrado. Consequentemente, de uma maneira ou de outra, as origens demonstram já existir algum contato anterior dessas famílias com o bioma antes da chegada ao assentamento.
A naturalidade, no entanto, parece não ter uma importância significativa na visão ou práticas atuais. Segundo dados das entrevistas, apenas o agroextrativista de origem no Sul do país, o único que não havia tido contato anterior mais direto com o bioma, é justamente um dos que mais expressou ou deu importância econômica e social ao Cerrado. Segundo observações de campo, sua propriedade é a mais preservada, diversificada e a que tem mais espécies nativas e área de reflorestamento.
A partir das histórias e trajetórias, foi possível perceber que a maioria das famílias, antes de chegar ao assentamento já possuía familiaridade com o meio rural e, de uma forma ou de outra, também com o Cerrado. Este aspecto observado, além da região de origem, pela atividade que exercia o homem (esposo) da família antes de chegar ao Assentamento Vale da Esperança, pois em apenas duas famílias, este não era trabalhador rural. Todas as demais famílias entrevistadas exerciam alguma atividade relacionada à agropecuária e todos afirmaram ter vivido a maior parte de suas vidas no campo. No entanto, o fator que demonstrou ter mais peso na valorização do Cerrado e na prática extrativista não foi a origem, mas os processos sociais recentes, inclusive as trocas de experiências e o cotidiano das famílias.
Cabe ressaltar que as famílias entrevistadas do Projeto de Assentamento Vale da Esperança, embora não tenham vivido o mesmo processo de interação histórica com as paisagens do Cerrado como o que viveram e ainda vivem, por exemplo, as comunidades Geraizeiras de Minas Gerais pesquisadas por Silva (2009a), também podem ser consideradas Povos do Cerrado. Isso porque suas raízes históricas são de origem camponesa, e, de forma mais ou menos intensa, elas também são herdeiras dos diferentes saberes, formas de uso e manejo do bioma. Além disso, segundo informações obtidas na pesquisa de campo, elas possuem ainda outra racionalidade produtiva e estão cada dia mais atrelando seus modos de vida e construindo uma relação mais íntima e harmônica com o bioma. Denominá-las Povos do Cerrado, além de contribuir para o fortalecimento da identidade social com o território, também auxilia na identificação e assimilação, pelas próprias famílias, do papel que desempenham perante a preservação do Cerrado.
Esta construção histórica deve ser entendida no contexto dos acampamentos e assentamentos de reforma agrária como “espaços de reinvenção da sociedade”, pois em busca de um lugar de vida, trabalho e cidadania as famílias lutam e atuam como sujeitos na
construção de uma realidade social a partir da organização de imagens, linguagem e representações para que este mundo faça sentido (SAUER, 2010). Trata-se, portanto, justamente do processo que está em curso no Assentamento Vale da Esperança, onde as famílias estão, pouco a pouco, atribuindo valores diferenciados ao Cerrado e aos seus recursos, encontrando neles oportunidades para melhorar as condições de vida.
Segundo Sauer (2010), o processo social de luta e de acesso à terra impulsiona transformações culturais, simbólicas e representacionais, permitindo inclusive transformações nas relações como o meio ambiente, com o lugar e entre as pessoas. O acesso à terra representa então uma reterritorialização que altera a percepção espacial e dá novos sentidos aos lugares e também ao bioma. Este processo é marcado pela interação face à face de diferentes biografias e pelo convívio diário em lugares geograficamente localizados, que além de possibilitarem a construção de novos vínculos identitários, reforça vínculos locais e relações de pertencimento (SAUER, 2010).
Para a maioria das famílias agroextrativistas entrevistadas, este processo de identificação e criação de uma identidade local está em curso há mais de 16 anos, pois chegaram ao assentamento ainda nos tempos de acampamento, participaram de todas as suas lutas e conquistas. Apenas duas, entre as entrevistadas, não chegaram no início, mas já moram no Assentamento Vale da Esperança há mais de 10 anos, sendo que uma única família reside no local há menos tempo (5 anos), mas seus membros moravam em outro assentamento da região.
Vale destacar, entretanto, que este processo de identificação com o território e com Cerrado é lento e está apenas no início. O próprio processo de ingresso no extrativismo do baru para fins de autoconsumo e de comercialização é um bom sinalizador das transformações culturais, simbólicas e representacionais que estão em curso. Uma atividade que não era amplamente conhecida começa a se disseminar e com ela surgem novas perspectivas, novos
valores e representações. O Cerrado, por exemplo, antes derrubado para execução de outras atividades, passa a ser (está começando) valorizado no seu conjunto, não apenas como capaz de gerar renda, mas algo de relevância ainda maior, para o bem estar da sociedade.
Influenciadas pela lógica produtivista hegemônica, muitas famílias que receberam suas parcelas com porções de vegetação nativa derrubaram tudo, ou quase tudo, para implantar atividades agrícolas. O valor econômico e social do Cerrado não era reconhecido e segundo os entrevistados, quase não havia preocupações com questões como, por exemplo, a finitude dos recursos naturais e a necessidade de preservação ambiental. A fala de um dos entrevistados ilustra bem o pensamento dominante, quando afirmou que, “antigamente quem não desmatava era visto como preguiçoso; que não queria trabalhar” (Maria de Fátima, 18/07/2012).
Atualmente, os discursos das famílias começam a apresentar novas preocupações; apareceram outras ideias ou outras formas de pensar ou perceber o Cerrado e o meio ambiente. Traçando um comparativo com a época que chegaram ao assentamento, muitas famílias afirmam possuir outra forma de olhar o meio ambiente e o bioma. Segundo um dos entrevistados: “Hoje eu não consigo mais andar por esse cerrado sem admirar a sua beleza” (Maria de Lurdes, 18/07/2012).
Muitos que, no início, desmataram para plantar, hoje possuem outra concepção. Assim é que, atualmente, todas as famílias entrevistadas manifestaram dispensar importância para atitudes relacionadas à preservação e conservação do Cerrado. Quando perguntadas se consideravam importante deixar alguma área do lote e/ou do assentamento para a preservação ambiental, uma das famílias respondeu: “Sim porque hoje em dia em todo lugar tem falado tanto que o meio ambiente precisa da mata. Também porque é muito bom ter contato com o meio ambiente” (Maria da Solidade, 18/07/2012). Outra fez afirmação no mesmo sentido,
dizendo: “Sim porque os animais precisam da vegetação, sem ela a fauna está ficando desprotegida” (Omar, 13/06/2012).
Segundo informações de campo, é possível perceber que a preocupação com o meio ambiente, na realização das atividades agropecuárias, também está em mudança. A maioria das famílias entrevistadas afirmou que procura tomar algumas medidas preventivas e adotar práticas diferenciadas em vistas a preservar o meio ambiente. As principais estratégias citadas foram a não adoção de agrotóxico e de adubo químico e a não realização de queimadas.
O surgimento deste novo olhar sobre o meio ambiente e dessas novas preocupações, além de retratar a existência e condições de reprodução social mais favoráveis, sinaliza uma maior disseminação dos atuais debates em torno do desenvolvimento rural e das tentativas de adoção de outras estratégias capazes de superar os efeitos negativos do modelo de desenvolvimento hegemônico, sobretudo, em termos sociais e ambientais.
A família agroextrativista entrevistada com origem no Rio Grande do Sul é um bom exemplo dessa mudança de atitude e concepções que conduz ao desenvolvimento rural. O homem (esposo) da família era agricultor tradicional no Sul do país, depois que chegou ao Assentamento Vale da Esperança continuou com a atividade por aproximadamente, cinco anos até passar a se dedicar ao agroextrativismo. Segundo ele, entre os motivos que contribuíram para essa mudança de estratégias, estão os sucessivos prejuízos com a agricultura, mas também os conhecimentos adquiridos em diversos cursos e treinamentos no Colégio Agrícola de Unaí GO. Nas palavras do representante da família: “Depois de passar por várias frustrações de safras, eu aprendi que era possível levar outro modo de vida” (Herbert, 18/07/2012).
Este deslocamento de enfoque, de atitude e de concepções que conduz a mudanças em direção ao novo enfoque do desenvolvimento rural, no Projeto de Assentamento Vale da Esperança, pode ser retratado pelo processo de valorização e estímulo ao agroextrativismo.
No universo de pesquisa, observou-se que trata-se de um processo passível de ser “aprendido”, no sentido de que passa a ser replicado à medida que uma família inicia as atividades e “consegue êxito”, com isso, outras famílias também se sentem motivadas a ingressarem na atividade.
A utilização do vocábulo “aprender” faz referência não ao exercício da atividade extrativista, mas ao novo olhar sobre o bioma e às novas preocupações em torno da sustentabilidade e da busca por outras formas de produção e reprodução distintas do modelo hegemônico. À medida que a prática extrativista começou a ser difundida, as famílias relataram que o Cerrado e seus recursos passaram a ser mais valorizados e preservados, pois, segundo elas, “antes o pessoal derrubava as árvores, não sabiam o valor que tinha o Cerrado, hoje isso já ta começando a mudar” (José Cardoso, 15/07/2012).
A análise do período datado pelas famílias para início do extrativismo do baru com fins comerciais, por exemplo, demonstra que a atividade foi se disseminando aos pouco pelo assentamento e que a valorização dos recursos naturais disponíveis no bioma é recente e ainda está em curso. Duas famílias entrevistadas datam o início da atividade para 2004, uma em 2005, outra em 2006, uma em 2007 e quatro em 2008.
Porém, não obstante o tempo de início e a disseminação do extrativismo pelo Assentamento Vale da Esperança, observou-se que atrelada à prática extrativa está surgindo uma série de novos valores e novas perspectivas em busca de melhores condições de vida e da construção de uma outra realidade social. Segundo dados de campo, as famílias que apresentam maior disposição para investir na coleta dos frutos, são também aquelas com maior nível de compreensão sobre a necessidade de mudança de velhos hábitos para atitudes ambientalmente mais racionais e conscientes; são aquelas que, de forma mais ou menos intensa, praticam o agroextrativismo por convicções ideológicas, que estão em busca de outros modos de vida.
Para a construção desta lógica diferenciada, notou-se que a formação ofereceu contribuições significativas. Neste sentido, destaca-se a atuação de cursos, oficinas e treinamentos com a temática voltada para o Cerrado e para a utilização racional de seus recursos. Dentre os cursos mencionados nas entrevistas, destaca-se um ministrado no Projeto de Assentamento Vale da Esperança, em 2005, pelo INFC, em parceria com a ASSESVE, sobre aproveitamento alimentar dos frutos nativos. Na ocasião, foi discutida a relevância e o valor do Cerrado e realizadas oficinas de aproveitamento alimentar (fabricação de geleias, doces, entre outros). Houve também, em 2009, um curso de 200 horas/aula organizado pela ECODATA, sendo que todas as famílias entrevistadas participaram deste, e foram unânimes a respeito das contribuições deste para a nova forma como encaram o Cerrado.
Os dados da pesquisa de campo não permitem elaborar uma sequência lógica e, tão pouco, uma relação de causa e efeito entre maior formação e, portanto, maior dedicação e empenho nas atividades extrativistas e na preservação do Cerrado. Não era isto o que se pretendia e nem o que se imagina existir. Entretanto, pôde-se observar, durante a realização da pesquisa, que a forma como as famílias encaram o Cerrado, assim como a maneira como atrelam seus modos de vida ao bioma não é estática. Ao contrário, novas percepções, significados e valores podem ser construídos e estimulados. Já os fatores que contribuem para essa transformação não puderam ser definidos claramente, mas, sem dúvidas, a formação está presente e desempenha papel relevante.
A atuação da formação não fica restrita apenas ao campo dos cursos e treinamentos. Ao contrário, as contribuições da educação para a construção de uma vida melhor no espaço rural é composta por aquilo que Veiga (1998) denominou de “trindade educacional” à disposição das famílias rurais. Segundo o autor, essa “trindade educacional” seria composta por ensino regular básico (que deveria estar sendo oferecido nas escolas rurais), formação
profissional e a relação destes dois com as redes de ciência, tecnologia e extensão (VEIGA, 1998).
Na visão de Veiga (1998, p. 53), “[...] é simplesmente inconcebível pensar qualquer processo de desenvolvimento no qual a educação não ocupe um lugar estratégico”. Para o autor, embora o eixo propositivo do desenvolvimento rural deva se voltar principalmente para a consolidação, expansão e aperfeiçoamento de ações como o crédito via PRONAF e a política de assentamentos, todas essas ações devem ser integradas em um amplo programa- rede, voltado ao fortalecimento da agricultura familiar, cuja principal ênfase certamente será a educação (VEIGA, 1998).
Daí a necessidade de maiores investimentos nas áreas rurais e nos assentamentos, capazes de oferecer a infraestrutura necessária para viabilizar práticas distintas do modelo agropecuário dominante. Além da oferta de um bom sistema de educação, são requeridos também investimentos em estratégias distintas, como por exemplo o agroextrativismo. Como visto, as famílias pesquisadas no Assentamento Vale da Esperança, após encontrarem um lugar de vida e de trabalho, estão se tornando agentes na construção de outra realidade social. Estas estão, cada vez mais, baseadas em uma outra relação com o meio ambiente, com o bioma e entre as pessoas.
4.4 AGROEXTRATIVISMO E O AUMENTO E DIVERSIFICAÇÃO DAS FONTES