8 ESTUDO DE CASO
8.1 Cidade de Juiz de Fora MG
8.1.1 Histórico
De acordo com Santos et al. (2004), a ocupação da cidade teve inicio no Vale do rio Paraibuna, no período de expansão cafeeira, com a constituição de um mercado a partir de 1830. Nesse período ocorreu uma aceleração no processo de urbanização, pois associada às atividades mercantis, desenvolve-se a atividade industrial, predominantemente ligada à produção de bens de consumo não duráveis, sobretudo têxteis, alimentícias e vestuários. Entre as décadas de 50 e 70 do século XIX, a população salta de 600 para 12.500 habitantes.
Entre 1916 até 1930, a cidade passa por um processo de modernização, ampliação da malha urbana e de embelezamento dos espaços públicos. A cidade expande-se
para locais até então considerados periféricos e, assim, lentamente estabelecem-se novas áreas de ocupação. Intensificam-se as obras de calçamentos, aterros e arruamentos, que se estendem pelo fundo do vale principal e pelos afluentes do rio Paraibuna. Nestas circunstâncias a população passa a ocupar as encostas e os vales secundários que mais tarde se uniram ao núcleo central.
Desta maneira é acelerado o ritmo de crescimento da população na área urbana de Juiz de Fora sendo que entre 1940 a 2000 a população é quadruplicada: Outro fator que influenciou no crescimento urbano neste período foram os investimentos em políticas habitacionais que valorizaram varias áreas periféricas devido à expansão da infra-estrutura e serviços.
O processo de urbanização de Juiz de Fora ocorreu sem nenhum planejamento e a ocupação do espaço estava ligada a manobras políticas e submetidas a especulações imobiliárias. A população ocupa áreas periféricas geralmente inadequadas, onde a vegetação é retirada, cortes e aterros tomam o lugar sem nenhum controle técnico. Tais alterações do meio físico aumentam a vulnerabilidade das populações, como é o caso de construções em áreas de risco, sujeitas a escorregamentos e enchentes.
Figura 8.1: Rio Paraibuna (CESAMA, 2004)
Segundo Santos et. Al (2004), no dia 08 de janeiro de 2004 no bairro Olavo Costa, localizado na região sudeste da cidade, ocorre grandes problemas devido a enchentes. Esta área possui uma alta declividade e é ocupada por uma população de baixo poder aquisitivo, com construções feitas por materiais de baixa qualidade ou até mesmo impróprios, sem nenhuma orientação técnica. Nesse dia foi registrado um elevado índice pluviométrico, 98.5 mm, o que causou grandes transtornos à população local:
• a água invadiu a casa de diversos moradores;
• a lama trouxe inúmeras perdas materiais;
• houve queda de muros;
• deslizamentos de encostas.
Ainda nesse dia, na zona sul, a principal avenida de acesso ao bairro Ipiranga, ficou completamente inundada devido ao transbordamento do córrego que corta a região. Por possuir canais de concreto, houve rápida elevação da lâmina d'água em virtude da intensa impermeabilização de seus arredores.
Para Sudo (2000) apud Santos et al. (2004), com a intensificação da urbanização surge uma nova paisagem urbana: impermeabilização das ruas, de estacionamentos, de áreas industriais; a drenagem se faz através de canais de concreto, as encostas são ocupadas e a erosão acelerada; a rede de captação de águas pluviais torna-se insuficiente e o assoreamento dos cursos d'água é cada vez maior; as inundações se tornam cada vez mais freqüentes.
Devido a sazonalidade das chuvas, o fluxo d’água nos rios e nos córregos é irregular. Durante as secas, os cursos d’água se transformam em um fio de água
poluído e mal cheiroso que persiste em correr entre o lixo estagnado e ilhas de sedimentos. Devido a impermeabilização o escoamento superficial das águas faz com que elas atinjam os cursos d'água rapidamente. Com o talvegue reduzido pelos sedimentos e calha estreita, a capacidade dos rios e córregos fica comprometida e como conseqüência transbordam provocando enchentes. E a população que vive próxima a estas áreas acaba sendo afetada todos os anos no período do verão.
Segundo Motta (1997) apud Santos et al. (2004), a urbanização, com seus diversos usos do solo, causa sempre grandes alterações na cobertura vegetal, na topografia, nas características do solo e no movimento das águas, resultando em problemas de erosão, comum nas grandes cidades, a ocupação de terrenos com grandes declividades, nas margens de recursos hídricos e de áreas com solos desagregáveis, o que contribui para o processo de erosão com graves conseqüências, como por exemplo aterramentos de mananciais e as conseqüentes inundações e os deslizamentos de encostas.
Assim sendo, a maior de todas as causas dos movimentos de massa não é geológica, mais social: a favelização, as invasões, ocupação desordenada do solo. O problema é intensificado de acordo com as condições socioeconômicas da população.
8.1.3 Metodologia
De acordo com Santos et. al (2004), para a realização do presente estudo contou-se com os dados da Estação Climatológica de Juiz de Fora (ECP), instalada no campus da Universidade Federal de Juiz de Fora, gerenciada pelo Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental (LabCAA) do Departamento de Geociências da UFJF.
O estudo teve como base os dados pluviométricos, relativos ao período de 1973 a 2002. Considerou-se como dia chuvoso o registro diário igual ou superior a 0,1 mm de chuva. O equipamento empregado na coleta dos dados, na ECP, é o pluviômetro
21h.
8.1.4 Resultados
A análise dos dados pluviométricos de Juiz de Fora referentes à precipitação pluvial no período de 1973 a 2002 constatou que a precipitação total da cidade vem diminuindo no decorrer da décadas. O período que corresponde aos anos de 1973 a 1982 contribuiu com 33,5% da pluviosidade. Na série seguinte, de 1983 a 1992, esse índice saltou para 35,9%, resultando em um aumento de 7,2%. Porém, o período que corresponde aos anos de 1993 à 2002 foi marcado por uma queda na quantidade total de chuva, contribuindo com apenas 30,6%, caracterizando anos tipicamente mais secos.
Rinco (2003) apud Santos et al. (2004), numa análise do mesmo período observou uma tendência de maior ocorrência de desvios negativos com relação à média, isto é, os últimos anos vêm se caracterizando por um déficit hídrico.
Os dados acima relatados constatam a vulnerabilidade de Juiz de Fora em múltiplas questões: o crescimento demográfico acelerado, o problema habitacional, a deficiência da infra-estrutura básica, as desigualdades sócio-econômicas e conseqüente segregação espacial, que repercutem com grande intensidade na estrutura da cidade. Estes problemas são típicos de uma urbanização que se fez de modo rápido e desordenado.
Esta questão pôde ser mais uma vez observada no dia 14 de janeiro de 2004 numa das principais vias de acesso ao distrito industrial da cidade. Representando o principal eixo no fluxo de veículos cortando a cidade de norte a sul, a avenida teve de ser interditada devido ao rompimento num dos sistemas de captação de águas pluviais.
Na falta de políticas de planejamento para a infra-estrutura, o estudo dos dados pluviométricos pode orientar o melhor gerenciamento das obras públicas, tendo como objetivo a amenização dos impactos pluviais na área urbana.
8.1.5 Análise Crítica
Esta cidade teve um desenvolvimento típico das cidades de grande e médio porte no Brasil, onde foram executas diversas obras de drenagem com conceito convencional, isto é, onde se privilegiaram obras como retificações de canais, implantações de galerias de concreto, tamponamento de canais para construções de vias de tráfego sobre estes, dentre outras alterações executadas.
A falta de um planejamento para o crescimento da cidade foi outro fator de grande contribuição para o colapso dos sistemas de drenagem existentes nos períodos de grandes precipitações. A ocupação de forma desordenada, sem que sejam executadas obras de infra-estrutura adequadas, aliadas a uma quase total impermeabilização do solo da bacia nessas áreas, demonstram a omissão do governo no gerenciamento e desenvolvimento da cidade em suas áreas periféricas.
Como primeira medida a ser tomada para a adequação dos sistemas de drenagem urbana da cidade, deve ser adotado um PDDU (Plano Diretor de Drenagem Urbana), caso ainda não tenha sido elaborado o mesmo, onde serão definidas as política de desenvolvimento e alterações a serem executadas na cidade, através de soluções para o sistema de drenagem existente e crescimento urbano.
Como medidas para melhorar a eficiência dos sistemas de drenagem existentes, diversas técnicas abordadas ao longo deste trabalho podem ser adotadas, visando um retardamento dos escoamentos, retenção dos deflúvios e melhorias nas qualidades de infiltração do solo.
auxiliam na redução da velocidade de escoamento, causador de inundações em pontos de estrangulamento dos canais; incentivos à adoção de dispositivos de contenção na fonte que melhorem as condições de infiltração no solo da cidade, como o uso de pavimentos permeáveis, vala de infiltração, bacias de percolação, dentre outras técnicas disponíveis.
De acordo com a necessidade, algumas leis obrigatórias de detenção de precipitação na fonte, similares a lei municipal 13.276/01 adotada na cidade de São Paulo, devem ser adotadas para reduzir os picos de cheias e assim tornar os sistemas de drenagem existentes adequados.
9 CONCLUSÕES
Os sistemas de drenagem convencionais adotados por várias décadas em grandes cidades brasileiras, que induzem uma aceleração dos escoamentos através de canalizações, vêm sofrendo mudanças em seus conceitos devido à constatação de sua ineficiência com a constante expansão das cidades.
Como a urbanização de uma bacia desenvolve-se de jusante para montante, os sistemas de drenagem tendem a tornar-se insuficientes, pois os picos de vazões nas canalizações a jusante aumentam devido a essa urbanização.
É importante ressaltar a necessidade de restringir às vazões à jusante, introduzindo o critério de “impacto zero” em drenagem, de forma que as vazões ocorrentes não sejam majoradas.
Assim o uso de alternativas, tidas como sistemas de drenagem não-convencionais, apresentam soluções para os problemas em sistemas de drenagem existentes e possibilitam um melhor planejamento em áreas futuramente urbanizadas, através de técnicas de retardamento de escoamentos, detenção, retenção, favorecimento de infiltração, dentre outras, conforme apresentado neste trabalho.
Estas soluções além de possibilitar a adequação dos sistemas de drenagem existentes, permitem que em um próximo estágio, haja um maior controle sobre a qualidade das águas armazenadas, pois à medida que as águas são retidas durante as precipitações, estas podem sofrer um tratamento primário para sua utilização em diversas aplicações como aguamento de praças e jardins, lazer, ou ainda em menor escala, para lavagem de veículos e roupas em residências.
É importante ressaltar que devido à escassez de água potável disponível, medidas de incentivo a conservação dos recursos hídricos e o favorecimento ao reaproveitamento de águas, sejam estas servidas ou de chuvas, devem ser analisadas e implantadas pelos órgãos responsáveis.
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