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2. FUNDAMENTOS DE ELETROMAGNETISMO APLICADO AO TRABALHO

3.1. HISTÓRICO DA COMPATIBILIDADE ELETROMAGNÉTICA

No início do século passado, Guglielmo Marconi desenvolveu o seu telégrafo sem fio. O sistema foi implantado pelos governos dos Estados Unidos da América, Inglaterra e França, para comunicações entre navios e pontos em terra. Porém, ao utilizar este sistema foram relatados vários problemas, sendo o principal, que somente uma estação poderia operar por vez. Como as estações foram projetadas para operar em uma única frequência, quando duas ou mais estações tentassem enviar mensagens simultaneamente ocorria uma interferência na comunicação, pois todos estavam na mesma frequência. O que havia sido descoberto, por acaso, era um problema de gestão do espectro radioelétrico, um problema em Compatibilidade Eletromagnética (BRAXTON, 1988, p. 450).

Nos anos de 1920 começam a ser instaladas várias estações de rádio. Em consequência, surgem os primeiros estudos sobre interferência eletromagnética, que na época era chamada de ruído eletromagnético ou ruído de rádio, pois estes eram originados pelo sistema elétrico e/ou pelos equipamentos elétricos da época, sendo propagados pelos transmissores das rádios (KODALI, 1996, p. 1; PAUL, 2006, p. 10).

Nos anos de 1930, os problemas de ruído eletromagnético se tornam mais frequentes. Por exemplo, na Inglaterra são relatados mais de mil casos de ruído de rádio que também eram designados nesta época de Interferência de

Radiofrequência (IRF). A preocupação com as interferências também é direcionada para os receptores de rádio. Em alguns países Europeus surgem artigos técnicos definindo estes ruídos de rádio como sendo interferências eletromagnéticas (KODALI, 1996, p. 2).

Surge em 1933 o Comitê Internacional sobre Perturbações Rádio Elétricas (CISPR), da parceria entre o International Electrotechnical Commission (IEC) e a International Union of Broadcasting (IUB). Os objetivos da CISPR são o estudo das interferências eletromagnéticas, os métodos de investigação das interferências e os limites admissíveis destas (KODALI, 1996, p. 2; PAUL, 2006, p. 11).

Nos Estados Unidos, em 1934, o congresso promulga a lei das comunicações que cria a Federal Communications Commission (FCC) (MONTROSE; NAKAUCHI, 2004, p. 1).

Ao final da década de 1930, teve início a Segunda Guerra Mundial. Sob o ponto de vista da CEM, durante o conflito, foram desenvolvidas ou aperfeiçoadas várias tecnologias eletrônicas, em especial as que se utilizavam de ondas eletromagnéticas para comunicações, radar, entre outros. Por isto as interferências geradas eram ditas interferências de radiofrequência.

Durante a década de 1950, o transistor começa a ser utilizado comercialmente, o que incrementa os problemas de interferência (PAUL, 2006, p. 10). Nesta década ocorre a guerra da Coréia, onde os trabalhos sobre Interferência Eletromagnética (IEM), quando não classificados como de interesse militar, eram apresentados e discutidos nas primeiras conferências sobre CEM. As forças armadas Norte-Americanas criam fortes programas e projetos para pesquisa sobre a IEM, IRF, CEM entre outros assuntos afins (MONTROSE; NAKAUCHI, 2004, p. 2).

Na década de 1960, as agências governamentais e as empresas privadas começam a ter maior preocupação com as interferências eletromagnéticas em equipamentos eletrônicos em geral e em particular, em equipamentos médicos. A eletrônica analógica começa ser substituída pela eletrônica digital. Um dos motivos para esta substituição é a menor susceptibilidade dos dispositivos digitais a IEM (MONTROSE; NAKAUCHI, 2004, p. 2).

Ao final da década de 60 e início década de 70, houve um aumento significativo na utilização de equipamentos eletroeletrônicos nos hospitais, em especial nos Estados Unidos da América. Estes equipamentos eram mais

sofisticados e de maior complexidade. Porém, a segurança hospitalar não era observada, e erros grotescos em projeto, montagem, manutenção, entre outros, levaram a centenas de acidentes com pacientes, sendo vários fatais (AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA, 2004).

Na década de 1970, os problemas relacionados a CEM adentram as residências, por meio do número cada vez maior de equipamentos eletroeletrônicos (eletrodomésticos, TVs, videocassetes, filmadoras entre outros), fazendo com que o público tome conhecimento sobre os problemas associados a ela. Em 1979, a FCC lança a primeira norma norte-americana sobre a CEM.

Nesta mesma década, a Food and Drug Administration2 (FDA) reconhece as ameaças que as IEM representam ao tratamento de pacientes, devido aos problemas relatados em equipamentos médicos (MONTROSE; NAKAUCHI, 2004, p. 3). Em 1979, a FDA publica a primeira normativa Norte-Americana sobre interferência em equipamentos médicos “Electromagnetic Compatibility Standard for

Medical Devices – MDS 201-0004” (FDA, 2011).

Os primeiros relatos sobre problemas de interferência eletromagnética em equipamentos eletromédicos surgem com mais intensidade na década de 1990. Um dos trabalhos que mais chamaram a atenção, à época, foi o de Silberberg (1993), que relata os casos mais significativos de problemas de CEM, ocorridos entre 1979 e 1993. Há de se ressaltar que a FDA, à época, recebia aproximadamente 95.000 relatos de problemas de interferência eletromagnética com equipamentos eletromédicos ao ano. Como exemplo de casos podem ser citados os seguintes:

a) Em 1992, durante o translado de uma vítima de ataque cardíaco ao hospital, a vítima foi conectada ao sistema de monitor/desfibrilador. Porém, toda vez que a equipe de paramédicos necessitava manter contato com a central via rádio, solicitando informações sobre os procedimentos, o equipamento de suporte a vida desligava, o que acarretou o falecimento da vítima (EMC & COMPLIANCE JOURNAL, 1999; ROBINSON; BOZEC; MARSHMAN, 2003);

2 Agência do governo norte-americano, ligado ao Departamento de Saúde e Serviços

Humanos, responsável por proteger a saúde pública, com segurança e eficácia dos medicamentos de uso humano e veterinário, produtos biológicos, equipamentos médicos, fornecimento de alimentos a nação, cosméticos, produtos que emitem radiação, e regulando o fabrico, comercialização e distribuição de produtos do tabaco. (FDA, 2011)

b) O equipamento de monitoramento de pacientes não disparou o alarme devido à interferência, o que acarretou na morte de dois pacientes (SILBERBERG, 1993);

c) Um paciente que tinha um marca-passo entrou em fibrilação, logo após ser verificado com um detector de metais quando entrava num tribunal (SILBERBERG, 1993).

Com relação a outras normas, no caso da Europa, a diretiva EMC 89/336/EEC, estabelece que todos os equipamentos eletromédicos, da Comunidade Europeia, comercializados a partir de primeiro de janeiro de 1992, devam atender as normas de CEM. Os que já se encontram no mercado, teriam até 31 de dezembro de 1995 para atender esta norma específica de CEM (NENSI, 1993), sendo que a partir de primeiro de janeiro de 1996, todos os equipamentos médicos a venda na comunidade europeia deveriam atender a diretiva de EMC (ROOK, 1994).

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