2. REVISÃO SOBRE FUSÃO, MIGMATITOS E GRANULITOS
2.3. Granulitos
2.3.1.1. Histórico e definição de granulito
2.3.1. Definições
2.3.1.1. Histórico e definição de granulito
Para as perguntas “O que é granulito?” e “Existe consenso sobre sua definição?”, as melhores respostas dependem do contexto histórico do termo granulito e do que se entende hoje por fácies granulito. Começando com a definição do termo granulito. O nome granulito foi dado pela primeira vez à rocha granular, de granulação fina da região do Granulitgebirge, da Saxônia, região de Erzgebirge, Alemanha (Weiss, 1803, Fig.8). A rocha apresenta composição granítica e porfiroclastos granulares de cianita, granada, rutilo e mesopertita (feldspato ternário), em matriz quartzo-‐feldspática intensamente recristalizada (Fig. 9). A rocha não contem ortopiroxênio. A textura da rocha varia entre milonítica a blastomilonítica. Embora o nome tenha sido usado pela primeira vez para as rochas de Erzgebirge, rocha equivalente já havia sido descrita por Justi (1754) na região da Moravia, no Maciço da Bohemia, República Tcheca. O nome granulito, inicialmente, foi dado por causa da feição textural-‐granulométrica: rocha fina e granular, e não apresentava qualquer conexão com processos petrogenéticos, condições de temperatura e pressão de formação, mineralogia, paragênese diagnóstica característica do que hoje se entende por rochas da fácies granulito. No geral, a rocha é homogênea e por ser leuco-‐
a hololeucocrática era também chamada na Alemanha de wein-stein (rocha branca).
Bandamento composicional é observado pela cristalização tardia de biotita em bandas de composição adequada (Fig. 9). Da quebra da associação do pico metamórfico são observados espinélio, safirina, segunda geração de granada e sillimanita (O´Brien, 2006).
As condições P-T mínimas calculadas para o pico metamórfico são de ~ 1000° e > 14 kbar, beirando ou já nas condições da fácies eclogito (O´Brien & Rotzler, 2003; O´Brien, 2006).
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Fig. 8 – Mapa geológico esquemático de parte do Maciço da Bohemia (veja localização na Europa no quadro destacado acima), na região em que foi descrito o primeiro granulito por Weiss (1803), em Ezgebirge, Alemanha.
Entre as décadas de 1920 e 1940, Pentti Eskola fez muitos trabalhos de campo e de petrografia nas rochas da Lapônia, Finlândia. Muitas das rochas estudadas foram deformadas de forma intensa, transformadas em milonitos e blastomilonitos, apresentam o mesmo aspecto granular das rochas do Maciço da Bohemia e, assim, foram também denominadas de granulitos. Entretanto, as rochas da Lapônia foram metamorfizadas em condições P-T distintas daquelas do Maciço da Bohemia, pois as rochas máficas e quartzo-‐feldspáticas apresentam ortopiroxênio metamórfico (Eskola, 1952).
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Fig. 9a) Aspecto de campo do granulito da região tipo, em Ezgebirge, Alemanha. Rocha granular com porfiroclastos de granada, cianita, feldspatos, em matriz quartzo-‐feldspática. b) Aspecto geral da rocha com matriz quartzo-‐feldspática e porfiroblastos e porfiroclastos de cianita e granada. c) Mesopertita ternária e granada com borda substituída por simplectito de biotita + quartzo. d) Granada com inclusões xenoblásticas de quartzo e feldspatos interpretada como peritética. e) Cianita com bordas substituídas por sillimanita. Foto de afloramento do autor e as fotomicrografias são cortesia de Patrick O´Brien.
a
b c
d e
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Quando Eskola definiu as fácies metamórficas, ele usou o tipo metamórfico de rocha máfica (composição de basalto) para dar nome para cada uma das fácies. Quando metamorfizadas, as rochas máficas apresentam algumas mudanças marcantes, associadas à mudança do anfibólio presente na rocha, da cristalização e do tipo de piroxênio, desaparecimento de clorita e epidoto, as quais estão associadas à mudança do tipo de rocha. Por exemplo, a mudança de actinolita para hornblenda ou glaucofânio, marca a mudança, respectivamente, a mudança de xisto verde para anfibolito e xisto azul. Basalto metamorfizado em altas temperaturas apresenta a paragênese diopsídio + ortopiroxênio + plagioclásio ± granada. O mineral índice é o ortopiroxênio, essa associação é comum nas rochas da Lapônia (Eskola, 1952), o que levou Eskola a usar essa mineralogia como característica das condições da fácies granulito (Eskola, 1939), vinculando o nome granulito à ocorrência do ortopiroxênio.
A escolha de Eskola do nome de fácies granulito para rochas contendo ortopiroxênio causou longa discussão nas décadas de 1960 e 1970. Embora isso tenha sido aceito por grande parte da comunidade petrológica mundial, Eskola cometeu grande equívoco quando escreveu que todas as rochas da fácies granulito são granulitos.
Parte dessa discussão foi elaborada e organizada em dois artigos, Behr et al. (1971) e Mehnert (1972). No primeiro artigo é apresentada definição de granulito e vários pesquisadores comentam e fazem sugestões e um ano mais tarde, fica a cargo de Mehnert sintetizar as discussões e apresentar a versão final da definição do que é granulito: “rocha metamórfica composta de mosaico de granulação fina de feldspatos, com ou sem quartzo. Minerais ferro-magnesianos, se presentes, são predominantemente anidros. A presença de grãos ou agregados alongados ou lenticulares é comum”. Essa definição é a usada nos dias de hoje, com a ressalva de que muitas rochas chamadas de granulitos não são de granulação fina. Usar o ortopiroxênio como mineral índice da fácies granulito está em consonância com a proposta de Winkler em seu livro (Winkler, 1976), quando definiu a zona regional do hyperstênio para marcar o início do grau alto, equivalente à fácies granulito.
Um dos pontos sensíveis da discussão é a falta de aspecto estrutural ou composicional típico e característico do granulito. Por exemplo, o xisto apresenta xistosidade e o anfibolito é constituído por proporções equivalentes de plagioclásio e hornblenda. O granulito pode ter protolitos diversos e não há feição estrutural típica. A
37 presença da textura tipo flaser, dada por faixas ou lentes de quartzo grosso com extinção ondulante circundada por porções de granulação mais fina e formada por grãos recristalizados, foi tentativamente usada como algo obrigatório na sua definição, mas não é feição exclusiva ou típica de todos os granulitos.