Breve histórico da organização da atenção à saúde bucal no Brasil A organização da atenção à saúde bucal no Brasil está intimamente associada à

No documento Cárie dentária em adolescentes em uma região desfavorecida brasileira (páginas 31-35)

evolução das políticas de saúde. No início do século XX, a atenção à saúde bucal era desenvolvida, em sua maioria, em consultórios particulares, dependendo do pagamento direto aos prestadores de serviço. Nos anos 1930, com o início da previdência social brasileira, por intermédio das Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAP), posteriormente transformadas em Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAP), a assistência odontológica era oferecida apenas aos trabalhadores urbanos segurados por meio de contratação de serviços profissionais privados. A previdência social prestava assistência odontológica para seus segurados e o Estado Brasileiro atuava apenas em determinadas áreas, como tratamento da água de consumo público e construção de sistemas de esgotamento sanitário, com o objetivo de sanear o ambiente. Dessa forma, observa-se uma dicotomia das instituições públicas de atenção à saúde: previdência versus saúde pública (COSTA et al., 2006).

Na primeira metade do século XX, o sistema de saúde brasileiro era caracterizado por ser excludente, socialmente desigual e de escassos recursos (WERNECK, 1998). Com a criação da Fundação do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) surgiram as primeiras intervenções em saúde bucal, destacando-se o Sistema Incremental, trazido dos Estados Unidos para o Brasil. Apesar de poder ser aplicado a todas as faixas etárias, a população escolar de seis a 14 anos foi escolhida como alvo das ações preventivas e curativas, enquanto a população adulta tinha acesso restrito a entidades filantrópicas e serviços do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) e, após 1975, do Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social (INAMPS).

Esse modelo predominou até os anos 1990, sendo que persiste ainda hoje em muitos municípios no país.

É importante enfatizar que em 1953 iniciou-se a fluoretação das águas de abastecimento público em Baixo Guandu, no Espírito Santo. A partir de 1974, a fluoretação das águas de abastecimento público tornou-se obrigatória no Brasil em municípios com Estação de Tratamento de Água (ETA), por meio da sanção da Lei Federal nº 6.050, de 24 de maio de 1974 (Brasil, 1974), regulamentada pelo Decreto Federal nº 76.872 (Brasil, 1975), de 22 de dezembro de 1975.

No final da década de 1970 e durante os anos 1980, os modelos de atenção escolar estiveram fortemente influenciados por dois movimentos de reforma da saúde bucal: a Odontologia Simplificada e o Preventivismo.

A Odontologia Simplificada foi desencadeada por profissionais da América Latina que estavam descontentes com o avanço crescente de doenças bucais, escassez de recursos e práticas inadequadas para problemas regionais. Com o objetivo de aumentar a produtividade e diminuir os custos, houve incorporação de recursos humanos auxiliares e racionalização do trabalho clínico.

O Preventivismo, influenciado por propostas desenvolvidas nos países escandinavos, pretendia controlar a cárie, privilegiando ações de prevenção, controle de placa, uso de flúor e manutenção preventiva.

A Constituição Federal de 1988 (Brasil, 1988) instituiu o SUS, que foi regulamentado em 1990 pelas Leis Federais nº 8080, de 19/09/1990 (Brasil, 1990a), e a nº 8142, de 28/12/1990 (Brasil, 1990b). A adoção dos princípios constitucionais – universalidade, integralidade e equidade – favoreceu o reconhecimento da saúde bucal como parte indissociável da saúde geral, como dever do Estado e direito de todos (ANTUNES & NARVAI, 2010).

Em 1994, o Ministério da Saúde lançou o Programa de Saúde da Família (PSF) com o objetivo de fortalecer as ações de atenção primária. Porém, apenas em 2000, a equipe de saúde bucal foi incorporada à Estratégia de Saúde da Família (Brasil, 2000). Quatro anos depois, o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Saúde Bucal, que propunha a execução de ações de promoção/proteção da saúde bucal, recuperação e reabilitação e, considerando o princípio da integralidade da atenção à

saúde, cria os Centros de Especialidades Odontológicas – CEO (Brasil, 2004a). Esses servem de referência para o atendimento de procedimentos complementares à atenção primária.

Apesar do expressivo progresso da incorporação da saúde bucal no sistema público de saúde em apenas poucas décadas, uma parcela da população brasileira ainda não tem acesso a serviços odontológicos. O Suplemento de Saúde da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2008 (PNAD), divulgado no final de março de 2010, mostrou que, embora 88,3% da população já tenham procurado serviços odontológicos, apenas 40,0% dos participantes da pesquisa tiveram acesso ao dentista no ano anterior à data da entrevista. No entanto, a utilização dos serviços odontológicos apresentou diferença quando a renda foi considerada: 98,0% dos entrevistados com rendimento domiciliar superior a cinco salários mínimos já tinham consultado o cirurgião-dentista, enquanto o percentual entre os que ganhavam até um quarto de salário mínimo era de 71,3% (PNAD, 2008).

Com o objetivo de acompanhar os gastos com a assistência ambulatorial, em 1991 foi criado o Sistema de Informação Ambulatorial do Sistema Único de Saúde (SIA- SUS), que tem se mostrado uma importante ferramenta para o planejamento, monitoramento e avaliação da política de saúde bucal nos níveis municipal, estadual e nacional. Esse sistema traz vantagens importantes, como a rapidez e agilidade na disponibilidade de dados e a possibilidade de analisar o perfil da oferta de serviços ambulatoriais de um determinado grupamento populacional e geográfico, mediante verificação de indicadores de cobertura e concentração de atividades (VOLPATO & SCATENA, 2006). O SIA-SUS propicia valiosas informações sobre o desempenho dos gestores municipais e estaduais na seleção e implementação de prioridades assistenciais (BARROS & CHAVES, 2003).

Em 2006, o Ministério da Saúde aprovou a Relação de Indicadores da Atenção Básica que devem ser pactuados entre municípios, estados e o Ministério da Saúde (Brasil, 2006) com o objetivo de melhorar a atenção primária.

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