CAPÍTULO II FUNDAMENTOS: INICIATIVA DA PROPOSTA DE JESUS DE NAZARÉ
2.3. HISTORICIDADE DAS EXIGÊNCIAS DO SEGUIMENTO
Não é comum considerar a historicidade da exigência do seguimento por parte de Jesus.30
2.3.1.S
EGUIR OM
ESSIAS TRIUNFANTEEntretanto, analisando as duas etapas estruturais da vida de Jesus: início de sua vida pública até a crise da Galileia, da crise da Galileia até a morte, precisamente enquanto história, sujeitas a mudanças e conflitos, percebe-se que a noção de seguimento está intimamente relacionada com o desenvolvimento de sua fé.
Na primeira etapa que vai do início da vida pública até a crise da Galileia, Jesus se apresenta como um judeu ortodoxo, herdeiro das melhores tradições religiosas do seu povo. Fundamentalmente, não afirma nem traz nada de novo. Estabelece uma compreensão relacional e constitutiva entre sua pessoa e sua atividade. Não prega a si mesmo, mas o Reino de Deus31 e o polo referencial de sua existência não é simplesmente Deus, mas o Reino de Deus.32
“A experiência original da fé de Jesus está em igualdade com sua confiança na atuação do Pai; é, ao mesmo tempo, esperança no futuro de Deus e no futuro do Reino de Deus.”33
28 Jon Sobrino pede emprestada a expressão “rendição sem condições” de HEGEL, Martin.
Seguimiento y carisma. 29
O seguimento de Jesus exige liberdade e só é possível a partir da mais plena liberdade. Liberdade diante dos bens, das situações, das pessoas, de si mesmo e de toda a forma de poder. Só onde há liberdade, há disponibilidade plena para entregar-se sem condições ao serviço dos outros.
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Jon Sobrino reconhece a existência de uma lacuna em relação à historicidade do seguimento e, ao mesmo tempo, a necessidade de um estudo mais completo e profundo sobre a história de Jesus. Para uma primeira abordagem considera importante dividir a vida de Jesus em duas grandes etapas, caracterizadas pelo início e pelo fim do processo. Cf. Cristologia a partir da América Latina, p. 136.
31
“Centro e marco da pregação de Jesus foi o Reino de Deus que se havia aproximado.” KASPER, Walter. Jesus, el Cristo, p. 86.
32 SOBRINO, Jon. Jesus na América Latina, p. 123-124. 33 Id., Cristologia a partir da América Latina, p. 110.
Além disso, Jesus acredita que, tanto a vinda de Deus como a de seu reino estão temporalmente próximos e esta expectativa tem repercussões práticas sobre sua fé e sua missão. Realiza gestos concretos em favor das pessoas marginalizadas, oprimidas desprezadas pela estrutura religioso-política.
Segundo o evangelho de Marcos, nesta primeira etapa, o apelo ao seguimento se reduz a alguns poucos. Jesus chama e exige o seguimento na base do entusiasmo, provocado pela grandeza da causa que ele defende. As exigências do chamado são deduzíveis da concepção do Reino de Deus presente na tradição do Antigo Testamento. Os discípulos são enviados a realizar importantes tarefas:
• pregar o Reino e exigir a conversão (Mc 6,12); • exorcizar e curar os enfermos (Mc 6,13);
• com poder sobre os espíritos imundos (Mc 6,7).
Ao realizar a missão, os discípulos devem ter as mesmas atitudes de Jesus: não levar nada pelo caminho, nem pão, nem alforje, nem dinheiro (Mc 6,8).34
Os evangelhos sinóticos relatam que Jesus se aproximava dos pobres, enfermos, pecadores e exigia deles apenas que aceitassem que sua miséria real, sua situação de marginalidade social não é a última possibilidade de sua existência, pois não é a última possibilidade de Deus.
“A exigência que Jesus faz a este grupo de pessoas é, então, a de uma fé- esperança em Deus e algumas exigências morais, expressas no ‘vai e não peques mais’“.35
Quando a fé-esperança exigida por Jesus se converte em fé realizada pelos desclassificados, acontece em germe o Reino de Deus e a libertação.
Nesta etapa, estritamente falando, não existe uma concepção cristológica do seguimento, mas messiânica, Os discípulos seguem um messias triunfante que vem cumprir as promessas, segundo seu modo de pensar.36
34
Ibid., p. 136.
35 Ibid., p. 134. 36 Ibid., p. 136.
2.3.2.S
EGUIRJ
ESUS NO FRACASSO E ESCÂNDALO DA CRUZA segunda etapa da vida de Jesus abrange o período que vai da crise da Galileia até a morte. Abandonando o coração da Galileia, Jesus se dirige para Cesareia de Filipe e para a fronteira sírio-fenícia. Esta mudança de cenário expressa uma ruptura mais profunda em sua atividade e em sua pessoa.
Jesus toma consciência de que fracassou em sua missão: as multidões o abandonam, os chefes religiosos do seu povo o rejeitam, os fariseus pedem um sinal, os discípulos mostram que nada entenderam e querem abandoná-lo.37
“Jesus se retira para o norte, – o que pode ser reinterpretado como tentação de fugir da publicidade e reduzir-se a um pequeno grupo, com as características de uma seita: pequenez, fechamento aos outros – mas depois se dirige a Jerusalém, subida que pode ser interpretada como superação da crise e da tentação.”38
Na consciência de Jesus não se operou uma simples mudança evolutiva e pacifica, mas uma ruptura ou uma “crise”.39 Jesus já não fala da proximidade do Reino, e o polo referencial de sua existência continua sendo Deus. Sua atividade consiste na disponibilidade e entrega de sua pessoa até a morte, e seu poder se manifesta no amor e no sofrimento. A fidelidade à vontade do Pai até o fim se expressa na ida a Jerusalém, onde se encontrará com Deus de uma forma diferente e nova: na paixão e na cruz.40
“A fé de Jesus teve uma história que o tornou diferente. Mas esta história não foi uma história abstrata, uma história de ideias que foi concretizando uma diferente
37 A historicidade da chamada “crise da Galileia” é hoje discutida e matizada de diversas
formas por vários teólogos como DODD, Ch. El fundador del cristianismo, Barcelona: Sal Terrae, 1974; R. AGUIRRE – F. GARCIA, Jesús y la multitud a la luz de los sinópticos. In:
Escritos de Bíblia y Oriente, Salamanca: Sígueme, 1981. p. 259-282. 38 SOBRINO, Jon. Jesus, o Libertador, p. 227.
39 Seja qual for a historicidade concreta desta crise e sua localização, o importante para Jon
Sobrino é ressaltar que os evangelhos, pelo menos externamente, apresente uma mudança no comportamento de Jesus e que este fato tem consequências teóricas. Cf. Ibid., p. 227.
concepção de Deus e de Reino de Deus, de pecado, justiça, amor, poder, mas uma história real, pois a história da fé de Jesus foi historicamente medida pela história da práxis de Jesus na sua conflitividade.”41
Paralelamente a esta autocompreensão de Jesus, acontece um deslocamento na perspectiva do seguimento. Não é mais o seguimento de um messias em sua função messiânica, mas da pessoa de Jesus naquilo que possui de mais concreto e escandaloso: Quem quiser vir após mim, tome a sua cruz e me siga (Mc 8,34).
As exigências do seguimento situam-se no contexto da preocupação de Jesus e do seu destino. Exigem uma fé que não é só confiança em Deus, mas também aceitação escandalosa de Jesus.
O convite de Jesus não se limita mais aos discípulos, mas dirige-se a todos indistintamente, como um estilo de vida que atinge todas as atividades e atitudes da pessoa, a partir do qual adquirem sentido todas as outras realidades humanas.42
Considerando a existência cristã como um caminho para Deus43 na primeira etapa, Jesus seria um possível caminho para um Deus conhecido; na segunda, Jesus é o único caminho para conhecer a Deus. O horizonte geral continua sendo Deus e a práxis em favor do seu Reino.44