Capítulo V - Hermenêutica e linguagem
2. Historicidade e linguagem
tinha um duplo sentido: “uma filosofia como ciência, ou seja, como análise lógica da linguagem; e como serva da ciência, exercício rigoroso da clarificação dos conceitos dos quais se serve o labor científico.”134
Houve, assim, um giro lingüístico, em que as questões relativas à linguagem assumiram uma função preponderante na preocupação dos filósofos.
Porém, esse giro não tinha um caráter historicista, pois o que se buscava era a construção de uma linguagem adequada aos parâmetros universais da lógica, e voltada à construção de sistemas de enunciados verdadeiros. Assim, as construções propostas pelos teóricos influenciados por essas escolas eram ligadas à elucidação das estruturas formais que regulam os discursos em geral, e não a busca da compreensão histórica de suas origens nem de seus modos de funcionamento. Além disso, essa tendência era marcadamente inspirada por uma negação da filosofia.
No direito, o principal representante dessa perspectiva lingüística logicizante foi Hans Kelsen, cuja teoria pura do direito era uma tentativa de estabelecer uma teoria do direito que não tivesse caráter filosófico (entenda-se metafísico), mas científico (no sentido neopositivista). Uma teoria completamente avessa à história, pois todos os seus conceitos eram ou deviam ser puramente formais: uma tentativa de estabelecer uma linguagem capaz de abarcar toda a experiência jurídica, independentemente dos conteúdos específicos das normas vigentes. Aqui continuam vivas as inspirações gregas, renovadas pelo racionalismo moderno, de identificar as estruturas permanentes por trás dos movimentos do mundo. E o papel da ciência e da filosofia é entendido justamente como o de esclarecer essas leis, essas constantes, todos esses elementos invisíveis que formam a base do mundo que vemos.
de matriz tipicamente anglo-saxã135. Porém, por mais que essa divisão persista até os dias de hoje, sendo caracterizáveis diferenças fundamentais na formação típica dos filósofos e dos estilos de discurso envolvidos no labor filosófico136, as linhas de força que inspiram esses grandes modelos passaram a se encontrar com bastante freqüência, especialmente no período que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial.
Um dos maiores responsáveis por essa convergência foi Wittgenstein, que é um dos filósofos da linguagem mais lidos pela tradição continental, especialmente porque ele propôs em suas obras póstumas conceitos lingüísticos que se contrapunham à filosofia analítica tradicional e que abriram espaço para uma espécie de historicização da linguagem. Em vez de se preocupar apenas com a formalização da linguagem e da garantia de rigor e precisão necessários para uma linguagem científica, Wittgenstein foi o grande responsável pelo nascimento de uma filosofia da linguagem ordinária, em que a busca não era a de estabelecer uma linguagem purificada, mas de compreender o modo como as linguagens naturais efetivamente funcionam.
O principal conceito que ele desenvolveu foi o de jogo de linguagem137, rompendo com a noção cientificista de que a perfeição lingüística estava no rigor e na precisão, e afirmando existência de uma pluralidade de jogos lingüísticos, cada qual com suas regras e elementos. Segundo Warat138, contrapondo-se à idéia de que a linguagem natural era inadequada ao conhecimento, Wittgenstein passou a defender que faltava ao neopositivismo lógico uma compreensão filosófica adequada dos mecanismos que regem as
135 Uma obra que traça essa distinção com muita sutileza, mostrando inclusive os limites dessa divisão, é a cartografia proposta por Franca D”Agostini das tensões da filosofia contemporânea, em sua obra Analíticos e continentais.
136 Sobre essa distinção de estilo e formação, vide RORTY, Pragmatismo, filosofia analítica e ciência, p. 26.
137 Vide WITTGENSTEIN, Investigações filosóficas.
138 WARAT, O direito e sua linguagem, p. 63.
linguagens ordinárias139: enquanto estes estudos se limitavam aos planos sintáticos e semânticos, uma compreensão das linguagens ordinárias dependia de uma análise pragmática.
Essa virada pragmática gera uma abertura para além do cientificismo e da lógica, mas ainda não é uma abertura historicista, pois “a análise pragmática da filosofia da linguagem ordinária não se estendeu aos fatores sócio-políticos”140, ignorando a necessária inserção histórica da linguagem. Porém, a generalização do conceito de jogo construiu uma ponte entre a filosofia da linguagem e a o historicismo continental, na medida em que ela possibilita a percepção das relações sociais como interações lingüísticas, mas sem recair no cientificismo logicista do neopositivismo.
A partir desse giro pragmático, a filosofia da linguagem passou a desenvolver instrumentos para uma compreensão lingüística de problemas históricos, que gradualmente passaram a integrar o instrumental teórico dos filósofos continentais. Por exemplo, a reflexão sobre o nível pragmático da linguagem permitiu uma conexão das preocupações lingüísticas com a crítica da ideologia da Escola de Frankfurt, cujos desenvolvimentos de matriz lingüístico estão na base da influente teoria da ação comunicativa de Habermas.
Habermas, por sua vez, deve bastante às investigações de Apel, cuja obra tenta articular uma combinação entre a filosofia analítica e a hermenêutica141.
Inspiração pragmática também tem a arqueologia proposta por Foucault, indo além do estruturalismo (que tinha influências da teoria da linguagem, mas mantinha-se em um nível predominantemente semântico) para investigar na origem dos discursos as relações entre o saber e o poder. O desconstrutivismo de Derrida também ressalta o papel da linguagem, pois somente pode ser desconstruído aquilo que foi construído histórica e lingüisticamente. Mesmo a
139 O termo linguagem ordinária é um pouco mais amplo que linguagem natural, pois não indica apenas das línguas faladas em uma cultura (português, russo, espanhol, etc.), mas também pelos jogos específicos de linguagens construídos no mundo da vida.
140 WARAT, O direito e sua linguagem, p. 64.
141 De Apel, Habermas utiliza especialmente o conceito de contradição performativa, que é uma idéia ligada à contradição entre o nível semântico e o nível pragmático do discurso.
teoria dos sistemas de Luhmann, na qual ainda há uma presença maior de um cientificismo, define as relações sociais como interações lingüísticas.
Assim, nas décadas de 50 e 60, ocorre no campo de domínio da filosofia continental uma espécie de universalização do fenômeno lingüístico, com um uso cada vez mais ampliado de conceitos ligados à filosofia da linguagem. Essa mesma tendência se opera também no campo do direito, em que a teoria da argumentação de Perelman tenta restaurar a dignidade da retórica, que havia sido posta de lado no ambiente cientificista da modernidade. Na mesma época, Viehweg chamava atenção para o caráter tópico do pensamento jurídico, que não se deixa descrever nos quadros de um sistema de conceitos semanticamente definidos. Posteriormente, outras vertentes lingüísticas ganharam força, como a teoria da argumentação de Alexy e as teorias hermenêuticas de Dworkin.