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Historiografia franciscana: Um diálogo em construção

Importante evidenciar a historiografia franciscana contemporânea que busca, por meio das discussões historiográficas, enaltecer e apresentar as ações dos frades menores no início da colonização brasileira. A discussão referente a esse tema gira em torno de uma construção relacionada à memória histórica do povo brasileiro, o que será retomado no terceiro capítulo.

O que compete analisar neste momento é o esforço de alguns historiadores contemporâneos ao retomarem as discussões sobre o pioneirismo catequético- missionário no Brasil, que devido a uma construção historiográfica e pela falta de registros históricos sobre a atuação franciscana no século XVI, torna a ação da O.F.M. pouco evidenciada no cenário historiográfico e catequético.

Durante as pesquisas, observou-se que, aos poucos, surgem autores que têm como ponto de partida a atuação franciscana em território brasileiro, algo que ocorre talvez pela busca de alternativas à memória jesuíta construída ao longo da história moderna. Um exemplo dessa historiografia vem contrapondo o pensamento franciscano ao jesuíta. Trata-se do autor Frei Venâncio Willeke, que abre as discussões referentes aos franciscanos na segunda metade do século XX, o que será abordado no terceiro capítulo.

58  Na atualidade, destaca-se a importante autora portuguesa, Maria Adelina Amorim, que, por meio de sua obra demonstra a atuação franciscana no nordeste do Brasil. Sua tese de doutorado, defendida em 2012, aborda o tema “A Missionação Franciscana no

Estado do Grão-Pará e Maranhão (1622-1750)”

Para se levar a bom termo esta pesquisa, procedeu-se a uma aturada consulta das principais fontes manuscritas e impressas de Portugal e do Brasil, e para dar maior consistência às conclusões, alguns documentos de relevante importância, inéditos ou pouco conhecidos, foram acrescentados no final deste estudo. A fim de facilitar a leitura, elaborámos, também, um glossário de termos franciscanos.91

Contudo, a obra que interessa nesta discussão é a intitulada Os Franciscanos no

Maranhão e Grão-Pará, publicada em 2005 que, em uma análise ampla, relata toda a

ação missionária dos frades franciscanos capuchos no século XVII e como as ações desses frades foram importantes para a construção da história do Brasil e da região norte- nordeste do país.

Pretende avaliar-se o verdadeiro sentido da missão dos religiosos Capuchos de Santo António desde a sua instalação no território. Traçam-se os marcos cronológicos principais, para esclarecer a historiografia, que chega a dar as missões como extintas, logo no princípio do século XVII. Até quando se mantiveram os Capuchos de Santo António de Portugal no Maranhão? 92

No primeiro capítulo da obra Os Franciscanos no Maranhão e Grão-Pará, Maria Adelina Amorim apresenta um panorama sobre a documentação que registra a ação dos franciscanos no Brasil, e tenta explicar os motivos da ausência dessas fontes fazendo uma relação com a falta de cuidado dos frades e com o modelo missionário adotado pelos frades da província de Lisboa. Para Maria Adelina Amorim, a culpa parcial da falta de informação referente aos franciscanos no Brasil é da própria Ordem dos Frades Menores, que possuía o modelo eremita discutido em capítulo anterior. 93

A magna questão da primazia perpassa toda a produção cronística e histórica de ambas as instituições, e teve como lado positivo o acervo documental que gerou, pelo aparecimento de justificações, memórias, epítomes ou relatos, cujos manuscritos nunca viram a luz do prelo. Eles constituem, a par de outros manuscritos inéditos, o contributo possível para o deslindar desta divergência.94

      

91 Op. Cit. AMORIM, Maria Adelina, 2005. p.28. 92 Ibid., p. 27. 

93 Discussão levanta já por frei Antônio de Santa Maria Jaboatão no século XVIII.  94 Op. Cit. AMORIM, Maria Adelina, 2005. p. 44. 

59  Em um segundo capítulo, a autora tentará traçar uma linha geral das ações da Ordem Franciscana no Brasil: a chegada dos frades, as primeiras ações e primeiros missionários. A obra também discute a formação das primeiras missões e aldeamentos franciscanos que possuíam, como foco, a doutrinação indígena.

Por meio da estrutura missionária analisada por Maria Adelina Amorim, percebe- se como a saída dos frades da província de Lisboa influenciou as missões em território brasileiro, moldando essas missões, para o trato com os nativos e na formulação de conventos e custódias no Brasil. Uma característica da historiografia franciscana moderna, observada com a autora, é o trabalho em levantar fontes primárias e secundárias sobre os franciscanos no Brasil, algo que, para esta pesquisa, também foi de imensa dificuldade.

É corrente afirmar-se que os Franciscanos do Brasil escreveram a sua História na areia, asserção que se escora na falta de fontes documentais da Ordem e na carência de crónicas ou histórias escritas sobre a sua centenária presença em terras brasileiras. A simplicidade, característica da própria regra que professam, deixou adormecer pelo tempo a memória das suas acções, o testemunho do seu envolvimento como parte integrante do processo evangelizador e civilizador, além-mar, na estratégia global do sentir português na época.95

O levantamento das fontes e bibliografias existentes fazem parte do esforço acadêmico empreendido para demonstrar a importância dos frades menores na construção da historiografia brasileira. A autora Maria Adelina Amorim realiza um levantamento bibliográfico e de fontes que corroboram para o desenvolvimento da historiografia relacionada aos franciscanos. Por essa razão,há o destaque para sua obra, por ser uma das bibliografias mais recentes que trata da ação franciscana no Brasil.

Não obstante ser a evangelização do Brasil um marco fundamental da sua história geral, não é pródiga a historiografia em obras de fundo que permitam avaliar a actuação das ordens religiosas naquelas paragens. Neste contexto, a Companhia de Jesus constitui um caso à parte, tendo em conta o volume das produções a ela concernentes. Para o estudo dos vários institutos religiosos que desenvolveram a sua actividade no Brasil, é necessário recorrer-se à História da Igreja Católica naquele território.96

      

95 Ibid., p.25.  96 Ibid., p 29

60  Além da autora Maria Adelina Amorim, destaca-se a brasileira Tânia Conceição Iglesias, que discute a ação franciscana na educação brasileira. Em sua tese de doutorado, Tânia Conceição Iglesias aborda o campo de atuação educacional dos franciscanos no território brasileiro colonial. No primeiro e segundo capítulos de sua obra, a autora volta a identificar o pensamento elaborado durante as discussões sobre a falta de documentações publicadas dos frades menores. No trecho abaixo, a autora reforça a ideia da experiência educativa da Ordem dos Frades Menores no Brasil.

Por se tratar de produções raramente conhecidas no meio acadêmico, julgou-se interessante, na medida do possível, desenvolver, na primeira parte do capítulo, um pequeno estudo sobre a vida e a obra dos autores, cujas informações serão apresentadas como notas explicativas. Importante salientar que devido aos incipientes estudos sobre a historiografia franciscana, quase não há referência bibliográfica sobre a biografia dos autores. As informações foram coletadas mediante solicitação direta aos membros da Ordem.97

Nos capítulos posteriores de sua tese, a autora Tânia Conceição Iglesias traça um panorama geral da História e formação da Ordem dos Frades Menores, para que, dessa maneira, seus leitores possam ter acesso à ideia do modelo franciscano de educação e catequização. Para que sua argumentação pudesse ter fundamento, a autora toma como ponto de partida a ação educacional franciscana na América Espanhola. No trecho destacado, observa-se a autora datando a criação do educandário franciscano logo após a fundação do convento em Olinda, no ano de 1585.

Nas escolas espalhadas pelos diversos locais onde se instalaram, os frades tratavam distintamente o momento do trabalho da catequese e da instrução. Rower (1942) apresenta a existência de diversos níveis de ensino praticados no período Colonial nas escolas franciscanas. O autor afirma que desde o início do estabelecimento da Ordem no Brasil, na medida do possível, os frades sempre tiveram o cuidado com a instrução da juventude e essa não se limitou, como é comum se encontrar na literatura histórica brasileira, às escolas de primeiras letras, mas também ao ensino secundário e superior. Desde que se instalaram no Convento de Olinda – o primeiro da Ordem no Brasil – os franciscanos fundaram um educandário para os filhos dos índios, onde os instruíam na leitura, escrita, canto e música.98

      

97 IGLESIAS, Tania Conceição. A experiência educativa da ordem franciscana: aplicação na América

e sua influência no Brasil Colonial. – Campinas, SP: [s.n.], 2010, p.13. Disponível em:

http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/251453?mode=full. Acesso em: 24 de fevereiro de 2019.

61  Para finalizar as discussões abordadas neste capítulo, destaca-se que os principais trabalhos da historiografia atual, referentes aos franciscanos no Brasil, são estruturados por duas pesquisadoras que têm seus trabalhos publicados recentemente. Dessa forma, entende-se que a discussão referente à atuação franciscana no Brasil pode ganhar espaço por meio das análises acadêmicas do período colonial brasileiro.

Apesar de ser uma discussão tímida comparada à gama de publicações referentes aos jesuítas, observa-se que têm surgido propostas de trabalhos que agregam ao objeto. Com isso, conclui-se que a historiografia franciscana demonstra ser um campo fértil para novas abordagens sobre o assunto, como educação, doutrinação e atuação em território brasileiro.

62  Capítulo 3

O Silenciamento da Atuação Franciscana no Brasil