Publicado originalmente em Silva, Giselda Brito et al. Histó- rias da política autoritária: integralismos, nacional-sindica- lismo, nazismo e fascismos. Recife: Editora da Universidade Federal Rural de Pernambuco, 2010, p. 6-8.
Em julho de 2007, estava prevista a minha participação no encontro nacional de História realizado em São Leopoldo, Rio Grande do Sul. No dia anterior ao meu embarque para o sul, contudo, o terrível acidente aéreo da TAM, que custou tantas vidas, também teve o efei- to de deixar o sistema aéreo nacional em uma situação de caos. Sem ânimo para enfrentar os inevitáveis transtornos, optei por não ir ao Rio Grande, o que muito me entristeceu, já que perdi a oportunida- de de participar dos trabalhos do grupo de pesquisadores do Integra- lismo, assim como de rever os colegas e amigos.
É, assim, uma tarefa ao mesmo tempo triste e prazerosa que está diante de mim. Triste porque, ao ler os trabalhos oriundos da- quele encontro, consigo perceber como devem ter sido ricas as dis- cussões e os debates dos quais, infelizmente, não pude participar. Mas prazerosa, porque, ao menos, tenho a oportunidade de acompa- nhar, ainda que a posteriori, um pouco do que foi feito naqueles dias. O sentimento positivo, contudo, supera amplamente o negati- vo. Afinal de contas, podemos ver, nesse volume, o resultado de um trabalho coletivo de doze historiadores dedicados ao tema e que, a partir dos mais diversos prismas teóricos e perspectivas, se esforçam para ampliar o nosso entendimento a respeito do movimento dos camisas-verdes.
Dentre estes trabalhos, alguns abordam aspectos quase que clássi- cos, como a relação do catolicismo com a formação do pensamento
integralista ou os trabalhos literários publicados por Plínio Salgado. O viés regional, sempre presente na historiografia do Integralismo, também continua presente, mas, curiosamente, vemos aqui artigos não apenas sobre o Ceará e o Espírito Santo, mas também sobre São Paulo e o Rio de Janeiro.
Isso parece indicar um novo momento, em que novos artigos e livros continuarão a ser escritos a respeito dos Estados sobre os quais a historiografia já dispõe de razoável quantidade de informação (como os do sul, Pernambuco, Ceará e Espirito Santo), mas suple- mentados por outros sobre Estados chave e a respeito dos quais pou- co se conhece em termos de atividade integralista. Os casos mineiro e paulista são, neste contexto, os mais óbvios, mas temos ainda ou- tras imensas lacunas, especialmente no tocante ao Centro Oeste e a região amazônica, a serem preenchidas.
Outra questão interessante que parece estar começando a rece- ber um melhor tratamento é o problema dos arquivos e como geren- ciar a informação neles constante para escrever a história do movi- mento integralista. Claro que todos os historiadores de formação são treinados para lidar com os problemas tradicionais de gerencia- mento de informação, como quem reuniu os documentos, para que e com qual intenção e qualquer trabalho de historiador tem que li- dar com estes problemas, seja com qual tema se esteja trabalhando. No caso do Integralismo, contudo, a questão tem um caráter político tão acentuado que tais cuidados metodológicos merecem ainda mais consideração. Uma pesquisa sobre um tema especifico dentro do arquivo pessoal de Plinio Salgado, por exemplo, pode con- duzir a resultados distorcidos se não for suplementada por pesquisa em outras fontes e documentos. Afinal de contas, ele reuniu a sua documentação com um fim muito específico, ou seja, o de construir a sua memória para a posteridade e isso nos obriga a utilizar seus papéis com imensa cautela.
O mesmo pode ser dito de órgãos governamentais. As Delega- cias de Ordem Politica e Social, por exemplo, estavam sob a autori- dade dos Estados e não espanta, assim, que a vigilância delas sobre
O Integralismo e sua história 143
os integralistas refletissem, muitas vezes, a relação do movimento com cada governador ou interventor no poder naquele momento. Assim, algumas delegacias de alguns Estados mantinham apenas uma vigilância esporádica sobre os integralistas entre 1932 e 1937, enquanto outras estavam muito mais atentas já nesse período.
Os órgãos federais, igualmente, refletem, nos seus fundos, os vais e vens das relações entre o governo federal e o Integralismo ou mesmo entre os vários grupos e instituições do governo federal com a AIB. Devemos, pois, redobrar os cuidados metodológicos para evi- tar generalizações e outros riscos sempre à espreita do historiador, mas que, no caso dos que se dedicam ao Integralismo, parecem ser ainda maiores.
O que mais chama a minha atenção nesse conjunto de artigos, contudo, é a crescente expansão temporal do Integralismo. Anos atrás, conhecíamos apenas o período entre 1932 e 1938, como se o movi- mento não tivesse uma história posterior e nem antecedentes. Um pouco depois, os estudos se expandiram para abordar os anos 1950 e 1960, incluindo o Partido de Representação Popular e a participação integralista no golpe e no regime de 1964. Muito resta ainda a ser estudado sobre esse período e vários artigos deste livro o indicam. Não obstante, já começamos a ter um quadro mais claro do período que vai da formação do PRP à morte de Plinio Salgado.
O presente volume indica, porém, como outras lacunas estão sendo preenchidas e novas dilatações temporais estão na hora do dia. Não é por acaso, nesse sentido, que vários trabalhos estão estu- dando os novos integralistas, ou seja, aqueles em atuação nos dias de hoje, e suas conexões com o passado. Numa época em que valori- za-se a história do tempo presente e em que as evidencias de ressur- gimento do Integralismo, ainda que embrionárias, se acumulam, não espanta a mudança de rota dos historiadores.
Nada me parece mais curioso, contudo, do que a recente ênfase no período do Estado Novo. Ao contrário do antes se imaginava, ou seja, que o movimento e seus seguidores tinham sido completamen- te calados ou cooptados pela ditadura, ressurgindo apenas depois da
queda de Vargas, o que percebemos é um contexto muito mais dinâ- mico. Assim, acompanhamos, neste livro, não apenas a tentativa de reciclagem política e ideológica de Plinio Salgado em Portugal, como as atividades de remanescentes integralistas no Brasil, inclu- indo casos, como o da barbearia capixaba, que se aproximam da micro-história. Uma dilatação da nossa perspectiva temporal do movimento, a qual indica como sua historiografia continua a se renovar e progredir.